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Arquivo: eleições americanas

Nossa vocação oficial é o trambique

Um cidadão com um cargo de tanto prestígio num orgão tão importante para a democracia não deveria subestimar a capacidade do brasileiro de dar um jeito nas coisas.

É absurdo que um orgão oficial não cogite a possibilidade de erro, nem sequer admita a investigação ou trabalhe com a hipótese de fraude. É preciso lembrar que estamos no Brasil, e se existe algo de que brasileiro entende é trambique.

Por causa da educação ruim, não temos tantas mentes brilhantes como os países de primeiro mundo. Exportamos pouca tecnologia e poucos talentos da ciência. É por isso que a gente devia assumir de vez nossa vocação oficial, de fazer as coisas funcionarem do jeito mais rápido, e tentar até investir nisso. Ganhar dinheiro, sabe? Exportar tecnologias de trambique.

A lógica é simples: como há muita demanda por bons fraudadores no país, a concorrência se torna alta entre os praticantes da atividade, o que os obriga a aperfeiçoar as técnicas de trambique. Somos um dos países mais corruptos do mundo; logo, nossos corruptores são os melhores do mundo. E nós deveríamos tirar proveito disso.

O cara que frauda uma urna, por exemplo. Se o secretário de TI do TSE tá dizendo que é inviolável, temos duas hipóteses, a saber: 1) ele está mentindo e sabe disso, 2) ele está enganado e não sabe disso.

Vamos sempre esperar o melhor do ser humano, e por isso escolhemos a opção 2. No caso da fraude ser verdadeira, significa que o fraudador é um cara que sabe mais de TI do que o responsável pelo TI do TSE. Sem dúvida é um talento a ser valorizado e utilizado em prol do bem. (Desconsideremos prontamente a possibilidade do secretário de TI não manjar nada, ok? Por um momento, vamos fingir que acreditamos na incorruptibilidade dos concursos públicos)

Várias técnicas de trambique que poderiam ser utilizados para fins mais honrados e aproveitados pelo país como símbolo da alta qualidade da nossa educação – aqui e, porque não, como embaixadores do nosso país no resto do mundo.

Falsificação de assinaturas, por exemplo: de falsário, o cara pode passar para restaurador das grandes peças nos museus europeus, por seus talentos em mimetização de obras autorais.

Os subornadores, muito numerosos por aqui, são mágicos com a arte dos números: devem pegar uma quantia, subornar todo mundo no caminho e ainda fazer sobrar um lucro enorme para ele e pros interessados no suborno. São, claramente, mestres da negociação e da contabilidade, e poderiam ser usados nesse momento de crise mundial, pelas grandes corporações, para engendrar maneiras práticas de reduzir as perdas.

E até para a técnica da bolinha mais pesada, usada para fraudar aquelas loterias federais, deve haver alguma aplicação prática industrial.

O caminho é esse! Vamos parar de ficar dando murro em prego, tentando educar nossos jovens em ciências para os quais eles claramente não têm vocação. Enquanto a Índia e Cuba exportam médicos talentosíssimos e o Japão exporta gênios em eletrônica e em ciências, já é chegada a hora de assumirmos nosso verdadeiro papel no mundo e dar condições oficiais para que nossos jovens aperfeiçoem aquilo que eles cresceram aprendendo a fazer: dar um jeito.

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A verdade sobre Barack Obama


Ei, vocês aí embaixo? Otários!

Acompanhar a eleição americana um pouco mais de perto surpreende. Você chega, olha os resultados das pesquisas e não entende como os candidatos podem estar empatados. Afinal, daqui do Brasil a gente só vê Obama. Os jornalistas amam o Obama, e lá nos EUA também, com a imprensa tradicionalmente republicana. Obama é jovem e carismático. Além disso, tem o nome parecido com o de Osama (o Bin Laden) e é negro.

No início, eu já gostava do cara pela ironia da coisa e pelo conceito revolucionário: o primeiro presidente negro dos EUA, país com especial histórico de repressão aos negros, com Klu Klux Klan, os guetos, as guerras entre brancos e negros nas ruas, o assassinato de Martin Luther King. Aqui no Brasil, como os jornais só nos trazem Obama, é Obama quem temos.

Mas Obama não tá nem aí para nós, não. E disso ninguém fala. Obama não quer ter nada a ver com a parte de baixo da América. Obama apóia parcerias comerciais dos EUA com a Europa. Ele nem menciona os países da América Latina na parte de ‘política internacional’ dos debates.

Mas ele tem planos para a América Latina, sim. E eles envolvem não apoiar nossa produção de etanol e consideram a Amazônia um recurso global.

Em maio deste ano, quando ainda era pré-candidato, Obama propôs um plano para o continente que chamou de ‘Nova parceria para as américas’. A proposta é ‘reestabelecer a liderança americana no hemisfério’. O texto tem uma parte dedicada ao Brasil, que foi traduzida pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, publicado no Terra Magazine na ocasião, e pode ser encontrado na íntegra aqui (ou aqui em inglês), já que o blog do Azenha não está mais no Terra. Vou reproduzir alguns trechos:

O caso do Brasil: O Brasil é um exemplo do grande potencial das energias renováveis na América Latina, além dos riscos que devem ser evitados. (…) A região da Amazônia, um importante recurso global na batalha contra o aquecimento do planeta, cobre quase 60% do Brasil. Perdeu 20% da floresta – 1,6 milhão de milhas quadradas – para o desenvolvimento, a exploração da madeira e a agricultura. (…) Os produtores domésticos de etanol nos Estados Unidos se preocupam com razão com a competição do Brasil, que é o maior exportador de etanol do mundo. (…) Barack Obama quer expandir a produção de energia renovável por toda a América Latina de forma a que ao mesmo tempo promova a auto-suficiência e a criação de mercados para os fabricantes americanos de energia verde e de biocombustíveis.

Deu para entender a idéia? Barack Obama não quer etanol brasileiro. Ele acredita que estimular a produção de etanol pode estimular a plantação de cana na Amazônia, desmatando florestas que ele considera ‘recurso global’ no combate ao aquecimento. ‘Recurso Global’ é estranho, um pouco megalomaníaco.

Então, se Obama for eleito, esqueçam as promessas de que o Brasil é o paraíso futuro do etanol. Ele quer dar incentivos à produção americana desse combustível e torná-los auto-suficientes.

A moral: Obama é fofo, alegre, sorridente, tem carisma e uma série de outras coisas que fazem ser quase irresístivel não votar nele (no nosso caso, torcer por ele). Parece ser o tipo de cara que vai fazer as coisas mudarem. E ele vai, mas não para nós.

E McCain, apesar de feioso, esquisito, meio velho, de ter braços curtos e de ter uma vice lamentável, tem propostas de política externa muito mais compatíveis com os interesses do Brasil.

Se nada disso te convenceu, no vídeo abaixo Obama mostra quão importante a América Latina é para ele:

(Colaborou indiretamente Gabriel Pinheiro)

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