23 de junho de 2009 às 5h42
Ria da vida, porque ela está rindo de você
Não existem momentos inapropriados pra piadas, e eu vou explicar porquê. Se você olhar em volta com um pouco mais de atenção, vai ver que todas as coisas do mundo, até mesmo as mais trágicas, têm um viés cômico se olhadas com leveza. É desse conceito que tiro boa parte das ideias que uso aqui e no blog. É desse conceito que escrevo a maioria das ironias e dos sarcasmos contidos em 99,9% dos posts aqui, que só são entendidos por 70% das pessoas que chegam aqui. As piadas são aquelas coisas universais, que não precisam de tradução. São capazes de ‘amaciar’ qualquer situação, se os envolvidos estiverem dispostos. Linguisticamente, as piadas são as locuções diplomáticas. Elas são capazes de amenizar tensão entre dois elementos e até formular acordos de paz.
Alguns chamam a piada a todo custo de ‘maldade’. ‘Humor negro’. Eu chamo de ‘rir da vida enquanto ela também está rindo de você’.
Eu cheguei a essa conclusão depois de receber um exteeeenso e-mail de um cara que descobriu meu blog e por algum motivo resolveu contar pra mim um monte de coisas sobre a vida dele. Acontece bastante, na verdade. Eu sempre leio e respondo, adoro histórias de pessoas, por isso fiz jornalismo.
Esse cara contou sobre a infância sofrida, a discriminação que sofreu quando assumiu a homossexualidade, problemas com família, a barra que enfrentou quando descobriu que seu exame de HIV tinha dado soropositivo… um desconhecido, que por algum motivo desses que a gente não vai entender nunca se identificou comigo via blog e descarregou uma história dessas que te tornam a Polyanna (já que depois dela, nada na sua vida pode ser tão ruim)
Pois bem. Eu respondi pro cara com toda a minha franqueza. Não dá pra ter pena dele, porque minha mãe ensinou que pena a gente não pode ter, é arrogante. Sinto compaixão por ele, gostaria que tivesse sido diferente. Foi isso que eu disse no e-mail. Eu disse: “Puxa vida, cara. Você se fudeu muito”.
No final, perguntei se podia fazer uma piada dessas sobre AIDS que qualquer um diria que é de mau-gosto. Não fiz sem perguntar, porque não queria ofender o moço – vai saber se ele tinha bom-humor. Era uma piadinha besta, perguntar sobre ela já tirava a graça, mas eu achei que deveria.
No e-mail seguinte, após a confirmação de que – óbvio, ele não ligava pras piadas, às vezes até era autor delas -, mandei. Era uma observação boba, um sarcasmo leve, que ele naturalmente levou numa boa.
É por isso que eu teorizei: as pessoas que não riem dos outros são aquelas que são incapazes de rir de si mesmas. Quando você se leva a sério demais, leva os outros a sério demais. Leva a vida a sério demais. Entra em blogs como o meu e não vê que obviamente uma foto do Zé Bob num texto sobre o fim do diploma de jornalismo só pode ser uma piada. Como as pessoas são capazes de bradarem um falso moralismo, hipócrita, pra dizer que piadas sobre AIDS são de mau-gosto quando um portador da doença as aceita numa boa, sem sequer perguntar pra essas pessoas se as piada as ofende? Todo mundo até hoje que vetou esse tipo de piada, tinha certeza, não tinha AIDS.
Minha mãe, de novo, costuma dizer que bom humor é sinal de inteligência. Eu não sei. Só sei que não entender humor é sim sinal de burrice. É não enxergar a vida do jeito que ela se mostra, bizarramente bizarra – com meninas tatuando 56 estrelas na cara, bebês que nascem com pênis nas costas, participantes realmente malucos de reality shows (“FAZER O QUÊ SE EU NÃO SENTI UMA ENERGIA BOA VINDO DE TI, VELHO?”), nadadores paraolímpicos com nomes sugestivos. Fechar os olhos pra comicidade inerente a essas situações é fechar os olhos pra essa realidade em si.
Quem não se permite rir do que é naturalmente engraçado deve ter uma vida difícil de viver. Porque cada uma dessas demonstrações de bom humor que a vida dá são só a prova de que ela é muito bem humorada. Sarcástica, até. E mesmo se você não souber rir dela, ela rirá de você. E aí será tudo muito mais difícil. Porque quem ri por último…




23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

