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15 de maio de 2009 às 18h13
Uma análise da Season Finale de Lost por alguém que está provavelmente tão confuso quanto você
Eu evitei falar sobre Lost por muito tempo, porque é um post segregador. Nem todo mundo vê a série, nem todo mundo está no mesmo episódio que estou. Mas o fim da 5ª temporada me deu algumas dúvidas e muitas certezas, certezas que eu não vi ninguém mais comentar. Se você não vê Lost ou vê mas ainda não viu o último episódio da 5ª temporada, não leia o texto abaixo. Vou dar alternativas pra todos os gostos e perfis:
- Leia o outro texto que publiquei hoje, Pro inferno sem escalas: eu expulsei o pregador do trem;
- Veja esse vídeo genial do George Carlin:
Avisado? Ok.
Spoilers TENSOS a partir daqui.
Seguinte. Eu sempre achei que Lost fosse seguir as leis da física, no geral. Não há distorções, se você estudar um pouquinho de física quântica (eu sei muito pouco). Conceitualmente, buracos de minhoca e os paradoxos que as viagens no tempo são capazes de criar sempre foram muito bem retratados no plot da série. Tem até referência a teoria das cordas. Eu sempre achei os caras geniais por isso – um plot enroladíssimo, com conceitos complicados, sem que no geral se pudesse apontar uma falha sequer.
Claro que isso, por um lado, é porque eles não responderam muitas coisas. Quando responderem, poderemos ver se houve falhas ou não. Mas divago. A questão é que minha teoria em Lost se baseava na seguinte premissa – o que aconteceu aconteceu. Ponto. Não há como explodir uma bomba que impeça o avião de cair, porque se o avião não cair, os Losties não estariam ali explodindo a bomba pra que ele não caísse. O tempo é uma linha contínua.
A não ser que consideremos a teoria dos universos paralelos. De qualquer forma, o último episódio, que deixa claro que a série é sobre bem x mal, livre arbítrio x destino, fé x ciência, me fez ver que Lost não está seguindo a regra que eu achei que estivesse – o que aconteceu pode não ter acontecido. Você sempre tem a escolha. Jacob repetiu isso muitas vezes.
Porque eu digo isso? Ok, está claro pra mim que, de certa forma, o incidente que Jack tentou evitar é exatamente o incidente que ele causou. Isso fica óbvio quando o Dr. Chang tem a mão machucada.
Mas o anti-Jacob, que certamente estava representado como Locke por causa das referências iniciais e finais ao ‘Loophole’, (deveríamos ter dado ouvidos às declarações dos produtores, que disseram que em Lost, quem está morto está morto), precisou intervir nesse suposto LIVRE-ARBÍTRIO para que Locke pudesse estar morto. Então HÁ A POSSIBILIDADE DE MUDAR. Explico.
O anti-Jacob foi quem disse a Richard pra que orientasse Locke (o de verdade) a voltar pra ilha e morrer por isso. Assim, o anti-Jacob garantiu que seus planos fossem cumpridos, porque aparentemente ele só pode ‘incorporar’ gente que já morreu (aí, têm referências às divindades egípcias do mundo inferior). Se ele não tivesse feito isso, haveria um futuro paralelo, em que algo diferente aconteceria. Ou não, mas acho que consegui provar o ponto.
Se o anti-Jacob manipulou uma pessoa comum pra que ela interferisse num ato do passado para causar uma ação futura, então qualquer um pode. Lembre-se que quem interferiu foi Alpert, e não o anti-Jacob ele mesmo, ou seja, ele não pode se envolver, mas sempre pode manipular alguém para fazer o que ele quer que aconteça.
Mas Jacob, parece, teria como saber o que aconteceria. Ele foi quem arquitetou, de certa forma, a volta de alguns dos Losties pra ilha. Ele estava sempre lá. Tipo o careca de Fringe. Ou o Linderman, de Heroes.
No geral, o que temos: duas divindades, uma representando o bem – provavelmente Jacob – e outra o mal, que é o moço de preto do início do episódio, e provavelmente o monstro de fumaça, e o Locke de volta à ilha. Jacob acredita nos homens. Acredita que no fim sai algo bom deles. O outro, não. E eles ficam brincando de provar um pro outro seu ponto.
Sinceramente, não sei o que significa a morte de Jacob, porque acho que não existe, com Jacob e anti-Jacob, a morte literal, do corpo físico. Se eu fosse chutar, diria que a ilha é análoga a um graaande campo de xadrez, em que os dois ficam brincando de mostrar um pro outro quem tá certo e quem tá errado. Os dois estão na luta pelo controle dos ‘experimentos’ na ilha há milhões de anos; quando um consegue manipular o ser-humano pra vencer o argumento do outro, game0-over pro que foi destruído, ele sai do controle da ilha e no lugar dele entra o outro cara, que fica lá brincando com os peões atééé ser derrubado pelo outro fulano. Tipo um jogo eterno, em que dá um game-over e aí o fulano perde a vez, mas tem vidas infinitas.
Hum… alguém assistiu Constantine?
E pros que duvidavam que esse plot estava arquitetado desde o início, refresquemos a memória com uma cena que, agora, faz todo o sentido do mundo:
Não sou dessas especialistas em cultura pop. Tem muita coisa velha e legal, tipo Arquivo X, Twilight Zone e Twin Peaks, que não vivi e só vi depois de crescida. Mas a trama de Lost me lembra algo em Harry Potter – a referência em tramas desse tipo mais próxima da minha geração, por isso mencionei o ponto anterior.
Em Lost, como em Harry Potter, está tudo lá, sempre esteve – o início, o meio e o fim. Nós é que não estamos vendo as coisas na ordem. No fim, quando o quebra-cabeça estiver montadinho, veremos que não faltará quase nenhuma peça. As pessoas pensavam nos acontecimento da 5ª temporada como fatos que alterariam o futuro que já tínhamos visto, mas a gente só viu a coisa fora de ordem. Se você ordenar, está quase tudo ali.
Quase. Porque parece que dá pra mudar as coisas. Talvez, e só talvez, anti-Jacob ter interferido na linha do tempo (orientando Alpert pra que ele falasse que o Locke deveria morrer) pode ter gerado um futuro paralelo em que ele, o Anti-Jacob, se ferra. Ou não.
Chutar o que acontece na última temporada? Não faço idéia. Mas existe redenção ali. Existe redenção de Jack, o cara que era pura ciência e virou pura fé; existe redenção de Kate, que não se importava em tirar uma vida se fosse necessário e acabou disposta a se sacrificar pra não deixar que nenhuma vida fosse perdida; existe redenção de Sawyer, um cara que vivia uma mentira na verdade e depois foi viver uma verdade, ainda que na mentira. E tem Hurley, o cara que pode falar com os mortos; tem Walt (Waaaaaaaaaaaalt); tem Sayid baleado, e Desmond, ao qual as regras não se aplicam.
Agora, só em 2010. Sorte que o fim do mundo tá marcado pra 2012.
1 de maio de 2009 às 15h33
Uma geração de malucos (MALUCOS!)
Em 1969, o mestre Chico Anísio já fazia ’stand-up comedy’ de maneira genial, surpreendentemente atual. É por causa de caras como ele que a gente percebe que humor pode ser atemporal – se o cara é muito bom, ele não precisa fazer piada sazonal, que o humor não é algo ‘de época’. Caras como ele ou como o Monty Python provam que há quase 50 anos atrás faziam humor que não perdeu a graça com o tempo.
Mas beleza, que o vídeo não é pra falar disso. É que no fim dele o Chico faz uma piada sobre crianças neuróticas. Qual a cor do chapéu da mulher que passa atrás dele nessa hora? [/topatudopordinheiro]
Brinks. Continuando com a prosa, ele diz que esse negócio de criança neurótica é um absurdo, isso não existe, que inclusive ele discutiu isso com o filho dele naquele dia depois do menino voltar do psiquiatra. RÁ! E eu tava me perguntando – esse negócio da nossa geração ser toda louca, será que é de agora ou sempre foi assim?
Por ‘nossa geração’, entenda fim dos anos 80 – começo dos anos 90. E por ‘toda louca’, entenda todos os problemas psiquiátricos que a gente enfrenta. É, porque eu por exemplo seu esquisita pra cacete. E só tenho amigo doido. Todos meus amigos tem algum problema bizarro, daqueles que Freud explica ou que são originados por trauma na infância.
É o tipo de coisa que minha vó diria que é falta de apanhar. Acho que a gente foi criado muito a leite com pêra e ovolmaltino, sabe? Hoje criança pode tudo, criança dá palpite, criança manda na casa, criança consome – criança pode ser até o principal vetor de consumo de uma família. A publicidade explora isso, claro, e acho que isso faz mal pra nossa cabeça.
Minhas suspeitas começaram quando minha mãe contou pela primeira vez a história de que, aos 3 anos, eu pedi a ela que me comprasse Tampax. Sim, Tampax, o famoso absorvente interno. Minha mãe, intrigada, perguntou por que motivo eu, uma garotinha de três anos, cobiçava um absorvente higiênico interno. Segundo ela mesma, eu relatei que queria um Tampax porque gostaria de comê-lo.
Minha mesma mãe conta outra história curiosa relacionada a maneira como as crianças absorvem (sem trocadilhos) esse tipo de estímulo. Minha mãe tinha uma máquina de lavar, mas não era assim… bem, não era muito boa. Quer dizer, vai ver era; mas na minha cabeça, não era. Porque ela ficava lá lavando roupa e não tinha tempo pra brincar comigo. Daí, eu comecei a trabalhar.
Eu tinha 4 anos, e trabalhar consistia em andar em círculos no quintal com minha bicicletinha, claro, com uma maleta debaixo do braço (meu pai saía pra trabalhar de moto com uma mala). A partir daí, já com o trabalho me tornando mais digna, me senti no direito de me queixar para minha mãe sobre a falta de tempo dela para brincar comigo. Ela me explicou docemente que precisava lavar a roupa. Mas eu tinha uma solução para aquele transtorno, causado claramente pela baixa qualidade da máquina de lavar, e lhe disse: Mãe, vou trabalhar, trabalhar e trabalhar, e comprar uma Brastemp pra você.
Daí eu trabalhei, e ok. Até hoje não sei se fiquei esquisita por causa dos estímulos da publicidade ou por ter sido precocemente envolvida com trabalho infantil. Mas o negócio é que a gente é tudo doido, as crianças de hoje tão todas malucas, e eu queria muito saber porque. Pode ter a ver com a publicidade, com a inversão de valores gerada pelo capitalismo, com o mundo que tá maluco, até com a gripe suína pode ter a ver.
Ok, não tem a ver com gripe suína. Mas a situação tá complicada, e quando eu analiso os meus problemas e os dos meus amigos, eu encontro só um motivo – nossos pais.
Quer dizer: eu não sei o que os pais fizeram todos de uma vez pra coisa ficar assim. A gente pára pra pensar e todos os pais dos meus amigos doidos, e os meus pais, são ótimos pais (ok que isso depende da comparação que você faz e a gente tem Alexandre Nardoni aí pra manter os padrões lá embaixo). Pisam na bola daqui e dali, mas nada drástico. Mas parece que uma coisinha, um errinho na nossa infância, uma cobrança a mais ou a menos, uma demonstração de desapontamento, essas coisas viram uma bola de neve. E quando você vê, tá escrevendo um blog tá indo no psiquiatra.
E eu não vou cantar Legião Urbana agora, mas descobri também que, além das nossas neuras todas serem plenamente explicáveis por analogias Freudianas relacionadas a maneira como enxergamos nossos progenitores, o único jeito de ficar bem é descomplicar as coisas.
É uma mistura de Carpe Diem com Don’t worry, be happy, Hakuna Matata e A Festa, a última de Ivete Sangalo, tudo com muito suíngue e descontração, mas sem os clichês. Essa deve ser a vida. Ela precisa ser leve, e você precisa rir dela sempre – igual ao Chico Anísio lá no começo -, porque ela ri de você o tempo todo. Precisa ser despretensiosa, porque precisa ser surpreendente sempre. Você precisa olhar pras coisas com mais compaixão, mais magnânimidade, mais bom-humor e um pouquinho mais de paciência. Também ajuda só fazer pros outros o que você gostaria que fizessem com você. Daí, é só esperar as coisas acontecerem, porque parece que a fórmula funciona.
Funciona naquelas. Tipo, descobri que diante das pessoas MUITO NORMAIS – o gado – mesmo depois do deploy da sua maluquice (ou seja, o relaxamento que vai levar a uma maluquice beleza, por assim dizer) você vai continuar parecendo louco. Eu, por exemplo, por mais normal que pareça no geral, reconheço uma pessoa normal demais pelo jeito que ela me olha, como se observasse um animal esquisito. Isso é curioso. Mas só deixa a coisa toda mais engraçada e mais fácil de suportar.
Outra coisa que ajuda é observar as pessoas e entender exatamente o que parece normal pra elas, e replicar isso. Daí você parece normal pra elas, mas só esse seu comportamento te torna mais louco ainda. E se você por acaso ainda achar graça nesse disfarce, puta merda, você é dos meus.
Ah, e uma dica pras gerações vindouras: você, que nasceu no fim dos anos 90 – a profissão do futuro não é engenheiro ambiental, infectologista, ufólogo. É psiquiatra, amigão. O mundo está cada vez mais cheio de gente doida, e elas têm dinheiro. Se for pra ser doido, que seja rico, porque aí te consideram excêntrico.
*Esse post foi perdido devido a um problema no servidor. Os comentários dele se foram (inclusive, pela segunda vez). Peço perdão aos que comentaram – eu tenho os comentários guardados no meu e-mail. Se vocês se sentirem a vontade pra isso, re-comentem (alguns pela terceira vez). O post foi publicado novamente.
14 de janeiro de 2009 às 2h52
Tô com muito sono
Significa que vou mais cedo pra cama, e não vou escrever. Daí eu durmo mais, afinal o limite é entre 8h30 e 9h, quando as marteladas começam. Mas já que você veio, vê o Fábio Porchat fazendo stand-up no Altas Horas e começa bem o seu dia (ou termina bem a noite, sei lá):
Esse negócio de stand-up já tá mó batido, mas os caras bons são sempre bons. E esse é provavelmente um dos únicos caras que eu chamaria de histericamente engraçado. Nervoso e desesperado e engraçado.
(Diga da Gi)
13 de dezembro de 2008 às 3h59
O retorno do Rei do Elogio (ou de um farsante)

Vamos relembrar…
A Sprite imitou (ou contratou, mas acho que não é a mesma pessoa) este senhor e fez o hotsite mais estrombólicamente divertídico que eu já tive a honra de visitar. Caixas de som devem estar ligadas para que a experiência possa ser apreciada em toda sua plenitudica enaltecinética. http://www.sprite.com.br/reidoelogio/
20 de outubro de 2008 às 2h46
Quais são os limites do humor?
Eu sempre fui a favor da piada acima de tudo. Defensora do humor incondicional, sempre achei que a piada nunca poderia ser perdida em momento algum, e que a diversão (e os risos e a alegria) provocada por ela sempre justificaria um possível ‘mau-gosto’.
Para algumas pessoas, é claro, falta humor. A elas parece, por exemplo, um pouco rude rir do vídeo da menina pastora. É, afinal, uma manifestação religiosa que deve ser respeitada.
Mas não sei quem foi que inventou que achar engraçada uma situação que apresenta uma comicidade, embora tenha sentido profundo para outras pessoas, é desrespeito.
Nesses casos, de coisas claramente muito engraçadas, acho inadequado esperar que as pessoas se contenham e não ‘façam piada’ a respeito do comportamento da menina. Parece cruel, e eu já ouvi que meu humor é cruel de muita gente, mas basta me conhecer um pouco para saber que não há, absolutamente, crueldade – há apenas uma capacidade de ver as coisas de um ângulo um pouco menos sério. Nesse caso, essa sensibilidade nem é necessária, já que a graça é bem explícita.
Recentemente, um blog brasileiro de origem árabe publicou algumas charges que faziam piadas desnecessárias com os atletas participantes das paraolímpiadas, e foi duramente criticado por um monte de gente.
Eu fiz coro à crítica, porque achei que as referências foram pesadas e forçadas, e as piadas, sem graça. Acho que em casos de humor politicamente muito incorreto, só vale quando a piada já vem pronta. Por exemplo: um nadador paraolímpico, que não tem dois braços e uma das pernas, se chama Christopher Tronco.
Veja bem – aí não há crueldade. A fina ironia da vida acaba tornando essa casualidade algo digno de nota. E se ele for um cara sossegado, provavelmente até reconhece que tem algo muito engraçado no fato de… bem, você entendeu.
Um exemplo recente é o vídeo aqui em cima. Eu não achei graça, mas posso reconhecer que ele possui elementos cômicos. O problema é que essa dificuldade de fala pode muito bem ter sido causada por um derrame, até onde eu sei – já que mudo é mudo, e não fica resmungando assim – e se esse for o caso, apesar de os elementos cômicos ainda serem proeminentes, a risada traz um pouco mais de culpa.
Outro que promete se tornar hit é esse. Vale rir de uma criança batendo na outra? E se fosse um adulto batendo numa criança, como nesse vídeo aqui?
Sou defensora do bom-humor acima de tudo porque acho fundamental a capacidade de não se levar a sério. Eu consigo apontar de longe as pessoas que se levam muito a sério e quase sempre elas são bem chatas.
Mas é realmente complicado ficar aquém do limite das piadas que podem causar constrangimento ou ofender, até porquê as pessoas são muito diferentes – algo que não ofende a mim pode ofender a você – e a maioria delas tem um senso de humor péssimo.
A própria sociedade desconhece esse limite, aliás. É permitido fazer piada do episódio Padre Baloeiro, que apesar da situação inusitada, teve uma morte supostamente sofrida e aflitiva, já que ou morreu afogado no mar ou congelado nas alturas, desesperado por não saber mexer num GPS.
E claro que não é algo passível de medidas, mas considero a morte do Padre dos Balões tão aflitiva ou mais até do que a fatalidade ocorrida com a menina Isabella, episódio esse que não admite nem a piada ‘o que entra pela porta e sai pela janela?’, sob o risco de olhares tortos dos presentes.
De qualquer maneira, ainda acho que o bom humor é o escudo mais eficaz contra a loucura nos dias de hoje. É fundamental que façamos piada até daquilo que não se faz, das tragédias e das tristezas. É a maneira mais rápida de se desprender disso e continuar vivendo. Não chega a ser bonito, nem louvável, encontrar meia dúzia de jovens esclarecidos fazendo piada com o caso Eloá num boteco na sexta à noite. Mas depois de um tempo eu percebi que mais do que alienação ou falta de sensibilidade, se trata apenas de um mecanismo de defesa. Porque nesses dias doidos, se eu me entristecesse e deprimisse com todos os episódios chocantes que acontecessem, e não conseguisse por um minuto que fosse transformar a tragédia em comédia, eu já teria pirado.
12 de setembro de 2008 às 5h00
Você é honesto?
Ah, a honestidade. Bons eram os tempos quando ser honesto era considerado a regra. Era o que se esperava das pessoas. Hoje, a notícia é quando o faxineiro do aeroporto devolve a maleta cheia de dinheiro que achou no banheiro.
Eu acredito que boa parte da honestidade surja a partir da aceitação e compreensão do conceito de coletivo. Na vida em sociedade, organizada em um sistema democrático, é fundamental o reconhecimento do direito e do dever de cada cidadão. Quando um indivíduo reconhece e assume um senso de cidadania, ou seja, o reconhecimento dos direitos e deveres de cada um na sociedade, e resolve respeitar isso, a honestidade surge automaticamente.
A outra parte de ser honesto deve vir do caráter.
Digo isso porque não ser honesto resulta quase sempre em prejudicar alguma outra pessoa com os mesmos direitos e deveres que você. A consciência do igualitarismo e um bom-caráter entram em conflito desonestidade por princípio. Ninguém que sabe que todo mundo é igual e que não prejudica outras pessoas tira vantagem dos outros.
Como sabemos, nosso país carece dessa consciência do outro. Não vou nem me repetir no ‘jeitinho brasileiro’. Tirar vantagem do outro, quando possível, virou praxe. Como isso é desonesto, concluimos que desonestidade virou regra. Ou você não conhece gente que te acharia idiota se você devolvesse intacta ao dono uma carteira que achou cheia de dinheiro?
Vou ser bem sincera: esse é provavelmente um dos principais motivos pelos quais eu que eu quero sair daqui. Eu vejo centenas de exemplos de falta de cidadania todos os dias por todos os lugares que passo. E esse individualismo extremo bizarro, que grita ‘cada um por si e deus por todos na rua’ no metrô, no trânsito e em todos os lugares, que só prejudica, me deixa muito desesperançosa. O país nunca vai sair do lugar enquanto as pessoas acharem que é cada um por si.
O interney disponibiliza aqui um teste de honestidade. Clique, responda (amigo, seja sincero. Se você começar sendo desonesto num teste de HONESTIDADE é porque há algo errado) e veja se você é alguém em quem a sociedade pode confiar. Segundo o teste, eu sou uma pessoa super-honesta.
O CQC – o programa de humor mais legal da televisão brasileira, mas que sub-aproveita geniais Marco Luque e Rafinha Bastos – fez recentemente uma série de testes de honestidade. O repórter Danilo Gentili, conterrâneo desta que vos fala (Santo André é nóis), simulou uma série de situações nas quais a honestidade do povo de três capitais – Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro – foi testada.
Preciso dizer que o resultado não me surpreendeu? Não me surpreendeu, mas me indignou, porque a capacidade de me indignar eu não perco nunca.
São Paulo:
Rio de Janeiro:
Brasília:
Não é prudente culpar os políticos por tudo, mas a deliberada falta de honestidade na política não pode estar servindo de mau-exemplo para essas pessoas? Do tipo ‘já que eles não pensam em mim, eu vou pensar’.
CLARO que isso não justifica nada. Os políticos são os mesmos para mim e eu não fico por aí pegando dinheiro de ceguinhos. Mas é algo a se pensar.
Aliás, você ficou chocado com o policial-ladrão de Brasília? (Sim, porque quem toma sabendo quem é o dono é ladrão)
Ele se arrependeu:
Justo. Todo mundo deve ter direito a uma segunda chance.
Quanto ao CQC, meu professor de crítica da mídia perguntaria ‘Mas… isso é jornalismo?’
Não que isso importe muito, mas não vou me arriscar a entrar nessa questão. Deixo para você.
2 de junho de 2008 às 5h36
Cersibon e a revolução do humor (aka ‘crdei kr ppoca’)
Eu já me perguntei muitas vezes sobre os mecanismos que tornam alguma coisa engraçada. Deve haver uma espécie de tabela cerebral (fictícia, óbvio) de situações que geram comicidade, mesmo que algumas pessoas não achem graça naquilo que as outras acham divertidíssimo.
Quando falamos do cersibon, fica bem clara essa história de relatividade humorística. O blog tem tirinhas de humor cuja graça reside na tosquice dos desenhos (rabiscos às vezes incompreensíveis) misturados a diálogos nonsense numa língua esquisita, que já é chamada de tiopês (essa matéria do caderno Link, do Estadão, explica melhor essa estória de tiopês). O que me impressiona nesse ‘novo’ tipo de humor são os recursos simples mas eficazes na provocação de risadas. Sim, eu me interesso por teoria humorística (isso existe?)
Eu, que sou meio boba, acho que o cersibon é uma pérola do cyber-humor. Mas já mostrei pra algumas pessoas que foram incapazes de achar graça na coisa. Algumas reclamaram de não entender nada, mas o legal é que isso é justamente o que torna as tiras engraçadas em boa parte dos casos.
De qualquer forma, se você não entende nada no blog do cersi, dá pra passar em um dos vários blogs que surgiram inspirados pelo humor cersiboniano nos últimos tempos.
O cersiencia se dedica exclusivamente a explicar o teor das tiras e as particularidades do idioma rico que é o tiopês. Fino. Além dele, o Blog da Galere, o cersifan e o Zezuis são cópias assumidas das tiras do cersibon – o segundo parece inclusive ser administrado pelo próprio cersibon-original, que receberia as tiras feitas por fãs e as colocaria no blog. Mas nunca dá pra saber se, de fato, é ele – vocês sabem, a identidade verdadeira do cersi é um dos grandes mistérios da rede.
A opção para os maiores de idade é o pornibon, com tirinhas apimentadas e cheias de sedução e volúpia, com apelo pornográfico explícito.
Todo mundo reclamava do miguxês, mas dá pra notar que o tiopês é uma evolução dele, uma maneira bizarra de zuar quem escreve desse jeito esquisito. Sim, porque tem gente que escreve daquele jeito de verdade. Duvidam?*
*Outras dessa na Pérolas da Gramática.
18 de dezembro de 2007 às 15h52
A piadista
Não sei vocês, mas para mim tem se tornado cada vez mais clara a importância das piadas no nosso dia-a-dia. Não falo de piadas-estorinhas, daquelas que a gente lê no Humortadela e conta pro amigo (de loira, de português, essas coisas). Falo das piadas do cotidiano. Aquelas coisas não tão óbvias mas engraçadas que acontecem o tempo todo em todo lugar, que fazem a nossa vida mais divertida e para as quais o único requisito é um olhar e um ouvido bem treinados.
O meu problema, e é bem particular, é que meu humor é peculiar e um pouco extremo. Eu sou a favor da piada acima de tudo, de rir de si mesma. Sou contra humor depreciativo (apesar de gostar do Pânico…), mas de resto, acho que tudo vale, porque rir com os outros é muito bom.
Ok, daí parece que eu empurro velhinhas no vão entre o trem e a plataforma pra rir da cara delas. Não é o caso, vejam bem. Eu apenas apóio a máxima de rir de si mesmo (e, a partir daí, rir dos outros). Não no sentido “sem orgulho-próprio” da coisa, no sentido auto-crítico, divertido. Não foram poucas as vezes em que boas risadas me salvaram de um dia péssimo ou de uma TPM brava.
Pois bem. Além de tudo isso, eu tenho um problema que não consigo identificar, ainda, se é vantajoso ou não. As pessoas riem naturalmente de mim, sem que eu fale coisas necessariamente engraçadas. Na sala de aula acontece o tempo todo – e eu, que era muito de falar, às vezes fico meio acanhada (alguns vão contestar, mas juro que falo sério). Já fui vítima do fenômeno em dinâmicas de grupo para empregos, também. Eventualmente, eu consigo identificar o termo ou expressão facil que originou as risadas. Na maioria das vezes, entretanto, eu acho que é franco exagero.
Ok, legal. Ou eu sou engraçada pra cacete ou tenho cara de idiota. Não tem problema, eu não quero descobrir qual das duas é a certa e tudo bem. Acontece que as consequências desse problema são diversas:
1 – As pessoas riem quando falo alguma coisa séria, e a certa altura (mesmo depois de muita convivência), chegam a me perguntar se estou brincando ou não quando falo alguma coisa que gere dúvida;
2 – Eu acabo me achando muito engraçada, algumas vezes, e isso pode acarretar certos constrangimentos, já que minha principal arma para me entrosar em grupos novos são as piadinhas eventuais, e estudos (meus) comprovam que as pessoas riem muito mais de você se elas já te conhecem. Do contrário, você parece… uma estúpida tentando se entrosar com piadas.
3 – Acontece menos hoje em dia, mas eventualmente eu faço piada com o que não devo. Novamente, friso que sou uma pessoa repleta de conceitos de noções (nada de piadas sobre doenças e incapacidades físicas, por favor), mas é que como eu levo as coisas mais na brincadeira do que os outros, sem querer acabo perdendo noção do que pode ofender os terceiros.
As vantagens é que estou quase sempre de muito bom-humor e sempre muito sorridente, o que me faz parecer super-simpática. Eu acho. Se bem que depois eu estrago com as piadas, então dá na mesma.
De qualquer maneira, foi só um desabafo, catalizado por cenas engraçadas (para mim) vistas no metrô hoje e a minha tentativa de me enturmar ontem, num evento onde eu não conhecia nin-guém. Nah. Aí eu conjecturei sobre a importância do humor na minha vida e tal.
Me lembrei, agora no final, de uma cena engraçada do sábado. Minha mãe que me perdoe, mas lá vai: ela (a minha mãe) é dançarina de Flamenco. Sábado, ela se apresentou em um espetáculo da escola dela (parece que tô falando da minha filhinha, né?), que misturava danças árabes com a dança flamenca, tradicionalmente espanhola. Pra quem não sabe, as duas são muito parecidas, por causa da invasão árabe na península ibérica, quando rolaram umas influências mútuas nas culturas dos dois povos.
Bom, aí a primeira dança são umas 30 (mais, talvez) mulheres de burca, fazendo uma dancinha primitiva (parecia aquelas brincadeiras de roda misturadas à dança de festa junina), uma coisa deveras curiosa. Engraçada, porque não? Mas eu olhei para trás, e nenhuma daquelas pessoas sérias estava sorrindo. Clao que dar uma gargalhada ali seria interpretado como falta de respeito. Mas um sorriso é permitido, ainda mais com as luzes apagadas. E era claramente algo engraçado. Até aí, eu relevei.
Aí, veio a gota d’água. Surge no palco uma cantora de música árabe-flamenca. Trata-se, para os desavisados, daqueles gritos árabes místicos e desafinados, encontrados também nas melodias espanholas. Não chegam a ser desagradáveis, não, e a mulher cantava bem. Mas…
Ela fazia caretas na hora de cantar. Horríveis. Contorcia o rosto como se… me desculpem, mas eu tive a clara impressão de que estavam enfiando algo no cu dela. Porque eu tinha certeza que ela estava sentindo a pior dor. Do mundo.
Aquilo era engraçado. Não havia dúvida, po. Era muito engraçado. Eu tava na frente do palco, fotografando, e fiquei pensando no meu irmão, lá atrás, que com certeza riria comigo e compreenderia a graça da coisa. E olhei para trás, em busca de alguém que compreendesse minha necessidade de rir.
Ninguém. Aí tem uma mistura de necessidade de manter uma postura + falta de olhar e percepção pro que é engraçado nas pequenas coisas do cotidiano. Mas… que posso fazer? Só dou risada.
Editado: Apesar das coisas engraçadas na apresentação, no geral ela foi muito bonita e a minha mãe dançou muito bem. E, afinal, se tem uma coreografia de dança de roda… minha mãe não é a coreógrafa.






23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

