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Arquivo: gripe suína

Quem tem medo da Gripe Suína?

Agora todo mundo tem medo desse negócio. Me dá coisas quando ando na rua e vejo gente de máscara. Acho que dá um certo glamour pro país, sabe? Porque a gente é atrasado até na chegada das epidemias. Tava o mundo desenvolvido inteiro já na vibe das máscaras antigripe. Europa, EUA, todo mundo. Por aqui só chegou agora, como sempre.

mascara

Não basta estar protegido, você tem que fazer isso com estilo

Quando vejo pessoas de máscara na rua alguns pensamentos intrigantes me acometem. A saber:

1) Será que ele sabe que a máscara não previne que o indivíduo contraia o vírus, só diminui a chance de transmití-lo caso ele esteja com sintomas da doença?

1.1) Se sabe, então há suspeitas de que ele esteja infectado? Devo correr?

1.2) Se não sabe, eu deveria avisá-lo para poupá-lo do constrangimento que essa postura patética está causando ao redor?

A questão é que eu não consigo entender tanto alarde por causa da doença. Quer dizer, consigo – é que os jornais tratam como se fôssemos todos morrer de dor de garganta e febre alta. As manchetes da semana passada diziam “Morrem mais dois infectados pela gripe suína. Vírus já está a solta no país”. Oi? “A solta”? É tipo “Prendam este vírus!”

A Gripe Suína é só uma variação um pouco mais letal da gripe comum. Pode afetar gravemente gente com problemas respiratórios, idosos e crianças. Mas é só isso. Tem tratamento, o índice de mortalidade é menor de 10% e é capaz que alguns de nós já tenhamos pego a gripe nos curado dela achando que era a comum.

Se pegar, pegou. O tratamento é IDÊNTICO ao da outra gripe, àquela que todo mundo já teve. Repouso, remédio que alivia os sintomas e só. Ou seja, não tem nenhum motivo pra sofrer por antecipação. Se tiver que pegar, vai pegar. Daí vai no médico e trata. Máscara não vai te proteger. Não há nada que possamos fazer pra evitar o contágio.

AAAHH, sim. Há sim, segundo infectologistas. Primeiros, as mãos. Você precisa lavá-las muito, sempre, evitar contato com as mucosas. Até aí ok. Mas gosto mais da segunda principal recomendação – evite multidões. Gente aglomerada. Lugares fechados.

Como é que você evita multidões no esse mundo onde tem gente saindo pela culatra? E como é, EM NOME DE DEUS, que você evita lugares fechados? Só sendo morador de rua pra ficar livre da Gripe A, portanto?

cracolandia

Já consigo ver os hipocondríacos se mudando pra Cracolândia

Po, segundo essa lógica todo mundo se isola em casa. Pra evitar multidões eu não posso sair do meu quarto, porque na minha casa moram cinco, e se a gente se enfiar, digamos, no quarto do meu irmão, já vira uma multidão relativa. Não posso ir trabalhar, porque o trem pode se caracterizar como multidão confinada em lugar fechado. Não posso ficar dentro da empresa, é tudo fechado lá e tem um monte de gente.

Ou seja, é aquilo que eu disse: você não pode correr. Esse negócio passa pelo ar, máscaras não o intimidam, as dicas pra não pegar são impraticáveis e se você tiver que pegar, vai pegar. Depois disso, você se descabela. Não dê ouvidos às manchetes que dizem que o vírus já corre solto do Oiapoque ao Chuí. 70.000 pessoas morreram de gripe comum no Brasil no ano passado e eu não vi ninguém usando máscara e mandando prender vírus.

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Quem canta, seus males espanta. Ou não


Lavagem das mãos deve durar dois “Parabéns a você”, diz OMS

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Então, funciona assim. A lavagem de mãos IDEAL, pra deixar você completamente longe de todas as pragas malditas que infestam esse mundo sujo, precisa durar de 15-20 segundos.

Basicamente, a notícia é essa. Lave as mãos, cante Parabéns e evite a Gripe Suína.

Só que a OMS quis fazer uma brincadeira. Não saquei qual foi, sério. Deve ter um assessor de imprensa que disse ‘precisamos tornar as coisas divertidas pras crianças. Precisamos traduzir esses 20 segundos numa linguagem que a população saiba entender’.

Na verdade, na faculdade de jornalismo a gente aprende que precisa levar pro leitor a notícia de um jeito que ele entenda. Então, em vez de dizer que ‘X hectares da Mata Atlântica foram desmatados em um ano’, é mais impactante explicar que isso equivale a sei lá quantos campos de futebol. Trazer a notícia pra uma dimensão que o leitor conheça.

Só que eu desconfio que mesmo uma boa parcela dos analfabetos no mundo saiba contar pelo menos até 20. É só um feeling, porque não é exatamente algo muito sofisticado, e essas pessoas precisam aprender a contar de qualquer forma – elas contam filhos, contam telhas da casa, contam dinheiro. Até 10 todo mundo sabe – 20 é dez duas vezes, pronto. Mas ainda assim a OMS resolveu fazer a piadinha.

De acordo com eles, enquanto a gente lava as mãos precisa cantar Parabéns a Você duas vezes. Mas sem a parte do É pique, é pique…. Entendeu? Tipo, só até …muitos anos de vida!, ai começa de novo.

Acessibilidade, essa é a palavra. Porque na mesma matéria uma enfermeira diz que outra solução é ‘pensar no alfabeto’, sem especificar se a gente deve falar todas as letras de A a Z ou sei lá, o que se torna estranho. E um analfabeto pode até pensar no alfabeto, mas não pode recitá-lo, e isso o excluiria automaticamente de lavar as mãos caso a OMS dissesse ‘lavar as mãos deve ter a duração de um alfabeto’. Então tá explicado o negócio do ‘conte até vinte’.

Só tem um problema: quero ver alguém fazer esta merda. Porque me parece a cena mais ridícula pela qual alguém pode passar voluntariamente (excetuando-se eventos de Cosplay). Vai no banheiro do trabalho, finge que não tem ninguém lá se tiver, aperta o botãozinho do sabão, abre a torneira e começa ‘Parabééééns…’. O legal é que quando todo mundo começar a te olhar estranho, você vai RECOMEÇAR, essa é a parte mais interessante. Se der, grava um vídeo, e manda pra OMS, pra eles deixarem de ser otários. Porque vão resolver problema de gripe mas vão acabar criando um monte de gente com distúrbio psíquico. Porque se você canta Parabéns enquanto lava as mãos, e duas vezes, e acha isso OK, tem algo de errado com você.

Mas se tiver mesmo, quero ver você lavar as mãos cantando Parabéns e fazendo cosplay.

E se você assistiu Castelo Rá-Tim-Bum, então sabe que a gente não precisa parecer COMPLETAMENTE LOUCO pra deixar as mãos limpinhas:

A propósito, se quiser usar essa música como marcação em vez do ‘Parabéns’, esfregue as mãos até a parte em que o fabuloso Arnaldo Antunes diz ‘Depois de brincar no chão de areia a tarde inteira’. Daí dá certinho. Bem mais legal, né?

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Gripe suína, a moda e as lendas urbanas

É, a gripe suína se consolidou mesmo como a mais nova febre (há!) do verão outono. Mais contagiosa que música do Latino (que bela piada heim? Mas tem um paralelismo, juro), ela esta nós fazendo regredir um pouco na outrora fabulosa medicina moderna e serve como uma overdose de humildade pros que realmente acreditavam na supremacia da raça humana.

Topo da cadeia alimentar? Não sei não. Afinal, é tão século 12 as pessoas morrerem por causa de gripe. Eu já disse: o planeta tem meios de espirrar nossa espécie pra fora quando ele quiser, se julgar necessário. A possibilidade de uma pandemia no séc. XXI é só a prova.

Mas a vida continua, ainda que com máscaras cirúrgicas ridículas sendo usadas por 90% da população mundial. E eu fico imaginando se um acessório tão sóbrio pode, daqui algumas décadas, se tornar um adorno de vaidade. Porque assim que as pessoas começaram a usar colares e correntes com pingentes – acreditava-se que esses ‘patuás’ protegiam contra doenças e maldições dos deuses malignos da antiguidade.

Em décadas, quando as mutações dovirus da gripe forem tão letais, diversas e frequentes que não vai ser possível sair de casa sem máscara, a coisa vai passar a fazer parte da cultura humana. E ainda que a medicina futura encontre uma vacina contra todas as mutações, o uso da máscara perdurará. E como pra toda tendência moderna, já temos os vanguardistas. Já consigo até prever os editoriais de moda:

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Esse mexicano abusou do bom humor e dos estereótipos de seu país pra tornar o acessório único

FLU/
Uma borboleta, o símbolo da feminilidade, foi o tema escolhido por essa funcionária de um aeroporto mexicano

MÉXICO-GRIPE PORCINA
Rebeldia, criatividade e improvisação: três palavras que têm tudo a ver com juventude e com máscaras cirúrgicas

Daí vão te ensinar como combinar sua máscara com os outros acessórios, variações divertidas (máscara de bandido do faroeste; fantasia de médico). Pelo menos ainda não caímos no ridículo de colocar máscaras nos porquinhos. Aliás, uma máscara com um nariz de porquinho seria de uma criatividade e ironia formidáveis.

Mas a realidade é: eu tô morrendo de medo dessa gripe. Só consigo fazer um paralelo com a Peste Bubônica (sem exagero), com o fim do mundo, o apocalipse bíblico, Nostradamus, Inri Cristo (?) e todas essas figuras de fim do milênio. Mas sabe que essas coisas são necessárias de vez em quando, né? Pra dar uma segurada no crescimento populacional. A gente sabe que as pessoas morrem mais nos países mais pobres, que não contam com condições sanitárias adequadas pra suportar uma epidemia desse tipo. E é nos países mais pobres que as taxas de natalidade bombam. A natureza sabe das coisas.

E enquanto o governo brasileiro diz que reforça medidas contra a chegada da gripe por aqui, apesar de termos 12 casos de suspeita (impossível conter; não adianta mascarar os viajantes nos aeroportos, já que já tem gente contaminada nos países que fazem fronteira com a gente), hackers usam a história pra vender remédios falsos sobre a doença, eu fico pensando numa coisa só.

Me chame de maluca paranóica por teorias da conspiração. Mas se é sabido que as empresas que desenvolvem softwares de antivírus precisam investir na criação de novas tecnologias de vírus, porque isso não seria uma verdade no mundo real? Só dois laboratórios fabricam remédios que podem combater a gripe do porco.

E no mais, sábias mesmo são as palavras de @RonaldRios:

ronald

Eu também nunca conheci ninguém. Aliás, nem discuto mais esse negócio do Acre não existir. Pra mim, até Dengue é lenda.

artigoironico

PS.: Escrevi esse depois de assistir Charlie: the Unicorn 3. Acho que daí vem a psicodelia e a ausência de sentido.

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