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Arquivo: entrevista de emprego

Como redigir seu currículo: você quer ser um Futurólogo ou um Pai-de-Santo?

Eu percebi desde pequena que pra ser uma pessoa bem sucedida (na vida, mesmo) a fórmula a ser seguida é bem simples – você precisa sacar logo de cara o que as pessoas gostam de escutar e dizer isso pra elas. Demanda um pouco de empatia e inteligência comunicacional mas é sério, funciona em todos os campos dessa nossa vidinha. Venho aplicando desde que me dei conta.

Quando eu reclamei que tenho na faculdade uma matéria que avalia minha habilidade de argumentar bem,  não considerei essa máxima da vida em sociedade. Faz todo o sentido – senão, não haveria toda uma etiqueta a ser seguida em entrevista de emprego, palavras corretas a serem empregadas em diversas situações e até os termos mais adequados pra um currículo.

É, porque se você não consegue emprego, tenha certeza que o problema não está em você na sua notável incapacidade, pobre infeliz analfabeto. Está na maneira como você (não) se vendeu no seu currículo. Os analistas de carreira (a propósito, que tipo de metaprofissão é essa?) dizem que você precisa, hum, ‘florear’ as coisas, mas sem mentir.

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Tipo o Peter Pettigrew Nelson Rubens. Aumenta e não inventa.

Fica assim: se você, quando era criança, ajudou seu pai (que tem uma loja) a digitar no computador a ficha de todos os clientes, vai ficar muito mais atraente se você escrever que “ajudou a implementar e incluir dados de mais de X clientes no sistema de banco de dados da loja tal”.

Se você vendia limonada pros vizinhos, diz que era empreendedor em um pequeno negócio do ramo alimentício, que controlava desde administração de contas até projetos de marketing.

Até se você for analfabeto, cara, dá pra tornar a situação menos vexaminosa no currículo. Diga algo como “habilidade extremamente desenvolvida para analisar e observar figuras, imagens e ilustrações” (Lembra do “ler, ler eu não sei não, mas sei vê as figura”?). Resolvido.

E cara, isso é sério – funciona. Você já ouviu falar da profissão de Futurólogo?

Se não ouviu, te explico. Futurólogo é um cara pago pra dizer pras grandes empresas o que vai acontecer no futuro. Eles tem cargos de alta patente (e altos salários) nas maiores corporações do mundo. Se baseiam no que aconteceu no passado e nas tendências de mercado, além de cálculos envolvendo velocidade de aprimoramento da tecnologia, além de algo tipo ‘intuição’ (suponho), pra ‘prever’ coisas. Esses caras são ultra-respeitados, vivem dando entrevista pras publicações mais prestigiadas do mundo, e as previsões dele viram manchete.

maedina

E, me diga por favor, qual é a diferença entre esses senhores e a pobre Mãe Dináh? Eu lhes digo. Quando a Mãe Dináh entrou na Lan-House com a plaquinha ‘Faz-se currículo’ na porta ela disse pro moço – “digita aí que eu sou vidente. Isso, vidente. Búzios, tarot, astrologia, amarração. Pode colocar tudo isso aí. Ah, e põe um ‘H’ no fim do meu nome. Isso, ‘Dináh’. É, com acento mesmo. Pega bem, as minhas amiga vidente tudo tem nome exótico assim, diferente”.

O Futurólogo, que já começa com a vantagem de ter um Q.I. maior, foi lá e escreveu que ele é… Futurólogo. Pronto.

Os futurólogos acertam? Às vezes, sim. Às vezes, não.

Mas a gente tende a ignorar os erros, nesses casos, e exaltar os acertos. Logo, se o cara errar 10 previsões e acertar uma com certa precisão, ele vai ser lembrado por aquela previsão que só ele conseguiu fazer. É um belo emprego – basta ter imaginação fértil pra ficção científica, boa capacidade de redação e de comunicação, quem sabe habilidades como ilustrador… você será muito bem pago pra pensar no que vai acontecer daqui 20 anos. E se errar, tudo bem, porque não é exatamente como se você pudesse, digamos, prever o futuro, né? A Wikipedia ainda descreve a profissão como ‘não o trabalho de indicar o que vai acontecer, mas o que pode acontecer…’ – COMO ASSIM BIAL? O que pode acontecer? Tudo pode acontecer, cara. Na boa, ser Futurólogo é moleza porque sua função é pensar em 20 possibilidades de futuro. 20, 30, 40, 50, 60. Se você acertar UMA delas, já tá bem sucedido na carreira.

E os pobres pais-de-santo, quiromantes, astrólogos e toda sorte de profissões do ramo considerado ‘charlatão’ pelo cidadão-padrão? Continuam sofrendo preconceito aí, na marginalidade, na dorga, na postrituição, só por causa de um termo mal empregado. Eles não tem a chance de fazer 10, 20 previsões do que PODE acontecer. Pra ter prestígio, um profissional da área da adivinhação precisa fazer uma previsão só e ser bem firme em relação a ela. Se for bem sucedido, bom; senão, está fadado à desgraça.

Porque na prática os dois fazem exatamente a mesma coisa. Tudo nessa vida é marketing pessoal. Mãe Dináh e Walter Mercado – vocês poderiam ter construído belíssimas carreiras na IBM, HP, Intel, Microsoft ou Apple como Futurólogos. Deviam ter previsto isso.

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Por quê eu odeio dinâmicas de grupo

Há pouco mais de um ano, me aconteceu uma coisa curiosa. Fui pré-selecionada para uma vaga de comunicação interna em uma multinacional de peças automotivas, a TRW que não vou citar o nome porque isso é totalmente antiético.

Lá, fui submetida a estranhos testes com eletrodos e máquinas esquisitas ao experimento bizarro que define uma dinâmica de grupo. Você já confronta os outros participantes na sala de espera; normalmente, conhece um outro de vista da faculdade ou algo assim. Se as pessoas forem simpáticas, vão puxar papo, a coisa descontrai. Mas mesmo assim, a impressão de ‘sou eu contra você hoje!’ nunca desaparece do ambiente. E esse clima de competitividade já começa a irritar lá mesmo, na sala de espera.

Daí, beleza. Vai todo mundo pra sala da dinâmica, senta nas cadeiras dispostas em um círculo e normalmente a pessoa do RH diz pra gente se apresentar.

Nas dinâmicas para vaga de estágio, a maioria das pessoas não têm muita experiência. Só que, é claro, sempre vai existir aquela pessoa especial. Sim, a pessoa especial fala 8 idiomas. Ela conhece o mundo inteiro. Ela já fez trabalho voluntário na África e na índia. O mais preocupante: a pessoa especial adora falar sobre o quanto ela é especial. Com desenvoltura.

Minha mãe sempre diz que as dinâmicas normalmente eliminam essas pessoas especiais. Geralmente, elas vêm embutidas também com um espírito de ‘se quero algo feito, faço eu mesmo’ - o quê, vocês devem imaginar, não é exatamente o ideal para uma dinâmica em grupo.

No dia da dinâmica para essa vaga em questão, depois da apresentação (que contou com uma ou duas pessoas especiais), haveria uma dinâmica. Ah, minha parte preferida.

Separaram a gente em duplas e a minha parceira de trabalho, muito simpática, comentou que já tinha me visto na faculdade. Descobri que éramos do mesmo ano; ela da manhã, eu da noite.

A dinâmica consistia no seguinte: nos deram dois canudos, um elástico, uma folha de papel e um clipe. E nos mandaram construir a torre mais alta possível com aquilo.

Óbvio: o objetivo era construir uma torre não tão alta, mas que ficasse em pé, pelo menos. A metáfora é que iIsso sem dúvida demonstraria que éramos ‘pé-no-chão’ e também que éramos pessoas preocupadas em construir uma estrutura sólida para depois fazê-la crescer. Claro, evidente que é possível classificar uma pessoa com todas essas características baseado em uma torre de canudos construída por ela. Ufa, ainda bem que temos esse tipo de artimanha para desvendar personalidades de maneira tão rápida e eficiente.

A dinâmica terminou e, entre explicações que variavam do ‘sim, porque nós constatamos que era mais importante estabelecer uma estrutura sólida, mesmo que não fosse possível deixá-la tão alta, já que é evidente que, nesse caso, é importante…’ ao ‘nossa torre caiu’, eu e minha parceira explicamos os propósitos da nossa e aconteceu uma coisa inesperada.

Aqui, um adendo: eu tenho uma mania péssima de… rasgar papel. Eu rasgo papel em todo lugar; nos restaurantes, milhares de guardanapos. Eu não consigo ficar quieta e é quase inconsciente: quando vejo, os papéis já estão rasgados.

Ae comecei a destruir minha torre. Torci os canudos, rasguei o papel da base; o clipe, eu quebrei.

E não é que o viado do entrevistador, do nada, gritou: “AGORA VOCÊS TÊM DOIS MINUTOS PARA MELHORAR O PROJETO DA TORRE DE VOCÊS ! VAI!”

Eu nunca esqueci o olhar de decepção da minha parceira, desolado, fatalista, de perda reconhecida. Naquele momento, eu e ela soubemos que a vaga não seria nossa. Eu fiquei com vergonha e pedi desculpas, mas senti que nada poderia fazer para redimir minha falha.

Ontem, na sala nova, a garota me reconheceu. Pedi desculpas novamente; ela pareceu aceitar. Não há nada que o tempo não cure.

Esse vídeo mostra com detalhes a estupidez da coisa o que as pessoas avaliam numa dinâmica. E a gente finge que tá acreditando que os propósitos são tão nobres. E a trilha é Killers, rapaiz. Achou que era tudo ruim nesse negócio de dinâmica?

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