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Arquivo: hipocrisia

A Hora do Planeta e a esmola energética

Esse é um exercício conduzido de auto-crítica. Se você não gosta da idéia de achar coisas ruins em você mesmo, feche o navegador.

Ok, comecemos.

Você dá esmola? Por que? Você se sente bem dando esmola?

E eu tô pedindo pra você analisar isso lá no fundo do sentimento que te acomete quando você, tomado pela generosidade e magnanimidade, enfia a mão no bolso, tira 50 centavos e entrega praquele moleque malabarista no farol.

Ou mesmo quando você, que não dá esmola nem ferrando, se dispõe muito prontamente a pagar um lanche pro menino que te pediu dinheiro pra comer na rua. O quão satisfeito você se sente consigo mesmo por tão nobre ato?

Se você analisar, verá que sente um prazer. Um leve prazer. Há uma satisfação consigo mesmo. Um orgulho de ser tão bom, tão generoso. Esse orgulho, no caso de algumas pessoas, as isenta de algumas outras responsabilidades para com o mundo. Explico: quando vem um menino pedir dinheir no vidro e você diz “Ah, já dei dinheiro hoje” – sério, tem gente que usa esse argumento – o que você quer dizer com isso? Porque não faz nenhum sentido. Você deu dinheiro, mas não praquele menino. Aquele menino vai continuar sem dinheiro, não importa o quanto você já tenha dado em moedas no mesmo dia. Logo, você doa pra se sentir bem, pra satisfazer sua necessidade básica diária de filantropia e se sentir um cidadão bom, homem de bem, e depois ainda falar pros amigos nas rodas, todo feliz: “eu não dôo dinheiro, de jeito nenhum. Se me pedir um lanche, pago com maior prazer. Outro dia, um menino me pediu um lanche, daí eu fui lá…”

Eu dou esmola, e sempre me sinto ligeiramente angustiada com isso, e analiso que é por uma série de motivos. O primeiro é que não vou resolver o problema do pedinte em questão e nem o problema em si; o segundo é que normalmente eu dou moedas, sendo que sei que é bem pouco, mas não tenho coragem de dar mais, porque sou mesquinha; o terceiro é que me sinto mal por ser mesquinha, mesmo tendo tão mais que aquele cara e gastando tanto com coisas supérfluas; o quarto é que junto com tudo isso já percebo minha satisfação comigo mesma por ter dado esmola vindo à tona, daí sinto raiva de mim mesma por ser tão escrota. Ok.

Eu falei tudo isso pra dizer como é que vou me sentir se resolver apagar as luzes por uma hora no próximo sábado, das 20h30 às 21h30. Organizado pela WWF, o ato sugere que todas as pessoas apaguem as luzes de suas salas por uma hora.

Naturalmente, com a repercussão que o movimento está ganhando, a WWF depois demonstrará que na Hora do Planeta a energia economizada daria pra abastecer sei lá quantas Nova Yorks, e espera que isso conscientize as pessoas sobre o quanto pequenos gestos podem fazer a diferença. É louvável, teoricamente.

Pena que na prática é mais ou menos uma esmola energética. Não vai resolver o problema, não comove as pessoas porque elas já são bombardeadas minuto-a-minuto com informações sobre o quanto o planeta está fudido e continuam não ligando pra isso, é muito pouco diante do que a gente realmente precisa contribuir e todo mundo tem condições de contribuir muito mais, e no fundo, todo mundo vai se sentir muuuuuuuito bem de ter ajudado a salvar o planeta, ganhando uma dose extra de antídoto contra culpa, que dá a ela mais auto-créditos pra jogar lixo no chão pelo resto da semana e deixando TV ligada e luz acesa à toa.

É, eu sei que nesse momento eu deveria sugerir a outra opção. Mas eu não sei o que sugerir. Sei que do ponto de vista de conceito, a WWF teve uma idéia formidável. Mas as pessoas são mesquinhas, e mesmo que muita gente entre na onda da Hora do Planeta, a maioria esmagadora dela vai fazer isso pra aplacar um pouco da culpa por nunca ter feito nada e depois vai voltar pra vida normal.

É por isso que eu peço a todo mundo que está considerando seriamente aderir à “causa”: se odeie se, quando você apagar a luz, começar a se sentir bem. Quando a descarga de serotonina começar a invadir seu cérebro e a satisfação tomar conta, lute contra ela. Você não está fazendo nada, NADA, diante do que realmente poderia fazer, pra impedir que o planeta cuspa nossa espécie daqui. Sinta isso no fundo do seu coração, e veja como você é mesquinho, hipócrita e egoísta, e como faz as coisas só para se sentir bem, porque essa frieza deve te ajudar a entender. Feliz ou infelizmente, a Hora do Planeta só será eficaz se as pessoas perceberem que ela é um ato insignificante diante do que a gente pode e realmente precisa fazer.

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Você gosta mais de assistir show de rock ou de batata*?

Por quê você vai a um show de rock?

roque
Pra ver o Seu Sílvio

A resposta a uma pergunta dessa deveria ser óbvia. Mas não é mais. Não sei exatamente quando deixou de ser. Eu notei da primeira vez num show do The Rakes, em São Paulo; antes disso, era ingênua (ou burra) demais pra perceber que as pessoas vão a esses lugares para se exibir e falar sobre sua temporada em Londres (e a vida imita a arte que imita a vida). Depois, no Tim Festival (o de 2007) percebi uma movimentação semelhante – até comentei aqui.

Mas eu notei de novo, no show do Radiohead nesse domingo. Só que dessa vez – não sei se feliz ou infelizmente – não se trata (só) da galera cool fashionista de São Paulo batendo cartão num show só pra dizer que esteve lá e bater papo com gente influente. No Just a Fest, o que caracterizou mais a dissolução do conceito ‘vim assistir a um show de uma banda de rock’, infeliz e paradoxalmente, foi a popularização da tecnologia.

Nunca vi tanta gente preocupada em contar pros outros o que estava vendo. O legal agora não é ver o show, é mostrar pra todo mundo que você viu o show e que estava lá. Não tem muita coisa errada com isso, se não fosse o fato de que as pessoas ficam tão preocupadas em registrar o show pros outros que não assistem o show em si.

Dessa vez, não foram só aqueles babacas que ficam 2 horas e 20 minutos com a câmera cybershot levantada, mesmo estando a 70 metros de distância do palco, mesmo filmando um imagem ultra-tremida e som muito estourado, e sem assistir nada do show em si, só preocupado em gravar um vídeo que vai ficar MUITO RUIM; houve também uma invasão de twitteiros e enviadores de SMS.

Observei dezenas de pessoas com seus blackberries, N95 e iPhones interrompendo a experiência para escrever – uma, duas, três, quatro vezes – pros outros o quão fantástico aquilo era, o quão legal era estar lá, o quão idiotas eram os que preferiram ficar em casa.

E eu de repente olhava pra elas, preocupadas em tirar boas fotos pro Orkut (que invariavelmente vão sair ruins, muuuito distantes ou tremidas, mas não importa porque aí você já prova que tava lá), filmar trechos legais pro YouTube e em contar pra todos os 500 seguidores do Twitter o setlist num teclado que não é QWERTY e me lembrava de quando eu fazia isso – isso de me preocupar mais em registrar a coisa do que em vivê-la. Eu fiz isso, veja bem, UMA VEZ. Porque naquele dia, quando fui assistir aos vídeos, percebi que não me lembrava de quase nenhum trecho que havia filmado. De tão preocupada em filmar, eu não fiz o principal – assistir ao show. Me dei conta da idiotice e câmera em show nunca mais (a não ser quanto estive ‘trabalhando’, né).

Estamos falando do Radiohead, um espetáculo de estímulos audiovisuais que necessita muito de imersão e concentração, porque lida com quase todos os sentidos de uma vez. Porque você quer filmar? Seu vídeo vai ficar melhor do que a gravação do Multishow? Você vai poder mostrar pros amigos? Isso te dá status?

É muito legal que as pessoas estejam tão interessadas em compartilhar cada mínimo momento da vida delas com tanta gente. É esquisito, e subverte um pouco o egoísmo característico da nossa espécie, mas no mínimo é legal poder dizer que estou no meio disso. Mas você não vai a um show pra depois poder dizer que foi.  Você vai a um show para estar nele naquela hora e viver aquilo, e isso não inclui se preocupar em segurar uma câmera em cima da sua cabeça.

Olha, não sei se você já vivenciou uma experiência real de show de rock. De comunhão entre banda e público. Uma coisa dessa depende de dezenas de fatores, do estado emocional pessoal de cada um que assiste ao show, da presença de palco e do humor da banda no dia, do tipo de lugar, do tipo da banda, do tipo de fã. Mas quando a sintonia acontece, e é perfeita, é algo religioso. A energia se torna palpável, a banda ganha controle sobre 50 mil pessoas, a comunhão é absoluta, não há nada além da banda e do público – não tem gente empurrando, não tem sede, não tem fome nem dor na perna que te tire do foco.

E ninguém vai, verdadeiramente, entrar em “transe musical” (por assim dizer) se estiver preocupado em contar pros outros o quão privilegiado é por estar ali naquele transe musical. É por isso que eu espero que essa ânsia por compartilhamento de informação, algo que de certo ponto é tão legal (e assustador, ok, mas legal) não tire das pessoas, aos poucos, a verdadeira experiência que é viver um show de rock – e a experiência de viver a vida, sem ficar tão preocupado em contar sobre ela a ponto de não vivê-la.

*O título é uma homenagem ao grande guerreiro Charlinho, numa paródia da frase célebre do repórter – “você gosta mais de estudar ou de batata?” Na nossa versão, o mais próximo seria “você gosta mais de assistir o show ou de ficar contando isso pra todo mundo?”

Observação: Esse post, como a maioria aqui, é também uma autocrítica. Estou em ano de TCC, exausta por causa do trabalho e por causa de investimentos na vida pessoal. Portanto, esperem menos atualizações – idéias de posts não faltam, me falta é saúde pra ficar tão compenetrada assim em algo que eu amo fazer, mas que não posso deixar que me impeça de viver a vida em si. Ou seja – em vez de 5 posts por semana, acho que vai cair pra 3, o que eu ainda considero uma média excelente. Mas só um aviso prévio, caso eu suma por uns dias: é só recarga de bateria. Meu hobby é meu blog. Não daria pra lagar.

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O assassinato de Isabella Nardoni e a falta de vergonha na cara

Não costumo falar de coisas sérias aqui, porque de seriedade já basta a necessária na profissão e tudo o mais. Mas é que esse assunto é diferente.

É impressionante como todo mundo parece ter uma opinião sobre o assunto. O dia inteiro, em qualquer lugar que você vá, as pessoas estarão falando disso. O mais curioso é que todo mundo já tem condenação e sentença certa pro pai e pra madrasta. Que grande absurdo é ver aquele bando de vagabundo na frente da casa dos avós, esperando só uma chance pra jogar uma pedrinha. Uma só.

A questão é que dezenas de crianças morrem diariamente de maneiras iguais ou bem mais cruéis do que a pobre Isabella. É um sem-número de Isabellas pretas e pobres se fudendo todos os dias, no Brasil e no mundo. E ninguém dá a mínima pra elas. Não mesmo. Aliás, segundo esse blog, uma criança é assassinada a cada 10 horas no Brasil. São, tipo, doze Isabellas por semana. Nos dias úteis, né, que é quando o país funciona.

Crianças morrem o tempo todo e ninguém tá nem aí pra isso. Pior: crianças são violentadas, apanham, se prostituem, passam fome o tempo todo. No Brasil e no mundo. Todo o caso Isabella é uma puta hipocrisia. Odeio essa palavra, mas não existe outra.

Digite “criança morre” no Google. Crianças morrem atropeladas, sufocadas, por envenenamento, esquecidas em casa, em acidentes de carro, de fome, com marcas de violência e inclusive por quedas de janelas de apartamento (isso, aliás, acontece o tempo todo). Crianças morrem até imitando o Naruto.

E ninguém quer apedrejar ninguém por causa disso. Então, trate de tomar vergonha na cara e continuar vivendo sua vida. Assuma você não se importa, como não se importa com as outras crianças menos favorecidas economicamente que morrem de maneira pior, com as crianças que morem um pouquinho todo dia, e que vai esquecer a Isabella daqui uma semana, assim como esquecu o João Hélio.

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