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Garota de Berlim por dois dias

Em dois dias em Berlim, eu vi mais de quatro pessoas com o nariz sangrando. Some isso à fama de belicosos dos alemães e você pensará que lá todo mundo se soca frequentemente. Mas não se tratava de porrada comendo solta, é claro, dado que os Berlinenses são muito tolerantes e civilizados: era só o sol forte no cucuruto (ou cocoruto? ou cucoruto?) mal acostumado às altas temperaturas o provável causador da hemorragia coletiva.

(Pronto, esqueceu o título infame, né? Vim aqui te lembrar)

Oi

Classificam Amsterdam como a capital do ‘aqui pode tudo’, mas Berlim sim devia ficar em primeiro no quesito tolerância. Porque lá, apesar de tudo, os imigrantes parecem bem mais misturados aos nativos do que seriam aqui ou na Bélgica, por exemplo. E as pessoas são diferentes como querem. Há uma desorganização natural de cidade muito grande em Berlim, que chega até a lembrar São Paulo, e que permita que todos os tipos de habitantes de centros urbanos saiam das tocas como queiram e a hora que queiram. Dez da noite, óculos escuro, cachecol e bermuda em um frio de 8 graus? Ok. O sol torrando às 14h e chega um grupo de sobretudo, cabelo roxo e mais piercings do que eu fui capaz de contar? Ok, também. Esses tipos são mais difíceis de encontrar em Amsterdam, que é mais uma praça da Sé da Europa. Berlim é como a Augusta daqui.

Em Berlim, souvenir é ushanka (o chapeuzinho russo), máscara de gás e bandeira com a foice e o martelo

Dizem que os alemães são travados, frios. Mas em poucos lugares do mundo um grupo de quase duas mil pessoas sóbrias, dentro de um parque em um domingo de sol, se disporia a participar de um karaoke a céu aberto. Na maioria dos lugares que eu conheço, o MC responsável pela ideia teria dificuldade em encontrar gente sóbria com coragem de se apresentar informalmente em frente a um bando de gente desconhecida. No Mauerpark, em Berlim, as mais de cinco horas que o dono do karaoke dedica à atividade são poucas diante da quantidade de gente que escolhe uma canção pra interpretar. Tem de tudo, de gente tímida à performances dignas de um Berliner Idol.

E isso é só metade (o que coube na foto) da galera que foi ver o karaoke no Mauerpark

E se, dizem, Milão é espelho das passarelas, Berlim é o que dita o que estará nas passarelas ou não. O engraçado é que lá todo mundo se veste bem, homens e mulheres, dos 12 aos 72. E quando você olha pra todos eles fica muito claro que eles não fizeram esforço nenhum pra se vestir tão bem, e a maioria nem sequer gastou muita grana. Eles simplesmente sabem.

Berlim tem museus estonteantes. Digo, isso é o que tava escrito no folhetinho e o que dava pra dizer só de olhar os prédios de fora. Eu só fui mesmo em um deles, que aliás, deveria ser o único museu a visitar em Berlim se você for escolher só um museu para ir em Berlim.

Chama Pergammon e tem milhares de obras de arte e artefatos super ultra muito antigos. Tipo, o Pergammon levou o conceito de MUSEU realmente a sério aqui, porque as peças mais novas têm algo como uns 2200 anos. Tem um templo grego quase inteiro montado dentro do museu. Tapeçarias árabes de 3000 anos atrás, jóias, vasos, estátuas com textos em Aramaico ao longo do corpo são comuns nos corredores. É impressionante. E também faz você se sentir insignificante, mas acho que essa deve ser a definição de um bom museu: ele te faz sentir insignificante.

 

Isso é um templo grego quase inteiro (chamado Pergammon, heh) dentro de um museu

Contrariando meu post anterior, eu resolvi pagar um tour guiado por Berlim. Em espanhol, mesmo sabendo que teria problema em acompanhar o espanhol ibérico, já que – apesar de mais fácil, na minha opinião – ele é bem diferente do sotaque colombiano/panamenho ao qual me acostumei. E de repente, o cara abriu a boca e eu compreendia tudo. Me achei um prodígio dos idiomas, fiquei radiante.

Mas aí alguém mencionou e eu percebi: ele era gago. Isso explicava muito coisa.

O guia-gago espanhol, que aliás falava galego então entendia meu português, nos levou aos principais pontos históricos de Berlim, que são mais de uma dúzia só no centro da cidade e juntos contam basicamente a história do mundo moderno. Quer dizer, também contam um pouco de história mais antiga, até. Seis horas em Berlim substituem uns dois anos de aulas ruins de história no ensino fundamental. De prédios de 400 ou 500 anos que nunca precisaram ser restaurados, a prédios de 50 anos cheios de marcas de balas que precisaram ser restaurados tipo doze vezes, a cidade é um paraíso pra quem gosta de história.

Napoleão passou por aí, gostou, levou pra França. Os alemães foram lá, ganharam a guerra, pegaram de volta. Heh

Depois do tour, de ouvir mais e mais sobre a história daquele maluco de bigodinho, me dei conta. Hitler tinha tudo, tudo pra ter sido um desses malucos que moram no ponto de ônibus e começam a berrar incisivamente (ele sabia fazer isso, falar cuspindo) sobre alguma teoria maluca que não faz nenhum sentido. Dessas que você escuta atentamente justamente porque são muito mirabolantes. Entre uma observação e outra sobre como ele seria escolhido para liderar a raça ariana até a hegemonia étnica, e como transformaria Berlim na Germania, que seria a capital do mundo puro, ele daria um gole em uma garrafa de gin barato. Daí seu ônibus chegaria e você nem ia lembrar do cara – talvez comentasse do louco engraçado pra um ou dois amigos.

A Alemanha é um lugar tão peculiar que lá esse cara louco virou chefe de Estado. E quase botou sua fantasia nonsense em prática. Claro que existe um contexto: o orgulho nacional enfraquecido pós I guerra, a falta de emprego generalizada (e o fato de Hitler ter criado emprego)… AINDA ASSIM, ELE PODIA TER SIDO UM INDIGENTE.

Fala aí, se não tinha potencial pra mendigão/pregador? E BREAKING NEWS, a Wikipedia me conta que ele realmente JÁ FOI UM MENDIGO! E que os outros mendigos chamavam ele de Ohm Kruger (tio Kruger). Mais info na mãe dos burros.

Na Alemanha, senti falta de conhecer alemães. Eu até ensaiei dizer que eles não são amigáveis com turistas, mas não é exatamente isso. É que, além de não falarem inglês tanto e tão bem quando os holandeses, os alemães aplicam o ‘não tô nem aí pros outros’ que vivem no dia-a-dia também com os turistas. O motivo pelo qual nós brasileiros recebemos turistas com tanta atenção é porque eles são novidade. Aqui na Europa tem tanto estrangeiro que ninguém se preocuparia em tratá-los bem.

Hauptbanhof, a estação de trem que só não é um shopping porque shopping não tem trilho de trem dentro, cheia de alemães que não sabem falar inglês

Se eu falasse alemão, ainda, talvez tivesse mais chances. Mas fiquei encabulada de sair falando inglês assumindo que eles entederiam. Me parece um pouco insensível fazer isso com um bando de gente que durante trinta anos ficou refém de um jogo de estratégia onde eles, sua língua e sua cultura eram tratados como desimportantes frente ao russo, ao francês e, especialmente, ao inglês.

Um dos lugares mais famosos da cidade, o checkpoint Charlie, onde costumava ficar um dos acessos no muro. A placa dá uma ideia da importância que a língua alemã (e portanto, os alemães) não tinha durante a guerra fria, HEH

Senti falta, também, de mais referências à história de Hitler e dos soldados alemães. Há monumentos e museus e homenagens a todos os grupos envolvidos na 2ª GM: aos judeus, aos gays, aos testemunhas de jeová, aos soldados russos, americanos, franceses… todos eles têm memoriais em sua homenagem. Como se fosse possível esquecer o que Adolf (tô íntima) fez, eles querem fingir que nada aconteceu e assim acabam apagando a história do cara (Mein Kampf não pode ser editado na Alemanha, por exemplo) e daqueles que lutaram ao lado dele. Óbvio que eles não merecem homenagens ou memoriais, mas essa vibe tipo ‘gente, vamo falar de coisa boa, TEKPIX! Esquece isso de Holocausto’ eu acho que não cola. A história das pessoas responsáveis pelas coisas horríveis não está em lugar nenhum em Berlim. :/

Foto 'TÔ CURTINO BERLIN MUITAUM11!!11' no monumento em homenagem aos judeus mortos no holocausto, cuja disposição das pedras, aliás, lembra lápides e é meio opressora: você está fazendo isso errado


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Entenda o papel da internet, das redes sociais e do Twitter no cenário no Irã – e não vai ser chato, eu juro

A história de luta no Irã é complexa e data de vários séculos - acredite ou não, começou com a invasão do território pelo Império Otomano, em 1500 e alguma coisa. Sei muito pouco sobre o Irã, antigo império Persa, mas aprendi bastante desse pouco depois que li, há um mês, o fabuloso Persépolis, de uma moça chamada Marjane Satrapi.

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Nós, ocidentais, sabemos muito-pouco-quase-nada sobre o Oriente. Achamos que é tudo deserto, camelos, Alah e burcas. Felizmente, assim como nós no Brasil somos um pouco mais do que criadores de macacos selvagens, o Irã tem uma longa, loooonga história de oposição política à ditadura islâmica, marcada por muito sangue misturado a, adivinhem, petróleo. Não vou dar aula de história aqui – leia o livro, vale a pena, é uma graphic novel: ou seja, quadrinhos, as edições encadernadas num livrão. A questão é que a polêmica da fraude da reeleição de Ahmadinejad está se tornando um case fantástico para mostrar o poder das novas mídias e isso me deixa estranhamente feliz.

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Os defensores da democracia lutam por ela naquele país há quarenta anos, sem esmorecer. Eles passaram por torturas, desaparecimentos, opressões semelhantes ou piores às que a gente passou aqui nos anos de ferro. A censura lá é brava, não há absolutamente liberdade de expressão, algo que pra gente do ocidente e que nasceu no fim dos anos 80 é inconcebível. E boa parte dos que continuam lutando e morrendo pela democracia (alguns, inclusive, pelo direito de não ter dogmas religiosos instituídos) são estudantes. A Universidade de Teerã, por exemplo, ficou cercada pelas forças nacionais na última semana.

Até aí, nada de novo. Jovens curtem essas paradas subversivas, essa é a história. Aqui a gente assiste Malhação, lá eles confrontam as forças nacionais, acontece. A coisa é – eles estão se organizando pelo Twitter. E de maneira brilhante, sem precedentes.

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O Twitter já foi usado de forma igualmente brilhante em coberturas de desastres, em outros casos de acusações de fraudes eleitorais e já mostrou que é uma ferramenta de valor incontestável nesse sentido. O governo iraniano, inclusive, tentou bloquear as conexões ao site, mas os usuários contornaram e usaram proxies. Depois, o governo bloqueou a busca pela tag que estava sendo usada pelos iranianos para cobrir os massacres e as repressões, #iranelection, e eles se organizaram e trocaram de tag (para #Teeran); e por último, mas não menos importante – os iranianos mobilizaram usuários do Twitter ao redor do mundo inteiro para que troquem a nacionalidade de seus perfis, todos, para Teeran, fuso horário +3:30 GMT.

Isso é para confundir os censores iranianos, que podem buscar os perfis de quem tem twittado com as tags em questão, e perseguir aqueles que se dizem de nacionalidade iraniana. MAS se todo mundo no mundo viver em Teeran, bem, talvez eles tenham dificuldade em identificar quem tá falando a verdade e quem não tá.

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Pela internet, os iranianos fizeram toda a cobertura que o governo impediu que a imprensa fizesse. Está tudo no Twitter, no Flickr, no YouTube. Só não vê quem não quer. E a partir do momento que os usuários fazem o tema se tornar relevante na internet, a mídia de todo o mundo passa a considerar o assunto pauta. Mesmo se não fosse. E começam a noticiar o conflito a partir das poucas, únicas fontes disponíveis – os twitteiros e flickeiros que estão nas ruas de Teerã relatando os fatos.

Tem censura de internet em outros lugares, também. A China é um exemplo. Mas na China não há conflitos tão longos, que envolvem questões econômicas, políticas e religiosas, não há o cenário de instabilidade política que o Irã tem agora, e há um crescimento econômico vertiginoso – tudo isso ‘amansa’ as pessoas. Quem me explicou essa parada foi o Pedro Dória, há duas semanas, numa entrevista que gravei com ele, por telefone, para o site do Link (mas que acabou não indo pro ar, infelizmente).

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A conclusão que eu chego, ajudada pela análise que ouvi do Dória na outra semana e por tudo que tenho lido sobre a questão iraniana: você não consegue bloquear a internet e impedir que os usuários se manifestem de forma satisfatória se o povo estiver economicamente insatisfeito e se você não tiver apoio das grandes empresas de internet. O Google, o Yahoo – todos se submeteram às regras da China. No Irã isso não aconteceu, os bloqueios foram governamentais, deliberados. Facilmente dribláveis, especialmentepor uma comunidade intelectual.

E o mais impressionante: através de uma ferramenta de uso extremamente simples, um grupo de oprimidos em um país lá no canto do planeta consegue mobilizar uma comunidade online local e, em segundo lugar, no mundo inteiro, em direção a uma causa. Unir ocidente e oriente, de certa forma – não totalmente, mas é uma união. E consegue mostrar para o mundo o que está acontecendo, não importa o quanto o governo daquele país tente esconder isso. Ver isso acontecendo, meu amigo, é revolucionário. Fazer parte disso, de alguma forma, é viver história. Espero que você esteja se dando conta disso nesse momento.

*Se eu escrevi alguma bobagem histórica, qualquer um de vocês é bem-vindo para me corrigir nos comentários.

**O blog do Pedro Dória tá cobrindo a treta no Irã com bem mais propriedade do que eu (observação óbvia). E o texto é leve também, exceto pelos nomes dos Aiatolás. Cola lá.

***O post tá ilustrado com trechos de Persépolis, o filme. Isso, aleatório mesmo. Também tem no Submarino.

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