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Arquivo: manifesto contra o trabalho

Contra a ditadura da alegria de fim de ano

Eu sei que alguns de vocês se sentem assim também (ainda vou falar ‘assim’ como, calma), então deveríamos nos unir contra a ditadura da alegria de fim de ano. Porque todos nós sabemos que meia-noite do dia 31 de dezembro é uma meia-noite igual a todas as outras, mas que as pessoas insistem em transformar em algo lindo. É tudo a mesma merda. E mesmo nas comemorações não muda muito – você reúne a família (eu gosto, mas pra algumas pessoas isso deve só colaborar pra cretinice da data), come muito e bem (eu gosto, mas pra algumas pessoas isso deve só colaborar pra cretinice da data) e finge que acha que agora as coisas vão ser diferentes.

E não vão. Segunda você volta a trabalhar, se fode porque vai ter que fazer dieta pra perder os 3 quilos que ganhou em duas semanas.

O foda é que todo mundo tem que estar alegre, simpático, educado. Eu sou alegre normalmente, mas não vou definitivamente ficar desejando feliz ano novo com margem de erro de 10 dias para mais ou para menos da data oficial e, gostaria de frisar, não vou abraçar desconhecidos se passar o reveillon num lugar público. Mas eu também não vou passar o reveillon em lugar público ao lado de milhões de desconhecidos, porque não assisto aqueles shows de graça de fim de ano nem de graça. Nem me visto de branco – nem é por nada, é que não tenho roupas brancas.

A real é que tudo continua the same shit. E quando você era criança não era assim. Lembra que ‘Natal’ era tipo um ‘período’? Natal não era um dia só. Natal significava um grande contexto, era uma faixa de dias que se estendia por umas 4 semanas. Incluía as férias de dezembro, quando você aproveitava pra jogar videogame o mês inteiro, toda a ansiedade em torno do que você ia ganhar (esse texto é direcionado para pessoas da classe média), a data em si e o pós, que era brincar com o brinquedo novo. As vezes tinha o bônus, tipo, brincar com o primo que veio do interior e coisa assim.

Só que hoje é só um dia, no máximo dois, porque um dia antes você trabalhar, um dia depois também. E continua trabalhando depois, e pegando ônibus, e olhando pra cara das mesmas pessoas, etc. Então não faz diferença nenhuma. Daí eu concluo: se você precisa de natal e ano novo pra desejar amor, paz, dinheiro, felicidade, ou pra se reunir com a família, tem algo errado contigo.

Claaaaro que tem o feriado, mas como eu quase não tenho folga, quase me esqueço da parte boa da coisa.

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Universiotários!

O mundo tá tão de ponta cabeça que a sociedade foi capaz de subverter inclusive a semântica inclusa no termo ‘universitário’.

‘Universitário’ era pra ser um termo que denotava juventude, educação, inteligência, construção e luta por ideais e tudo que a gente deveria associar a um ambiente como uma universidade – o ‘academicismo’ incluso aí.

Mas como a faculdade não passa de uma desculpa para tomar cerveja e jogar truco, ‘universitário’ foi adquirindo um significado todo novo, muito adequado às novas condições do universitário babaca padrão do país.

Primeiro que a palavra ‘universitário’ é acrescentada a qualquer estilo musical babaca que atingir os jovens babacas de classe média. Se for babaca, se tiver mulher e cerveja, bah, é universitário. Tem o forró universitário, o pagode universitário (ou NEOPAGODE, hahaha), o sertanejo universitário e dizem que até a new rave universitária.

Acompanhadas dos gêneros, vêm as festas babacas – micaretas e raves heterodoxas acompanhada do fabuloso adjetivo. A vantagem disso é a rápida identificação de um lugar indesejável – se tiver ‘universitário’ no nome, pelo menos já dá pra saber que é um lugar que você não gostaria de ir.

Para coroar, lembra do Show do Milhão? Dava até vergonha quando o Silvio chamava os tais ‘universitários’ para ajudar. Os caras não sabiam nada, demoravam um puta tempo para decidir e a maioria seguia o palpite do primeiro a opinar.

Tem as ‘contas universitárias’ no banco, ilusões que prometem alto crédito e menores taxas mas não passam de uma doutrinação precoce para o mundo das taxas bancárias. E as propagandas mostram jovens – hum, babacas, mas que depositam seu dinheiro no Banco ****.

Deve ser por isso que aquela propaganda que diz ‘não é melhor escolher uma faculdade pelo conteúdo que ela oferece?’ existe. Porque OI, isso não deveria ser óbvio? E agora tem uma propaganda pra dar a dica e tudo.

Tudo que vem acompanhado do termo ‘universitário’ hoje é dispensável. Ok, talvez o cursinho universitário seja a excessão.

E eu não tô dizendo que universitários não possam ser babacas se divertir, só acho que o equilibrio é a chave para o sucesso. Os 100% de babaquice festeira, pela qual os universitários são caracterizados, são tão ruins quanto uma possível 100% nerdice. Mas na faculdade não existem nerds, então…

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Eu quero é sossego

Uma vez, a minha tia disse que ia me ensinar um truque para fazer o tempo passar mais devagar ou mais rápido. Eu tinha que me concentrar, estender as mãos (uma de frente para a outra) e imaginar que o tempo estava entre as duas palmas. Daí, quando eu sentisse o tempo ali (é, a idéia é que eventualmente eu sentiria o tempo, seja lá o que isso signifique), eu deveria aproximar ou afastar as mãos para comprimir ou expandir o tempo.

Nunca deu certo (você está me imaginando tentando isso?), então tive que pensar em outras técnicas para conseguir tempo livre. Afinal, eu durmo oito horas por noite (por necessidade), trabalho mais oito, passo três dentro do trem… sobram cinco. Meia hora para tomar banho (acredite se quiser!), três horas e meia na faculdade, daí sobra uma hora. Pra viver, assim.

Se eu, aos 20 anos, tenho só uma hora de tempo livre por dia para estudar, me divertir, ver minha família, meus amigos… o que será de mim aos 40?

Mesmo considerando a anulação do horário de estudo, me sobrariam aí apenas 4 horas e meia por dia para fazer todas as coisas que dizem respeito a mim e a minha vida, incluindo lazer, hobbies, viajar, ter amigos e família, descansar, ler e todas essas coisas bestas, que acabaram se tornando supérfluas na vida moderna, mas que são elas mesmas a vida. A gente só se esqueceu que viver é isso, acho.

E foi daí que eu conclui que tem algo errado na maneira como a gente leva a vida.

Todo mundo brada aos sete ventos que o trabalho dignifica o homem e eu não estou contestando a capacidade ‘edificadora’ de caráter que o trabalho pode ter. Mas nós não fomos feitos para trabalhar tanto, por tanto tempo. Há uma vida para ser vivida fora do trabalho. E não é justo ter que trabalhar 35 anos para então se aposentar com qualidade de vida péssima e não ter saúde nem disposição nem todas as outras coisas para viver a vida que você não pode viver aos 20, porque estava trabalhando.

Por isso que eu odeio quando digo que estou trabalhando demais e algum retruca ‘ah, que bom, ruim é se não tivesse trabalhando, né?’. Ruim o cacete. Quem é que gosta de trabalhar? Ou melhor, quem é que, entre trabalhar e viajar, escolheria trabalhar?

Claro que você pode minimizar os danos da labuta escolhendo fazer algo que gosta, mas ainda assim em 90% das vezes você estará sendo submetido a milhares de outras regras e obrigações, ainda que faça o que você gosta. OK, eu faço o que eu gosto, mas preferiria fazer por duas horas do dia, e não por oito.

Natural que o conceito de trabalho tenha sido subvertido. Se antes ele era o meio pelo qual o ser humano descolava o que precisava para sobreviver, para ele e para a tribo – nada além disso – hoje é ferramenta de aquisição de lucros, lucros, lucros. E como lucro nunca é demais, trabalho também não é.

Estamos tão imersos na cultura ao deus-trabalho que a mera contestação dessa imersão é vista com maus olhos. Mas qual o real problema em querer trabalhar menos? Por que isso é tão horrível, denota tanta fraqueza e falta de caráter?

Uma vez, eu li um artigo de uma pesquisadora que dizia que a economia mundial não seria afetada caso a carga horária média do trabalhador fosse reduzida para pouco mais da metade do que é hoje. Óbvio que não encontrei a tese de novo para linkar aqui: ELES devem ter providenciado o sumiço absoluto desse material para todo o sempre. Pode ser perigoso deixar manuscritos altamente subversivos a solta por aí.

No Manifesto Contra o Trabalho (texto cuja leitura eu recomendo fortemente), de um grupo alemão chamado Krisis, a citação final é uma frase que sintetiza aquilo no que o trabalho se tornou:

“Nossa vida é o assassinato pelo trabalho, durante sessenta anos ficamos enforcados e estrebuchando na corda, mas não a cortamos.”  (Georg Büchner – A Morte de Danton, 1835).

Não entendo nada sobre o sentido da vida. Não sei por que estamos aqui. Mas sei porque não estamos: para trabalhar mais do que viver.

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