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A prova de que a humanidade não evoluiu nada

Várias coisas provam que a humanidade é bem menos evoluída do que a gente gosta de pensar, em termos tecnológicos e espirituais até. Guerras são uma dessas coisas. Hummers são outra. O reggaeton é uma bela evidência.

Mas você só se dá conta realmente de que a nossa medicina e ciência não chegou a lugar nenhum quando um médico resolve te pedir um exame de fezes.

Já adianto que o papo só vai ser escatológico até o necessário, e não vai ter nada de gráfico, então fique tranquilo. Eu também não sou exatamente fã de falar de cocô. Mas dessa vez foi inevitável. Peço licença.

Acontece que eu fui a uma médica endocrinologista, pra fazer um checkup geral depois da minha internação, e ela pediu vários exames, incluindo fezes e urina. Daí eu fui fazer um deles, de sangue, e descobri que ela pediu tudo na mesma guia, ou seja, eu estava fazendo o de sangue então deveria necessariamente levar urina e fezes lá.

Mas não podia simplesmente cagar num potinho e levar. Eu tinha que fazer isso por três dias, com intervalo de um dia entre eles. Isso dá seis dias de pura tensão.

Tirando a situação deplorável que fazer cocô no potinho deve configurar, e o fato de eu nem sequer imaginar como conseguiria fazer isso, tem que ser num pote transparente. Então você vai lá, FAZ O QUE TEM QUE FAZER e depois é obrigado a ficar olhando para O QUE VOCÊ FEZ. E precisa levar aquilo até o laboratório, ou seja, de repente você chega lá e põe um pote de merda no balcão. E quando você pensa ‘ufa, pelo menos estou livre’, você se dá conta que vai precisar fazer isso mais duas vezes, com uma pausa interminável entre elas.

Ia ser engraçado se um ladrão resolvesse roubar sua bolsa bem no dia em que você resolveu levar o exame.

Tem outra parte triste, que é pensar nas pessoas que avaliam essas AMOSTRAS. Puxa.

Mas assim. Se você, médico, suspeita que a pessoa tem vermes, custa de repente dar a ela o remédio mais forte para vermes que existe e ver o que acontece? Por que assim, se ela não tiver, você vai poupá-la desse ‘trabalho’ desnecessário. E mal o remédio não vai fazer, se não tiver verme pra matar, não mata e pronto. E se tiver, fim. Sabe?

Pois bem. Não vou fazer e pronto. E acho que todas as pessoas do mundo deveriam ter o direito de não precisar fazer exames de fezes.

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Aaaaaahhhh, a medicina moderna

Tem uma coisa bonita em ser médico. Altruísta. Assim eu prefiro acreditar, já que até onde eu sei essa história de que médico ganha muito dinheiro, em parte, não é verdade. Sei que eles precisam estudar muito tempo, depois trabalhar como residente de graça por mais outro tempão, e aí ter oito empregos diferentes para então, sim, ganhar dinheiro.

Ou seja: tecnicamente, ninguém hoje mais escolhe cursar medicina se não estiver compromissado não só com a grana, mas com uma vida que exigirá trabalhar duro, enfrentar situações extenuantes mental e fisicamente e ganhar algum dinheiro, provavelmente sem ficar muito rico.

Mas não conheço nenhum médico pobre, então deve existir alguma falha aí na teoria. De qualquer forma, eu tenho reparado nos hábitos dos médicos que frequento e esses hábitos me dão coisas.

Dr. Chapatin jamais permitira algo assim

Vou explicar. Quando você precisa de um médico, geralmente liga no consultório e agenda um horário. Em alguns casos, só consegue agendar esse horário pra dali a um, dois meses. Ok, você tem paciência. Quando chega no consultório atrasado, liga pra avisar. E se não ligar, quando chega lá perde a vez, muitas vezes precisa remarcar a consulta.

Então porque diabos um senhor com um jaleco branco, assessorado por uma moça da recepção, acha que tem direito de te fazer esperar 2 horas sentado em uma cadeira, tendo à disposição para seu lazer somente revistas Caras velhas e catálogos de medicina? É porque ele estudou por dez anos? Porque se for, isso não me parece um bom motivo. Não existe motivo que justifique desrespeito com ninguém, ainda mais com alguém que está pagando por um serviço.

Outra parada que me corrói por dentro é ligar pra marcar horário e no fim a mulher soltar um ‘É por ordem de chegada, viu?’. OI? EU MARQUEI HORÁRIO. É pegadinha? Se ele vai atender primeiro quem chegar primeiro, porque eu preciso marcar?

Daí você tá lá, marcou horário às 11h da manhã, são dez pras uma e você ve o senhor doutor que iria lhe atender se preparando para sair para almoçar. E você lá. Só que antes de sair o cara ainda resolve atender uma merda de um promotor de vendas de indústria farmacêutica, que vai dar a ele várias amostras grátis e vai coagí-lo a receitar a você os remédios da marca daquele laboratório. Ele tem tempo pra atender este senhor antes do almoço dele, mas não tem tempo pra você.

Você, é claro, deve se recolher à sua insignificância de pessoa que não fez 20 anos entre faculdade e residência. Sim, porque parece que todas as outras pessoas do mundo que não são colegas de trabalho do senhor médico não têm absolutamente mais nada pra fazer, a não ser esperá-lo após ler dois anos de Caras, que é semanal.

E sabe o que dói? Se você for embora, DANE-SE, porque o prejudicado vai ser você. Sempre você. Você vai ter que faltar outro dia no trabalho, porque precisa passar no médico de qualquer forma. Você vai ter perdido aquele tempo em nada, pra nada. E você vai ter que aguentar a cara da recepcionista de OK SENHOR PODE IR PORQUE TEM OUTRAS 30 PESSOAS AQUI MESMO E TODO DIA TEM ESSAS 30 PESSOAS E UMA A MENOS NÃO VAI DEIXAR O DOUTOR MENOS POBRE OBRIGADA. Porque as outras 30 pessoas já estão com o cérebro anestesiado, se submetem ao dotô e esperam, esperam, esperam. Nunca vão embora. Pode ser que elas não possam ir, também, por terem algo grave, sei lá. Só sei que se você sair, ninguém vai dar a mínima.

Mas supondo que você aguarde as 3 horas e seja atendido. E vamos considerar que ele te atenda bem, que não é o que acontece sempre. Bom, você sai dali e passa na farmácia, pra comprar os remédios que o doutor passou. Pede um, dois, três. O balconista fala os preços deles e confere, um por um, os descontos dos remédios. E te fala. E você fica WTF. Todo remédio tem desconto, todos eles. E se todos eles têm desconto então nenhum tem. Sacaram? É só jogar o preço pra cima e dizer que existe um desconto que não existe. E no caixa a mulher ainda te diz – ‘você economizou 8,76, senhora’. Vá pra merda. Economizei nada. Você inventam essas coisas, farmacêuticos safados.

Não vou nem mencionar as festas de medicina, japonês no fundo de piscina, uso excessivo de estimulantes para se manter acordado durante plantões e coisas assim, porque tudo que ouvi sobre isso é boato. Mas não se esqueçam, nunca, daquele episódio em que uns estudantes de medicina malucos invadiram um hospital, soltaram fogos de artifício e ofenderam pacientes quando a residência deles acabou. Tipo uma ‘despedida de residente’. Não viu isso?

Embora me pareça óbvio e eu odeio falar o óbvio, vou fazer isso para me blindar dos xingamentos óbvios – é claro que existem pessoas escrotas em todos os segmentos da sociedade. Eu sei que existem médicos bons e médicos ruins, porque médicos são pessoas e existem pessoas boas e pessoas ruins.

Mas que ser médico e fazer essas coisas é mais escroto que a média, aaah, isso é. Parece que o autoritarismo da sociedade sobe a cabeça, né? Todo mundo é tão subserviente a um título de médico que algumas pessoas começam a achar que elas realmente são melhores que os outros.

O curioso é que, dado que o cara é um médico, provavelmente um dos profissionais que mais lida com a morte, é ele quem deveria melhor reconhecer que, no fim, é todo mundo igual.

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