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Cilada Cultural 2009

Da primeira vez em que eu fui na Virada Cultural, no Centro de SP, ano passado, achei que o evento era um modelo de coisa legal pra se fazer numa cidade como São Paulo. Poder andar no centro velho à noite, com tanta gente diferente e todo tipo de maluco – porque São Paulo tem a maior concentração de gente louca por metro quadrado e essa concentração cresce à medida que você se aproxima das regiões centrais – é um desses programas de bicho grilo que pessoas como fazem poucas vezes na vida.

Mas no ano passado eu não consegui ver nada. Apesar de ter me programado, na hora tinha muita gente, era tudo meio longe e no fim só fiquei andando atrás de algo legal e não vi nenhum show.

Ok, FAIL. Daí pensei: esse ano vou me programar. Vai dar tudo certinho. Vou de metrô de um lugar pro outro. Vai ser legal, muitas bandas boas, alegria, azaração.

Mas a prefeitura de SP achou que seria divertido furar não sei o que no metrô República JUSTO NA NOITE DA VIRADA CULTURAL. Temos outros 354 dias no ano pra fazer isso, mas eles escolheram a madrugada da virada.

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LHC e Tatuzão: separados no nascimento

Isso significa que o metrô Anhangabaú estava um caos do cacete.

Some isso ao número infinito de pessoas que resolveram ir ao centro de SP no sábado à noite (muito, muito mais gente que no ano passado) e você tem o seguinte cenário: grupos de pessoas que querem muito ver alguns shows, mas aí não conseguem, porque tem muita gente e não dá pra ver nada, porque tão esperando fulano amigo do ciclano, porque se perderam do beltrano, porque, porque, porque.

Daí eu encontrei outros grupos de amigos e todo mundo tava na mesma. E falei com outras pessoas, depois, e todo mundo falou a mesma coisa. Isso é: a gente não cobseguiu ver nada, porque onde a gente ia tinha muita gente, e ai a gente ia procurar outra coisa pra ver, mas aí sempre tinha muita gente, e daí fomos embora.

Gente demais, sujeira demais, babacas demais. Depredaram uns ônibus e banheiros químicos, eu vi, e todos os idiotas eram uns emos playboys. Sério, todos emos, querendo demonstrar toda a rebeldia contida no rock’n'roll. E é esse tipo de moleque idiota que faz a coisa virar merda.

Foi legal poder andar pelas ruas de SP, apesar do cheiro constante de urina e de outras coisas, e de forma geral a coisa pareceu organizada – shows pontuais, bastante policiamento, poucas (e isoladas) brigas. O som sempre tava ruim, mas não dá pra reclamar – não é uma casa noturna, não tem como exigir acústica boa.

Mas tinha gente demais. O mundo tem gente demais. E, de novo, eu quase acabei cansada, com fome, puta da vida e sem ver nada. Quase porque achamos um concerto de piano ali pelas 5 da manhã, na Praça Dom José Gaspar, e lá ficamos, e foi um dos shows mais agradáveis que eu já fui (acho que porque tinha cadeirinhas e eu tava super cansada).

De qualquer forma, houve sim momentos imperdíveis, que devem ser mencionados:

  • No fim do show de jazz do pianista, um carinha subiu no palco pra afinar o piano. No fim de todas aquelas notas esquisitas e sons dissionantes, um grupo de moleques aplaudiu vigorosamente (e era sério, você tinha que ter visto a cara deles).
  • Um doido escalou o Teatro Municipal com direito a passar de uma quina pra outra, que nem eles fazem nos filmes e dá mó medo. Todo mundo achando que ele ia se jogar, veio ambulância e tudo. Daí ele chegou no terraço e entrou pela porta. Só queria ver o show sem pegar fila, acho.
  • Uma intervenção artística urbana – flashmob bizarro (gosto de chamar de Piracema de Loucos) mobilizou vários grupos durante a virada. As pessoas chegavam, levantavam os braços e ficavam caminhando em círculos. Dasí uma mina e um cara ficavam saltando e dando piruetas e golpes de capoeira. Nesse ponto, outros 30 maolucos ao redor já tinham se juntado ao grupo. Foi provavelmente a cena mais surreal que eu já vi na vida. Filmei um pouco, e apesar da má qualidade (tava muito escuro), dá pra ver os retardados pulando:
  • Vi umas 10 pessoas de máscara contra Gripe Suína, mas acho que era brincadeira. Espero. Gostaria.
  • Esse cara é o bêbado morto mais à vontade que eu já tinha visto:

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Antes que me crucifiquem, eu chequei e ele estava respirando.

A solução: ano que vem, nada de centro de SP. Tem muitas atrações legais rolando fora dos circuito do centro, e em 2010 eu vou escolher apenas um ou dois shows muito legais que acontecerem na puta que pariu e ir até eles. É o único jeito de não passar de novo por uma Virada FAIL.

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Crônica sobre chutar a bengala de um velhinho

Eu nunca atrapalho ninguém. Esse é meu mote na convivência social urbana. Apesar da cidade ter me transformado num monstro apressado, que sai pela estação desviando das pessoas com habilidade, dificilmente eu trombo nas pessoas, deixo de pedir licença ou as atrapalho. Sou educada, simpática e até converso com pessoas que puxam assunto na rua, sejam as loucas ou as normais. Mas hoje aconteceu. Digo, hoje atrapalhei uma pessoa. Não que nunca tivesse atrapalhado antes – provavelmente já aconteceu, mas sem querer. E não que dessa vez tenha sido proposital… ok, explico:


Eu vinha pegar o ônibus para o trabalho e comecei a descer as escadas que levavam à plataforma. De lá de cima, vi que o ônibus já estava estacionado, o que significava que poderia partir a qualquer momento. Comecei a técnica que consiste em tentar descer as escadas rapidamente desviando das pessoas. Tinha na minha frente um carinha descendo devagar, que não dava espaço pra que eu fosse pela esquerda. Logo paramos – um grupo de surdos-mudos conversava no meio da escada. Daí desviei deles e continuei. Outro cara veio, subindo, na minha frente. Desviei; mais outra pessoa descendo com calma e tranquilidade, já no pé da escada, e um cara que foi subir pelo lado errado (o direito meu, esquerdo dele) bruscamente e do qual eu consegui desviar. Ufa.


Mas no desvio desse último, acabei sendo jogada pra cima de um senhor que vinha caminhado pela plataforma, de bengala. Ele tinha uma loooonga barba branca, à lá papai-noel, e caminhava lentamente. Eu o vi – e, embora tenha feito isso muito rapidamente, não parei, porque provavelmente meu cérebro calculou que se eu levantasse um pouco a perna, conseguiria passar o pé por cima da bengala e continuar correndo em direção ao ônibus.


Não sei se calculei mal. Não sei se ele me viu e assumiu que, como era deficiente físico, eu pararia e o deixaria passar. Só sei que eu acabei, sem querer, esbarrando o pé na bengala do velhinho.


Não cheguei a chutar, nem nada. Ele também não chegou a se desequilibrar, bambear as pernas ou coisa assim. Foi um esbarrão – mas ele ganhou um contorno de crueldade terrível, porque era um senhor de bengala. E porque eu nunca vou me esquecer da maneira como ele me olhou.


Foi mais do que indignação. Foi algo como “cansei de ser humilhado por esses jovens”. Ele ficou boquiaberto, de verdade. Parou, abriu um pouco a boca e me olhou como o monstro horrível que eu fui ao esbarrar na bengalinha dele.


Envergonhada, e percebendo que ele só estava indignado mesmo (e que eu não o havia machucado ou algo do gênero), pedi desculpas de maneira audível e com as mãos levantadas e continuei correndo em direção ao ônibus, que consegui pegar (e demorou mais uns 5 minutos pra sair).


Nesses 5 minutos, o velhinho passou ao lado da janela. Não tive coragem de olhar. Percebi que ele voltou, pra direção contrária de onde tinha vindo – isso despertou na minha cabeça uma espécie de “também, o véio fica passeando de bengala na plataforma de ônibus”, pensamento que foi logo podado pela culpa que ainda toma conta do meu ser.


Tava um puta trânsito no caminho, o que me fez sentir mais culpada – afinal, atropelei o velhinho pra nada. Mas fiquei pensando, e pensando, e pensando. E pelo menos a situação toda me fez ver muita coisa de um jeito diferente.


Por natureza, sou uma pessoa meio ansiosa. Vocês precisam me ver falando – eu sou muito esquisita. Falo super rápido. Eu tenho uns níveis de rapidez da fala, e eu regulo de acordo com o interlocutor: por exemplo, com familiares próximos eu falo numa velocidade abismal, porque sei que eles vão compreender; com gente desconhecida, quase sempre me lembro de falar devagarinho. Mas às vezes, se deixo a emoção tomar conta, o filtro que mede a velocidade de compreensão do interlocutor acaba falhando e eu falo rápido demais e ninguém entende.


Isso acontece porque a minha cabeça funciona a mil. Se eu não falar logo, meu pensamento ultrapassa a velocidade da fala, e aí eu acabo me perdendo no raciocínio. Pra escrever, sou igualzinha. Todo mundo fica dizendo “OH MEU DEUS COMO VOCÊ DIGITA RÁPIDO”. Mas não é exatamente porque eu quero. É porque se eu não fizer assim, me perco no meio da coisa.


Da mesma maneira, minha paciência é ultra-limitada. Não sei se foi o ‘morar na cidade’, mas eu sou um pouco… impaciente ao andar na rua. Tenho um objetivo, chegar até o lugar X – logo, vou fazer isso da maneira mais rápida possível, especialmente se tenho um compromisso com hora marcada. Portanto, me irritam muito pessoas que param no meio de escada pra amarrar o sapato, gente que para no meio do corredor da estação pra olhar pra qual dos lados ir… parar é permitido, ok, mas pare num lugar apropriado. Ou sinalize que vai parar, sei lá. Sempre que eu vou parar no meio de uma calçada, eu dou uma olhadinha pra ver se tem gente andando atrás. Se tiver, em vez de parar bruscamente, eu faço uma curva rápida na direção daquilo que eu vou observar. Assim, paro e saio do caminho do fulano atrás de mim. Não atrapalho ninguém.


Quando eu ando pela rua e vejo (o tempo todo) gente mal-educada, que esbarra nas pessoas e não pede desculpas, empurra velhinhos, não dá lugar pra aleijados… eu julgo essas pessoas. Eu as acho animais incivilizados e sem educação, que não pensam no próximo, que atrapalham as outras pessoas.


Mas naquele momento em que sem querer chutei a bengala do velhinho eu percebi que existem animais incivilizados sem educação e existem pessoas que estão num dia ruim, com pressa, ou que às vezes fazem uma merda tão grande que têm vergonha de pedir desculpas, mas que não são gente ruim e mal-educada. São pessoas normais num momento ruim, com um movimento mal-calculado.


O problema é que tem tanta, mas tanta gente no mundo, que mesmo se considerarmos que todo mundo é educado por definição, e tiver um dia ruim, digamos, por mês, será muito fácil que encontremos várias pessoas sendo mal-educadas por dia.


É estatística, é injusto, e se o velhinho entendesse isso ele provavelmente não me fulminaria com aquele olhar que eu jamais esquecerei.


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CFV(eS), ou Curso de Formação para a Vida (em Sociedade)

A sociedade se organizou de maneira a regular as atividades do indivíduo para restringir a possibilidade de que ele avance sobre a individualidade do outro. Isso, dito assim, soa fabuloso. Parece que a gente deu um jeito de fazer com que ninguém encha o saco de ninguém. Na prática, não funciona, e o Estado acaba se intrometendo na sua vida de maneira mais profunda do que seria justificável – algumas proibições, como a do casamento gay e a da eutanásia, acabam na verdade invadindo a individualidade de certas pessoas.

Por outro lado, o Estado se abstém de algumas relações e atividades humanas nas quais ele deveria sem dúvida intervir. Da mesma maneira que você é obrigado a fazer um curso de muitas horas para tirar carta de motorista, existem outras atividades do dia-a-dia que deveriam exigir uma habilitação.

Sé às 18h: mais eficaz para revolucionar leis da física do que o LHC

Andar de transporte público é provavelmente uma delas. A sociedade superestimou o homem quando achou que ele, por si só, seria capaz de se portar adequadamente dentro de uma máquina transportadora de alumínio junto com um monte de gente. As pessoas deveriam ser treinadas para isso. O curso para andar de ônibus, trem e metrô incluiria diversos módulos, a saber:

1. 8 técnicas para deixar o lado esquerdo da escada rolante livre para circulação sem ônus;

2. A importância de sair da porta se você não vai descer na próxima estação;

3. Higiene pessoal: as vantagens de banhar-se antes de pegar a condução, uso de desodorante e escova de dentes – o que é, como usar;

4. Idoso, grávida ou deficiente por um dia: sinta na pele o que é ter seu assento preferencial ocupado;

5. Como regular a altura de seu tom de voz de maneira inversamente proporcional à intimidade daquilo que você está relatando à sua colega de firma (e não o contrário);

6. Fone de ouvido versus alto-falante do celular: quais as vantagens de ouvir a sua música de maneira individual, maneiras de usar fones de ouvido;

7. Entrando: se a porta não fecha, é hora de esperar o próximo trem;

No final, o camarada que passasse no teste prático receberia um kit com desodorante, escova e pasta de dente, além de um fone de ouvidos.

Diante da popularização do computador entre as classes mais populares, faz-se necessário também sugerir a obrigatoriedade de um cursinho básico de informática, que seria requisito essencial para financiar um computador nas Casas Bahia em 36 vezes. Como um carro, o dono do PC seria obrigado a apresentar a habilitação para comprá-lo. No curso, além de informática, o cidadão aprenderia a ler e intepretar textos, a identificar fotos manipuladas, a não usar o drive de CD como porta-copos, a não escrever de maneira que ninguém consiga entender o que ele está dizendo. Além disso, seria fundamental aprender a diferença entre Software e Hardware, para compreender que não dá para ‘baixar o speedy‘ ou ir fisicamente até o Mercado Livre.

Outras orientações estabeleceriam regras quanto a publicação de fotos na rede. Velórios e cadáveres seriam terminantemente proibidos. Ensaios sensuais com tijolos sem reboque de fundo, em esgotos ou em palafitas também (não clique no último se estiver no trabalho).

Por último, o usuário de PC aprenderia português básico.

Clientes de banco, especialmente os mais idosos, deveriam poder passar por um cursinho intensivo de formação antes de receberem seu cartão. Em primeiro lugar, seriam instruídos a jamais compartilharem sua senha e númerio com aquele atendente de cara esquisita. Depois, seriam ensinados que podem sacar dinheiro direto no caixa eletrônico, de maneira prática e quase instantânea, e que não precisam tomar fila para fazê-lo na boca do caixa, criando uma imensa fila preferencial cheia de gente querendo sacar.

A verdade é que eu posso pensar em centenas de coisas que as pessoas não são capazes de fazer sozinhas de forma educada e satisfatória, e é por isso que talvez a solução fosse um curso para a vida no século XXI, ministrado quando as pessoas ainda fossem crianças – um lugar que ensinasse as pessoas a se portarem nas mais diversas situações respeitando os espaços dos outros e demonstrando cidadania.

Ouvi dizer que havia um lugar chamado ‘escola’ que fazia algo parecido, mas acho que é boato. Outro rumor dá conta que entidades chamadas ‘pais’ e ‘família’ também tinham papel nisso, mas eu nunca vi acontecer.

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ConsTREMgimento

Mais um dia pra falar de trem. Hoje, na vinda pro trabalho, além dos habituais DJs por um dia (que, durante uma conversa com o Flávio, amigo que encontrei no trem, me dei conta serem uma versão reduzida e menos abastada daqueles sujeitos que compram um som de milhares de megawatts pro carro e ligam a aparelhagem no meio da rua), presenciei também um fantástico Live Duet (duas garotas dividindo fones de ouvido e cantando a canção em voz bem alta) e um senhor que tinha um problema no saco.

Ok, sei que isso não é engraçado por si só. Não é mesmo. Não seria capaz de caçoar de um velhinho só porque ele parecia ter, sem exagero, uma bola de handebol dentro da braguilha, até porque provavelmente é algum tipo doença. Acontece que o tiozinho também carregava no rosto um largo e constante sorriso.

Então, imagina a cena: você olha pro velhinho e vê que ele tem algo de muito errado no meio das pernas, e então olha pro rosto dele e ele sorri de maneira larga e matreira, quase um sorriso diabólico. O tempo todo. Pra todo mundo.

Não tirei foto porquê, veja bem; o engraçado, em si, era o conjunto. Mas dado o defeito físico do senhor, não ia dar pra tirar uma foto deles sem que ele (e todos) pensassem: “que falta de respeito, ela está tirando fotos de uma pessoa provavelmente doente”. E bem, gostaria de frisar mais uma vez que a situação só foi curiosa porque o tiozinho sorria safadamente.

Como se não bastasse a minha falta de sensibilidade com esse tiozinho, no metrô aconteceu uma coisa bem chata. Tinha um lugar vazio do lado da janela, e pra sentar nele era preciso passar por uma pessoa sentada no mesmo banco, só que do lado do corredor, e por uma mulher e uma criança sentadas no assento reservado.

O cara sentado do lado do corredor não me deu muita licença quando eu fui passar, de maneira que acabei meio que empurrando (bastante) a perna da menininha sentada no colo da mãe. Tipo meio que quase enroscando um pouco. Nada alarmante, contudo.

Até aí tudo bem, a gente empurra a perna dos outros o tempo todo nesse mundo.

Acontece que de repente eu me sento e olho pra baixo. A perna da menina não era uma perna de verdade. Era uma perna de pau, com um pézinho de borracha. Eu tinha empurrado uma perna postiça de uma criancinha. Quase arrancado, for gods sake. As imagens não pararam de vir na minha cabeça; eu me sentando e, desastrada, enroscado a perna da menininha sem querer e arrancando-a; o horror, a surpresa e o linchamento dos populares. Eu estaria fudida.

Felizmente, a mãe só me olhou feio. Mas poderia ter sido pior.

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Escapando das balas

Eu sempre quis estar no meio de um cenário de conflito. Desde que comecei a me interessar por Jornalismo e lia as estórias daqueles caras que estavam na hora certa, no lugar certo, sempre desejei ter a ‘sorte’ de estar eu, ali, vítima e testemunha ocular de algo grande, algo sobre o que eu pudesse dar o testemunho.

Claro que eu não imaginei que aconteceria. Tampouco imaginei que, quando acontecesse, eu ia me esquecer que era jornalista e agiria como todas as outras pessoas: running for my life.

Ah, digamos que nem é tanta coisa assim. Eu tava no metrô Sé na hora do tiroteio, na última sexta. Sumi do blog porquê estou tendo um começo de mês complicado, dezenas de recuperações, mudança de vida, sensações de coisas acontecendo, mas principalmente porque eu tava sem cabeça pra falar desse negócio do tiroteio.

A ficha meio que caiu só depois que tudo aconteceu. Eu estava na plataforma da linha azul, sentido Tucuruvi; vi uns trinta policiais correndo em direção ao andar de cima, e muitas pessoas alvoroçadas. A primeira coisa que me veio na cabeça: simulação da polícia. Afinal, não consegui pensar num motivo pra trinta PMs estarem correndo dentro da estação Sé do metrô. Eram muitos policiais. Se fosse algo de verdade, pensei, algo que exigisse tantos oficiais envolvidos, a estação estaria evacuada.

E, de repente, as pessoas começaram a correr. Sem direção, assim. Eu não consegui identificar o motivo do susto repentino. As pessoas estavam correndo de algo que se encontrava, no mapa da minha cabeça, no lado contrário àquele para qual os policiais tinham corrido – ou seja, não fazia sentido. Entendi que estavam assustados com os policiais.

Nessa hora, ouvi o tiro. Veio do andar debaixo. A sensação foi estranha, e até então eu não fazia idéia do que estava acontecendo. Com o disparo, me abaixei, como boa parte das pessoas na plataforma. Algumas corriam, desesperadas, sem saber muito bem pra onde; outras choravam, desesperadas, também sem saber muito bem porquê, imagino. Tinha gente com o celular na mão, xingando baixo quando o sinal não vinha, e olhando assustados pros policiais que passavam correndo, revólveres em punho, gritando para que todos se abaixassem.

O grande problema, nessa hora, foi não saber o que estava acontecendo. Nenhuma mensagem naquele sistema de avisos do metrô, exceto alguns chamando funcionários com voz de desespero.

Do meu lado, um senhor de uns 45 anos rezava alto e invocava todos os santos de que ele já tinha ouvido falar. Do outro, uma menina deficiente, que usava andador, olhava pra mão tremendo e respirava com dificuldade. Ela não conseguiria correr, se tentasse, por motivos óbvios.

Na escada rolante, uma senhora descia sentada – provavelmente tinha caído na confusão. Um senhor era carregado, de maca, para fora da estação. Não sei se era o homem baleado no ombro. Outro senhor, na confusão, havia se chocado contra uns dos postes de concreto, e seu nariz e testa sangravam muito.

Ah, essas coisas. Eventualmente, um policial disse para descermos. Quero dizer, eu e a menina ao meu lado. Lá embaixo a situação estava mais complicada. Muito mais gente no chão, machucada, grávidas chorando, e um menino muito bonito contando de como ele havia salvado a mãe dele na hora exata do tiro, e que a bala então teria atingido o ombro de um senhor.

Vi as pessoas descendo nos trilhos pra pegar o trem que milagrosamente tinha chegado, do outro lado, e os levaria dali. Muita gente comentou que pegaria aquele metrô por pegar, mesmo. Eu fui, também. Lá dentro, um bombeiro acompanhava um menininho de uns 10 anos, que estava sozinho na estação e tinha se assustado muito.

Aí, ouvi do bombeiro que não pegaram o cara.

Então eu me pergunto: como é que TRINTA POLICIAIS, mais a equipe de guardas do metrô, mais alguns bombeiros, não são capazes de pegar um assaltante desarmado e que já tinha tomado um tiro na mão?

Mal a pretensão, mas precisava escrever sobre essa bagaça. Tentei tirar foto com o celular, mas minha mão tremia tanto que não saiu nada. Vou voltar a andar com a câmera digital na bolsa. Na saída, do outro lado da plataforma onde eu estava, deu pra ver o sangue e um pedaço de alguma parte do corpo de alguém que foi atingido. Teria chegado perto pra ver e tirar foto, que eu tenho estômago forte, mas fiquei com medo e preguiça de dar a volta pelas escadarias.

De tarde escrevo um post legal. Ouvi umas bandas novas interessantes no fim-de-semana.

Agentes literarios interessados, tô querendo publicar meu projeto “Sobrevivi: um dia de tiroteio no metrô de São Paulo”. Favor entrar em contato.

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