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Arquivo: Muse

Comprovaram a relação entre mau-gosto e burrice. Sério

Ok, me crucifique. Eu sou a favor da tolerância, da amizade, da alegria, da aceitação, da igualdade. Mas no fundo, eu sempre achei que havia um motivo para debochar de quem gostasse de música ruim. Eu sempre achei que houvesse uma relação entre ‘música ruim’ e ‘gente estúpida’, mas nunca pude provar.

Claro que, com a noção de que isso era algo absolutamente irracional, embora obtivesse algumas provas da minha teoria no convívio social (com exceções, claro, o que só comprova a existência da regra), podei esse pré-julgamento absurdo depois que cresci, pra não prejudicar minhas relações e não me tornar uma pessoa detestável.

Como cientistas desocupados são a classe que, estatisticamente, mais cresce no planeta, alguns deles publicaram um estudo chamado ‘Músicas que te fazem ficar estúpido‘.

Eles compararam o gosto musical de alguns estudantes com as notas que esses estudantes tiraram no SAT, um exame que pode ser considerado o ‘vestibular padrão’ norte americano -  testa mais ou menos as mesmas competências que o nosso - e descobriram que quem tirou as notas mais altas ouve Beethoven, enquanto quem tirou as mais baixas curte Lil’ Wayne. A vitória tardou, mas não falhou. Olho no gráfico (se você ouve Lil’ Wayne, essa é pra você – clica e  amplia pra conseguir enxergar):

Música que te faz ficar estúpido

Não sei o que acontece se você for fã de dois artistas que estiverem em pontos muito opostos da tabela. Eu sei o que acontece se você for fã só de artistas que estão do lado esquerdo, mas vou te desafiar a chegar nessa resposta sozinho, vamos ver se você é capaz.

Também não sei o que acontece se você considerar que esses exames acadêmicos não medem nada senão sua capacidade de ir bem na escola, que todos nós sabemos, não está relacionada quase nunca com sua inteligência ou genialidade.

Mas ignoremos a verdade politicamente correta e nos atenhamos aos fatos, à comprovação científica – agora eu tenho argumentos sólidos para não me aproximar dos fãs de Reggaton ou de Aerosmith.

Claro que só o fato de você declarar, deliberadamente e com orgulho para um pesquisador, que é fã de Reggaeton e/ou de Aerosmith já denota algum grau de estupidez por si só. Espero que eles tenham considerado isso ao desenvolver o gráfico.

A questão principal é: será que esse tipo de música deixa essas pessoas estúpidas ou essas pessoas ouvem essas músicas por serem estúpidas? Ou então, mais alarmante ainda, a estupidez é uma acarcterística que alimenta o gosto por música ruim, e a música ruim aumenta sua estupidez, num ciclo sem fim que vai terminar com você babando e ouvindo a discografia do Latino?

Só ficamos na especulação, até que outro grupo de cientistas resolva responder essa. De qualquer forma, o mesmo site divulgou também a lista de Livros que te fazem ficar estúpido. Apesar de ser um conceito que eu considero paradoxal, porque acho que gente verdadeiramente estúpida não chega perto de livros, a tabela não deixa de ser interessante. Acompanhe (e clique, se você gosta de Aerosmith):

Livros que te fazem ficar estúpido

 

Observe ali no topo, do lado esquerdo, que há uma opção ‘Eu não leio’. E – veja você – quem lê a Bíblia, segundo esse incrível gráfico, é ainda mais estúpido do que quem não lê nada! Puta merda! E, pra que ninguém ofenda minha mãe, acho a Bíblia um grande livro. Mas é provavelmente o mais perigoso deles se cair em mãos (ou em olhos)… estúpidos.

E aí, nesse caso, será que é o livro que te deixa estúpido ou você que é estúpido e busca esses livros? Acho que temos uma resposta. E Harry Potter tá lá pro meio, o que me faz sentir tranquila neste momento.

Esse post serve basicamente pra você zuar aquele seu amigo que acha que o Dan Brown é o melhor escritor de sua geração e que Nickelback é genial (normalmente, essas características se cruzam nos mesmos tipos de pessoas, o que aumenta ainda mais a veracidade do gráfico). Mas acho que é importante dizer que… é tudo brincadeira. E na vida mesmo, acho que mais inteligente que o leitor de Cem Anos de Solidão ou que o ouvinte de Beethoven é quem, além desses, também leu a Bíblia e os livros do Dan Brown, e como se não bastasse também sabe cantarolar meia dúzia de canções do Lil’ Wayne e já ouviu um pouco de Aerosmith.

E se você perguntar ‘até a discografia do Latino entra nesse exemplo?’, eu vou ponderar, mas depois… pensa bem: se eu te disser, agora, rapidinho – ‘Oh Baby, me leva’ – quanto tempo você vai demorar pra tirar essa merda da sua cabeça?

Pois é. E você vai negar que exista algum tipo de genialidade – muito embora pareada com uma babaquice – em conseguir fazer músicas que sejam tão involuntaria e incessantemente repetidas pelo cérebro de todo mundo que as ouve, até de quem não gosta delas?

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O dia em que eu quase conheci os caras do Muse

Eu já falei uma vez sobre a energia em um show de rock. Um show de rock é sempre intenso se a banda e platéia estiverem na mesma sintonia. Mesmo pra aqueles que estão ali meio perdidos, sem saber direito o que está tocando e porquê, o show pode ser memorável porque a egrégora – o coletivo dos pensamentos compartilhados por muitas pessoas, em sintonia – do show acaba por influenciar mesmo quem não estava exatamente pensando a mesma coisa.

O show do Muse em São Paulo na última quinta, dia 31, foi um exemplo rico dessa situação. No começo do show, tinha bastante gente parada, perdida, sem cantar (mesmo com a letra aparecendo no telão, o que pra mim merece ser motivo de estudo antropológico). No fim do show, elas pareciam ter se encontrado.

(Se você quer uma resenha redondinha-jornalística-informativa do show, leia meu texto pro portal do Estadão)

Existem pessoas estúpidas em todos os lugares. Na igreja. Na praia. No campo. Na AACD. Na televisão. Nas favelas. No Morumbi. Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Não importa onde você vá, do que as pessoas neste lugar gostam, como elas são: uma parcela delas sempre será estúpida. É estatística.

Os estúpidos do show do Muse estavam lá no meio, pouco atrás de mim, e acharam que seria divertido começar a empurrar de maneira deliberada, desmotivada e proposital quem estava na frente. Logo depois do empolgante bocejo show do Jay Vaquer.

(Parênteses: sobre o Jay Vaquer, só digo que foi uma escolha infeliz da produção. E também digo que é necessário respeitar o cara que tá ali fazendo o trabalho dele, seja chato ou não.)

Devido a porcentagem estatística de idiotas presentes no show do Muse, fiquei absolutamente sem ar bem, bem antes do show começar. Aí desisti e fui lá pra trás.

Láááá atrás tinha uma espécie de balcão. Era um espaço aberto, mais alto que o nível do chão e do qual era possível assistir o show de maneira extremamente satisfatória.

Os ets chegaram pouco antes do bis

Os ets chegaram pouco antes do bis

Duas coisas que me surpreenderam: ao vivo, as músicas deles poderiam muito bem ser dos Deftones ou coisa assim. É um peso absurdo, coisa que a gente não imagina que três caras consigam fazer. Além disso, eles têm uma porção de canções muito boas de cantar, porque têm falsetes e ‘Ôô’s e isso é tipo isca pra quem tá lá embaixo, assistindo. E são canções que funcionam ao vivo, porque utilizam a dinâmica ‘crescente’ de verso-e-refrão com muita, muita [créu] habilidadji [/créu]

É desses ‘Ôôs’ que eu tô falando. Arrepiô!

E o show foi indo de maneira bem satisfatória. Você sabe que um show tá legal quando as pessoas ao seu redor cantam todas as músicas e você está no fundo do lugar. Até que um cara cutucou minha amiga e entregou a ela um papel:

Ops, papel errado. Foi esse aqui:

MUSE SP AFTER SHOW PASS

MUSE S. PAOLO AFTER SHOW PASS

E de repente nos demos contra que tínhamos nas mãos um convite para a festa pós-show com os caras da banda. Tipo filme, sabe.

Tentei aproveitar o show até o final, mas a partir da oitava música não foi mais a mesma coisa. Ainda assim, aproveitei tudo e tal. Quando acabpu, depois de enfrentar descrença por parte da segurança (‘Você é de onde? Isso não serve pra nada’), insisti pra falar com a produção. Eles trataram bem, mas explicaram com certa impaciência que era realmente uma festa fechada com os caras da banda, que podíamos ir, mas ninguém mais poderia entrar com a gente (e estávamos com mais três pessoas). E estavam um pouco incrédulos com o fato de termos aquilo.

Ok, tínhamos contra nós o seguinte:

1 – Era a primeira vez na vida que eu dirigia em SP sozinha. Não sabia sequer voltar pra casa direito;
2 – Eu não sabia chegar até o local da festa (O Cafè de la Musique);
3 – Eu não tinha certeza, mas talvez tivéssemos que pagar pra entrar – e o Cafè é caro. Muito caro. Especialmente se o Muse estiver dentro dele, sabe;
4 – Eu tinha comigo, dentro do carro, três pessoas sem convites;

5 – Era noite e, se eu me perdesse, seria realmente difícil pedir informações;
6 – Eu estava de calça jeans e All-Star, sabe. Eu não poderia ir ao Cafè de la Musique de calça jeans e All-Star.
Beleza, seis coisas. Mas eu tentei, sabe. Eu até tentei. Só que perdi a entrada da avenida onde ficava o lugar e, na boa, estava chegando na Raposo Tavares e precisava voltar pra Santo André.

Consegui fazer o retorno e fui pra casa, triste por ter perdido uma oportunidade única nessa vida, mas crente que quando não é pra ser, não é.

Além disso, o show já valeu a pena por si só porque:

1 – Foi um bom show;
2 – Encontramos sósias do Macauley Culkin e do Christian Sheperd;
3 – Me confundiram com a Mallu Magalhães. Não vou comentar isso;
4 – Tenho em meu poder um papelzinho azul exclusivo do Muse, rabiscado por alguém do staff da banda, e dizendo que SE EU QUISESSE EU PODERIA IR A UMA FESTA COM ELES. Eu tinha a opção, sabe. O importante é ter a opção;
5 – Graças ao show, escrevi meu primeiro texto assinado no portal do Estadão.

Considero o saldo positivo. Pô, fui num puta show, de longe um dos melhores da minha vida. Vou ficar me queixando por causa de uma festa?

*Primeiras duas fotos por Ênio, o maluco loco de Curitiba. Veja os vídeos dele aqui.

**Se você não viu nenhum dos links, aqui tem minha resenha sobre o show no estadao.com.br e os vídeos que eu fiz do show no Youtube.

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Muse em SP no dia 31/07/2008 em um vídeo e uma foto

Estou muito, muito cansada, mas existem duas coisas que preciso registrar aqui antes do post oficial sobre o show:

MUSE SP AFTER SHOW PASS

Como e porquê eu ganhei um free-pass para a festa pós-show com os caras da banda e porquê eu não consegui chegar a essa festa: saiba a resposta para esse intrigante enigma no próximo sábado, 2 de agosto.

Detalhes sobre a banda, setlist e especialmente peculiaridades sobre o público freqüentador de tão ilustre evento – sábado, aqui. Só aqui.

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Black Holes and Revelations é trilha sonora para Cem Anos de Solidão

Eu tenho déficit de atenção e nunca fui muito boa pra me concentrar. Isso significa que qualquer assobio ou qualquer grupo de pessoas falantes é capaz de tirar o foco do que eu tô fazendo, seja lá o que for. Os livros bons costumavam ser imunes à essa distração permanente, mas depois de um tempo nem eles mais eram capazes de me manter muito tempo concentrada em alguma coisa. Ler com música, nem pensar.

Era o que eu achava. Depois que comecei a trabalhar longe, precisei buscar alternativas ao tempo ocioso e lento que eu passo dentro dos trens. Um mp3 player parecia o mais sensato, e mesmo que no começo a música fosse um exercício fantástico de trilha sonora, onde eu adaptava tudo o que via àquilo que estava ouvindo, com o tempo fui percebendo que podia usar o tempo livre pra voltar a ler como eu lia antes, até os 14 anos: muito, profundamente, compulsivamente.

Mas o falatório do trem me atrapalhava. Não conseguia entrar no livro, como sempre fazia. Enfiar um fone mudo no ouvido não ia adiantar nada, então comecei a ouvir música enquanto lia. No começo, o que pareceu uma luta contra algo que era natural em mim se tornou a mais incrível das descobertas. Os livros começaram a ter trilha sonora. Era só saber colocar o disco certo no trecho certo e voilà, a experiência de imersão no texto era triplicada.

Vou usar como exemplo o livro que estou terminando hoje, Cem Anos de Solidão, pelo qual estou absolutamente encantada – mas desse encantamento, especificamente, falo outro dia. Calhou de eu estar com os CDs do Interpol, Our Love to Admire, e do Muse, o Black Holes and Revelations, no mp3, quando comecei a ler o livro.

Os dois casam de maneira singular com o romance, especialmente o Black Holes. Lembra do duo Dark Side of the Moon/Alice no País das Maravilhas? Se o CD durasse o tempo de leitura do livro eu diria que a relação é a mesma. Take a Bow, a primeira do disco, climatiza com perfeição o começo do romance, a parte onde José Arcádio, o patriarca, funda Macondo, e dá também, por si só, o tom de fantasia, de angústia e das loucuras que permeiam todo o livro.

Starlight serve pras passagens à noite, e perdão pelo óbvio mas juro que quando pensei nisso não pensei de primeira na relação com o nome da música. Até Supermassive Blackhole, a mais Britney Spears do CD (quase Toxic) fica muito bem nas cenas de amor louco que acontecem na história inteira, o tempo todo. Soldier’s Poem é a temperatura de Macondo no verão, no fim de tarde, antes de tudo: antes dos Buendías procriarem como loucos, lá quando as coisas não tinham nome mesmo.

Exo-Politics e Assassin (minhas duas preferidas) são, respectivamente, a juventude e as guerras do Coronel Aureliano. E Invincible é a canção da velhice e das predições dele.

City of Delusion é Macondo, depois do massacre, 3.500 pessoas mortas carregadas num trem de vinte vagões sem ninguém se dar conta disso, Hoodoo são os 3 anos de chuva (3?), e Knights of Cydonia também carrega uma aura que permeia toda história, o fantástico e mítico, o heróico e o covarde, as guerras, as bravuras e todo o ódio e o amor. Sem falar nas borboletas de Maurício Babilônia, que com o Muse estão sempre lá, naqueles teclados meio siderais.

Juro que a intenção não foi tentar ser poeta – e o texto está até meio confuso -, mas só tentei expressar o sabor da experiência de encontrar um livro que se encaixe com perfeição a um disco. Black Holes And Revelations, pra mim é tão Cem Anos de Solidão, que não consigo ouvir sem me lembrar do Coronel Aureliano, de Úrsula e de Melquíades. E acho que vai ser pra sempre assim.

Me empolguei e esqueci de falar do Interpol. O densidade do excelente Our Love to Admire, as melodias arrastadas e os vocais anasalados também climatizam Macondo, de certa forma, no calor da sesta e nos dias que se arrastam, no tempo que trava dentro da sala que guarda as tranqueiras do cigano. Não faz um trabalho tão bom quanto o Muse, contudo.

Se alguém, por acaso, resolver experimentar – ler o livro acompanhado da trilha sonora – por favor, me avise se estou viajando. Pra mim tem feito todo o sentido. Não consigo mais ler Cem Anos sem o Muse no play. Paciência.

É difícil dizer que essa foi a intenção dos caras do Muse. Pelo clipe dá pra ver que eles são uns palhaços. Hhahahah.

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