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Arquivo: pessoal e cotidiano

Até que ponto vai a minha – e a sua – honestidade?

Essa semana aconteceu uma dessas coisas que deixou a comunidade em polvorosa.

Quando me refiro à comunidade, infelizmente não estou falando do meu bairro e do grupo que o compõe, visto que aqui a gente não forma uma comunidade – eu mal sei a cara dos meus vizinhos de porta, quanto mais quem são as pessoas que moram na mesma rua, o que é triste. ‘Comunidade’ é a galera do Twitter. É que já tá me dando no saco ter que comentar algo dizendo que foi assunto do Twitter essa semana. Me deu preguiça de ficar falando nele. Como o Caio Blat me dá preguiça na novela das 8.

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Enfim. A Fnac, a loja online, deu um pau numa madrugada essa semana e começou a vender tudo por R$ 9,90 + frete.

Daí, óbvio, maluco começou a comprar adoidado. Teve gente que colocou no carrinho Macbook de R$ 9,90 e TV de Plasma de 52′ pelo mesmo valor. Ah, mais o frete, sem esquecer disso.

Óbvio que no dia seguinte a carruagem virou abóbora e era tudo um erro do site, que cancelou as compras, apoiado pelo Procon, que sabiamente alegou que o consumidor que tentou adquirir o produto por um preço claramente irreal e, depois de saber que era um erro, ainda tenta recebê-lo, está agindo de má-fé.

Eu concordo.

Quando você entra no site da Fnac e vê que um Macbook está custando R$ 9,90, você sabe que algo está errado. Você adquire mais de um, avisa seus amigos. Você faz isso porque sabe que, tecnicamente, está amparado pela lei do consumidor, que diz que a partir do momento em que o produto está anunciado por um preço e você o adquire, a loja é obrigada a entregá-la. E você faz isso tudo sabendo que aquilo é, com toda a certeza, um erro, porque isso é 1000 vezes menos o preço de um Macbook.

Daí, quando a loja anuncia o erro, como era de se esperar, você quer se valer da lei pra continuar tirando vantagem de algo que claramente não faz sentido.

Pra mim, equivale a querer tirar vantagem em cima do erro dos outros, e é tão desonesto quanto soa. E foi isso que eu disse na comunidade pras pessoas – é agir de má-fé, ponto.

Só que eu imaginei que se eu tivesse de madrugada online, fazendo nada, e soubesse do #Fnacfail, eu com certeza teria comprado algo. Com certeza. Pelo menos um Macbookzinho, ah, eu teria. Suspeitaria, contudo, do erro. E quando ele fosse anunciado, aceitaria de bom grado a devolução do dinheiro na fatura do meu cartão.

E isso faz de mim uma hipócrita das grandes.

E é a pior das hipocrisias, porque não parece uma (ao menos pra mim, não me sinto mal). Veja bem, posso me defender dizendo que a oferta gera uma expectativa. Por mais irreal que o preço pareça, e se deu a louca na Fnac? Pô, o preço tá lá. Tentar não custa – se anunciarem o erro, ok, fico na minha, recebo meu dinheiro de volta. Na minha cabeça, ser sacana é usar a legislação pra tentar receber o produto. Tentar comprá-lo pelo preço que está lá e torcer pra que entreguem não tem nada de errado.

Só que se eu sei que existe algum erro na história – porque isso eu sei – e torço pra que esse erro persista até que eu tire benefício dele, então isso está errado. Tão errado quanto estão as pessoas que tentaram recorrer judicialmente pra receber Macbooks de R$ 8,90 e tal. E é nessas horas que eu me pergunto – até que ponto vai a minha honestidade?

Você se consideraria desonesto se tentasse adquirir um produto por um preço claramente irreal, ainda que não se manifestasse contra caso a loja informasse o erro posteriormente? E se o erro persistisse e o produto chegasse até você, você fingiria que nunca houve erro? De quem é o erro maior – da loja, cujo sistema falhou, ou das pessoas que se aproveitaram dessa falha?

Sério, me ajuda aí porque minha cabeça tá em parafuso.

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O tênue limite entre a simpatia e a loucura

Você certamente já encontrou com alguém cuja simpatia ultrapassava o limite do que é considerado socialmente aceito. Se trata daquelas pessoas sorridentes e solícitas, que diante da menor inclinação da sua boca demonstrando um sorriso desatam a falar sobre coisas que você certamente não perguntou e pelas quais, na maioria das vezes, não tem interesse nenhum.

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Eu posso ser uma dessas pessoas.

É triste admitir. Mas se você somar minha personalidade extrovertida e conciliadora com um dia de bom humor e uma deixa boa, eu posso ser uma daquelas pessoas que se intrometem sem querer na conversa de outras pessoas e, quando vê, já estão palpitando sobre coisas para as quais não foram convidadas.

Junte isso ao meu jeito estranho de falar – caso você não me conheça, eu falo exatamente como escrevo aqui, com as mesmas palavras e as mesmas pausas e todo o resto – e você me terá como uma desconhecida louca nos lugares  públicos, dessas que as pessoas evitam.

E assim, é mais forte que eu. Nesse fim de semana, por exemplo, eu estava na fila da Renner, pra pagar uma calça, e uma senhora perguntou (ok, eu achei que era pra mim, mas era pra filha dela que estava na minha frente) se a outra fila estava menor. Eu respondi com desenvoltura, como se ela fosse minha melhor amiga. Normalmente, nessas horas, se a pessoa está acompanhada, ela troca olhares de profunda estranheza com o companheiro, o que é absolutamente constrangedor pras pessoas simpáticas loucas como eu.

Felizmente, minha simpatia louca tem seu lado bom. Não foram poucas as vezes em que fiz amigos e influenciei pessoas desse jeito. E na prática, no fim acabam me considerando só simpática, e um pouco esquisita, mas não exatamente louca.

Isso é porque, na maioria das vezes, eu sei me manter do lado de cá do tênue limite entre a simpatia com estranhos e a intromissão considerada maluca. É, é uma tarefa delicada, e demanda anos de prática e leitura corporal, mas eu só sei que sei e ponto.

Como eu sei disso? Porque já lidei algumas vezes com pessoas simpáticas realmente loucas. E eu não faço, definitivamente, o que elas fazem. Por exemplo: um rapaz que se vestia esquisito me acordou no trem, dizendo que eu ia perder a estação – como se ele pudesse adivinhar a estação em que eu desceria. Me fez perguntas esquisitas sobre onde eu morava e com quem, conversou comigo como se fôssemos amigos de anos e depois de um tempo tomou seu rumo.

O outro, um tio com crachá da Apae, se sentou ao meu lado e resolveu trocar idéia. Perguntou se eu não queria tomar suco na casa dele, tomar guaraná, ser amiga dele, ser irmã dele, pediu meu telefone (eu passei errado) e toda a sorte de coisas esquisitas. O ônibus inteiro riu da situação até que ele desceu e eu fiquei aliviada, porque ele parecia esquisito além do que podia ser seguro.

Essas pessoas são suicidas sociais, por definição. O primeiro, porque é esquisito. O segundo realmente tinha algum nível de deficiência mental, ou seja, não conta como exemplo. Mas como ser simpático e louco sem ser esquisito e intrometido? Como não parecer um ridículo que quer chamar a atenção?


Não é assim

A regra principal é saber se seu comportamento é bem-vindo. Pode parecer uma ilusão, mas existe gente no mundo que é simpática aos malucos-simpáticos (normalmente, outros malucos simpáticos, ou velhinhos). Essas pessoas vão ficar felizes com a sua intromissão. E elas vão demonstrar isso, não sendo monossilábicas e puxando papo.

Acho que a diferença principal entre o simpático e o maluco-simpático é justamente essa – o maluco não se toca que está sendo inconveniente. Ou, se percebe, realmente não se incomoda com isso. Nós, simpáticos em excesso-quase-malucos, tentamos uma aproximação mas nos afastamos assim que notamos que não somos bem-vindos.

Ou escrevemos um blog.

Mas essa preocupação em se adequar só deve ocorrer porque o comportamento simpático-maluco não é socialmente aceito, e a gente precisa de amigos. Eu não vejo nada de errado com essa extroversão maluca – até porque não é sinal de saúde estar inserido numa sociedade que não me parece estar muito bem das pernas.

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O tormento da tormenta (ou como fazer do limão uma caipirinha)

Deve acontecer com todo mundo. Há um momento, uma situação específica, em que você se vê acuado. Sem ter o que fazer, sem opção (clique para ampliar):

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Eu sou um pouco sádica. Tenho algo de tragicômico que é inerente à minha personalidade. Quando li essa nota, gargalhei e mandei para todos os meus amigos do ABC que ainda estavam em SP, para que eles gargalhassem junto comigo da situação bizarra em que nos encontrávamos. Nós não podíamos voltar para casa. NÓS NÃO PODÍAMOS VOLTAR PARA CASA, nenhum de nós.

Do ponto de vista de cidadania e de instituições sociais, é claro que uma coisa dessa só mostra o quão ridiculamente frágeis nós somos diante das ‘foooorrrrrrrrças da natureza’ – e nesse caso, nem foi um furacão ou um ciclone, só uma chuva de verão.

Do ponto de vista, digamos, da dignidade à qual todos nós teríamos direito – nós que (não) pegamos trens, nós que subimos no teto do carro, nós que nos agarramos em postes para não sermos levados pela correnteza – o episódio todo é só mais uma indicação de que a coisa está falida e que as opções são 1. fazer algo para reverter a situação 2. se mudar para o campo.

Mas essa discussão já foi feita à exaustão aqui, em outros posts. Vamos ao conto aquático de terça.

A certa altura, consegui falar com dois dos meus também quase afogados amigos – um ilhado na região da paulista, outra das 17h30 às 21h30 no Brás esperando os trens voltarem a circular – e tive uma fantástica idéia.

Fudido por fudido, com o perdão do termo, nos fuderíamos juntos e numa festa open bar.

No Astronete nesta terça, 17, dia de St. Patrick, a boo-box (empresa que disponibiliza o código pra eu colocar uns anúncios laranjinhas aqui embaixo) resolveu dar uma festa pra lançar algum produto (que ninguém soube qual é, perguntei pra todo mundo).

Levei meus amigos ilhados para a festa comigo, e concordamos que a melhor alternativa era ficar lá até as 4h pra esperar o trem abrir de novo – a outra seria ir para a estação de trem da Luz e conseguir pegá-lo, muito cheio, calculo que entrei meia-noite e uma da manhã. Na Luz não tinha open bar de Guiness e nem música, então concordamos que a primeira opção era mais conveniente naquele momento.

Lá, influenciada bem levemente pelo alto teor alcoólico da cerveja Guiness, que era gratuita, subi ao palco para participar de uma fabulosa batalha de iPods (que perdi, mas sem papo de perdedor, fiquei muito feliz só de poder tocar pras pessoas), dancei músicas que desconhecia, conversei com amigos de longa data (mas com os quais nunca tinha tido oportunidade de conversar por muito tempo), perdi meu único elástico de cabelo e me diverti como jamais seria possível numa terça-feira à noite de caos aquático em São Paulo.

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Nós três (eu atrás da câmera) pegando o primeiro trem na Luz, às 3h59

No fim, nossa decisão foi acertada. Cheguei em casa às 5h, morta mas muito feliz. Podia ter chegado às 2h, morta e muito, muito puta da vida com o sistema e com a humanidade, sentimento que sempre me acomete depois de episódios absurdos como o de ontem.

Troquei o ativismo mental pela ignorância que sublima. Deixei de lado mais uma oportunidade de praguejar contra a fraqueza das nossas estruturas sociais e, pela primeira vez em muito tempo, optei por fingir que nada daquilo existia por algumas horas. Por algumas horas, esqueci que a cidade não funcionava lá fora, que o mundo era uma merda e que as pessoas eram ruins.

Ainda bem que, quando abri meu e-mail às 10h da manhã desta quarta, um cidadão me fez o favor de reavivar todos esses conceitos supostamente tão exagerados e pessimistas (clique para ampliar):

horrivel

Só ajudando você a lembrar que existe gente escrota no mundo. Mas não precisa se abster das festas open bar. E eu sei que ressaca moral é besteira, mas aos amigos velhos e novos – se ontem disse algo um pouco extravagante, relevem. Foi sincero, mas relevem a extravagância.

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