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Arquivo: desconfiança

O vídeo sobre “política” do Felipe Neto

Se você viu inteiro numa boa, sem se constranger, provavelmente o texto a seguir é pra você.

De fato, várias coisas nesse vídeo não fazem sentido. A primeira é que 100 reais só é migalha pra gente como eu e você, mas provavelmente não é para quem vive com 400 reais por mês. É tipo um aumento gigante na renda. Não vou entrar em méritos partidários – só digo que, nos países de primeiro mundo, todo mundo acha lindo que o governo dê pensão pras pessoas que não trabalham (é, isso rola). “Olha só que lindo nos países desenvolvidos, lá se o jovem não quiser trabalhar, ele pode viver de pensão”. Aqui, é assistencialismo, é dar dinheiro pra vagabundo que não quer trabalhar (reaça tem essa coisa maravilhosa de achar que no Brasil ninguém gosta de trabalhar, só ele, que geralmente nem trabalha).

A segunda coisa que não faz nenhum sentido é esse clipe dessa música horrível no final é que ele só ajuda a alimentar o espírito babaca de falar que nenhum político presta. Porque o tipo de pessoa que repete isso não percebe que repetir isso é só uma maneira de tirar de si a responsabilidade de achar um que preste (é, é incrível, mas tem gente boa na política). As pessoas que bradam que nenhum político presta não sabem em quem vão votar, não querem saber e também não se lembram em quem votaram na última eleição.

É uma maneira muito eficaz de perpretar justamente o que o vídeo crítica, também, dizer que ‘é só a educação que salva esse país, talvez em duas ou três gerações’. Primeiro, porque é o óbvio do óbvio, mas aqui não tem a intenção de ser óbvio, mas de tirar do ombro da minha e da sua geração a responsabilidade de fazer alguma coisa. E é uma responsabilidade nossa, queira você, o Felipe Neto, eu, ou não.

Também não faz sentido que o autor do vídeo mande as pessoas estudarem quando ele fala “dos quatro candidatos…”, “tem alguém aí que vai mudar o Brasil?..”, “as pessoas só votam em quem vai ajudar a classe social delas” e tal. Primeiro porque há bem mais que quatro candidatos à presidência; segundo, que por acaso as propostas de um cara chamado Plínio Arruda, só pra citar um dos quatro grandes, pra bem ou pra mal, mudariam sim E MUITO o país (apesar de que ‘mudar o país’ é uma expressão bisonha. Felizmente, na democracia em que vivemos, nenhuma instituição política tem poder o suficiente pra fazer algo nos termos de MUDAR O PAÍS. Felizmente, há várias instâncias de poder, oposição, e isso equilibra muito a disputa de interesses, o que impede coisas do tipo MUDAR O PAÍS, seja lá o que isso for); terceiro que sim, as pessoas só votam em quem vai ajudar a classe social delas porque… é isso que o voto é. A gente vota em quem acredita que vai melhorar a nossa vida.

Uma coisa que me preocupa de verdade é ver esse bando de gente rica (como eu, é verdade; sou rica) reclamando que o país tá uma merda. AMIGO: você estudou em escola pública? É, eu também não. Você vive com dinheiro suficiente pra precisar de 100 reais a mais por mês? É, eu também não preciso. Sua vida piorou nos últimos 16 anos? Eu acho que não, heim. A minha, pelo menos, melhorou bastante. A da Luzinete, que trabalhou aqui em casa, também. E de todo mundo que é bem mais pobre que eu que eu vejo no trem… pelo menos eles parecem ter uns celulares legais.

Claro que há problemas, eu não tenho dúvida disso. A educação pública é sim péssima, falta transporte público, falta saúde. Mas a diferença entre o meu discurso e o seu é que eu tento me sentir responsável por esses problemas. Eu não ponho a culpa nos políticos (que eu escolho).

Discursos como esse do Felipe são o câncer. São eles que fazem as pessoas se sentirem ok por serem alienadas politicamente, burras, porque tira a culpa delas. SE VOCÊ NÃO SE INTERESSA POR POLÍTICA (e você tem acesso a internet e está vendo o vídeo do Felipe Neto no YouTube) a culpa é 100% SUA. LIDE COM ISSO. Não jogue a responsabilidade na falta de educação pública, em ‘políticos picaretas’, no que for.

*O Felipe é um amigo da internet, que inclusive me pediu opinião sobre o roteiro desse vídeo depois de tê-lo feito. Eu disse pra ele que não concordava, discutimos um pouco sobre política, foi legal. Quando o vídeo saiu e eu vi um monte de gente replicando a posição dele (que eu considero prejudicial pro estado das coisas), resolvi escrever uma resposta. É só pra evitar que muita gente repita o que o Felipe tá dizendo sem sequer contestar; eu tenho certeza que esse tipo de comportamento, de replicar 100% o que outra pessoa diz, é algo com o que ele também não concorda. Lembre-se SEMPRE do MANUAL DA DESCONFIANÇA PRÁTICA. Ele vem a calhar nessas horas. Desconfie de tudo. E sim, isso inclui esse texto.

**Se para você, votar no Tiririca é ‘protesto’ (caramba heim, quanta rebeldia), saiba que você não apenas é um idiota, como está sendo feito de idiota. Confira aqui o Risco do Fator Tiririca.

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Astrologia: se você não acredita, é porque ainda não sabe o suficiente

Eu acho que devo contar como eu comecei a acreditar que a posição dos planetas no céu no momento em que alguém nasce é fundamental para mexer com as energias do cosmos e, por consequência, influenciar alguns pontos da personalidade daquela pessoa.

Um dia eu fiz um mapa astral. Mandei a pessoas que não me conheciam meu nome completo, data, horário e local de nascimento. E me devolveram um documento de 30 páginas que falava sobre mim, minha personalidade, meus anseios, qualidades e defeitos.

Eu li 30 páginas sobre mim, escritas por pessoas que nunca tinham me visto antes. E as páginas me descreviam com precisão medonha. Era assustador. E antes que alguém fale em leitura fria, eu adianto – que tal um mapa astral que me dá detalhes da minha relação com meus pais durante a infância e de como isso possivelmente afetou minha vida adulta nos campos A, B e C, e que falou isso como se fosse a psicóloga da minha família?

É duro tentar convencer as pessoas de que sou cética depois que elas ficam sabendo que, sim, eu acredito em Astrologia. E a palavra não é ‘acredito’, porque aqui não há ‘crença’. É a certeza de é apenas uma ciência capaz de traduzir em palavras leis universais que desconhecemos.

Sempre fui cética  – é meu lema, aliás, e é fundamental na minha profissão. Mas a mim não bastou o ‘não acreditar’. Tudo o que me era apresentado, do ponto de vista espiritual, não me dava nenhuma ‘prova’. Eu estudava, estudava, estudava e não via sentido. Frequentei religiões diferentes, opostas; pescava algo de interessante ali, me identificava com outra coisa aqui. Mas nunca conseguia sentir por completo que a coisa funcionava como o que eu sentia. Eu sempre senti que havia algo maior – ok, todos nós, acho – mas não me satisfazia com a explicação de que isso era só um jeito da minha cabeça explicar o que não entendia.

Eu já fui como você. Eu já achei isso tudo uma grande babaquice. E puxa, na maioria das vezes, é. Poucas são as pessoas sérias que estudam essas coisas e se prestam a publicá-las. Eu costumo usar o seguinte filtro: se o horóscopo prevê como vai ser o seu dia ou fala de situações muito genéricas – tipo “Hoje é um dia bom para retomar relacionamentos há muito esquecidos!” – ignoro a coisa toda.

É. Porque horóscopo não prevê o futuro. É uma interpretação feita por um estudioso, baseada na posição dos astros naquele momento (em relação ao teu signo principal no zodíaco), que indica as tuas possíveis tendências emocionais num tempo determinado. Serve para guiar, orientar, e até te prevenir contra influências que podem te levar a agir por impulso negativamente, por exemplo.

Eu não sei no que você acredita. Mas não precisa ter religião nenhuma, pode ter qualquer uma, pode ter todas elas – o fato é o seguinte: existem energias habitando todas as coisas que conhecemos. Ponto. Os grandes astros próximos ao planeta em que vivemos influenciam essas energias de alguma maneira, ponto. E isso é transmitido para nós.

grilo
cri. cri. cri

Não te convenci, claro. Nem teria como – até porque a cartada final vem agora. Vou pedir mais uma chance. Convenci uns 4 ou 5 amigos, todos céticos, alguns ateus, desse jeito. Vamos ao desafio.

Tire 60 reais da carteira, procure uma instituição filantrópica que você conhece e confia e doe duas cestas básicas.

Depois que fizer isso, entre no site do Marcelo Del Debbio – o www.deldebbio.com.br – e mande pra ele algum comprovante da doação. Pode ser a nota fiscal de compra da cesta, tua foto entregando os alimentos pras pessoas, uma declaração da instituição de caridade, qualquer coisa – confiável, né. Apenas prove que você ajudou alguém com duas cestas básicas e envie essa prova para marcelo@daemon.com.br, com seu nome completo, data, local e horário de nascimento (exato).

Todos os detalhes dessa ‘campanha’, promovida pelo Marcelo, podem ser visualizados aqui. Assim, você entende melhor como a coisa vai funcionar.

Umas duas semaninhas depois (até antes), você vai receber por e-mail um mapa parecido ao que me fez acreditar. Sua carta natal, seu manual de uso absurdamente preciso. Leia. Se o que tiver escrito lá não te surpreender, eu abro um espaço público aqui pra você explicar em quais pontos o texto foi mentiroso, inverossímil ou generalista, e os porquês. Basta entrar em contato comigo e enviar o texto.

Isso não é um post pago. É só uma tentativa de ajudar as pessoas a ajudarem aos outros e, depois, a se ajudarem. Espero que alguns de vocês, ao menos, aceitem o desafio. Vale a pena.

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Praticando a desconfiança: um guia prático

Com que freqüência você duvida das coisas que ouve? Seja dos amigos, dos seus professores, mãe e pai, televisão, jornal, revista e dos blogs que lê – quantas vezes você termina de ouvir ou ler algo e se questiona se tudo aquilo é verdade? Você tem por hábito procurar informações que contradigam as coisas em que você acredita desde sempre? Acha que isso é loucura?

Provavelmente a maioria das pessoas pensa que é confortável – e até acha correto, em certos aspectos – se acomodar em uma opinião. Sempre me disseram que acreditar em algo e defender aquilo é ter personalidade forte, caráter, não ser volúvel e nem influenciável.

Mas de alguns anos para cá, por influência da faculdade de jornalismo e do exercício da profissão, eu adquiri um novo conceito sobre o que é ter ‘personalidade forte’ (se é que isso é importante). Eu sou, com muito orgulho, uma pessoa altamente flutuante nas minhas convicções.

Quero dizer o seguinte: eu desconfio. Eu desconfio de tudo o que ouço, o que vejo, o que leio. Tenho por hábito a desconfiança. E ela é fundamental para que possamos entender que todas as estórias têm faces que que dificilmente serão exibidas se você não se der ao trabalho de ir buscá-las.

Quando eu percebo que há um interesse genuíno de alguém ou algo em me influenciar a acreditar em algo, acendo o duplo alerta da desconfiança. Se eles querem que eu acredite, então existem ainda mais motivos para duvidar.

Eu duvido pelo prazer de questionar aquilo em que eu mesma acredito. E depois duvido da dúvida que eu criei. Eu duvido das pessoas e apresento para elas, com freqüências, argumentos contrários ao que elas acreditam, e perfeitamente plausíveis, pelo prazer de ver a cabeça delas dando um nó. É uma espécie de hobbie cruel e sádico. Eu duvido às vezes sem concordar de fato com a dúvida que surgiu, só porquê acho fundamental que todo mundo se questione todos os dias sobre suas convicções, sempre. Desde muito tempo, às vezes tenho a nítida sensação de que é para isso que estou aqui: fazer com que as pessoas se perguntem sobre o que elas acreditam.

Gostou da idéia, mas não sabe por onde começar? Confira as regras de ouro da desconfiança para uma vida mais crítica e questionadora (e um pouco mais complicada, mas sem dúvida mais divertida):

  • Regra de Ouro da Desconfiança #1: quanto mais presente um assunto estiver nas manchetes e na boca do povo, mais desconfiado dele você deve ficar.

  • Regra de Ouro da Desconfiança #2: se você perceber que estão tentando te convencer de algo sem que isso lhe seja dito diretamente, você tem aí o principal motivo para não se convencer desse algo.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #3: vídeos e aspas não provam nada. Pessoas mentem, erram, são imprecisas e suas declarações podem ganhar teor diferente em diferentes contextos.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #4: o Google é seu melhor amigo.

  • Regra de Ouro da Desconfiança #5: Fique longe da Veja.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #6: Sério. Fique longe da Veja. E nem é discursinho pronto de estudante, ok? Não vou dizer ‘a Carta Capital sim é boa’, aliás nem tenho saco para a Carta Capital. Apenas fique longe da Veja. A revista é nojenta.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #7: Espalhe a semente da desconfiança. Conteste as convicções das pessoas ao seu redor por esporte. Mas faça tudo parecer uma grande brincadeira em uma dicussão saudável. Não queremos que você afaste as pessoas, não é?

Apenas fique atento para fugir da armadilha do niilismo. Não é negócio duvidar da própria existência, até porquê um autêntico duvidador tem a certeza de que duvida, e se duvida, logo existe.

Para todas as coisas existem não dois, mas muitos lados. E vai ser muito difícil percebê-los se a gente se acomodar nas coisas que acredita, que a gente lê na Veja, que o jornal nos diz. Duvidar não é algo simples de se fazer, porque dá um trabalhão, claro – é mais fácil engolir as coisas como estão, prontinhas. Mas eu acho que vale a pena.

De qualquer forma, você já pode começar duvidando desse texto.

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