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Arquivo: eleições 2008

Nossa vocação oficial é o trambique

Um cidadão com um cargo de tanto prestígio num orgão tão importante para a democracia não deveria subestimar a capacidade do brasileiro de dar um jeito nas coisas.

É absurdo que um orgão oficial não cogite a possibilidade de erro, nem sequer admita a investigação ou trabalhe com a hipótese de fraude. É preciso lembrar que estamos no Brasil, e se existe algo de que brasileiro entende é trambique.

Por causa da educação ruim, não temos tantas mentes brilhantes como os países de primeiro mundo. Exportamos pouca tecnologia e poucos talentos da ciência. É por isso que a gente devia assumir de vez nossa vocação oficial, de fazer as coisas funcionarem do jeito mais rápido, e tentar até investir nisso. Ganhar dinheiro, sabe? Exportar tecnologias de trambique.

A lógica é simples: como há muita demanda por bons fraudadores no país, a concorrência se torna alta entre os praticantes da atividade, o que os obriga a aperfeiçoar as técnicas de trambique. Somos um dos países mais corruptos do mundo; logo, nossos corruptores são os melhores do mundo. E nós deveríamos tirar proveito disso.

O cara que frauda uma urna, por exemplo. Se o secretário de TI do TSE tá dizendo que é inviolável, temos duas hipóteses, a saber: 1) ele está mentindo e sabe disso, 2) ele está enganado e não sabe disso.

Vamos sempre esperar o melhor do ser humano, e por isso escolhemos a opção 2. No caso da fraude ser verdadeira, significa que o fraudador é um cara que sabe mais de TI do que o responsável pelo TI do TSE. Sem dúvida é um talento a ser valorizado e utilizado em prol do bem. (Desconsideremos prontamente a possibilidade do secretário de TI não manjar nada, ok? Por um momento, vamos fingir que acreditamos na incorruptibilidade dos concursos públicos)

Várias técnicas de trambique que poderiam ser utilizados para fins mais honrados e aproveitados pelo país como símbolo da alta qualidade da nossa educação – aqui e, porque não, como embaixadores do nosso país no resto do mundo.

Falsificação de assinaturas, por exemplo: de falsário, o cara pode passar para restaurador das grandes peças nos museus europeus, por seus talentos em mimetização de obras autorais.

Os subornadores, muito numerosos por aqui, são mágicos com a arte dos números: devem pegar uma quantia, subornar todo mundo no caminho e ainda fazer sobrar um lucro enorme para ele e pros interessados no suborno. São, claramente, mestres da negociação e da contabilidade, e poderiam ser usados nesse momento de crise mundial, pelas grandes corporações, para engendrar maneiras práticas de reduzir as perdas.

E até para a técnica da bolinha mais pesada, usada para fraudar aquelas loterias federais, deve haver alguma aplicação prática industrial.

O caminho é esse! Vamos parar de ficar dando murro em prego, tentando educar nossos jovens em ciências para os quais eles claramente não têm vocação. Enquanto a Índia e Cuba exportam médicos talentosíssimos e o Japão exporta gênios em eletrônica e em ciências, já é chegada a hora de assumirmos nosso verdadeiro papel no mundo e dar condições oficiais para que nossos jovens aperfeiçoem aquilo que eles cresceram aprendendo a fazer: dar um jeito.

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Oito coisas que eu observei sobre as eleições de 2008

Acho muito cínico chamar a eleição de ‘Festa da Democracia’. Eu não vejo ninguém se divertindo. E não há democracia nenhuma em uma festa em que você é obrigado a entrar e não pode beber. Definitivamente, a democracia não sabe dar uma festa.

Nossa sorte é que, no Brasil, os candidatos (e alguns eleitores) sabem. Como trabalhei o suficiente nesta eleição para ter lido as histórias mais bizarras possíveis e ter visto coisas que me fizeram pensar e estou cada vez mais viciada em listas, selecionei oito coisas das eleições de 2008 que me fizeram parar para pensar. Ou para rir. Ou os dois.

Ops (ou Rickrolleada)

Cinara Salles Mioso, candidata a vereadora pelo PT em Pejuçara, no RS, cometeu um errinho bobo durante sua candidatura. Nada demais. Ela só passou a campanha inteira usando o número errado. Acontece. Parece que o descuido foi descoberto pela candidata quando as pessoas avisaram que o número dela não retornava nada na urna.

Ainda assim, Cinara recebeu seis votos. Não deixa de ser um mérito já que, em tese, ninguém sabia o número verdadeiro dela. Parabéns, Cinara.

Filas, correria e invasão de colégio eleitoral

Em Itaquera e em Sergipe, o povo demonstrou um paradoxo de civilidade. Na ânsia de exercer o dever cívico, fizeram filas na porta de colégios na madrugada e houve tumulto e até invasão. Mas até a incivilidade é válida na hora de exercer a civilidade, não é mesmo? Um exemplo de… civilidade incivilizada.

Carros de som não são eficazes às sete da manhã do domingo

Não sei por aí, mas aqui onde eu moro, os carros de som são usados em profusão pelos candidatos para demonstrarem a capacidade deles de contratar uma boa empresa de jingles governar de maneira satisfatória. Até posso compreender a necessidade do marketing, de produzir uma cançãozinha grudenta que envolva um slogan cafona e um número. Mas não adianta colocar seu carro para gritar isso no domingo de manhã, meu amigo. Porque aí sim, eu vou me esforçar para ouvir qual é o se número para me certificar que nem eu nem nenhum conhecido vote em você. Aqui em Santo André os candidatos a prefeito parecem concordar que isso é boa técnica eleitoral. Não é. Não acorde as pessoas com seus carros de som. Não funciona.

Abasteço por votos

Em Recife e em Goiás, os candidatos acharam de bom tom presentear os eleitores com gasolina. Houve acusações de candidatos enchendo o tanque de eleitores e dando vale-abastecimento em troca de votos. Achei criativo. E não deixa de ser um serviço de utilidade pública.

Kassab ganhando da Marta

Kassab tem aqueles olhinhos e parece um bonequinho esquisito que fala como o Pato Donald. Só olhando, ninguém dá nada. Mas o malandro foi lá e ganhou da Marta – nada contra a Marta, particularmente, mas acho o Kassab mais engraçadinho. E vai levar fácil o segundo turno. Dá-lhe Kassab, o homem dos olhinhos engraçados.

Gabeira batendo o Crivella

O Gabeira passou de um cara que usava tanga de crochê para um político super respeitado. Ele começou a campanha, no início de agosto, com apenas 4% das eleições de voto e hoje, no RJ, venceu o principal candidato da oposição com 25,6% da votação, garantindo o segundo turno contra Eduardo Paes. Uma façanha, ainda mais para um cara que usou uma tanga de crochê. Vai ser difícil transferir os eleitores de Crivella para Gabeira, já que é de se imaginar que eles sejam opostos. Mas não duvide do homem. Tem que ser muito bom para quintuplicar votos em dois meses. Ou usar uma tanga de crochê.

Essa história de vender votos não faz sentido

Nunca entendi isso muito bem. E o motivo é bem simples: se você vende seu voto, nada garante que você precise entregá-lo. Nunca entendi porque alguém com um mínimo de instrução recebe para votar num candidato sacana e ainda assim vota nele. Seria possível subverter a subversão, votando no candidato que você realmente tem vontade e recebendo dinheiro de um candidato sacana para isso.  Mas as pessoas parecem querer ser honestas dentro da desonestidade. Vender o voto pode, mas depois de vender, não dá para deixar de entregar que isso é sacanagem. Não faz sentido.

Urnas eletrônicas têm semelhança perturbadora com um Pense Bem

Sim. A urna eletrônica não tem aquele visual anos 90 por acaso. Além do fato de ela, hum, ter sido criada nos anos 90, o design do aparelho tem o objetivo de resgatar nossas memórias infantis mais profundas, trazer à tona a nostalgia de nosso primeiro pseudo-computador e fazer com que, dessa forma, nossa mente associe o ‘votar’ com uma situação prazerosa. Ou simplesmente serve para que olhemos para a urna e sejamos arrebatados, imediatamente antes de votar, pelas palavras PENSE BEM, gerando assim uma corrente involuntária de voto consciente e ponderado. Não sei se funciona. Mas que deu uma saudade do meu Pense Bem hoje, quando eu apertei aqueles números, ah… isso deu.

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