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Quem canta, seus males espanta. Ou não


Lavagem das mãos deve durar dois “Parabéns a você”, diz OMS

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Então, funciona assim. A lavagem de mãos IDEAL, pra deixar você completamente longe de todas as pragas malditas que infestam esse mundo sujo, precisa durar de 15-20 segundos.

Basicamente, a notícia é essa. Lave as mãos, cante Parabéns e evite a Gripe Suína.

Só que a OMS quis fazer uma brincadeira. Não saquei qual foi, sério. Deve ter um assessor de imprensa que disse ‘precisamos tornar as coisas divertidas pras crianças. Precisamos traduzir esses 20 segundos numa linguagem que a população saiba entender’.

Na verdade, na faculdade de jornalismo a gente aprende que precisa levar pro leitor a notícia de um jeito que ele entenda. Então, em vez de dizer que ‘X hectares da Mata Atlântica foram desmatados em um ano’, é mais impactante explicar que isso equivale a sei lá quantos campos de futebol. Trazer a notícia pra uma dimensão que o leitor conheça.

Só que eu desconfio que mesmo uma boa parcela dos analfabetos no mundo saiba contar pelo menos até 20. É só um feeling, porque não é exatamente algo muito sofisticado, e essas pessoas precisam aprender a contar de qualquer forma – elas contam filhos, contam telhas da casa, contam dinheiro. Até 10 todo mundo sabe – 20 é dez duas vezes, pronto. Mas ainda assim a OMS resolveu fazer a piadinha.

De acordo com eles, enquanto a gente lava as mãos precisa cantar Parabéns a Você duas vezes. Mas sem a parte do É pique, é pique…. Entendeu? Tipo, só até …muitos anos de vida!, ai começa de novo.

Acessibilidade, essa é a palavra. Porque na mesma matéria uma enfermeira diz que outra solução é ‘pensar no alfabeto’, sem especificar se a gente deve falar todas as letras de A a Z ou sei lá, o que se torna estranho. E um analfabeto pode até pensar no alfabeto, mas não pode recitá-lo, e isso o excluiria automaticamente de lavar as mãos caso a OMS dissesse ‘lavar as mãos deve ter a duração de um alfabeto’. Então tá explicado o negócio do ‘conte até vinte’.

Só tem um problema: quero ver alguém fazer esta merda. Porque me parece a cena mais ridícula pela qual alguém pode passar voluntariamente (excetuando-se eventos de Cosplay). Vai no banheiro do trabalho, finge que não tem ninguém lá se tiver, aperta o botãozinho do sabão, abre a torneira e começa ‘Parabééééns…’. O legal é que quando todo mundo começar a te olhar estranho, você vai RECOMEÇAR, essa é a parte mais interessante. Se der, grava um vídeo, e manda pra OMS, pra eles deixarem de ser otários. Porque vão resolver problema de gripe mas vão acabar criando um monte de gente com distúrbio psíquico. Porque se você canta Parabéns enquanto lava as mãos, e duas vezes, e acha isso OK, tem algo de errado com você.

Mas se tiver mesmo, quero ver você lavar as mãos cantando Parabéns e fazendo cosplay.

E se você assistiu Castelo Rá-Tim-Bum, então sabe que a gente não precisa parecer COMPLETAMENTE LOUCO pra deixar as mãos limpinhas:

A propósito, se quiser usar essa música como marcação em vez do ‘Parabéns’, esfregue as mãos até a parte em que o fabuloso Arnaldo Antunes diz ‘Depois de brincar no chão de areia a tarde inteira’. Daí dá certinho. Bem mais legal, né?

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Eu não sei como me comportar quando cantam ‘Parabéns’ pra mim

A vida pode assumir uma série de definições, mas uma bem precisa é que é uma sucessão de acontecimentos constrangedores separados por intervalos em que acontecem o resto das coisas, sendo esse resto das coisas o dia-a-dia e os momentos em que você passa pelas coisas não memoráveis.

É, porque por mais triste que soe, a gente costuma se lembrar das coisas muito boas e das muito ruins, e normalmente as constrangedoras se enquadram nos momentos muito ruins e muito bons de tão engraçados – depois.

E o mais fantástico sobre a vida é que ainda que você seja uma dessas pessoas ultra sortudas, que nunca passam por situações em que podem se sentir muito envergonhadas, provavelmente não está livre de uma vez por ano estar num papel que é quase absolutamente constrangedor pra todo ser-humano padrão: o de  ser o alvo de um Parabéns a você numa festa de aniversário.

A sua, digo. Ou minha, no caso do domingo.

A sociedade é tão sacana que ela instituiu um mecanismo no qual uma convenção social profundamente arraigada é a causadora de um dos constrangimentos mais intensos que qualquer pessoa pode passar. Porque é um constrangimento diferente de qualquer outro: ele não é daqueles instantâneos, efêmeros.

Explico. Se alguém te pegar com o pinto dentro de um tubo de aspirador de pó vai ser chato. Certamente, é algo que vai gerar um certo constrangimento. Mas são segundos até que você tire a parada de lá, desligue o aparelho e se explique. Frações de tempo. É um constrangimento com início, meio e fim (ainda que bem intenso) e depois você ainda pode pensar numa desculpa pra ele, falar qualquer coisa, argumentar.

Parabéns é uma canção de uns 45 segundos durante a qual todo mundo olha pra você e você não sabe absolutamente o que fazer com as mãos, não sabe o que fazer com a boca – se canta, se fica quieto, se grita -, não sabe se bate palmas junto, se sorri, se fica sério, pra qual das 20 pessoas olha. E quando acaba não tem explicação pra dar, não tem nada pra consertar. Fora o perigo de cantarem Com quem será e entoarem O fulano faz anos…

O mais curioso é que exatamente a situação chata mais inevitável e mais difundida do mundo vai estar na tua vida pelo menos uma vez por ano. Não há como fugir – é como se a vida quisesse que toda pessoa passasse vergonha sem escapatória pelo menos uma vez por ano, só pra ficar esperto.

E você nunca pode pedir pra que as pessoas não te cantem Parabéns. É impressionante como você pode pedir praticamente tudo pras pessoas hoje em dia e ser capaz de encontrar um grupo que vá atender ao seu pedido. Mas isso nunca funciona pro Parabéns, porque ninguém entende como é possível fazer aniversário sem um e você não imagina as caras de horror ao sugerir que não se cante a música maldita. Não existe, é inadmissível, nem sequer se cogita.

Um dia desses, quando eu completar uns anos aí e tiver numa festa sem familiares que precisem da tradição do Parabéns e tal, vou sugerir que todo mundo me cante outra música. Pode ser Festa, da Ivete Sangalo. Ou o Créu. Pelo menos essas músicas têm coreografia e os aniversariantes vão saber o que fazer com as mãos.

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