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O admirador secreto das barras de cereais

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Eu emagreci mais ou menos 14 quilos nos últimos três meses. Entre outras coisas, isso significa que eu adquiri o hábito de consumir barrinhas de cereais à tarde, nos momentos de perrengue. Em vez de recorrer ao salgado da cantina ou à batata frita da máquina da redação, saco da gaveta uma das barrinhas de cereal – minha mãe compra duas caixinhas com 3 delas por semana – e saboreio aquela deliciosa mistura prensada de alpiste, serragem e flavorizante artificial (que varia entre o sabor coco e o o morango, no meu caso).

A verdade, que sinto admitir, é que eu acabei me afeiçoando por esses pequenos pedaços embutidos de frutas com cereais. Eu gosto de barra de cereal. Não é exatamente algo que eu escolheria pra comer se fosse minha última refeição, mas não chega a me incomodar, nem é um esforço muito grande. Vou lá, como uma mexerica, uma barrinha de cereal e voilà, quem é que precisa de jantar?

Ainda assim, reconheço que barras de cereal, do ponto de vista gastronômico, não são preferência nacional. E é por esse motivo que fiquei absolutamente chocada quando roubaram da minha gaveta uma caixa fechada com três barrinhas Neston sabor morango essa semana.

Eu deixo as comidinhas na gaveta, sempre deixei desde muito tempo, e nunca tinha sumido nada, embora os companheiros de baia sempre tivessem reclamado que as coisas deles eventualmente desapareciam. Um dia desses abri a gaveta pro lanchinho das 17h e CADÊ A CAIXINHA NOVINHA QUE EU TINHA GUARDADO NO DIA ANTERIOR?

Junto com ela, se foi também um dos dois pacotinhos de Club Social recheado (ganhei uns 5 no Skol Sensation e guardei pros lanchinhos da tarde).

Eu nunca tinha passado por situação semelhante no trabalho. Achei que pessoas que roubam comida dos outros fossem lenda – especialmente em ambientes onde, supostamente, não tem ninguém literalmente passando fome. Nunca achei que aconteceria comigo e, quando lia aquelas crônicas engraçadas sobre gente que deixava o lanche no frigobar coletivo e era extorquido, ria gostosamente da ficção impensável.

marmita

Fica aqui o apelo: embora eu não estimule e nem concorde com tal ato, eu posso entender quando o peão rouba a mistura da marmita do outro peão. É uma atitude que tem uma certa utilidade do ponto de vista da necessidade de diversidade alimentícia. Vai lá, abre a marmita, troca o ovo frito pela carne de panela, tudo certo. Expande as possibilidades de maneiras inimagináveis pra uma simples marmita. Se a obra for grande e tiver muitos operários, po, dá pra fazer um esquema de self-service.

Da mesma maneira, embora também não seja a favor, posso compreender o que leva um filho da puta a roubar comida dos outros na geladeira coletiva no trabalho, por exemplo. Normalmente são coisas gostosas – sei lá, um suquinho, uma fruta, quase sempre um sanduíche preparado com esmero. Existe uma motivação. Bate aquela fominha, você é um filho da puta, o que fazem filhos da puta quando estão com fome? Fodem com gente de bem. Mas ok, é um lanchinho gostoso geralmente.

Mas que tipo de pessoa rouba uma caixa fechada de barra de cereais? Quem, no mundo, cobiça de verdade um alimento desse?

Eu entenderia se a caixa aparecesse aberta com menos uma barrinha. Sei lá, o fulano quis experimentar. Mas porra – levar a caixa inteira? Excetuando-se as situações onde há cleptomania (e pra ser sincera, acho que no caso de barra de cereais mesmo a possibilidade de cleptomania é anulada), eu imagino que alguém roube algo porque deseja realmente aquilo. No caso de comida, a não ser que esteja morrendo de fome, rouba coisas gostosas de comer. Aquele clube social recheado, de tomate seco com queijo, é realmente gostoso. Justifica o assalto. Mas uma porra de uma barra de cereal? Tem gente que prefere não comer nada a comer isso. As pessoas se manifestaram contra vôos que ofereciam barras de cereal, todo mundo odeia esta merda. Menos eu. E existe uma outra pessoa, que trabalha comigo, que também não odeia. Ou só quer me sacanear.

O jeito vai ser deixar um bilhete na gaveta (algo como “Pense bem antes de fazer isso. É apenas uma barra de cereal, amigo”), prensar uma mosca junto da barra (tipo, quem já comeu a de morango sabe que aqueles pedaços de frutas podem passar facilmente por mosquitos esmagados) ou trancar a gaveta. A última solução é boa, mas acho um pouco complicada, porque as chances de que eu perca a chave são altas.

lanche

O ideal mesmo seria que inventassem uma versão disso aqui para barras de cereais.

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Depois dessa, eu não acredito mais em nada

A vida é cheia de pegadinhas.

Considere a seguinte situação, hipotética: num belo dia desses aí, um grupo desocupado de cientistas do Reino Unido descobre que fumar cigarros, na realidade, aumenta sua capacidade pulmonar.

Isso. Ao contrário do que foi pregado durante todos esses anos, cigarro não faz mal coisa nenhuma. Era tudo, sei lá, um grande lobby da indústria automobilística para camuflar o verdadeiro causador de todos esses cânceres no pulmão e problemas respiratórios: o Monóxido de Carbono emitido pelos carros.

Seria um choque, não? Tudo aquilo que você acreditou por toda sua vida iria por água abaixo em apenas alguns minutos. No início, seria difícil de acreditar. Depois, quando outros experimentos comprovassem a tese, você se resignaria e tentaria adaptar sua vida a esse novo paradigma, tão diferente do anterior. Mas a sensação de que você tinha sido enganado por toda a vida e tinha caído num conto do vigário jamais desaparecerá.

Foi assim mesmo que eu me senti quando li essa notícia aqui: Estudo indica que as listras horizontais são as que emagrecem.

Durante todo esse tempo, eu fui obrigada a me confrontar com dicas de estilistas que, seguras do que diziam, apregoavam a necessidade de não, sob hipótese alguma, NÃO USAR ROUPAS COM LISTRAS HORIZONTAIS (se você quiser parecer mais magro).

Para ser sincera, eu sempre tentava olhar para a questão de fora. Quando via alguém de listras hosrizontais tentava enxergá-la mais gorda e não conseguia. A certa altura, me dei conta que isso era bobeira e que eu devia acreditar, afinal, era unanimidade entre os profissionais da área e tanta gente não podia estar enganada.

Falou-se nisso por tanto tempo que virou verdade absoluta. Ainda bem que sempre existem cientistas desocupados preocupados em derrubar ou comprovar paradigmas.

Outra notícia do mesmo gênero: Pesquisa diz que adoçante pode engordar mais que açúcar.

Carolina Ferraz e Zé Wilker mentiram para gente todos esses anos.

Você passa sua vida tentando convencer a si mesma e aos outros que o gosto é bem parecido. Que adoçante não é amargo e deixa o seu adorável suco de abacaxi com gosto de novalgina no final. ‘Não’, você diz. ‘Depois de um tempo você se acostuma’. E aí, de repente, alguém resolve pesquisar a coisa direito e descobre que anos de ingestão voluntária de algo com gosto de novalgina foram em vão.

A moral da história é a seguinte: não importa por quanto tempo te digam algo, não acredite nisso. Nós, humanos, não sabemos de nada. Nada, nada.

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