OEsquema

Arquivo: heloá

Rave de Jesus é coisa do passado: veja a rave da Eloá!

Há quem se surpreenda com a rave pra Jesus. Mas esse tipo de comemoração já tá fora de moda. O negócio agora é rave da Eloá!

flyer_eloa_cristina_festival

Segundo informa o Bruno nesse link do Limão, a festa – chamada ‘Balada de Responsa’ é organizada por um fulano com o delicado nome de Andre Kaveira, que comanda uma ONG no Pará.

O objetivo, de acordo com a organização, é conscientizar os jovens para a doação de orgãos. A festa rola nesse dia 13 (desculpe avisar tão em cima, leitor Paraense!) e conta com as presenças imperdíveis da banda de pagode Jeito Inocente, da DJ Sainha e, como destaque, traz Serguei (SIM, ELE) e a Mulher-Filé pra animar a galera. Na verdade, as atrações são dezenas – confira a lista completa e vomite aqui.

Eu achei os convites bem apropriados porque se tem alguém que entende de doação essas pessoas são o Serguei (que é pansexual) e a Mulher Filé.

Eu poderia passar parágrafos criticando a bizarrice de um evento que usa a imagem de uma menina que morreu associada à doação de orgãos para angariar patrocínio – ainda mais sob a fachada de que é um evento beneficente, de conscientização. Sim, porque todos esses músicos produzem letras cheias de mensagens muito ricas. Toda a volúpia e sensualidade das gostosas que se apresentarão também contribuirão, muito certamente, para que o público do evento – especialmente o masculino – reflita e se mobilize para a importância da causa de doação de orgãos. E quer um ambiente melhor para se conscientizar e mobilizar jovens do que show de pagode e funk? Como ninguém nunca pensou nisso antes?

Mas não vou fazer nada disso, porque a própria mãe da Menina Eloá de Santo André apóia o evento. E se ela apóia, quem sou eu pra falar alguma coisa, né?

18 Comentários

Praticando a desconfiança: um guia prático

Com que freqüência você duvida das coisas que ouve? Seja dos amigos, dos seus professores, mãe e pai, televisão, jornal, revista e dos blogs que lê – quantas vezes você termina de ouvir ou ler algo e se questiona se tudo aquilo é verdade? Você tem por hábito procurar informações que contradigam as coisas em que você acredita desde sempre? Acha que isso é loucura?

Provavelmente a maioria das pessoas pensa que é confortável – e até acha correto, em certos aspectos – se acomodar em uma opinião. Sempre me disseram que acreditar em algo e defender aquilo é ter personalidade forte, caráter, não ser volúvel e nem influenciável.

Mas de alguns anos para cá, por influência da faculdade de jornalismo e do exercício da profissão, eu adquiri um novo conceito sobre o que é ter ‘personalidade forte’ (se é que isso é importante). Eu sou, com muito orgulho, uma pessoa altamente flutuante nas minhas convicções.

Quero dizer o seguinte: eu desconfio. Eu desconfio de tudo o que ouço, o que vejo, o que leio. Tenho por hábito a desconfiança. E ela é fundamental para que possamos entender que todas as estórias têm faces que que dificilmente serão exibidas se você não se der ao trabalho de ir buscá-las.

Quando eu percebo que há um interesse genuíno de alguém ou algo em me influenciar a acreditar em algo, acendo o duplo alerta da desconfiança. Se eles querem que eu acredite, então existem ainda mais motivos para duvidar.

Eu duvido pelo prazer de questionar aquilo em que eu mesma acredito. E depois duvido da dúvida que eu criei. Eu duvido das pessoas e apresento para elas, com freqüências, argumentos contrários ao que elas acreditam, e perfeitamente plausíveis, pelo prazer de ver a cabeça delas dando um nó. É uma espécie de hobbie cruel e sádico. Eu duvido às vezes sem concordar de fato com a dúvida que surgiu, só porquê acho fundamental que todo mundo se questione todos os dias sobre suas convicções, sempre. Desde muito tempo, às vezes tenho a nítida sensação de que é para isso que estou aqui: fazer com que as pessoas se perguntem sobre o que elas acreditam.

Gostou da idéia, mas não sabe por onde começar? Confira as regras de ouro da desconfiança para uma vida mais crítica e questionadora (e um pouco mais complicada, mas sem dúvida mais divertida):

  • Regra de Ouro da Desconfiança #1: quanto mais presente um assunto estiver nas manchetes e na boca do povo, mais desconfiado dele você deve ficar.

  • Regra de Ouro da Desconfiança #2: se você perceber que estão tentando te convencer de algo sem que isso lhe seja dito diretamente, você tem aí o principal motivo para não se convencer desse algo.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #3: vídeos e aspas não provam nada. Pessoas mentem, erram, são imprecisas e suas declarações podem ganhar teor diferente em diferentes contextos.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #4: o Google é seu melhor amigo.

  • Regra de Ouro da Desconfiança #5: Fique longe da Veja.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #6: Sério. Fique longe da Veja. E nem é discursinho pronto de estudante, ok? Não vou dizer ‘a Carta Capital sim é boa’, aliás nem tenho saco para a Carta Capital. Apenas fique longe da Veja. A revista é nojenta.
  • Regra de Ouro da Desconfiança #7: Espalhe a semente da desconfiança. Conteste as convicções das pessoas ao seu redor por esporte. Mas faça tudo parecer uma grande brincadeira em uma dicussão saudável. Não queremos que você afaste as pessoas, não é?

Apenas fique atento para fugir da armadilha do niilismo. Não é negócio duvidar da própria existência, até porquê um autêntico duvidador tem a certeza de que duvida, e se duvida, logo existe.

Para todas as coisas existem não dois, mas muitos lados. E vai ser muito difícil percebê-los se a gente se acomodar nas coisas que acredita, que a gente lê na Veja, que o jornal nos diz. Duvidar não é algo simples de se fazer, porque dá um trabalhão, claro – é mais fácil engolir as coisas como estão, prontinhas. Mas eu acho que vale a pena.

De qualquer forma, você já pode começar duvidando desse texto.

78 Comentários

Fuja para as colinas

Foto por Evelson de Freitas, da Agência Estado

Corrão!1111! todos. Fuja enquanto é tempo. Coloque sua família num carro e dirija sem destino. Estoque mantimentos no porta-malas. Compre um manual de sobrevivência de bolso, baixe centenas de audiobooks para tocar no som do carro e adquira revistas de caça-palavras para exercitar a memória. Daí, declare seu próprio exílio e suma daqui. É o fim do mundo, meu amigo. E sua única chance é correr.

Nenhuma outra situação explicaria o que aconteceu nessa quente e arrastada quinta-feira de outubro em Santo André. Nada explica a polícia ter DEVOLVIDO uma das reféns – menor de idade – para o sr. Lindembergue sob o pretexto de que ela ajudaria a negociar a libertação da pobre moça Eloá. Oi? O cara faz concurso público, estuda uma porção de anos, ouve grito de Capitão Nascimento no ouvido para aprender a lidar com seqüestrador em situação de negociador. Ele até ganha um uniforme bonitão, colete à prova de balas e tudo, com a palavra NEGOCIADOR bordado atrás. Formidável.

Aí ele manda uma menina de 15 anos subir no apartamento e fazer o trabalho por ele. Faltou desconfiar que em hipótese nenhuma isso daria certo.

Que tipo de polícia devolve refém menor de idade para seqüestrador?

Vai ver é do mesmo tipo de polícia que luta com polícia no meio da rua. Eu nunca imaginei que veria algo desse tipo. Na mesma quinta-feira quente e arrastada, mas uns 30km mais longe, policiais do Estado de São Paulo esbofetearam-se entre si numa briga sem precedentes. A pergunta que fica: enquanto eles brigam entre si, quem briga pela gente? Beleza que é no Rio, mas você sabe que faz parte do contexto – quem briga pelo diretor do Bangu 3, o sétimo diretor de presídio fluminense a ser assassinado em oito anos? Relatos diziam que ele era um servidor exemplar – óbvio que era, se não fosse e tivesse aceitado grana do CV não tinha morrido.

Eu avisei: corra enquanto é tempo. O ‘Servir e Proteger’ já se aposentou há um tempão. Com salário integral. Mas sem reajuste há uns 15 anos.

39 Comentários