OEsquema

Arquivo: #forasarney

Querem rebatizar o Ibirapuera

Ibirapuera é um nome simpático para um parque. Como você deve saber, é tupi-guarani e significa (essa parte você não deve saber) árvore apodrecida – ibira é ‘árvore’, puera é ‘que já foi’. O nome é esse porque o terreno naquela região é muito alagadiço.

Para os amigos de fora do estado, o Ibirapuera é o parque mais popular de São Paulo. Além de árvores e trilhas para correr cobertas de serragem, tem pavilhões em que rolam exposições de arte, shows e eventos. É um lugar bonito, de convergência de classes, onde as pessoas vão para andar de skate, caminhar, jogar pedrinhas na água e tirar fotos.

Nada disso explica porque o vereador Agnaldo Timóteo quer mudar o nome do parque de Ibirapuera para Michael Jackson. Vou refrescar sua mente sobre Agnaldo Timóteo.

agnaldotimoteofotos (1)
PURA SEDUÇAUM

Pois bem. Este senhor, que como todos nós sabemos foi cantor (ou talvez ainda seja, mas hoje sou obrigada a classificá-lo como vereador), quer homenagear o já falecido Rei do Pop trocando o nome do parque mais tradicional de São Paulo, que tem origem nos primórdios da cultura brasileira, pelo nome de um cantor norte-americano. Vamos ignorar a absoluta inutilidade de uma lei como essa e nos focar no absurdo do nome.

Nada contra. Essas coisas municipais só podem ser batizadas com nomes de pessoas que já morreram, então não vai demorar a surgir ruas, alamedas e praças Michael Jackson.

Mas batizar um parque que de domingo lota de criança andando de bike de Michael Jackson é muita sacanagem. Tipo, eu não levaria meu filho em um parque chamado Michael Jackson. E seria mais coerente trocar o nome do parque para Neverland, porque homenagearia Michael sem ficar totalmente nonsense.

E assim, qual é o problema com Ibirapuera? Eu acho um belo nome. Ele que mude o nome dele, puta nome esquisita. Eu tô acostumada com ‘Ibirapuera’ e sinceramente não quero ter que falar “hoje vou ver a decoração de Natal do Michael Jackson”. Ninguém quer. E Ibirapuera já tem um apelidinho maroto, tão tosco quanto SAMPA, mas útil: Ibira. Como você vai abreviar de forma inteligente o nome do parque sele for trocado para Michael Jackson? As pessoas não sabem nem ESCREVER Michael Jackson.

A gente sabe que quando os nomes dos lugares mudam assim do nada, demora pelo menos umas duas gerações pras pessoas chamarem aquela coisa pelo novo nome. Aqui em Santo André existem três exemplos disso:

- O Mappin, que fechou há uns 10 anos dando lugar ao shopping ABC, que todo mundo chama de Mappin até hoje;

- O parque Duque de Caxias, que foi rebatizado de Celso Daniel há pelo menos seis anos e ninguém chama pelo nome do prefeito morto;

- A estação de trem no centro que também foi rebatizada, de ‘Santo André’ para ‘Santo André – prefeito Celso Daniel’ e que ninguém chama pelo nome.

A única coisa que já pegou, ainda que mais ou menos, é a estação de metrô Corinthians-Itaquera. Palmeiras-Barra Funda, nem pensar. Não vou nem falar da Santos-Imigrantes, que ninguém deve saber que existe mas existe.

Não sei qual a do Agnaldo. O MJ deve ter influenciado a carreira dele, sei lá. Mas essa mudança é perturbadora. Sugiro portanto a criação da campanha #IbiraForever, via Twitter. Participe você também.

(Dica do @kadjoman)

312 Comentários

Manual Mercado Livre de Redação e Estilo

Você soube do #mercadolivreday no Twitter? Se não soube, tudo bem. Dá uma lida aqui que eu explico. Preciso que você esteja familiarizado com a ideia para filosofar a respeito dessa que foi uma das datas mais emblemática na história da interwebs brasileira, por ajudar a consolidar um fenômeno social bizarro que acomete todos aqueles que passam a fazer parte ativamente da comunidade de vendedores e/ou compradores no Mercado Livre.

Já assistiu o esquete de Monty Python chamado ‘My brain hurts’? Olha aí:

Quando o doutor coloca os apetrechos para operar cérebros, ele fica repentinamente estúpido. Muito burro. E é algo parecido ao que acontece com todo mundo que faz login no Mercado Livre: a pessoa emburrece. Conheci um cara formado em duas faculdades, plenamente articulado, muito inteligente… mas nada disso adiantava quando ele entrava no Mercado Livre. Uma vez lá, seus textos eram todos assim, adequados ao Manual Mercado Livre de Redação e Estilo. Confira alguns exemplos dessa que pode ser considerada uma nova escola literária (clique para ampliar):

ml
As características dessa nova corrente cultural são diversas, e refletem o comportamento e o perfil do brasileiro na internet. Observe: simpático e conciliador, o usuário do Mercado Livre sempre se dirige a qualquer outra pessoa usando o substantivo AMIGO, que acaba se tornando pronome de tratamento e transformando o ML numa rede social, tamanha a quantidade de amigos que a gente tem mesmo sem querer. Repare que você chama de AMIGO até o cara que tá xingando, de tão instituída que tá a coisa.

O estilo também reflete o entusiasmo e alegria do brasileiro. Escrever em caixa alta, sem vírgulas, conota uma gritaria sem fim e sem pausas, como a gente ouve por aí em todo bom cortiço nas capitais. Bonito.

Não dá pra esquecer dos erros ortográficos. Mas isso só confirma nossas altas taxas de analfabetismo, mesmo. Por fim, observe o OBRIGADO e o ABS sempre presentes no fim das frases. Eles também mostram o quando a gente é boa praça.

(ABS significa ABRAÇOS. Eu nunca entendi exatamente porque, já que ABRAÇOS deveria ser algo como ABÇS, no mínimo. ABS parece que você tá desejando ABRASSOS. Fora que ninguém dá abraços quando se despede, geralmente é um só, já que vários seriam interpretados de uma maneira socialmente mal-vista. Enfim)

O bagulho é instantâneo, eu fiz o teste. Uma vez lá dentro, fica impossível redigir qualquer coisa fazendo uso de vírgula. Eu não entendo porque, acho que tem a ver com a gente mimetizar o comportamente de terceiros. Ou o ML deve penalizar quem não escreve assim.

A única coisa que posso dizer a respeito é que esse não é o único lugar da internet em que as pessoas se comportam linguisticamente de forma bizarra. Inclusive, existe um site que supera o ML. Quem sabe um dia o site de leilões não supere o Yahoo!Respostas?

yresp

Aliás, demorou pra rolar o #Yahoo!RespostasDay.

pergunta

14 Comentários

#ForaSarney e a revolução com a bunda no sofá

Olha só, que alegria. O Irã entra pra história depois de usar o Twitter como principal ferramenta pra cobrir as manifestações contra a reeleição de Ahmadinejad. Coisa linda, a gente vivendo história, capa de todas as revistas.

Daê no Brasil a gente acha que tem poder porque emplaca um #chupa como Trending Topic (para leigos: palavras mais faladas) no Twitter. E porque recebeu uma resposta do Ahston Kutcher.

Como se não tivessem aprendido o suficiente depois da palhaçada que foi aquele MOVIMENTO CANSEI, algumas celebridades brasileiras que usam o Twitter acharam que a vida é fácil assim, e que poderiam usar O PODER DA INTERNET pra tirar o Sarney do Senado. Se você tá desinformado, resumo:

Gente famosa que tem Twitter, tipo o Christian Pior, o Marcos Mion e o Junior Lima supostamente se reuniram em um movimento pra fazer com que as pessoas no Brasil twitassem a palavra #forasarney e essa palavra entrasse também nos Trending Topics, como aconteceu com o #chupa.

Ok, então é o seguinte – eles perceberam no domingo, na partida contra os EUA, que os twitteiros brasileiros tinham força suficiente pra emplacar um trending topic e serem notados pelo Ashton Kutcher, a.k.a marido da Demi Moore, a.k.a Kelso, a.k.a @aplusk.

Até que pediram para que o Ashton Kutcher AJUDASSE, twittando o termo #forasarney e pedindo pra que os seguidores dele fizessem o mesmo. Ok, vamos fingir que isso não é patético. Estamos fingindo. Fingindo. Ainda bem que o próprio Ashton Kutcher não finge. Ele respondeu:

ashton_01

“Só VOCÊS tem o poder de tirar seu senador. É SEU país. Vocês têm que lutar pelo que VOCÊS acreditam. Eu não tenho voto”

O óbvio, que qualquer pessoa de bom-senso responderia na face da terra, mas que meia-dúzia de celebridades descabeçadas não enxergaram de primeira e precisaram que o Ashton Kutcher as lembrasse. FAIL. O Lucas fala de maneira majestosa sobre o showzinho das celebridades brasileiras neste post.

Acho que eles pensaram que esse negócio de internet é realmente revolucionário, que você pode fazer a revolução sem levantar sua bunda do sofá. Até eu que sou mais boba sei que não funciona assim, amiguinhos. Não é porque você coloca uma tag lá no topo de um site gringo que os governantes olham aquilo e dizem: “Oh! O povo brasileiro está realmente indignado e furioso. É melhor convencermos o Sarney a deixar o cargo.”

A cobertura e a revolução que o Irã provocou não foi fabulosa simplesmente porque aconteceu no Twitter, senhores famosos. Foi fabulosa porque o Twitter serviu como TRANSMISSOR de algo que estava NAS RUAS. Foi feita por pessoas, gente comum, e não VJs da MTV, cantores infanto-juvenis de moicano e apresentadores de programas dominicais. Aliás – foi feita também pelos VJs, pelos cantores, e apresentadores, mas os holofotes, eu garanto, estavam sobre o povo que se manifestava nas ruas pela recontagem nos votos. O Twitter revolucionou apenas a maneira de MOSTRAR isso pros outros.

Esse ‘movimento’ que eles chamaram de #forasarney entra no meu TOP 5 VERGONHA ALHEIA 2009.

Não esqueça: Sarney e a família dele estão em cargos públicos desde antes da gente, que usa o Twitter, NASCER. E desde aquele tempo eles são também donos de uma porção de veículos midiáticos. Isso não nos impede de derrubá-lo da presidência do senado, mas eu posso garantir que isso não será feito caso consigamos fazer um número muito grande pessoas escrever uma palavra em uma rede social.

Não sei vocês, mas eu gostaria muito que mudar o mundo fosse fácil assim. Emplacou um Trending Topic no Twitter, voilà. Já pensou? Teríamos evitado uma série de tragédias, ainda mais considerando a possibilidade de o Twitter existir antes, como cogitou o Huffington Post esses dias. Teriam possíveis #InquisiçãoNão, #ForaLuísXIV ou #DiretasJá evitado guerras ou contribuído para o triunfo de movimentos sociais?

Ou mesmo se houvesse a possibilidade de coberturas colaborativas em outras épocas, veríamos coisas como “#Auschwitz eu e minha família fomos encontrados no sotão por esses fdps da SS. Por favor, RT!” ou “#RevoluçãoFrancesa acabamos de derrubar a Bastilha!”?

Ok, teria sido engraçado. De qualquer forma, nesses casos – em todos eles, aliás – o Twitter teria eficácia. Porque ele estaria apenas reportando algo que estaria de fato acontecendo nas ruas. Mas se fosse algo do tipo “#CaiBastilha vamos acabar com essa palhaçada pessoal, RETWITTEM!“, well, os livros de história como conhecemos TALVEZ estivessem um pouco diferente hoje.

A revolução não será criada na internet – a internet só tem o poder de espalhá-la mais.

Infelizmente, leva um pouco mais do que Trending Topics pra fazer as coisas mudarem.

Baseada na lógica da simplicidade de mudar o mundo dos amigos famosos aí, o Danilo Gentili, andreense e pertinente como sempre </rimas>, soltou:

pazmundial

E eu aderi à causa, claro. Sou entusiasta da #PazMundial e não vejo jeito melhor de fazer essa benção ser instuída do que escrever essa tag no meu Twitter. Criei inclusive a #PazMundial DOS BROTHER. Obtive bastantes retweets com essa brincadeira – ou seja, usei o humor e fiz a minha parte para chegar mais perto da #PazMundial. AH! E também pedi para o Ashton Kutcher nos ajudar nessa, ou seja, segui todo o protocolo de revolução via Twitter. Quando alcançarmos a #PazMundial, poderei dizer – fiz a minha parte rumo à #PazMundial! Ainda não somos Trending Topic, mas eu sou brasileira e não desisto nunca da #PazMundial.

Editado: a pedidos, esclareço uma posição que temo que não tenha ficado clara no post pra algumas pessoas. Não sou contra o ‘movimento’ #ForaSarney no Twitter nem em lugar nenhum. Ser ‘contra’ não é a palavra correta aqui. Só acho que algumas celebridades engajadas nisso o estão fazendo de maneira oportunista e irresponsável, já que na minha opinião o objetivo real deles não é tirar o Sarney da presidência do Senado, e sim se promover. Acho legal quando a manifestação parte dos usuários do Twitter em si e endosso mais ainda o uso da tag como agregador de notícias sobre a causa em si, como fizeram Rafinha Bastos e Marcelo Tas

223 Comentários