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Arquivo: marido e mulher

As coisas sempre podem estar piores

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Eu lembro da primeira vez que ouvi esse negócio de “tudo é relativo”. Óbvio que eu devia ter menos idade do que a necessária pra compreender que se tratava de um conceito relacionado à física, e não de um criado pras coisas do cotidiano. Acontece que é um conceito físico tão foda que ele é aplicável a tudo. Tudo mesmo.

A coisa mais fantástica da maneira como a gente enxerga todas as coisas da vida é que todas essas impressões, sem exceção, são baseadas em experiências anteriores e em expectativas que você cria em em cima das coisas.

Isso significa, a grosso modo, que se você tomar sorvete e depois tomar água gelada, a água não vai parecer tão gelada. Ou que, se você for atropelado e sobreviver, provavelmente não vai ficar tão triste quando tomar um tombo de bicicleta. Ou seja – diminuir as expectativas é o caminho mais curto para a felicidade.

Apesar disso, por outro lado, não acho que aquele discurso que diz pra que a gente não reclame, pois as coisas poderiam estar piores, é válido. As coisas SEMPRE podem estar piores. Sempre vai existir alguém numa situação pior que você, mas a vivência dos problemas é individual, e ninguém pode julgar pra você o quão importante ou dolorido algo é, porque só você está vivendo aquilo.

Embora algumas pessoas claramente exagerem.

Infelizmente, a maioria das pessoas parece incapaz de aprender com a dor alheia. Dessa forma, a gente baseia nossas expectativas naquilo que a gente vivenciou. Não dá pra ser de outro jeito, ainda mais se você for meio cético e quiser comprovar as coisas por si mesmo. Deve ser mais dolorido desse jeito, mas garanto que é mais efetivo.

Ainda assim, se você estiver muito fudido e quiser se sentir melhor, visite o F*** My Life.com

Lá, as pessoas relatam situações extremamente tristes e constrangedoras pelas quais passaram, e dá pra gente se sentir um pouquinho melhor quando acha que a vida tá uma merda. Mesmo se não se sentir – pelo menos vai ficar de bom humor dando risada.

É mais um daqueles ‘juízes sociais web 2.0′ que servem pra diminuir sua produtividade no PC. Daí você coloca lá sua história de fracasso e as pessoas podem votar – tipo, se elas concordam com você que a sua vida é uma merda ou que não, você se ferrou e mereceu aquela. Bom pra um dia ruim e pra você ter certeza que a máxima “podia ser pior” é sempre verdadeira.

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Sobre banheiros femininos

Placa de banheiro feminino

Eu acho muito babaca quando, na mesa de bar, os homens começam a fazer aquelas perguntas-estereótipo pra puxar assunto e fingir interesse e total incompreensão do ó-tão-misterioso universo feminino.

Mas até aí ok, o que dá pra responder a gente responde. Posso falar de TPM e de cólica com alguma propriedade, então qualquer pergunta relacionada a isso será sempre respondida por mim. Posso falar de “não gostar de futebol” (e aqui me encaixo um pouco no estereótipo: não gosto mesmo, acho chato, apesar de entender as regras), e fujo do padrão no quesito “mulher que não sabe dirigir”, porque minha balisa detona a de vários amigos homens.

Mas se tem um negócio que eu nunca soube responder e sempre fiquei constrangida quando me perguntaram foi o seguinte: porque mulher vai em bando ao banheiro?

Eu não sei responder isso porque se teve algo que sempre me deixou encafifada foi essa necessidade das minhas companheiras de irem ao banheiro acompanhadas. Eu nunca pude compreender. No começo, quando pediam companhia, eu não negava, com medo de parecer antipática. Nessa época, no início da adolescência, a coisa era pior – a gente tinha que ir ao banheiro juntas e de braços dados. E contestar isso parecia ser realmente perigoso.

Parece que lá dentro (do banheiro) o código social permitia que os braços fossem ‘desatados’ (ufa), mas andar de ‘braços dados’ é uma outra coisa que sempre me deu vergonha-alheia-própria. É isso – se tem duas coisas femininas que sempre me deram vergonha alheia própria, são ir ao banheiro acompanhada e andar de braços dados no colégio.

Felizmente, a gente cresce e andar de braços dados fica realmente ridículo. Mas ir ao banheiro acompanhada das amigas, não. Passada a fase da necessidade de aceitação, eu comecei a contestar o costume. E questionar algumas amigas adeptas sobre o hábito. Nunca me esquecerei de uma das respostas:

“Ah, eu chamo pra ir junto no banheiro pra não interromper a conversa no meio”.

Péra lá, analisemos. Primeiro que, ao interromper para dizer “ah, vamos no banheiro?”, você já corta a conversa no meio. Segundo que não tem problema nenhum em cortar a tal da conversa no meio e continuar depois, todo mundo vai concordar comigo que isso é algo muito normal e que ninguém morre quando faz algo assim. Terceiro que – po, poucas coisas são mais constrangedoras do que conversar com alguém enquanto você faz xixi. Ou enquanto o ‘alguém’ faz xixi.

Não sei se sou só eu que me sinto assim, ok? Mas bater papo no banheiro demanda ao mesmo tempo uma concentração e desprendimento incríveis. Você precisa conversar com a pessoa e tentar, ao mesmo tempo, ignorar o fato de que naquela momento ela está concentrada num ato muito pessoal. Acontece que o tempo todo você é lembrada disso em função do barulho que é emitido quanto o jato do xixi entra em contato com a água da privada. A partir desse  som, existem uma série de questões filosóficas e escatológicas que surgirão na sua mente naquele momento, mas que você PRECISA IGNORAR se quiser manter a conversa civilizada e não sair do banheiro gritando EU NÃO CONSIGO FAZER ISSO!

Possíveis motivos para ir no banheiro em grupo e suas contestações: retocar maquiagem? Você é capaz de fazer isso sozinha, com a ajuda de um espelho. Falar algo que você não quer que os outros escutem? Na boa, deixe pra depois. Isso é rude. Você precisa de um absorvente? Fale baixinho e peça fora do banheiro, que aí é um dos poucos motivos que justificam. Já houve casos – acreditem – em que amigas se ofereceram como ‘apoio’ durante o ato, já que no banheiro em questão não havia onde se segurar e o estado do assento era impraticável. Eu neguei e me virei pra fazer xixi em pé e dentro do vaso, porque se alguém tiver que me ajudar a ir no banheiro antes dos 70 anos, tem algo de errado comigo.

Eu espero que não seja a única. Fiquei muito feliz quando conheci uma menina que pensava do mesmo jeito, porque antes disso me sentia muito sozinha nesse mundo de mulheres acompanhadas pelos banheiros. Mas é sincero: eu não entendo. Meus cromossomos são claramente XX no meu gosto por novelas, no meu ódio por esportes e no que eu sinto quando coloco um chocolate na boca, mas se tem uma parte em que meus cromossomos não são XX, essa parte é a que envolve a compreensão do ‘ir ao banheiro em bando’.

Não existe essa de “mulher vai junto no banheiro pra fofocar”. Todo mundo fofoca – homem e mulher. E nenhum dos dois precisa do banheiro pra fazer isso. Eu nunca vou compreender a questão, e sempre vou passar por antipática quando algumas amigas, as adeptas de frequentar o banheiro em bando, disserem “vamos no banheiro” e eu fingir desinteresse e disser “vai lá”. Mas pelo menos vou evitar o constrangimento. Todos eles. E isso tudo considerando que todo mundo só faz xixi na vida – o que nós sabemos muito bem que não é verdade.

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De volta às origens, mas nem tanto

Você já escreveu uma carta?

Para ser sincera, escrever qualquer coisa à mão pra mim tem se tornado cada vez mais difícil. Acostumei a velocidade do meu pensamento (que já era ligeiro) à rapidez que a digitação permite. Quando escrevo à mão, tento acompanhar, e o resultado é o pulso doendo já antes da terceira linha.

Mas antes do computador eu escrevi à mão sim, e escrevia cartas. Fiz amigos por correspondência naquelas seções que as revistas e suplementos de jornais costumavam ter, com os interesses de cada um e o endereço para trocar escritos. Mas eu nem lembro como é escrever uma, e digo isso porque sei que a etiqueta da correspondência é super diferente da usada no e-mail.

Se você é dos nostálgicos que sentem falta do papel, pode usar a meia (e criativa) solução do Bureau of Communication. Ele não vai te entregar o papel (resigne-se, afinal, papel significa árvores derrubadas, então melhor assim), mas oferece sugestões fantásticas para o envios de e-mails pré-escritos e com aspecto de cartas antigas.

Também serve para você que não tem habilidade com as palavras e quer economizar tempo e criatividade.

São formulários pré-redigidos, com campos personalizáveis e aspecto de memorando antigo e papel timbrado. Tudo muito vintage, como deve ser para alguém extremamente descolado como VOCÊ.

Os temas são variados: desculpas formais, convite oficial e o mais legal deles, retorno não solicitado, que serve para você se você for do tipo que aprecia dar palpites sem que seus palpites tenham sido solicitados.

Pena que não pode ser anônimo.

Ao terminar, basta enviar por e-mail ao destinatário. O serviço é gratuito, mas só está disponível em inglês.

Vi no twitter da Bia Granja

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Agora é oficial: pode meter a colher

Eu tenho um hábito curioso, mas que desconfio que seja mais comum do que imagino.

Quando eu me envolvo em alguma discussão ou impasse que envolve dois lados – usualmente, o meu (certo) e o de uma outra pessoa -, e o outro lado não cede, eu tendo a perguntar aos meus amigos se a minha posição é muito absurda.

Ajo dessa maneira porque eu sou flexível, e por isso, acabo entendendo que se a outra pessoa não cede, é porque algo deve ter de válido na convicção dela. Para me isentar da minha visão de ‘envolvida’, pergunto a um amigo. Que é meu amigo e vai me dar razão, claro. Então estamos todos felizes.

O que me favorece nesse sentido é outro aspecto comum nas pessoas: a necessidade de aconselhar e opinar sobre os problemas dos outros. O ser humano médio gente-boa é geralmente atenciosos e solícito às desventuras dos amigos. Logo, quando eu termino de explicar o imbróglio, por mais pessoal e privado que seja, as pessoas já descarregam suas impressões a respeito dele, sobre quem está certo ou errado etc. É uma espécie de passatempo social: escolher de qual lado ficar em uma história que envolve dois lados.

Acontece que muitas vezes não nos preocupamos ou nem lembramos de ouvir o famoso outro lado. Só o outro lado pode nos dar uma visão completa do que está acontecendo e permite emitir uma opinião válida.

O Sidetaker foi criado com esse propósito. Ele abriga todos os tipos de palpiteiros e apreciadores de palpites e ainda dá suporte às duas versões da história.

Sob o slogan ‘deixe o mundo decidir quem é o culpado’, o site permite que casais se cadastrem e publiquem seus problemas conjugais. Cada um dos membros da relação expõe seu lado da história.

E o nosso papel é METER A COLHER!

Basta fazer o cadastro e votar em quem você acha que está com a razão. Também dá para comentar em cada caso.

Os casos são dos mais curiosos – desde reclamações como ele não dá descarga após ir ao banheiro (não é preguiçoso, é econômico)’ até insatisfação com um namorado que acha que mandar flores resolve todos os problemas. Ler os comentários é diversão a parte, já que todo mundo sempre tem algo a dizer, e as defesas são acaloradas.

Eu imagino que o vencedor nos votos populares no Sidetaker.com utilize isso como argumento durante uma das discussões. Tipo, ‘você viu o que todas aquelas 60 pessoas que nunca nos viram e nunca nos verão disseram! EU ESTOU CERTA!’

Divertido observar que na maioria das vezes os usuários homens defendem os homens, e as usuárias defendem as mulheres. Típico.

No fim das contas, o Sidetaker é uma dessas experiências big-brotherianas da internet simples e geniais, que dão um bom passatempo numa tarde de tédio.

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