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Guarda-chuva é uma invenção superestimada

Você já parou pra pensar que boa parte das invenções que prometem facilitar nossas vidas trazem com elas uma porção de problemas que nós não tínhamos antes?

Dá pra mencionar dezenas, centenas de coisas. Mas a mais emblemática, na minha opinião, é o guarda-chuva. E isso é um desabafo.

guarda_chuva

Você mora na cidade? Então tenho certeza que você odeia chuva. Chuva é uma coisa muito desgraçada na cidade. O chão de concreto não foi feito pra lidar com água caindo do céu. Isso é fato, e alguém deveria fazer algo a respeito.

Os que andam de carro podem até reclamar que passam horas parados no engarrafamento quando chove e dá enchente em São Paulo. Mas amigo -  pelo menos, você está dentro de um carro. Você poderia estar fora dele, ou pior, dentro de um ônibus/trem lotado, sem ar condicionado e com as janelas fechadas, porque se abrir, chove dentro. Esses lugares têm cheiro de Cheetos – é sério. O trem é um lugar tão nojento que tem cheiro de Cheetos. O de queijo. E eu odeio Cheetos. Imagina como fica a coisa quando chove.

De qualquer forma, posso garantir que a chuva prejudica muito, muito mais quem anda a pé do que quem tem carro. Primeiro, porque chuva não significa frio – daí chove, mas tá calor, aí você põe uma calça e não um vestido, pra não molhar a perna com a chuva, mas a calça é quente demais, e ainda tá quente e úmido. Não pode usar sandália, sapato baixo, nada – tem que ser tênis, e de preferência impermeável. Precisa ficar cuidando pra que a barra da calça não molhe no chão. Precisa manter a mochila/bolsa e todo seu corpo dentro do diâmetro do guarda-chuva. E tudo isso segurando em cima da sua cabeça um pedaço de pano impermeável sustentado por uns arames que devia ser capaz de manter a chuva longe de você, mas não é.

Existe a ilusão de que a chuva é uma aguinha cujas gotas fazem ângulo de 90º com o chão, mas isso é mentira. Existe o vento. E o vento faz com que a água te pegue, mesmo com o guarda-chuva sobre a cabeça. Normalmente, é um grande paradoxo: chove o suficiente pra que você precise abrir o guarda-chuva se não vai se molhar mais do que o suportável, mas o guarda-chuva não protege o suficiente pra compensar o trabalho que ele dá depois da chuva – balançar pra sair a água sem atingir ninguém em volta, fechar, amarrar, pôr dentro da capinha, arrumar uma sacola plástica e finalmente jogar esta merda dentro da mochila, pra ter que tirar 5 minutos depois de novo porque ela molhou todos seus livros, e ficar carregando na mão enquanto anda, tentando evitar que ele encoste na sua calça e te molhe, o que inevitavelmente irá acontecer… já consegui te convencer que é muito mais fácil tomar chuva?

O filho da puta que inventou isso era muito sádico. Queria sacanear um monte de gente. ‘Vou inventar uma coisa que sacaneie muitos as pessoas sem que elas percebam. Vou fazer de um jeito que elas achem que valha a pena ser sacaneado. E depois vou ficar rindo pela eternidade.’

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Nick Hornby: um guia para iniciantes

Ok, você já ouviu falar de Nick Hornby. Alguns dos seus amigos descolados vivem falando dos livros dele. E você até que gostou dos filmes baseados nesse slivros, Um Grande Garoto e Alta Fidelidade. Você agora quer desbravar o fabuloso mundo da literatura Hornbyana. E você veio ao lugar certo.

Quem?


Nick Hornby, a.k.a. Daniel Belleza

Com exceção de Um Grande Garoto e Febre de Bola, eu li todos os romances do Nick Hornby. O último livro dele, Slam, lançado em português há cerca de dois meses pela Rocco, eu li nos últimos três dias. Considerando que eu tive entre de 2 e 3 horas disponíveis por dia, já dá para saber que o livro é quase infechável antes do fim.

Dá para começar falando dos livros do Nick Hornby então por esse gancho: poucas pessoas tem textos tão facilmente digeríveis e divertidos quanto esse cara. Apesar do humor ser proeminente, até pelos livros serem sempre em primeira pessoa (e todo mundo é engraçado visto de perto), contados por personagens, os romances são sempre dramas. E é uma maneira de mostrar como a vida, mesmo sendo uma merda às vezes, continua sendo engraçada. E com essa premissa eu me identifico absolutamente.

Sabe aquelas pequenas impressões do dia-a-dia que passam pela sua cabeça mas que, por motivos óbvios, você não comenta com ninguém? Aqueles pensamentos rápidos que todo mundo tem, mas que ninguém enuncia pelo bem da boa-convivência social e da manutenção da aparência sã? Os personagens do Hornby são todos despidos desse pudor. Ele mergulha na mente dessas pessoas e a gente também. E mesmo sendo gente nada a ver com você, é muito fácil se identificar.

Some isso as inteligentíssimas referências a todo tipo de cultura pop – música, internet, literatura, cinema - e você terá um belo exemplar de literatura Hornbyana. Parece bom? É melhor do que parece.

Mas… qual deles eu leio?

Embora os enredos dos livros do Hornby possam parecer simples quando descritos assim, objetivamente, não se engane: não existe ningupem que saiba tornar uma história interessante tão bem quanto ele.


Esse é o pôster do filme, bem mais bonito do que a capa do livro

Nick Hornby já escreveu 8 romances. De longe, o mais famoso deles é o Alta Fidelidade, que virou filme com o John Cusack, e conta a história do Rob Flemming – que é um tiozão que se recusa a se envolver em relacionamentos sérios, tem uma loja de discos e é viciado em dizer coisas através listas de TOP5.

Se você quer ter uma referência absoluta do que é o Hornby, deve começar por esse. Mas Alta Fidelidade não é o melhor livro do cara. Uma longa queda é um romance contado do ponto de vista de 5 ou 6 pessoas diferentes que tentaram se suicidar na mesma hora, no mesmo dia e no mesmo local. Elas acabaram desistindo, mas o encontro acabou mudando a vida delas para sempre. E é o meu preferido.

Depois, eu leria Slam. Entrou no meu TOP3 Nick Hornby. Baixe o primeiro capítulo aqui. Fininho e baratinho, é a história fantástica de um menino normal. Sam tem 15 anos, é gente boa, anda de skate e é muito fã de Tony Hawk. Sam conhece Alicia. Sam engravida Alicia. Sam pira e vai pedir ajuda a seu grande mentor, TH (é como ele chama o Tony), ou melhor – ao pôster de TH no quarto dele. E o pôster acaba mostrando para ele exatamente o que ele queria ver – mas de um jeito que ninguém esperaria. Mas acho que o Nick Hornby-elemesmo pode explicar melhor (infelizmente, não consegui o vídeo com legendas, mas ele fala um inglês fácil de entender):

Como ser legal, infelizmente, não ensina a ser legal, para o meu desespero. Eu achei o mais chato dos quatro, mas não chega a ser chato para os padrões normais – só para os padrões Hornby, já que os livros dele normalmente são do tipo que você devora, de qualquer forma.

Esse é a saga de uma mulher que está infeliz no casamento e acaba traindo o marido. Mas aí ela se arrepende. Daí não se arrepende mais. E depois se arrepende de novo. Etc.

Daí temos Febre de Bola, escrito sobre, por e para os amantes de futebol… e eu não sei mais nada sobre ele. Há também 31 canções, uma lista das músicas preferidas do Nick Hornby e e os motivos delas terem algum papel na vida dele, e Um Grande Garoto, que passa direto na TNT, que fala de novo de um quase quarentão imaturo que acaba mudando por causa de um menino meio esquisitão, com uma mãe doente e problemas na escola.

Eu li na seguinte ordem: Alta Fidelidade -> Uma Longa Queda -> Como Ser Legal -> 31 Canções -> Slam. E desde então, Hornby se tornou um dos meus cinco autores preferidos. Ele tem entrado na mesma lista de todas as pessoas para quem eu tenho emprestado algum dos livros. É tiro e queda. Não tem como não gostar.

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