OEsquema

Arquivo: O Guia do Mochileiro das Galáxias

25 de maio é dia do Orgulho Nerd (e Dia da Toalha)

Uma vez, contei aqui minha trajetória nerd. Eu era nerd antes de saber o que isso significava. De maneira completamente inesperada, aos 7 anos eu me interessava por card games, revistas sobre U.F.O.s e Combustão Humana Espontânea e já me aventurava pelo Windows 3.0.

bill-gates
Sério, eu era uma criança nerd insuportável. Dá uma olhada nessa redação que eu escrevi na quarta série, “O Passeio”, e nos adjetivos malas que eu usava. Tem também um excerto pessoal, uma auto-análise, que já dava sinais de que eu me interessava por nerdices (e tinha potencial pra me tornar eco-xiita), e cujo título demonstrava toda minha criatividade nerd: “Eu” (Relevem as duas caligrafias ABSOLUTAMENTE OPOSTAS, que provavelmente só indicavam que na ocasião eu já era meio maluca e tinha desdobramentos de personalidade).

E a prova final, meu boletim cheio de notas próximas ao 10.

boletim
Com 8 de atitude não dava pra cogitar fazer parte do Charlie Brown Jr.

Naquela época, eu só não era uma pária no colégio e não sofria bullying porque passava cola e fazia trabalhos pros amigos sempre tive a favor de mim essa personalidade exuberante e conciliadora extrovertida. Ou seja, além de nerd, eu pagava de louca-engraçada, daí meus amiguinhos acabavam aceitando a parada.

Quando a adolescência cruel semi-chegou, as coisas pioraram e eu fui duramente oprimida. Eu achava que o ginásio e o colégio representavam o fim do mundo, a constatação de que eu jamais seria realmente legal, e que aquilo não teria fim.

Sabe o que? Teve. E eu acabei teorizando que na faculdade não existem nerds. Explico: na faculdade, mesmo os nerds mais nerds são ligeiramente descolados. Bebem, fumam, têm namoradas que gostam de nerds, contam piadas que às vezes até são boas…

Mas isso não significa que o orgulho nerd se acaba quando as pessoas saem do colégio. Significa só que vivemos num mundo mais bonito, colorido, diverso e tolerante, que aceita que nerds se integrem socialmente depois da adolescência sem maiores traumas.

Quando a tormenta passou, e eu me deparei com a quase adulta que eu me tornei, percebi que tudo aquilo de que eu me orgulhava era proveniente da minha nerdice juvenil. Devo agradecimentos a todos os bullyings que sofri, a todas as broncas que levei da família por querer ler Vampiro: a Máscara em vez de entrar na piscina, de todos os olhares estranhos por andar com um exemplar completo da trilogia de Senhor dos Anéis pelo pátio do colégio no intervalo. Porque essas dificuldades idiotas, os pequenos obstáculos, me ajudaram a ser mais forte e a ter orgulho disso. Ser nerd foi fundamental pra ser quem eu sou hoje, com todas as coisas boas e ruins.

Hoje sei que não há nenhum problema nisso. E sobre a toalha, é verdade: eu sempre a carrego comigo. Se um dia me encontrar na rua, pode perguntar e conferir. Até tirei uma foto dela (e de mim):

didatoalha

E antes que alguém possa mencionar: a cara de doente é porque estou doente. Benzetacil hoje, e a dor de garganta nem passou por completo. Ou seja – agora to com duas dores pra me preocupar. Ainda assim, te desejo feliz dia do Orgulho Nerd. Nos merecemos.

27 Comentários

Convenção de Genebra: regulando o irregulável

Guerra é uma parada sinistra. E isso eu só posso supor, porque nunca estive em uma. Mas as evidências de que a guerra não é legal são muitas. A principal se configura pelo princípio da guerra – é um bando de homens brigando com outro bando de homens em nome de um conceito tecnicamente vazio, o de pátria.

Apesar de todo mundo ser igual todo mundo, a gente inventa que é parte de algo representando por uma bandeira e que aquilo nos une num só espírito. Isso nos diferencia de outro grupo igualzinho o nosso, só que unido por outra alcunha que é representada por uma bandeira diferente (às vezes nem tão diferente assim).

Dentro dessa premissa, cria-se a obrigação de matar outras pessoas e de morrer porque você precisa defender o espírito daquele negócio que é representado por uma bandeira. Você mata e morre em nome da pátria, que não é nada, na verdade. Mas lá está você, bravo e faceiro, no front de batalha.

Lá é vida ou morte, rapá. A coisa é braba. Você passa o dia inteiro, por dias, meses, com um único objetivo: matar outras pessoas antes que elas possam matar você. Não é exatamente algo tranquilo. Certamente precisa de um ligeiro preparo psicológico.

É o caos, a absoluta irracionalidade. Não existe nada mais irracional do que juntar dois grupos para que eles se matem por um conceito que é frágil como o de pátria.

Logo, é idiotice tentar ‘racionalizar’ algo que é por definição tão primitivo. Você não pode regular o irregulável. Tentar estabelecer regras de conduta em um conflito é a maior prova da infinita estupidez do ser humano. É muito burro, parece hipócrita. Você permite que os soldados inimigos sejam mortos com tiros de metralhadoras, mas proíbe que eles sejam mortos com o uso de determinadas armas químicas? Se eu fosse um historiador de uma civilização futura e estivesse estudando nossos costumes, certamente isso seria algo de que eu gargalharia. Parece coisa de português. É como dizer a um assassino ‘você pode esfaquear essas pessoas porque elas se alistaram e estão cientes dessa possibilidade, mas não pode esfaquear aquelas outras.’

É que existe uma tal Convenção de Genebra, que instituiu uma espécie de lista do que você pode fazer e do que não pode fazer se for um país em guerra. Olha a versão atual da Convenção:

§1- Os países em guerra não podem utilizar armas químicas uns contra os outros.
§2- O uso de balas explosivas ou de material que cause sofrimento desnecessário nas vítimas é proibido.
§3- O bombardeio de balões com projéteis é proibido.
§4- Prisioneiros de guerra devem ser tratados com humanidade e protegidos da violência. Não podem ser espancados ou utilizados com interesses propagandísticos.
§5- Prisioneiros de guerra devem fornecer seu nome legítimo e patente. Aquele que mentir pode perder sua proteção.
§6- As nações devem identificar os mortos e feridos e informar seus familiares.
§7- É proibido matar alguém que tenha se rendido.
§8- Nas áreas de batalha, devem existir zonas demarcadas para onde os doentes e feridos possam ser transferidos e tratados.
§9- Proteção especial contra ataques será garantida aos hospitais civis marcados com a cruz vermelha.
§10- É permitida a passagem livre de medicamentos.
§11- Tripulantes de navios afundados pelo adversário devem ser resgatados e levados para terra firme com segurança.
§12- Qualquer exército que tome o controle de um país deve providenciar comida para seus habitantes locais.
§13- Ataques a cidades desprotegidas são proibidos.
§14- Submarinos não podem afundar navios comerciais ou de passageiros sem antes retirar seus passageiros e tripulação.
§15- Um prisioneiro pode ser visitado por um representante de seu país. Eles têm o direito de conversar reservadamente, sem a presença do inimigo.

Essa coisa tem as manhas de institucionalizar a guerra. Pior do que tentar colocar regras em algo que é o maior exemplo de incivilidade da nossa espécie, é oficializar isso em documentos assinados pelo mundo.

Você pode argumentar dizendo que muitas dessas regras visam a proteção dos civis. Mas ISSO NÃO EXISTE e é hipocrisia tentar criar um conjunto de regras nesse sentido. Civis morrem e morrerão na guerra. Muitos alvos ficam no meio das cidades, e hoje em dia as guerras acontecem no meio das pessoas. Fazer guerra é assumir o risco da morte de civis, e não adianta assinar um documento dizendo o contrário só pra pagar de politicamente correto.

Guerra é guerra. Não importa se 300 crianças vão morrer hoje de bomba ou no ano que vem de câncer gerado por fósforo branco. É tudo uma merda – ainda são 300 crianças morrendo. Proibir o uso dessas armas químicas que causam danos a longo prazo é compreensível, mas é patético no contexto, porque parece o mesmo que dizer ‘se for matar, mata agora. não use artifícios que causem a morte depois’. Se pode proibir as armas químicas, porque não pode proibir as outras, também? Humanidade portuga.

9 Comentários

Spore, Douglas Adams e a crise existencial

Como todo bom fã de The Sims, Sim City e todos os outros ‘Sims’, eu esperei Spore por muitos anos. O jogo foi anunciado há uns 7 anos, com outro nome (que eu nem me lembro). Comprei uma cópia original pelo Submarino nessa sexta, aproveitando o frete grátis.

Spore é provavelmente o jogo mais legal que eu já joguei em tempos. É um jogo para qualquer idade e qualquer gênero. Até a trilha sonora casa com perfeição com o jogo.

Spore é um simulador de criação de espécies. Você começa como um microorganismo, num lugar gigantesco chamado ‘água primordial’, comendo outros microorganismos menores que você, sejam vegetais ou animais, para assimilar os DNAs dessas outras espécies e evoluir.

Não demora, você já pode acrescentar mais flagelos (para correr mais rápido) ou mais quatro pares de olhos (para deixar seu bicho bem esquisito). As possibilidades de personalização de cada espécie são infinitas. É quase impossível que um bichinho seja igual a outro, depois que ele evolui. Além disso, Spore é jogado online, com milhares de outras pessoas ao redor do mundo jogando e desenvolvendo suas espécies.

Crescendo bastante na água primordial, você desenvolve pernas, chega à superfície e começa a desenvolver habilidades que te permitem caçar em bando, formar uma civilização e coisas assim. O último passo é a exploração do espaço sideral, de outros planetas. É inesgotável.

Eu era isso…

…e me tornei isso!

Por coincidência, acabo de terminar O Restaurante no Fim do Universo, e já comecei o volume seguinte da série de Douglas Adams, chamado A Vida, o Universo e Tudo Mais.

A combinação de um jogo desse com uma série dessas me tem feito refletir seguidamente sobre a absoluta insignificância da espécie humana na grande linha do tempo que é a história do universo. Eu entrei em crise existencial por causa de um jogo e uma série literária.

Ok, eu sou uma pessoa permanentemente em crise existencial, mas o combo Spore mais Guia do Mochileiro tem provocado reflexões muito freqüentes, reveladoras e um pouco fatalistas.

Nós somos só um pedaço do que já passou e vamos acabar muito antes do que ainda vai passar. Não falo de mim, ou de você, particularmente; falo do planeta terra. Somos um episódio num imenso livro de histórias. Se houvesse um livro de história contando o início, meio e fim do ‘tudo’, seríamos sortudos se fôssemos mencionados em um ou dois parágrafos.

Você consegue imaginar um mundo sem grandes intervenções humanas? Um mundo no qual as modificações da nossa espécie tivessem sido mínimas – sei lá, moradia, domínio da agricultura, da caça. O que a gente fez com o mundo é realmente admirável do ponto de vista das habilidades que isso demandou, mas basta um pouco mais de sensibilidade e a gente percebe que o planeta terra virou uma aberração. O progresso é uma coisa esquisita.

A verdade é que nós não entendemos nada. E não sei se iremos chegar a entender qual o real sentido disso tudo. Enquanto a gente não descobre, eu sigo jogando Spore e lendo ficção científica. Afinal, alguém precisa continuar fazendo algo de realmente produtivo nesse planeta.

17 Comentários