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Astrologia: se você não acredita, é porque ainda não sabe o suficiente

Eu acho que devo contar como eu comecei a acreditar que a posição dos planetas no céu no momento em que alguém nasce é fundamental para mexer com as energias do cosmos e, por consequência, influenciar alguns pontos da personalidade daquela pessoa.

Um dia eu fiz um mapa astral. Mandei a pessoas que não me conheciam meu nome completo, data, horário e local de nascimento. E me devolveram um documento de 30 páginas que falava sobre mim, minha personalidade, meus anseios, qualidades e defeitos.

Eu li 30 páginas sobre mim, escritas por pessoas que nunca tinham me visto antes. E as páginas me descreviam com precisão medonha. Era assustador. E antes que alguém fale em leitura fria, eu adianto – que tal um mapa astral que me dá detalhes da minha relação com meus pais durante a infância e de como isso possivelmente afetou minha vida adulta nos campos A, B e C, e que falou isso como se fosse a psicóloga da minha família?

É duro tentar convencer as pessoas de que sou cética depois que elas ficam sabendo que, sim, eu acredito em Astrologia. E a palavra não é ‘acredito’, porque aqui não há ‘crença’. É a certeza de é apenas uma ciência capaz de traduzir em palavras leis universais que desconhecemos.

Sempre fui cética  – é meu lema, aliás, e é fundamental na minha profissão. Mas a mim não bastou o ‘não acreditar’. Tudo o que me era apresentado, do ponto de vista espiritual, não me dava nenhuma ‘prova’. Eu estudava, estudava, estudava e não via sentido. Frequentei religiões diferentes, opostas; pescava algo de interessante ali, me identificava com outra coisa aqui. Mas nunca conseguia sentir por completo que a coisa funcionava como o que eu sentia. Eu sempre senti que havia algo maior – ok, todos nós, acho – mas não me satisfazia com a explicação de que isso era só um jeito da minha cabeça explicar o que não entendia.

Eu já fui como você. Eu já achei isso tudo uma grande babaquice. E puxa, na maioria das vezes, é. Poucas são as pessoas sérias que estudam essas coisas e se prestam a publicá-las. Eu costumo usar o seguinte filtro: se o horóscopo prevê como vai ser o seu dia ou fala de situações muito genéricas – tipo “Hoje é um dia bom para retomar relacionamentos há muito esquecidos!” – ignoro a coisa toda.

É. Porque horóscopo não prevê o futuro. É uma interpretação feita por um estudioso, baseada na posição dos astros naquele momento (em relação ao teu signo principal no zodíaco), que indica as tuas possíveis tendências emocionais num tempo determinado. Serve para guiar, orientar, e até te prevenir contra influências que podem te levar a agir por impulso negativamente, por exemplo.

Eu não sei no que você acredita. Mas não precisa ter religião nenhuma, pode ter qualquer uma, pode ter todas elas – o fato é o seguinte: existem energias habitando todas as coisas que conhecemos. Ponto. Os grandes astros próximos ao planeta em que vivemos influenciam essas energias de alguma maneira, ponto. E isso é transmitido para nós.

grilo
cri. cri. cri

Não te convenci, claro. Nem teria como – até porque a cartada final vem agora. Vou pedir mais uma chance. Convenci uns 4 ou 5 amigos, todos céticos, alguns ateus, desse jeito. Vamos ao desafio.

Tire 60 reais da carteira, procure uma instituição filantrópica que você conhece e confia e doe duas cestas básicas.

Depois que fizer isso, entre no site do Marcelo Del Debbio – o www.deldebbio.com.br – e mande pra ele algum comprovante da doação. Pode ser a nota fiscal de compra da cesta, tua foto entregando os alimentos pras pessoas, uma declaração da instituição de caridade, qualquer coisa – confiável, né. Apenas prove que você ajudou alguém com duas cestas básicas e envie essa prova para marcelo@daemon.com.br, com seu nome completo, data, local e horário de nascimento (exato).

Todos os detalhes dessa ‘campanha’, promovida pelo Marcelo, podem ser visualizados aqui. Assim, você entende melhor como a coisa vai funcionar.

Umas duas semaninhas depois (até antes), você vai receber por e-mail um mapa parecido ao que me fez acreditar. Sua carta natal, seu manual de uso absurdamente preciso. Leia. Se o que tiver escrito lá não te surpreender, eu abro um espaço público aqui pra você explicar em quais pontos o texto foi mentiroso, inverossímil ou generalista, e os porquês. Basta entrar em contato comigo e enviar o texto.

Isso não é um post pago. É só uma tentativa de ajudar as pessoas a ajudarem aos outros e, depois, a se ajudarem. Espero que alguns de vocês, ao menos, aceitem o desafio. Vale a pena.

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Eu pratico caridade… mas só se não precisar comprar tintas

Hoje eu vou falar da solução para a poluição visual urbana que mais gera controvérsia dentro da minha cabeça, já que é a medida mais inútil que alguém pode ter tido a infelicidade de considerar. As pessoas têm disso né? ‘Soluções criativas para os problemas’. É muito fácil ser criativo. As pessoas só esquecem de pensar na viabilização e na real efetividade das idéias.

Nos últimos tempos, um dos exemplos urbanos mais curiosos desse tipo de comportamento se manifesta naquelas plaquinhas em fachadas de empresas e estabelecimentos comerciais, que dizem: ‘Srs. pichadores: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a uma instituição de caridade. Os recibos estão disponíveis na recepção.’

Tipo essa, mas parece que não funcionou… e eles nem compraram as tintas, porque isso tá aí há meses

Sou só eu ou essa é a pseudo-solução mais estúpida e cínica que alguém tentou viabilizar para acabar com a pichação nas fachadas?

Pra começar, se eu sou um pichador motherfucker, é de se assumir que em 90% dos casos eu tô bem loko pelas ruas da cidade, quero fazer meu corre suavemente e, numa boa, não dou a mínima pras doações que alguém faz ou vai deixar de fazer a uma terceira pessoa se eu não pichar um muro. Quem realmente acreditou que essas placas comoveriam um vândalo em potencial? Se as pessoas normais não lêem as placas de ‘assentos reservados’ no metrô, o que te faz pensar que os pichadores leriam essa?

Seria muito mais convincente, muito, se a placa dissesse algo como ‘Srs. pichador: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a você. Passe na recepção, assine o recibo e receba seu pagamento. Obrigada!’ Bem mais prático e eficiente.

Em segundo lugar, tenho motivos pra acreditar que esse mesmo pichador não vai de maneira nenhuma pedir os recibos. Essa é a parte mais estúpida da idéia. Tipo, imaginem a cena:

‘Oi, eu tava afim de pichar o muro de vocês ali fora, né? Mas vi aquela placa, e quer saber, vim aqui porque gostaria de ler os recibos. Porque eu quero confirmar, sabe? É só pra saber mesmo. Posso ver os recibos… por favor?’

Não, né? Imagino o cara que teve essa idéia da plaquinha (que foi imediatamente mimetizada por 98% dos lugares que sofriam com as pichações no país): ‘Pô, vou colocar uma plaquinha dizendo que a gente vai DOAR DINHEIRO se eles não picharem. Não pra eles, né. Pros pobres. E pra eles não pensarem que é mentira, eles podem PEDIR OS RECIBOS DA DOAÇÃO, cara. Isso sim é uma grande idéia. Como sou perspicaz!

Outra coisa: as placas não especificam quantidade de pichações. Eu posso fechar aquela parede com spray ou rabiscar um coraçãozinho de giz: DANE-SE, não vai ter doação naquele mês, mesmo que a quantidade necessária pra pintar o coração caiba dentro de um pote de guache.

Depois, tem a parte mais cruel da história. Ninguém percebe o quão sacana é dizer que você só vai doar dinheiro pra instituições de caridade se pichadores não picharem? Não é legal basear um ato de altruísmo na boa-vontade de um terceiro que nada tem a ver com isso. Especialmente um terceiro que tem altas chance de realmente fazer o que ele está ali pra fazer (gente, PICHADORES PICHAM. Lidem com isso)

Óbvio, as empresas deveriam doar com ou sem pichações. Assumir numa plaquinha, pra todo mundo, que só vai doar se não tiver que comprar tinta e pagar pintor naquele mês é tipo a coisa mais mesquinha que alguém podia fazer.

No fim, explico porque a plaquinha só gera mais problemas: pra começar, os pichadores não vão deixar de pichar se encontrarem a plaquinha e as empresas vão continuar sem doar dinheiro pras instituições de caridade (enunciando que eles têm um motivo pra isso, no que vai todo mundo concordar que eles até tentaram ser legais com a humanidade, ok, mas os pichadores malvados não deixaram!).

Ou imagine um lugar que acabe doando só por alguns meses-sem-pichação do ano, e nos outros não doe, para poder comprar as tintas. E as pobres criancinhas que, durante determinado mês, vão ficar sem comer seu macarrão com salsicha? CLARO que elas pensarão ‘oh, não temos o que comer, mas não é culpa dos nossos benfeitores. Eles realmente tentaram, mas os pichadores não permitiram que comêssemos este mês! Eles são os verdadeiros vilões!’

Muito mais prático pintar com aquelas tintas anti-pichação. Evitaria todos os problemas. E as criancinhas que se danem.

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