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Fuck, o furacão amiguinho

Como a pobre e ingênua Suzy, quando criança eu também criei um personagem de nome Fuck. Fuck era um furacão. Estava mais para um tornado, pensando bem – a gente não desenha um furacão, né. Mas eu achava que aquilo era um furacão então assim vou chamá-lo. Fuck era um furacão simpático, serelepe e bem espevitado.

Fuck foi concebido por mim para ser um personagem de games. Eu ia enviar a sugestão para a revistinha da SEGA, mas antes mostrei para minha mãe, que riu e me alertou para o fato que Fuck era um palavrão em inglês. Desanimada, desconsiderei trocar o nome do bichinho e enviar a sugestão, e o desenho se perdeu no limbo da minha infância.

Mas foi por bem. Fuck, o furacão personificado, era bonzinho, o que provavelmente causaria alguns problemas para pensar o roteiro do game. Seria Fuck um furacão que destruiria casas de gangster malvados? Ou ele causaria tempestades marítimas que, como mágica, limpariam o lixo do mar? Pior – Fuck seria um furacão tradicional, que destruiria tudo pelo caminho, mas sua condição de bonzinho causaria então uma eterna depressão pós-destruição, que faria com que Fuck lutasse contra sua própria natureza de furacão para seguir a verdade em seu coração?

Espero que a SEGA esteja aí, vendo minha sugestão, e possa colocá-la em prática mesmo tanto tempo depois. Essa última ideia ai que eu dei de roteiro dá pra ganhar prêmio, heim.

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Project Natal: parece que o futuro chegou, e eu tenho medo dele

Tá rolando a E3 nos EUA. Como sei que meu público é plural e diversificado, peço uma pausa para explicar aos não-nerds o que é a E3.

E3 é a maior feira de games do mundo, palco para as fabricantes apresentarem as tecnologias que possivelmente dominarão o mundo no ano vindouro.

Explico também ao leitor leigo que os videogames, antes considerados artigos de nicho, reservados somente a um grupo restrito de aficionados, acabaram popularizados entre todos os gêneros e idades pela Nintendo com o lançamento do Nintendo Wii, aquele videogame maneiro que tem um controle em formato de tijolo que reconhece os movimentos do jogador.

(Aproveitando, deixo um apelo: nunca joguei Wii. É, eu sei. Vergonhoso. Portanto, caso alguém esteja pensando em dar uma Wiiparty na Grande São Paulo, enviem o convite. Grata)

Obrigada pela paciência. Na E3, a Microsoft apresentou um esquema que chama Project Natal, um acessório para Xbox 360 que transforma o próprio jogador no controle.

Sim, aparentemente é tão preciso e assustador quanto o vídeo mostra. O acessório é capaz de reconhecer o corpo do jogador e transportar isso para dentro da interface do jogo, tornando desnecessário o uso de um controle plástico para direcionar seus movimentos. A idéia é – apenas faça o movimento e isso será replicado na tela.

Mais assustador ainda é o próximo vídeo, que dá uma dimensão de outra tecnologia de inteligência artificial que está sendo desenvolvida para funcionar junto com o Project Natal e que, tecnicamente, já poderia ser colocada a disposição para o consumidor final através de um console e do acessório necessário:

Nesta simulação (em inglês, e sem versão com legendas no YouTube, sorry), um personagem de dentro de um videogame conversa com alguém da vida real. Ele é capaz de reconhecer faces, então identifica quem essa pessoa é, e a chama pelo nome. Também é capaz de reconhecer expressões faciais e tons de voz, por isso, identifica a inclinação emocional da pessoa. Através de uma interação por câmera, a pessoa DESENHA ALGO EM UM PAPEL e mostra isso ao garoto do vídeo, que PEGA O PAPEL, olha o desenho, reconhece-o e comenta o desenho.

Parece filme de ficção científica daqueles que de tão exageradamente futuristas viraram trash-cult. Não são poucos os roteiros em que gente de verdade caminha e interage fisicamente dentro de um mundo virtual, e a concretização disso me parece, ao mesmo tempo que fantástica, assustadora.

Primeiro, tem a inteligência artificial dessa parada, que de tão próxima a nossa maneira de relacionar dá medo. Quanto mais próximo um organismo com IA é ao interpretar e responder a estímulos de seres humanos, mais a gente falha em reconhecer esse sistema como uma máquina desprovida de ‘personalidade’, ‘sentimentos’ ou seja lá o que isso for. A gente acaba atribuindo essas características àquilo sem querer, por instinto, porque bem ou mal aquela imagem ou robô se comporta como um de nós se comportaria.

Se isso já perturba pessoas que tem apenas leves desvios de personalidade (eu), imagina o que vai se tornar uma tecnologia dessa na mão das milhões de pessoas no mundo que tem problemas de interação social? Se você tem um computador que te trata melhor do que qualquer ser humano que você conhece, porque você vai tentar se relacionar com pessoas?

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Pra pedir cigarros

Num mundo onde as pessoas estão gradualmente mais individualistas, mais mal-educadas, mais egoístas, nem vai ser muito difícil desenvolver um robô que seja mais educado e simpático que a maioria das pessoas que a gente encontra por aí.

E eu fico pensando nas consequências sociais. Na adolescência, o período difícil, é possível que os jovens se enclausurem mais dentro de seus quartos, na frente dos videogames. Vão aparecer aqueles casos bisonhos, de gente que se apaixona por Lucy, a moça de dentro do videogame; do rapaz que entrou em depressão depois que o Xbox 360 deu 3 red lights e ele não pôde mais papear com Fred, seu melhor amigo virtual (virtual de ‘não existir’, e não como aquele conceito antigo, que diz que amigo virtual é amigo feito pela rede), e uma série de outras esquitices dignas da editoria Mundo Bizarro do G1.

Meu parecer? Prato cheio pra pós-graduandos em psiquiatria, psicanálise e campo de estudos muito vasto pros profissionais dessa área (vão ganhar grana pra caramba). Ademais, estamos entrando numa era que muitos escritores de ficção científica previram, e que muitos de nós duvidaram que seria verdade – um tempo em que se tornará cada vez mais difícil distinguir máquinas de gente.

Pela minha idade (se eu ignorar os índices de criminalidade do Brasil, as possibilidades de morrer em catástrofes naturais e o próprio fim do mundo em 2012), provavelmente estarei aqui pra ver isso. No fundo tenho medo, mas quer saber? Mal posso esperar pra testemunhar a tecnologia que deve selar nossa ascensão ou destruição definitiva. Ou não.

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Sequestrador ameaçou polícia com pistola difícil de encontrar

Na semana passada, no município de Samambaia, no Distrito Federal, um senhor que responde pelo nome incomum de Bejamiro Emídio de Jesus, ficou bem louco num bar e decidiu que faltavam R$42 em sua carteira. Talvez ele tenha se dado conta disso depois de gastar R$42 em cachaça, mas isso não vem ao caso.

Eu nem preciso ficar bêbada pra abrir a carteira e perceber que falta bela muito, muito dinheiro. Mas Bejamiro não é homem que leva desaforo pra casa (quer dizer, ele levou pra casa, mas não pra dele): ele ponderou e decidiu invadir a residência de algumas das pessoas que estavam com ele no bar, para reaver os R$42 na marra, e fez quatro pessoas de reféns por cerca de 10 horas.

A polícia militar do DF prendeu Bejamiro, e divulgou as fotos da operação policial. Agora vamos brincar do jogo dos 7 erros, mas finja que você só precisa encontrar um deles (clique na imagem para ampliar).

Sequestro no DF com Light Phaser

Nada de errado? Ok, vou te dar uma dica. Leia este link na Wikipedia.

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Sim, meu caro. Este senhor ameaçou a polícia por cima de uma mureta com uma pistola a laser usada no Master System, uma Light Phaser. Muita gente já falou desse FAIL policial, mas Bejamiro também portava facas quando foi preso, e em uma das fotos ele ameaça uma das reféns com uma faca, então ele não era de todo inofensivo.

O G1 conversou com alguns especialistas em games que deram quase 100% de certeza que é uma Light Phaser. Mas não precisa ser especialista em game pra reconhecer, comparando as duas fotos. A polícia disse que vai ‘periciar’ a arma pra descobrir se não é uma arma de verdade disfarçada de Light Phaser (tudo bem que seria extremamente engenhoso e, sem querer desdenhar de Bejamiro, não acho que ele perderia tempo construindo tal equipamento – ele é do tipo de pessoa que invade casa de gente aleatória supondo que roubaram-lhe R$42), e eu gostei da palavra ‘periciar’, porque ela concede um aspecto muito mais profissional e científico ao ato de olhar a parte da frente do cano da pistola e ver se ali tem um buraco por onde poderiam sair balas ou se tem um pedaço de plástico transparente.

O mais triste de tudo é que o o moleque (um dos sequestrados é um menino de 15 anos, que eu suponho que tenha herdado a raridade de outro deles, o irmão de 19) tinha um fucking Master System, um videogame que foi criado antes de eu nascer. Mas não era tão ruim – apesar dos gráficos pífios, ele tinha uma pistolinha de luz, que elevava a diversão e a interatividade da coisa a uma potência quase comparável a de um Nintendo Wii. E agora tudo que ele tem é um Master System.

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Univerxadrez

E daí que cheguei na faculdade esse ano e encontrei os batentes das portas ornados por uma caixinha preta com um led que, dependendo da situação, era verde ou vermelho.

A única vez em que tinha me deparado com algo parecido foi quando me aventurava na Rússia soviética como agente secreta da coroa britânica. No Nintendo 64, jogando 007 Goldeneye – as caixinhas nas quais você deveria encostar as credenciais que abriam as portas eram iguaizinhas.

007

Normalmente a gente não precisa alvejar os soldados antes, mas acho que é uma das próximas medidas

Um pouco de conversa com os amiguinhos foi o suficiente para sacar que, muito embora eu não fosse mais agente secreta na Rússia soviética, aquelas caixinhas eram mesmo autenticadores de credenciais. As portas da universidade não usam mais o defasado sistema de chave na fechadura. As portas só se abrem com o professor passando o crachá.

Moderno, arrojado, primeiro mundo. Economiza tempo, porque o professor não precisa ir até a sala dos professores buscar a chave quando chega. E aumenta a segurança. Lindo.

Só tem uma coisa. Junto com as caixinhas pretas, veio uma nova política gatekeeper na faculdade – uma vez fechada pelo professor que entrou na sala, a porta não abre mais pelo lado de fora. Lá, encontra-se apenas uma maçaneta falsa, travada, pura ilusão para constranger o aluno que pegou recorde de trânsito em SP ou que só quis mesmo passar no bar antes de entrar – só pra ver se tinha alguém lá, sabe como é – ou seja lá o que for que fez o cidadão atrasar.

A política nova obriga ao aluno bater na porta e esperar que o professor abra. Toda vez em uma aula que um aluno chegar atrasado o professor será obrigado a parar a aula, desviar a atenção de toda a sala para o aluno em questão e abrir a porta pra ele. Para cada aluno atrasado. Todas as vezes que um aluno chegar atrasado, o professor terá oportunidade de olhar bem para a cara dele, pois terá sido ele mesmo quem abriu a porta. E como eu sei que tem uns professores bem loucos, tenho certeza que algum deles será capaz de negar ao aluno a abertura da porta.

Eu não consigo expressar minha indignação diante de tamanha… sei lá, catracalização. Porque quero usar palavra de redação da FUVEST. Porra, será que teve mamãezinha ligando e reclamando que o filho tava indopro bar? Estamos numa faculdade, não na oitava série. Daqui a pouco, a gente vai ter que pedir pra sair da sala se quiser ir no banheiro.

Fico imaginando sob qual pretexto um grupo de pessoas resolve tomar uma atitude dessa numa universidade. Tem lá a mesa diretora, com o reitor, o conselho educacional e sei lá. E alguém sugere inutilizar as maçanetas do lado de fora – como um grupo de pessoas concorda com isso? Que explicação eles pretendem dar aos alunos para justificar uma decisão dessas?

O mais frustrante é o contraste diante de uma situação recente – meu irmão, que passou na Unesp, veio com seu ‘Manual do Bixo’ para casa. O livro, que explica toda a dinâmica dos cursos, todas as atividades possíveis disponíveis aos alunos na faculdade, tudo mesmo, é escrito pelos próprios. Eles até falam mal da reitoria. E o livro é impresso na gráfica da Unesp. A diferença entre a minha e a dele podia ser só o ‘n’, mesmo. Pena que é mais que isso.

A única coisa que aluno imprime na minha faculdade é resumo de livro que não leu, 10 minutos antes da prova. Gráfica? A faculdade deve ter, mas alunos não usam, óbvio. O contato mais próximo que os alunos têm com organização espontânea de coisas dentro do ambiente acadêmico é a organização de festas, atividade desempenhada, aliás, com muita maestria.

Não bastavam as catracas na entrada e a obrigatoriedade de carteirinha pra uma delas, agora você precisa da permissão e da ação do professor pra entrar na aula. Aguardem o próximo capítulo, em que minha mãe terá que assinar com um visto de ‘ciente’ um bilhete escrito por um dos meus professores dizendo que eu não me comporto na aula. Pff.

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