27 de março de 2010 às 0h54
Pra aquecer
Semana que vem vou visitar meu pai lá no Panamá. Prometo histórias cabulosas direto da América Central. Vai vendo esse videozinho pra pegar a vibe do local.
Semana que vem vou visitar meu pai lá no Panamá. Prometo histórias cabulosas direto da América Central. Vai vendo esse videozinho pra pegar a vibe do local.
Vovós são seres, em boa parte das vezes, bonzinhos e angelicais. No meu caso, minha vovó é conhecida por me engordar para o abate (ela cozinha ignorantemente bem e muito) e por fazer virtualmente tudo o que eu peço a ela e que estiver dentro das possibilidades. Conheça minha avó:
A expressão angelical de tia do pão e queijo esconde um segredo
Pois bem. Como você já leu, eu fiquei adoentada recentemente. Desde então, minha vó tem vindo aqui em casa frequentemente (A.K.A. TODOS OS DIAS) para trazer-me bolos, doces, comida em geral e medir minha pressão. Só que desde terça ela tem vindo para preparar uma tal vitamina que, segundo ela, me livraria de todo o mal amém me ajudaria a na cura da pneumonia (eu ainda estou em processo de recuperação).
Só que eu odeio vitamina, pelo mesmo motivo que eu odeio salada de frutas: as frutas que eu não gosto, tipo banana e mamão, acabando roubando o gosto de todas as outras. E essa vitamina, eu sabia, tinha beterraba, uma parada que eu odeio. Mas vamos tomar, né? Agradar a vovó. Melhorar, quem sabe. Custa nada.
Até que tomei o primeiro gole daquela coisa horrível. Eu só conseguia sentir o gosto da banana, da beterraba e um gosto horrível e muito forte de algo que parecia ser um bife.
Obviamente eu ignorei meu paladar que dizia que tinha um bife na minha vitamina, porque né, nem dá pra cogitar a possibilidade de ter carne lá. E continuei tomando a parada, tampando o nariz e mandando pra dentro, obediente que sou. Ingênua. No último dia que minha vó veio, ela achou legal fazer a parada num copo GIGANTE:

À esquerda, copo normal. À direita, COPO DESCOMUNAL no qual eu tive de beber a ‘vitamina’ nesta quinta
Pois é, a tortura ia longe. Eu quase tirei uma foto hoje de manhã e enviei via Twitter – a parada era realmente horrível. Ainda bem que a vovó não forçava o chorinho, porque eu não aguentava nem o que já tava no copo.
Daí de tarde fui visitar meu pai. Estávamos conversando sobre as visitas frequentes da minha vó e acabamos caindo no assunto ‘vitamina do capeta’. Eis que ele solta:
- AQUELA VITAMINA TEM FÍGADO.
E começa a rir.
Mal sabia ele que naquele momento eu me dei conta que aquilo não era uma piada. Não, meu amigo. O gosto de bife que eu sentia, o enjôo, a força de vontade para não botar a parada toda pra fora antes mesmo de engolir, todos eles eram originados num singelo PEDAÇO DE FIGADO DE BOI CRU que vovó, em toda sua sabedoria, decidiu colocar para bater junto com as outras coisas terríveis que estavam naquele copo.
UMA RODADA DE SUCO PRA GALERAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH
Papai continuou rindo e tentou fingir que estava brincando, mas eu tive certeza que ele não estava. Afinal, aquilo explicava o gosto terrível. Confrontada, vovó confessou: colocava sim fígado na tal vitamina. Eu perguntei se ela não podia, sei lá, fritar o bife pro almoço, e fazer o suco só com coisas com as quais você realmente faz suco, sem incluir carne esquisita crua ou coisas heterodoxas no campo das vitaminas. Vovó disse que não – ou o suco era feito completo, ou então não haveria suco nenhum. E ela pararia de vir aqui.
Optei pela presença de vovó. Consegui, contudo, negociar a banana. Ela estará fora da próxima vitamina. A beterraba continua. Quanto ao fígado, vamos fingir que eu não sei. É como disse mamãe, ao tentar me consolar: “veja pelo lado bom, filha: pelo menos não tem ovo cru”.
Sim, pode ficar pior.
Em defesa dos métodos da vovó: fígado, um super alimento. Mas precisa ser cru? E misturado num suco? Com beterraba?
O trote do seqüestro já entrou e já saiu de moda. Mas levante a mão quem não conhece alguém que tenha recebido uma dessas ligações (não precisa levantar. Não to te vendo. É só um recurso estilístico).
Para os (prováveis poucos) que não sabem do que estou falando, o trote do seqüestro consiste no seguinte: um fulano liga no seu celular, berra dizendo que seqüestrou seu filho/irmão/irmã/tia etc e diz que se você desligar o telefone, seu parente morre. Aí, pede para você depositar X dinheiros numa conta que ele vai te passar. Só que é tudo mentira. Muitas ligações vêm de dentro de presídios, e os caras chegam a pedir como resgate cartões de recarga de celular.
Eu mesma conheço um monte de gente que caiu, inclusive na minha família – e o stress é bravo. Perde-se dinheiro de uma forma estúpida, que poderia ser evitada, e ainda há um parente normalmente em choque, fragilizado, para lidar. Essa é a pior parte.
Danilo Gentili também falou sobre o golpe do seqüestro
Mas o trote tem sua função sócio-educativa, sim. A família, essa instituição falida da sociedade brasileira, estava mesmo precisando de um chacoalhão. Diante da adversidade, as pessoas se unem. E todo mundo que passa por uma experiência de quase perda de alguém que ama começa sim a dar mais valor àquela (e às outras) pessoas.
No fundo, tudo encontra seu papel nesse ecossistema louco que é a sociedade. Se é preciso um golpe cruel para que um pai, sempre de cara fechada, diga ‘eu te amo’ ao filho, que seja assim. O que são 10.000 mil reais perto de uma demonstração de afeto como essa, não é mesmo? Nada paga a evolução que esse relacionamento vai sofrer. Nada paga aquele abraço há tanto esperado.
Meu irmão é um camarada sossegado, sabe? Desses que não se impressiona facilmente. E não que ele não demonstre normalmente, mas acabei de receber uma mensagem de texto dele dizendo que me ama. Não entendi a subitaneidade da declaração, mas ele explicou: tinha acabado de receber o trote. Já avisado, não caiu, mas é uma situação estressante, de qualquer forma. ‘Puxa, que droga’, eu disse. ‘Mas eles falaram que eu estava seqüestrada?’ Ele respondeu, em seguida: ‘Não, eu só ouvi uma vozinha, mas resolvi conferir’. Ah, o amor fraternal é cego. E surdo. E nessas, provavelmente ele conferiu a integridade da família inteira. É a corrente do bem gerada por um trote sacana.
Meu vô é daqueles mineiros com quem você senta na varanda da fazenda, no fim da tarde, pra ouvir histórias. Meu vô tem história de todo tipo: a de quando trocou tiros com Dilma Roussef e José Dirceu na época em que ele era PM e os dois, guerrilheiros; a de quando, no meio da madrugada, na patrulha da estrada, ele viu um ovni do lado da lua, uma bola branca quase tão grande quanto ela que saiu voando em três segundos; a de quando ele salvou uma família inteira de um carro capotado com a ajuda de um tronco de árvore que serviu como alavanca. Meu avô tem até história de peixe grande, que ele sempre conta mas que ninguém nunca viu ele pegar. Meu avô nunca parou de trabalhar, mesmo quando aposentou. Ele é do tipo faz-tudo, sabe? Pedreiro, marceneiro, vidraceiro, eletricista. Ele sabe fazer todas essas coisas com exímia habilidade. Ele não deveria trabalhar, não depois dos enfartos e das paradas cardíacas (ele teve seis!), mas é teimoso feito uma porta. Acontece que, pra ele, acho que não trabalhar é mais letal do que todos os enfartos do mundo.
Meu vô espirra de um jeito engraçado, parece que tá tendo um ataque ou algo do tipo: ele dá um berro super alto. Minha vó é casada com elehá uns 40 anos e sempre, sempre que ele espirra ela briga com ele ou faz uma cara feia.
Mas a característica mais marcante do meu vô é que ele é do tipo piadista. Ele é super-engraçadão. Acho que vem daí minha aspiração para o humor. As piadas dele são bem ruins. A maioria. Tipo, primeiro que ele sempre conta as mesmas, desde que eu tinha 3 anos (e nossa, como eu me acabava de rir). Segundo que ele nunca pára de falar fazendo piadas! A gente vai no carro com ele, tentando dormir (ele dirige) e o cara continua fazendo piada de tudo, e se você fica quieto, ele fica insistindo até você falar se gostou ou não. Sério. As piadas dele são do tipo humor inocente, sabe? Didi nos tempos áureos, Ronald Golias. Ele até tem umas caras engraçadas.
A gente costuma zoar meu vô por causa do tamanho da testa e das orelhas dele. A testa é porque ele ficou careca, entao a cabeça e a testa viraram uma área grande, coesa e unificada. Parece uma testa sem fim. Quanto a orelha, elas cresceram depois que ele ficou velho. Nada fora do comum, mas a gente zoa. Olhando a foto, o nariz também é bastante grande, mas a gente já ocupa bastante tempo falando da testa e da orelha.
Essa foi sim uma homenagem. Mas não é aquela do tipo ‘vou sentir falta’. Meu vô tá super bem. Estive com ele pela última vez na quinta. Saúde tinindo, até onde eu sei, exceto por pequenos imprevistos (coisas de véio), mas ele supera. É uma homenagem que não está atrelada a nenhum momento difícil ou algo assim. É só porquê ele merece, mesmo. É o melhor vô do mundo.
[modo declarações bregas de amor familiar="off"]
Desde 2007, esquizofrênico.
23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. Leia mais.
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