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O tênue limite entre a simpatia e a loucura

Você certamente já encontrou com alguém cuja simpatia ultrapassava o limite do que é considerado socialmente aceito. Se trata daquelas pessoas sorridentes e solícitas, que diante da menor inclinação da sua boca demonstrando um sorriso desatam a falar sobre coisas que você certamente não perguntou e pelas quais, na maioria das vezes, não tem interesse nenhum.

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Eu posso ser uma dessas pessoas.

É triste admitir. Mas se você somar minha personalidade extrovertida e conciliadora com um dia de bom humor e uma deixa boa, eu posso ser uma daquelas pessoas que se intrometem sem querer na conversa de outras pessoas e, quando vê, já estão palpitando sobre coisas para as quais não foram convidadas.

Junte isso ao meu jeito estranho de falar – caso você não me conheça, eu falo exatamente como escrevo aqui, com as mesmas palavras e as mesmas pausas e todo o resto – e você me terá como uma desconhecida louca nos lugares  públicos, dessas que as pessoas evitam.

E assim, é mais forte que eu. Nesse fim de semana, por exemplo, eu estava na fila da Renner, pra pagar uma calça, e uma senhora perguntou (ok, eu achei que era pra mim, mas era pra filha dela que estava na minha frente) se a outra fila estava menor. Eu respondi com desenvoltura, como se ela fosse minha melhor amiga. Normalmente, nessas horas, se a pessoa está acompanhada, ela troca olhares de profunda estranheza com o companheiro, o que é absolutamente constrangedor pras pessoas simpáticas loucas como eu.

Felizmente, minha simpatia louca tem seu lado bom. Não foram poucas as vezes em que fiz amigos e influenciei pessoas desse jeito. E na prática, no fim acabam me considerando só simpática, e um pouco esquisita, mas não exatamente louca.

Isso é porque, na maioria das vezes, eu sei me manter do lado de cá do tênue limite entre a simpatia com estranhos e a intromissão considerada maluca. É, é uma tarefa delicada, e demanda anos de prática e leitura corporal, mas eu só sei que sei e ponto.

Como eu sei disso? Porque já lidei algumas vezes com pessoas simpáticas realmente loucas. E eu não faço, definitivamente, o que elas fazem. Por exemplo: um rapaz que se vestia esquisito me acordou no trem, dizendo que eu ia perder a estação – como se ele pudesse adivinhar a estação em que eu desceria. Me fez perguntas esquisitas sobre onde eu morava e com quem, conversou comigo como se fôssemos amigos de anos e depois de um tempo tomou seu rumo.

O outro, um tio com crachá da Apae, se sentou ao meu lado e resolveu trocar idéia. Perguntou se eu não queria tomar suco na casa dele, tomar guaraná, ser amiga dele, ser irmã dele, pediu meu telefone (eu passei errado) e toda a sorte de coisas esquisitas. O ônibus inteiro riu da situação até que ele desceu e eu fiquei aliviada, porque ele parecia esquisito além do que podia ser seguro.

Essas pessoas são suicidas sociais, por definição. O primeiro, porque é esquisito. O segundo realmente tinha algum nível de deficiência mental, ou seja, não conta como exemplo. Mas como ser simpático e louco sem ser esquisito e intrometido? Como não parecer um ridículo que quer chamar a atenção?


Não é assim

A regra principal é saber se seu comportamento é bem-vindo. Pode parecer uma ilusão, mas existe gente no mundo que é simpática aos malucos-simpáticos (normalmente, outros malucos simpáticos, ou velhinhos). Essas pessoas vão ficar felizes com a sua intromissão. E elas vão demonstrar isso, não sendo monossilábicas e puxando papo.

Acho que a diferença principal entre o simpático e o maluco-simpático é justamente essa – o maluco não se toca que está sendo inconveniente. Ou, se percebe, realmente não se incomoda com isso. Nós, simpáticos em excesso-quase-malucos, tentamos uma aproximação mas nos afastamos assim que notamos que não somos bem-vindos.

Ou escrevemos um blog.

Mas essa preocupação em se adequar só deve ocorrer porque o comportamento simpático-maluco não é socialmente aceito, e a gente precisa de amigos. Eu não vejo nada de errado com essa extroversão maluca – até porque não é sinal de saúde estar inserido numa sociedade que não me parece estar muito bem das pernas.

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Cilada Cultural 2009

Da primeira vez em que eu fui na Virada Cultural, no Centro de SP, ano passado, achei que o evento era um modelo de coisa legal pra se fazer numa cidade como São Paulo. Poder andar no centro velho à noite, com tanta gente diferente e todo tipo de maluco – porque São Paulo tem a maior concentração de gente louca por metro quadrado e essa concentração cresce à medida que você se aproxima das regiões centrais – é um desses programas de bicho grilo que pessoas como fazem poucas vezes na vida.

Mas no ano passado eu não consegui ver nada. Apesar de ter me programado, na hora tinha muita gente, era tudo meio longe e no fim só fiquei andando atrás de algo legal e não vi nenhum show.

Ok, FAIL. Daí pensei: esse ano vou me programar. Vai dar tudo certinho. Vou de metrô de um lugar pro outro. Vai ser legal, muitas bandas boas, alegria, azaração.

Mas a prefeitura de SP achou que seria divertido furar não sei o que no metrô República JUSTO NA NOITE DA VIRADA CULTURAL. Temos outros 354 dias no ano pra fazer isso, mas eles escolheram a madrugada da virada.

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LHC e Tatuzão: separados no nascimento

Isso significa que o metrô Anhangabaú estava um caos do cacete.

Some isso ao número infinito de pessoas que resolveram ir ao centro de SP no sábado à noite (muito, muito mais gente que no ano passado) e você tem o seguinte cenário: grupos de pessoas que querem muito ver alguns shows, mas aí não conseguem, porque tem muita gente e não dá pra ver nada, porque tão esperando fulano amigo do ciclano, porque se perderam do beltrano, porque, porque, porque.

Daí eu encontrei outros grupos de amigos e todo mundo tava na mesma. E falei com outras pessoas, depois, e todo mundo falou a mesma coisa. Isso é: a gente não cobseguiu ver nada, porque onde a gente ia tinha muita gente, e ai a gente ia procurar outra coisa pra ver, mas aí sempre tinha muita gente, e daí fomos embora.

Gente demais, sujeira demais, babacas demais. Depredaram uns ônibus e banheiros químicos, eu vi, e todos os idiotas eram uns emos playboys. Sério, todos emos, querendo demonstrar toda a rebeldia contida no rock’n'roll. E é esse tipo de moleque idiota que faz a coisa virar merda.

Foi legal poder andar pelas ruas de SP, apesar do cheiro constante de urina e de outras coisas, e de forma geral a coisa pareceu organizada – shows pontuais, bastante policiamento, poucas (e isoladas) brigas. O som sempre tava ruim, mas não dá pra reclamar – não é uma casa noturna, não tem como exigir acústica boa.

Mas tinha gente demais. O mundo tem gente demais. E, de novo, eu quase acabei cansada, com fome, puta da vida e sem ver nada. Quase porque achamos um concerto de piano ali pelas 5 da manhã, na Praça Dom José Gaspar, e lá ficamos, e foi um dos shows mais agradáveis que eu já fui (acho que porque tinha cadeirinhas e eu tava super cansada).

De qualquer forma, houve sim momentos imperdíveis, que devem ser mencionados:

  • No fim do show de jazz do pianista, um carinha subiu no palco pra afinar o piano. No fim de todas aquelas notas esquisitas e sons dissionantes, um grupo de moleques aplaudiu vigorosamente (e era sério, você tinha que ter visto a cara deles).
  • Um doido escalou o Teatro Municipal com direito a passar de uma quina pra outra, que nem eles fazem nos filmes e dá mó medo. Todo mundo achando que ele ia se jogar, veio ambulância e tudo. Daí ele chegou no terraço e entrou pela porta. Só queria ver o show sem pegar fila, acho.
  • Uma intervenção artística urbana – flashmob bizarro (gosto de chamar de Piracema de Loucos) mobilizou vários grupos durante a virada. As pessoas chegavam, levantavam os braços e ficavam caminhando em círculos. Dasí uma mina e um cara ficavam saltando e dando piruetas e golpes de capoeira. Nesse ponto, outros 30 maolucos ao redor já tinham se juntado ao grupo. Foi provavelmente a cena mais surreal que eu já vi na vida. Filmei um pouco, e apesar da má qualidade (tava muito escuro), dá pra ver os retardados pulando:
  • Vi umas 10 pessoas de máscara contra Gripe Suína, mas acho que era brincadeira. Espero. Gostaria.
  • Esse cara é o bêbado morto mais à vontade que eu já tinha visto:

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Antes que me crucifiquem, eu chequei e ele estava respirando.

A solução: ano que vem, nada de centro de SP. Tem muitas atrações legais rolando fora dos circuito do centro, e em 2010 eu vou escolher apenas um ou dois shows muito legais que acontecerem na puta que pariu e ir até eles. É o único jeito de não passar de novo por uma Virada FAIL.

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My prerrogative

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Adoro o fato como os títulos das músicas da Britney, de alguma forma, previam o futuro dela. ‘Oops, I did it again’, ‘Toxic’, ‘You drive me crazy’.

Mas vamos lá. Você tem 15 anos e assina com uma gravadora. O detalhe é que seu talento é nenhum exceto ser gostosa. Ok, suas músicas grudam na cabeça, dão vontade de rebolar, e você dança bem… mas a Kelly Key faz isso. Não é um grande mérito, exatamente. Você é tudo o que você é porque canta coisas sexies com voz de criancinha e é gostosa.

Em seguida, você é famosa e milionária. E gostosa. Você podia ter parado por aí. A maioria das pessoas pára.

O que eu gostaria de entender é como uma mulher passa de uma situação de absoluto sucesso (e, aparentemente, faculdades mentais plenas) assim, prum claro surto psicótico, diante dos olhos de todo o mundo, e ninguém consegue (ou quer) fazer absolutamente nada. Na internação em hospital psiquiátrico, os exames não apontaram nenhuma toxina. Ainda assim, o The Sun deu que era Clembuterol, um remédio pra cavalo que nego toma pra emagrecer, parece. Eu acho que ela só endoideceu, mesmo. Eu não a culparia.

Engraçado eu ficar com pena da Britney, culpando a vida cruel que ela teve, depois do choque de realidade de hoje à tarde. Nada pra fazer, fui buscar na minha pasta de filmes alguma daquelas coisas que eu vou baixando e nunca vejo. Optei pelo Ônibus 174, aquele. Pô, achei foda. Acho que a maioria conhece a história, mas o documentário conta principalmente a esstória da vida do Sandro, o assaltante que em julho de 2000 fez 11 reféns dentro de um ônibus no Jardim Botânico, no Rio. É, acho que é esse o nome do bairro. O filme é tipo um tapa na cara da burguesia. Minha única ressalva é que meio que apela pro lado emocional, saca, e não que isso seja reprovável num filme que pretende se destacar, mas sei lá, enche o saco.

Meio que querendo me sentir mais culpada por não morar na rua e por ter almoçado, resolvi assistir outro filme da lista, Notícias de uma guerra particular. Achei legal um delegado que foi entrevistado pro filme. Ele deu uma opinião muito interessante sobre o tráfico de armas. Disse que se os EUA acham que têm direito de intervir nas plantações de coca na Colômbia, com o argumento de que o narcotráfico deve ser impedido porquê é prejudicial para o país deles, olhando da mesma ótica nós também temos o direito de fechar as fábricas de armas nos países desenvolvidos. E tipo, faz todo o sentido. Claro que isso é só um pensamento. Ninguém está pensando em ir lá e fazer. Várias citações interessantes no filme. Do tipo, “o único segmento de poder do estado que chega na favela é a polícia, e só a polícia não resolve nada”. Ou o menino de 16 contando da primeira missão dele, aos 11, quando teve que ‘botar fogo num X9′. Ou o delegado questionando até onde a sociedade quer uma polícia não corrupta.

De qualquer forma, o que me passou pela cabeça foi a babilônia caindo. Esse povo todo, que não faz idéia da força que tem, saindo do morro e vindo pro asfalto. Claro que isso já tá acontecendo, de certa forma, mas falo de um lance real, dos oprimidos contra os opressores, não esses gritos isolados e desesperados que a gente vê de vez em quando, mas uma coisa coesa. Vamos ver por quanto tempo ainda a gente consegue manter o povo no morro, né.

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