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Arquivo: Política

O mundo, os hackers e o viquiliques


“Cuméquichama… viquiliques lácumé”

Todo mundo mantém em segredo alguma parcela da opinião que tem sobre os outros. Às vezes, porque os defeitos não importam muito quando a gente gosta do outro. Às vezes, porque sinceridade demais é indelicado e, às vezes, porque sua opinião simplesmente não foi requisitada.

Imagina só se, de repente, todas as nossas opiniões desimportantes e um pouco críticas sobre os outros, aquelas que a gente diplomaticamente mantém em segredo pra garantir bom convívio social e sobrevivência, de alguma maneira viessem a tona? Consegue imaginar o casos? Provavelmente não sobraria ninguém gostando de ninguém. Seria um mundo repleto de rancor, fofocas, despeito e vingança.

O mundo diplomático está passando por uma crise parecida com essa aí por causa de um maluco chamado Julian Assange, um cara que criou um site – o Wikileaks, para quem ainda não fez a ligação, o Viquiliques, para o presidente – para onde qualquer um pode mandar documentos confidenciais, aqueles segredos de estado top secret. Pela primeira vez na história, as pessoas que definem como são as relações entre os países, e portanto, definem se estaremos vivos ou se seremos atingidos por um míssil nuclear na semana que vem, precisam tomar cuidado com o que dizem.

Elas não estão acostumadas a isso, e eu não as culpo; ninguém está. No lugar delas, eu também gostaria de ver o responsável por isso morto. No meu lugar, eu acho tudo muito engraçado e revolucionário (desde que não chegue na parte que envolve os mísseis nucleares).

A parte ruim é que estão querendo encurralar o pobre do Julian Assange (é o cara que criou o site, gente).

Jornalista só se fode

Acusaram-no de estupro lá na Suécia. Acabou que o crime foi não usar camisinha com duas mulheres com quem ele se relacionou em uma semana (a maior prova que ter um site famoso faz você comer mais gente), e isso pode ser considerado uma espécie de assédio sexual de menor intensidade lá na Suécia. Pra começar, se vira moda isso ser crime, eu não quero nem pensar no que aconteceria. Em segundo, a moça que o acusou tem ligações com a CIA e não é a primeira vez que trabalha para a organização nessa história de incriminar alguém sexualmente. Em terceiro, colocar a INTERPOL atrás de um cara porque ele transou sem camisinha, novamente, abre uma jurisprudência perigosa.

Julian não cometeu crime nenhum. Ele divulga documentos liberados por informantes – não é que ele invade os escritórios e rouba papéis das pastas -, trabalha em conjunto com grandes jornais como o El País e o The New York Times, que o ajudam a checar a veracidade das informações que recebe e divulgou, na metade do ano, crimes de guerra importantes cometidos pelos EUA no Iraque.

E a cruzada contra ele é GERAL. Da Amazon à Visa, todos estão tentando impedir que o cara continue fazendo o que faz, e ele já se entregou pelos crimes dos quais é acusado na Suécia (RISOS, CRIME, RISOS). E como mencionou o copanhêro lá em cima, são todas formas de mascarar violações severas da liberdade de expressão.

Ainda bem que podemos contar com o submundo da internet para garantir que nossos direitos não sejam cerceados. Há uma CYBERGUERRA em andamento, agora: um grupo organizado de ativistas hackers está focando as organizações que boicotaram deliberadamente o Wikileaks e provocando ataques organizados contra os sites dessas empresas. Mastercard e Visa já caíram; Paypal é o próximo alvo.

Julian Assange não é ingênuo – provavelmente, em algum momento nas últimas semanas depois do cablegate, ele soube que DEU MERDA. Por isso, se eu (que sou menos inteligente) estivesse no lugar dele, a essa hora já teria criado centenas de mirrors (cópias online) do Wikileaks, (QUER DIZER, http://213.251.145.96/mirrors.html, obrigada @felds) além de orientar algumas outras pessoas para que elas continuassem recebendo os documentos enviados pelos informantes. Se eu estiver certa, a treta felizmente está longe de acabar.

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O que está acontecendo no Rio for dummies


O Meia Hora com serviço de interesse público pra trafica

Tem algo muito interessante acontecendo no RJ nesse momento, às 22h desse sábado, 27 de novembro de 2010. É uma situação única, que provavelmente será lembrada por anos e que está redefinindo alguns paradigmas que acabaram estabelecendo-se sobre a cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos.

Eu vou fazer um briefing pra quem não faz ideia do cenário: no Rio, não existe crime organizado, como é o PCC em São Paulo. As facções e as milícias dominam os complexos de uma maneira ligeiramente diferente do que acontece aqui, onde as coisas são menos ostensivas. Lá, os grupos criminosos se beneficiam muito do controle territorial dos morros. Eles podem, com isso, estabelecer as próprias regras, vender gás, GatoNET, fazer os moradores reféns de uma situação que provavelmente não lhes agrada e impedir que aquele território tenha qualquer presença do estado, de escolas a hospitais, além de garantir que nenhuma outra facção tome aquele morro. Eles brigam entre si, e sempre brigaram, o que torna mais fácil para que o estado os combata. E não têm ideologia política que os una, o que dificulta as tentativas de se organizar e formar um grupo só.

Beleza, aí chegaram as UPPs. Basicamente, a polícia AVISA que vai tomar uma favela (isso é para evitar o conflito e facilitar a entrada, e tem funcionado, segundo a secretaria de segurança pública do RJ), o BOPE entra, instala um contâiner e começa a ocupação do território. Os policiais que comandam UPPs são todos recém-contratados e, portanto, supostamente sem os vícios e os traumas que ser PM no Rio pode causar. E aí a vida na favela começa, pela primeira vez, a se aproximar da vida urbana e cidadã: o estado pode fornecer (se faz isso, é outro papo) água, luz, telefone, coleta de lixo, escolas, hospitais. Muitos lugares têm instalações já, mas a prefeitura não conseguia contratar profissionais pra trabalhar nesses lugares por conta do risco.


E você pagando pau pro BOPE. Mano, olha esse babaca

Com a retomada do território pelo estado, a secretária de segurança (segundo eles) cobra as outras secretarias para implantação de políticas sociais e de lazer, para realocar a força de trabalho que perdeu o emprego quando a presença de tráfico ostensivo termina. Porque a UPP não tem o objetivo de acabar com o tráfico – ela quer, sim, acabar com o domínio territorial das facções sobre a comunidade.

Mas há alguns líderes que, é claro, não veem vantagem em permanecer no morro e deixar o crime, seja porque ganham mais no tráfico ou por curtirem essa vida mesmo (nada contra). Estes fogem para outras comunidades ou complexos dominados pela mesma facção. Uma hora, essa panela de pressão explodiria – essa hora chegou.

Acontece que essa panela de pressão é formada, em maioria, por garotos entre 16 e 20 e poucos anos, muito bem armados mas pouco treinados e sem ideologia. Gostam de ostentar o armamento e o ‘luxo’, representado por correntes de ouro e tênis importados. Estão assustados com a perda daquilo que era a fonte de grana deles: fazer os moradores reféns. Esse susto, a princípio, parece tê-los unido – mais um ‘já que estamos na merda, estamos na merda juntos’, mas ainda assim, sem um objetivo comum específico além do ‘vamo pegar nas armas e revidar’.

E nesse momento específico existem interesses muito maiores do que eles por trás. Interesses de bandidos mais perigosos que Elias Maluco e Marcinho VP, gente de gravata, que precisa garantir que o Rio seja (ou pareça) seguro porque Copa e Olimpíadas vêm aí. Não vai sobrar pedra sobre pedra desses garotos que estão impedindo isso – eles vão todos pra vala. Quando a gente vir as imagens, vão parecer todos iguais. Pretos, pobres, armados. E todo mundo vai dizer – ‘bem feito, é bandido’. Só as mães deles vão saber diferenciar um dos outros, no fim disso.


Observe este policial excêntrico. Judeu ortodoxo? Discípulo de Raul? Gaúcho garimpeiro loco? Talvez nunca saibamos

O lance é que, apesar de ser contra a morte (é isso aí: por mim, ninguém mais morria. No mundo. Isso tudo faz parte da minha nova fase zen, e ainda resolveria a falta de cemitérios, por exemplo – daqui um tempo, não teremos espaço pra enterrar tanta gente) eu me vejo bastante escrota quando penso que, a partir do momento que você é um criminoso no Rio de Janeiro e está em combate aberto com uma polícia notoriamente melhor armada, melhor treinada e mais numerosa do que seu grupo, em que lhe foi dada a chance de se render (isso está rolando – muitos já se entregaram) e em que a sociedade inteira parece aprovar sua execução sumária, se você CONTINUA trocando tiros com a polícia, eu penso que você está assumindo um risco bem claro. E que se algo te acontecer, bem, você sabia que isso poderia acontecer.


Esse é um dos que já se entregaram – chama Mister M, é braço direito do chefe do tráfico no Morro do Alemão segundo a polícia, segurava uma bandeira com a palavra PAZ quando foi preso e, como você pode ver, parece muito mais simpático do que muito vizinho meu

A polícia vai invadir o Alemão a qualquer momento. Além do sangue dos criminosos, pode ter certeza que muita gente inocente já morreu e vai morrer no confronto. E eu peço que você pense nisso quando se sinta inclinado a pensar, assim como eu, que a polícia deve mesmo invadir a parada e atirar, porque é o que resta fazer, porque é o preço a se pagar.

É um sacrifício que a gente, a classe média, aceita, porque não envolve matar com bala perdida ou executar sumariamente ninguém que a gente conhece. Um confronto direto desse poderia ter sido evitado com trabalho de inteligência da polícia durante a implantação das UPPs e a evasão dos criminosos pra outros complexos, e o nosso papel seria cobrar isso, e não apoiar que o BOPE saia distribuindo bala. Por mais emocionante que isso pareça para algumas pessoas, gostaria de lembrá-las que quando você liga a TV lá na Globo News, aquilo – apesar de parecer – não é Tropa de Elite: é gente de verdade morrendo.


Trem bala? O RIO JÁ TÁ CHEIO DELES RISOS

Esses enfrentamentos VÃO ACONTECER DE NOVO E DE NOVO, já que o estado vai continuar pacificando as favelas com as UPPs (e olha, eu não sou nada contra as UPPs, pelo contrário). Imagina quanta gente inocente vai morrer com tiro até lá? Quanta gente vai sofrer a humilhação de ter que esvaziar a bolsa pra ir pra casa, gente que vai ter que abaixar quando ouvir barulho de tiro?

Eu penso que, no fim disso – lá na frente, com esses meninos todos no caixão, as comunidades pacificadas, as guerras travadas e ‘vencidas’ pelo estado, o crime no Rio vai se tornar muito, muito parecido com o crime em São Paulo: controlado por uma única e grande facção criminosa que acaba se tornando uma grande empresa do crime, que age por debaixo dos panos mas que é praticamente onipresente. Me diga você: isso é bom?

No meio do caos, umas coisas legais de se ver: o @CasodePolicia, do jornal Extra, do RJ, tem feito um trabalho legal esclarecendo o que é boato e o que é verdade sobre arrastões e incêndios e realiza twittcams periódicas com informações de repórteres direto DO FRONT. Há também garotos que moram no Complexo do Alemão usando o Twitter pra informar a galera em tempo real do que está realmente acontecendo lá dentro. Tem o @igorcomunidade e o @Rene_Silva_RJ, que desde os 11 anos publica um jornal lá, o chamado www.vozdacomunidade.com.br, @vozdacomunidade. Eles ajudam a dissipar boatos e manter moradores e gente de fora atualizados. E tem gente que diz que precisa de diploma pra fazer jornalismo…


Já pedindo perdão pelo clichê, espero que ele continue lindo <3

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O vídeo sobre “política” do Felipe Neto

Se você viu inteiro numa boa, sem se constranger, provavelmente o texto a seguir é pra você.

De fato, várias coisas nesse vídeo não fazem sentido. A primeira é que 100 reais só é migalha pra gente como eu e você, mas provavelmente não é para quem vive com 400 reais por mês. É tipo um aumento gigante na renda. Não vou entrar em méritos partidários – só digo que, nos países de primeiro mundo, todo mundo acha lindo que o governo dê pensão pras pessoas que não trabalham (é, isso rola). “Olha só que lindo nos países desenvolvidos, lá se o jovem não quiser trabalhar, ele pode viver de pensão”. Aqui, é assistencialismo, é dar dinheiro pra vagabundo que não quer trabalhar (reaça tem essa coisa maravilhosa de achar que no Brasil ninguém gosta de trabalhar, só ele, que geralmente nem trabalha).

A segunda coisa que não faz nenhum sentido é esse clipe dessa música horrível no final é que ele só ajuda a alimentar o espírito babaca de falar que nenhum político presta. Porque o tipo de pessoa que repete isso não percebe que repetir isso é só uma maneira de tirar de si a responsabilidade de achar um que preste (é, é incrível, mas tem gente boa na política). As pessoas que bradam que nenhum político presta não sabem em quem vão votar, não querem saber e também não se lembram em quem votaram na última eleição.

É uma maneira muito eficaz de perpretar justamente o que o vídeo crítica, também, dizer que ‘é só a educação que salva esse país, talvez em duas ou três gerações’. Primeiro, porque é o óbvio do óbvio, mas aqui não tem a intenção de ser óbvio, mas de tirar do ombro da minha e da sua geração a responsabilidade de fazer alguma coisa. E é uma responsabilidade nossa, queira você, o Felipe Neto, eu, ou não.

Também não faz sentido que o autor do vídeo mande as pessoas estudarem quando ele fala “dos quatro candidatos…”, “tem alguém aí que vai mudar o Brasil?..”, “as pessoas só votam em quem vai ajudar a classe social delas” e tal. Primeiro porque há bem mais que quatro candidatos à presidência; segundo, que por acaso as propostas de um cara chamado Plínio Arruda, só pra citar um dos quatro grandes, pra bem ou pra mal, mudariam sim E MUITO o país (apesar de que ‘mudar o país’ é uma expressão bisonha. Felizmente, na democracia em que vivemos, nenhuma instituição política tem poder o suficiente pra fazer algo nos termos de MUDAR O PAÍS. Felizmente, há várias instâncias de poder, oposição, e isso equilibra muito a disputa de interesses, o que impede coisas do tipo MUDAR O PAÍS, seja lá o que isso for); terceiro que sim, as pessoas só votam em quem vai ajudar a classe social delas porque… é isso que o voto é. A gente vota em quem acredita que vai melhorar a nossa vida.

Uma coisa que me preocupa de verdade é ver esse bando de gente rica (como eu, é verdade; sou rica) reclamando que o país tá uma merda. AMIGO: você estudou em escola pública? É, eu também não. Você vive com dinheiro suficiente pra precisar de 100 reais a mais por mês? É, eu também não preciso. Sua vida piorou nos últimos 16 anos? Eu acho que não, heim. A minha, pelo menos, melhorou bastante. A da Luzinete, que trabalhou aqui em casa, também. E de todo mundo que é bem mais pobre que eu que eu vejo no trem… pelo menos eles parecem ter uns celulares legais.

Claro que há problemas, eu não tenho dúvida disso. A educação pública é sim péssima, falta transporte público, falta saúde. Mas a diferença entre o meu discurso e o seu é que eu tento me sentir responsável por esses problemas. Eu não ponho a culpa nos políticos (que eu escolho).

Discursos como esse do Felipe são o câncer. São eles que fazem as pessoas se sentirem ok por serem alienadas politicamente, burras, porque tira a culpa delas. SE VOCÊ NÃO SE INTERESSA POR POLÍTICA (e você tem acesso a internet e está vendo o vídeo do Felipe Neto no YouTube) a culpa é 100% SUA. LIDE COM ISSO. Não jogue a responsabilidade na falta de educação pública, em ‘políticos picaretas’, no que for.

*O Felipe é um amigo da internet, que inclusive me pediu opinião sobre o roteiro desse vídeo depois de tê-lo feito. Eu disse pra ele que não concordava, discutimos um pouco sobre política, foi legal. Quando o vídeo saiu e eu vi um monte de gente replicando a posição dele (que eu considero prejudicial pro estado das coisas), resolvi escrever uma resposta. É só pra evitar que muita gente repita o que o Felipe tá dizendo sem sequer contestar; eu tenho certeza que esse tipo de comportamento, de replicar 100% o que outra pessoa diz, é algo com o que ele também não concorda. Lembre-se SEMPRE do MANUAL DA DESCONFIANÇA PRÁTICA. Ele vem a calhar nessas horas. Desconfie de tudo. E sim, isso inclui esse texto.

**Se para você, votar no Tiririca é ‘protesto’ (caramba heim, quanta rebeldia), saiba que você não apenas é um idiota, como está sendo feito de idiota. Confira aqui o Risco do Fator Tiririca.

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Governo apóia ensino ‘religioso’ nas escolas. Tsc

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O INRI APROVA ESTA IDEIA

Negócio é o seguinte, governo aprovou ensino religioso nas escolas e tal. Faz uns dias já, mas tava querendo falar sobre isso há tempos.

Só o fato de o estado ser laico, em tese, já deveria proibir uma lei dessa de ser cogitada. Mas vamos ignorar este pormenor.

Os defensores dessa lei argumentam que é educação religiosa genérica, não-atrelada a nenhuma religião específica, e que é sempre importante ensinar princípios religiosos, porque eles agregam moral e valores. Vamos supor que eu concorde com isso (não concordo, e acho que se você precisa ter medo de Deus pra ser um cara legal você é um babaca).

Você acredita que o ensino religioso vai ser genérico? Abranger todas as crenças? Que além do pai nosso, as crianças vão aprender dogmas islâmicos, judaicos, do candomblé…? Tipo, é óbvio que não. Os professores nem têm preparação pra isso (na verdade não sei se isso é verdade, mas acho importante afirmar que os professores não têm preparação, no Brasil é legal falar isso). O termo ‘ensino religioso’ já assume por definição a ideia de ensinar doutrinas católicas. E quem eles querem enganar? Tipo, o acordo foi fixado com o Vaticano. Não foi com Israel ou com o Dalai Lama. Crianças vão receber ensino católico nas escolas, ponto.

Será que eles vão ensinar a rodar? Tipo, claro que não.

O que eu acho mais prejudicial disso é que o catocilismo tem como base o tal mistério da fé. Que significa basicamente que tudo o que é inexplicável é mistério da fé e pronto, favor não questionar. E quanto mais absurdas forem as coisas inexplicáveis, mais fé você precisa ter pra se manter católico. Logo, quem abaixa a cabeça pra dogmas bizarros é muito mais querido por Deus, porque tem mais fé. Tipo, lê esse texto que você vai entender.

O que se traduz em: as crianças não serão encorajadas a questionar. Imagina uma criancinha lá de 7 anos tendo aula de religião. Daí o professor explica que Deus fez Eva de uma costela de Adão. A criança vai perguntar como isso é possível, já que teria machucado Adão em primeiro lugar, e em segundo lugar é muito complicado transformar uma costela em uma mulher. E dirão para ele que é assim porque deus quis assim. Pronto. Mistério da fé. E imagina as consequências infelizes de crianças que não questionam as paradas.

Na melhor das hipóteses, teremos uma geração revoltada porque ninguém explica nada pra elas. Boa. Na pior, um monte de crianças alienadas, conformistas e fanáticas.

PIOR: e se lá eles ensinarem que usar camisinha é ruim? Além de alienadas, conformistas e fanáticas, as crianças com ensino católico terão todas AIDS. E filhos, muitos filhos. Católicos. Que mundo horrível, que vibe incorreta.

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Jesus era a sensação da criançada

Eu tive educação ‘religiosa’, amigo. Leia-se católica. Uma vez eu perguntei na aula de ‘religião’ como teriam surgido diferentes etnias, se no início só havia Adão e Eva. A professora explicou que a história de Adão e Eva era uma metáfora. Engenhoso, mas tem muita gente, inclusive na própria igreja, que jura que a parada é literal.

E eu era sacana. Escrevi na prova de religião que acreditava em Jesus Cristo como meu único pai e salvador e tirei 10. Mas nem acreditava naquilo.

Pior era ter que rezar pai nosso todo dia de manhã. Eu não queria, mas se não rezasse todo mundo ficava olhando, e era um saco parecer que você não tá rezando porque é revoltado e quer ser o rebelde. Daí eu rezava junto.

O Richard Dawkins, autor de Deus: um delírio, diz que dizer que uma criança é católica ou judia ou protestante é como dizer que uma criança é comunista. Eu concordo. É uma coisa cruel pra cacete.

*Tirei os ‘tipos’, para agradar aos professores pasquales de plantão. Agora sim o texto vai ficar bom. Abs

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Querem rebatizar o Ibirapuera

Ibirapuera é um nome simpático para um parque. Como você deve saber, é tupi-guarani e significa (essa parte você não deve saber) árvore apodrecida – ibira é ‘árvore’, puera é ‘que já foi’. O nome é esse porque o terreno naquela região é muito alagadiço.

Para os amigos de fora do estado, o Ibirapuera é o parque mais popular de São Paulo. Além de árvores e trilhas para correr cobertas de serragem, tem pavilhões em que rolam exposições de arte, shows e eventos. É um lugar bonito, de convergência de classes, onde as pessoas vão para andar de skate, caminhar, jogar pedrinhas na água e tirar fotos.

Nada disso explica porque o vereador Agnaldo Timóteo quer mudar o nome do parque de Ibirapuera para Michael Jackson. Vou refrescar sua mente sobre Agnaldo Timóteo.

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PURA SEDUÇAUM

Pois bem. Este senhor, que como todos nós sabemos foi cantor (ou talvez ainda seja, mas hoje sou obrigada a classificá-lo como vereador), quer homenagear o já falecido Rei do Pop trocando o nome do parque mais tradicional de São Paulo, que tem origem nos primórdios da cultura brasileira, pelo nome de um cantor norte-americano. Vamos ignorar a absoluta inutilidade de uma lei como essa e nos focar no absurdo do nome.

Nada contra. Essas coisas municipais só podem ser batizadas com nomes de pessoas que já morreram, então não vai demorar a surgir ruas, alamedas e praças Michael Jackson.

Mas batizar um parque que de domingo lota de criança andando de bike de Michael Jackson é muita sacanagem. Tipo, eu não levaria meu filho em um parque chamado Michael Jackson. E seria mais coerente trocar o nome do parque para Neverland, porque homenagearia Michael sem ficar totalmente nonsense.

E assim, qual é o problema com Ibirapuera? Eu acho um belo nome. Ele que mude o nome dele, puta nome esquisita. Eu tô acostumada com ‘Ibirapuera’ e sinceramente não quero ter que falar “hoje vou ver a decoração de Natal do Michael Jackson”. Ninguém quer. E Ibirapuera já tem um apelidinho maroto, tão tosco quanto SAMPA, mas útil: Ibira. Como você vai abreviar de forma inteligente o nome do parque sele for trocado para Michael Jackson? As pessoas não sabem nem ESCREVER Michael Jackson.

A gente sabe que quando os nomes dos lugares mudam assim do nada, demora pelo menos umas duas gerações pras pessoas chamarem aquela coisa pelo novo nome. Aqui em Santo André existem três exemplos disso:

- O Mappin, que fechou há uns 10 anos dando lugar ao shopping ABC, que todo mundo chama de Mappin até hoje;

- O parque Duque de Caxias, que foi rebatizado de Celso Daniel há pelo menos seis anos e ninguém chama pelo nome do prefeito morto;

- A estação de trem no centro que também foi rebatizada, de ‘Santo André’ para ‘Santo André – prefeito Celso Daniel’ e que ninguém chama pelo nome.

A única coisa que já pegou, ainda que mais ou menos, é a estação de metrô Corinthians-Itaquera. Palmeiras-Barra Funda, nem pensar. Não vou nem falar da Santos-Imigrantes, que ninguém deve saber que existe mas existe.

Não sei qual a do Agnaldo. O MJ deve ter influenciado a carreira dele, sei lá. Mas essa mudança é perturbadora. Sugiro portanto a criação da campanha #IbiraForever, via Twitter. Participe você também.

(Dica do @kadjoman)

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Um cartão virtual que você não quer receber nunca. Mesmo

Você tem uma Doença Sexualmente Transmíssivel? Você fez sexo com alguém sem preservativo e omitiu essa informação do seu parceiro? Você agora está arrependido, mas não quer passar pelo constrangimento de revelar sua gonorreia para uma pessoa conhecida?

Se você respondeu sim para as três perguntas, você é muito escroto o governo federal tem a solução para você!

Através do site www.aids.gov.br/muitoprazer, você, portador de DSTs diversas e transmisssor dessas doenças pra todo mundo, poderá enviar postais virtuais ANÔNIMOS para as pessoas a quem você contaminou.

Olha só, que alegria receber um cartão virtual desse (clique na imagem para ampliar):

SURPRESA!

“Não sei se essa é a melhor forma de dizer…” é uma bela frase para começar um cartão assim. Há uma melhor forma de dizer que você transmitiu uma doença pra alguém? Se há, com certeza é esse cartão. Porque o governo federal não está disponibilizando, sei lá, agentes de telemarketing ativos para avisar às pessoas. Nem animadores de festa, nem pintores de faixas de rua. Então acho que essa é sim a melhor maneira, por enquanto.

E o cartão diz “Agora eu digo NÃO às Doenças Sexualmente Transmíssiveis”. Eu acho bem apropriado o uso do “agora” aqui, já que se a pessoa tá mandando o cartão ela realmente só diz não agora, porque antes não dizia. Na hora que precisava dizer “não”, não disse. Fora que não adianta nada dizer não agora, que já pegou. E se você recebe um cartão desse, quer saber se o fulaninho disse não? Pô, você quer saber de nada, você sabe que já tá todo fudido. Pode repetir “não” 30 vezes, a doença não vai se curar sozinha.

Gosto também que o postal não específica a DST. Vai na surpresa né? É bom, um pouco de suspense é sempre legal. Vai lá fazer o exame e descobre né. O que vai ser dessa vez? Herpes? HPV? AIDS? Roooooda a roleta!

E se tiver várias DSTs? O cartão diz “…, mas tenho uma DST”. Daí manda vários cartões? Tô confusa.

Benza Deus, que ideia mirabolante. Parece RickRoll. Será que eles não pensaram que vai virar tipo história do Pedro (aquele do ‘Olha o Looooooooooobo’), porque nego vai usar isso adoiado pra sacanear os amigos, e quando alguém receber e for de verdade não vai levar a sério?

Ah, como eu adoro o Brasil.

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Aaaaaahhhh, a medicina moderna

Tem uma coisa bonita em ser médico. Altruísta. Assim eu prefiro acreditar, já que até onde eu sei essa história de que médico ganha muito dinheiro, em parte, não é verdade. Sei que eles precisam estudar muito tempo, depois trabalhar como residente de graça por mais outro tempão, e aí ter oito empregos diferentes para então, sim, ganhar dinheiro.

Ou seja: tecnicamente, ninguém hoje mais escolhe cursar medicina se não estiver compromissado não só com a grana, mas com uma vida que exigirá trabalhar duro, enfrentar situações extenuantes mental e fisicamente e ganhar algum dinheiro, provavelmente sem ficar muito rico.

Mas não conheço nenhum médico pobre, então deve existir alguma falha aí na teoria. De qualquer forma, eu tenho reparado nos hábitos dos médicos que frequento e esses hábitos me dão coisas.

Dr. Chapatin jamais permitira algo assim

Vou explicar. Quando você precisa de um médico, geralmente liga no consultório e agenda um horário. Em alguns casos, só consegue agendar esse horário pra dali a um, dois meses. Ok, você tem paciência. Quando chega no consultório atrasado, liga pra avisar. E se não ligar, quando chega lá perde a vez, muitas vezes precisa remarcar a consulta.

Então porque diabos um senhor com um jaleco branco, assessorado por uma moça da recepção, acha que tem direito de te fazer esperar 2 horas sentado em uma cadeira, tendo à disposição para seu lazer somente revistas Caras velhas e catálogos de medicina? É porque ele estudou por dez anos? Porque se for, isso não me parece um bom motivo. Não existe motivo que justifique desrespeito com ninguém, ainda mais com alguém que está pagando por um serviço.

Outra parada que me corrói por dentro é ligar pra marcar horário e no fim a mulher soltar um ‘É por ordem de chegada, viu?’. OI? EU MARQUEI HORÁRIO. É pegadinha? Se ele vai atender primeiro quem chegar primeiro, porque eu preciso marcar?

Daí você tá lá, marcou horário às 11h da manhã, são dez pras uma e você ve o senhor doutor que iria lhe atender se preparando para sair para almoçar. E você lá. Só que antes de sair o cara ainda resolve atender uma merda de um promotor de vendas de indústria farmacêutica, que vai dar a ele várias amostras grátis e vai coagí-lo a receitar a você os remédios da marca daquele laboratório. Ele tem tempo pra atender este senhor antes do almoço dele, mas não tem tempo pra você.

Você, é claro, deve se recolher à sua insignificância de pessoa que não fez 20 anos entre faculdade e residência. Sim, porque parece que todas as outras pessoas do mundo que não são colegas de trabalho do senhor médico não têm absolutamente mais nada pra fazer, a não ser esperá-lo após ler dois anos de Caras, que é semanal.

E sabe o que dói? Se você for embora, DANE-SE, porque o prejudicado vai ser você. Sempre você. Você vai ter que faltar outro dia no trabalho, porque precisa passar no médico de qualquer forma. Você vai ter perdido aquele tempo em nada, pra nada. E você vai ter que aguentar a cara da recepcionista de OK SENHOR PODE IR PORQUE TEM OUTRAS 30 PESSOAS AQUI MESMO E TODO DIA TEM ESSAS 30 PESSOAS E UMA A MENOS NÃO VAI DEIXAR O DOUTOR MENOS POBRE OBRIGADA. Porque as outras 30 pessoas já estão com o cérebro anestesiado, se submetem ao dotô e esperam, esperam, esperam. Nunca vão embora. Pode ser que elas não possam ir, também, por terem algo grave, sei lá. Só sei que se você sair, ninguém vai dar a mínima.

Mas supondo que você aguarde as 3 horas e seja atendido. E vamos considerar que ele te atenda bem, que não é o que acontece sempre. Bom, você sai dali e passa na farmácia, pra comprar os remédios que o doutor passou. Pede um, dois, três. O balconista fala os preços deles e confere, um por um, os descontos dos remédios. E te fala. E você fica WTF. Todo remédio tem desconto, todos eles. E se todos eles têm desconto então nenhum tem. Sacaram? É só jogar o preço pra cima e dizer que existe um desconto que não existe. E no caixa a mulher ainda te diz – ‘você economizou 8,76, senhora’. Vá pra merda. Economizei nada. Você inventam essas coisas, farmacêuticos safados.

Não vou nem mencionar as festas de medicina, japonês no fundo de piscina, uso excessivo de estimulantes para se manter acordado durante plantões e coisas assim, porque tudo que ouvi sobre isso é boato. Mas não se esqueçam, nunca, daquele episódio em que uns estudantes de medicina malucos invadiram um hospital, soltaram fogos de artifício e ofenderam pacientes quando a residência deles acabou. Tipo uma ‘despedida de residente’. Não viu isso?

Embora me pareça óbvio e eu odeio falar o óbvio, vou fazer isso para me blindar dos xingamentos óbvios – é claro que existem pessoas escrotas em todos os segmentos da sociedade. Eu sei que existem médicos bons e médicos ruins, porque médicos são pessoas e existem pessoas boas e pessoas ruins.

Mas que ser médico e fazer essas coisas é mais escroto que a média, aaah, isso é. Parece que o autoritarismo da sociedade sobe a cabeça, né? Todo mundo é tão subserviente a um título de médico que algumas pessoas começam a achar que elas realmente são melhores que os outros.

O curioso é que, dado que o cara é um médico, provavelmente um dos profissionais que mais lida com a morte, é ele quem deveria melhor reconhecer que, no fim, é todo mundo igual.

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Pela primeira vez, concordo com a posição oficial do Vaticano sobre alguma coisa


Parlamento da Itália criminaliza a imigração ilegal

A Itália tem um problema sério com imigrantes e criminalidade. Têm rolado por lá crimes do tipo estupro e espancamento organizados pelos extracomunes (é como eles chamam os imigrantes ilegais). Isso tem criado um sentimento forte de xenofobia por lá, justificada pela reincidência desses crimes e fomentada pelo conservadorismo do governo do Berlusconi, parece. Frase bonita.

Juntou as duas coisas, lindo, agora imigrar ilegalmente pra Itália é crime. Mas essa não é a parte curiosa da lei.

A proposta aprovada permite a ronda de civis para vigiar as cidades durante a noite, ação que estava exclusivamente nas mãos de policiais (…)

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Tem um monte de gente no sul dos EUA louca pra mudar pra Itália

Aparentemente, isso significa que a nova legislação italiana deu aos civis poder de repressão contra imigrantes. Me parece que se eu for um reaça italiano, e estiver em casa fazendo nada no sábado à noite, posso convidar meus amigos e organizar uma caçada ronda de vigia, pra ver se a gente acha algum desses imigrantes sujos.

Alex e seus drugues ficariam extremamente satisfeitos. Não consigo pensar em outra coisa senão uma Ku Klux Klan institucionalizada ou naqueles filmes sobre a Inquisição em que o povo sai atrás das bruxas de tochas nas mãos. É um país de tradições ocidentais, democratas, e tem gente votando por uma lei que fomenta ódio contra estrangeiros.

Eu entendo que as pessoas entram lá e fodem tudo. Não consigo compreender o sentimento em si porque aqui no Brasil a gente não sente esse tipo de coisa, no naipe de ‘nossa cultura está sendo destruída por invasores de outro lugar’. Mas entendo que realmente seja preciso tomar medidas pra que a imigração ilegal e talvez esse tipo de crime diminuam. Só que por mais bicho-grilo que meu papo vá soar, é todo mundo igual. Você não pode ser considerado inferior porque saiu do seu país e foi pra outro. Eu nem acredito nessas fronteiras geográficas, já disse isso – acho tudo babaquice. E pela primeira vez na minha vida, acho que eu concordo com uma declaração oficial do Vaticano:

Para o Vaticano, a imigração não deve ser reprimida como “uma invasão da qual é preciso se defender”. O presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Refugiados, monsenhor Antonio Maria Vegliò, acrescentou que não pode ser esquecida que a “soberania está vinculada às convenções internacionais e ao respeito a dois princípios éticos: a defesa da dignidade dos indivíduos e a convicção que toda a humanidade, para além das diferenças étnicas, nacionais, culturais e religiosas, forma uma comunidade sem discriminação entre os povos”.

E por que falar disso? Acho que a maioria dos brasileiros sente uma curiosa relação de proximidade com a Itália, provavelmente porque 90% de nós tem ascendência deles. Quando a Itália não tinha emprego no pós-guerra, eles vieram todos pra cá e prosperaram nas fabriquinhas dos Matarazzo na beira da linha do trem. Mas se eu quiser mudar pra lá agora sou caçada?

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Quem diria que um nome de novela seria capaz de prever tão bem a possessividade dos italianos com a terra deles?

Eu sinto uma proximidade maior ainda. Moro com meu padrasto, que é italiano, e estudo italiano há uns dois anos. Acompanho o noticiários via jornais italianos, pra entender a maneira como eles fazem jornalismo e o posicionamento deles diante das questões e tal. Sou entusiasta da cultura deles, mas não tenho cidadania italiana. Nem pretendo adquirir. Só isso já permite que eu, se resolver tentar a vida ilegalmente na Itália, seja caçada por cidadãos italianos à noite. Acho que isso me ofendeu um pouco.

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#ForaSarney e a revolução com a bunda no sofá

Olha só, que alegria. O Irã entra pra história depois de usar o Twitter como principal ferramenta pra cobrir as manifestações contra a reeleição de Ahmadinejad. Coisa linda, a gente vivendo história, capa de todas as revistas.

Daê no Brasil a gente acha que tem poder porque emplaca um #chupa como Trending Topic (para leigos: palavras mais faladas) no Twitter. E porque recebeu uma resposta do Ahston Kutcher.

Como se não tivessem aprendido o suficiente depois da palhaçada que foi aquele MOVIMENTO CANSEI, algumas celebridades brasileiras que usam o Twitter acharam que a vida é fácil assim, e que poderiam usar O PODER DA INTERNET pra tirar o Sarney do Senado. Se você tá desinformado, resumo:

Gente famosa que tem Twitter, tipo o Christian Pior, o Marcos Mion e o Junior Lima supostamente se reuniram em um movimento pra fazer com que as pessoas no Brasil twitassem a palavra #forasarney e essa palavra entrasse também nos Trending Topics, como aconteceu com o #chupa.

Ok, então é o seguinte – eles perceberam no domingo, na partida contra os EUA, que os twitteiros brasileiros tinham força suficiente pra emplacar um trending topic e serem notados pelo Ashton Kutcher, a.k.a marido da Demi Moore, a.k.a Kelso, a.k.a @aplusk.

Até que pediram para que o Ashton Kutcher AJUDASSE, twittando o termo #forasarney e pedindo pra que os seguidores dele fizessem o mesmo. Ok, vamos fingir que isso não é patético. Estamos fingindo. Fingindo. Ainda bem que o próprio Ashton Kutcher não finge. Ele respondeu:

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“Só VOCÊS tem o poder de tirar seu senador. É SEU país. Vocês têm que lutar pelo que VOCÊS acreditam. Eu não tenho voto”

O óbvio, que qualquer pessoa de bom-senso responderia na face da terra, mas que meia-dúzia de celebridades descabeçadas não enxergaram de primeira e precisaram que o Ashton Kutcher as lembrasse. FAIL. O Lucas fala de maneira majestosa sobre o showzinho das celebridades brasileiras neste post.

Acho que eles pensaram que esse negócio de internet é realmente revolucionário, que você pode fazer a revolução sem levantar sua bunda do sofá. Até eu que sou mais boba sei que não funciona assim, amiguinhos. Não é porque você coloca uma tag lá no topo de um site gringo que os governantes olham aquilo e dizem: “Oh! O povo brasileiro está realmente indignado e furioso. É melhor convencermos o Sarney a deixar o cargo.”

A cobertura e a revolução que o Irã provocou não foi fabulosa simplesmente porque aconteceu no Twitter, senhores famosos. Foi fabulosa porque o Twitter serviu como TRANSMISSOR de algo que estava NAS RUAS. Foi feita por pessoas, gente comum, e não VJs da MTV, cantores infanto-juvenis de moicano e apresentadores de programas dominicais. Aliás – foi feita também pelos VJs, pelos cantores, e apresentadores, mas os holofotes, eu garanto, estavam sobre o povo que se manifestava nas ruas pela recontagem nos votos. O Twitter revolucionou apenas a maneira de MOSTRAR isso pros outros.

Esse ‘movimento’ que eles chamaram de #forasarney entra no meu TOP 5 VERGONHA ALHEIA 2009.

Não esqueça: Sarney e a família dele estão em cargos públicos desde antes da gente, que usa o Twitter, NASCER. E desde aquele tempo eles são também donos de uma porção de veículos midiáticos. Isso não nos impede de derrubá-lo da presidência do senado, mas eu posso garantir que isso não será feito caso consigamos fazer um número muito grande pessoas escrever uma palavra em uma rede social.

Não sei vocês, mas eu gostaria muito que mudar o mundo fosse fácil assim. Emplacou um Trending Topic no Twitter, voilà. Já pensou? Teríamos evitado uma série de tragédias, ainda mais considerando a possibilidade de o Twitter existir antes, como cogitou o Huffington Post esses dias. Teriam possíveis #InquisiçãoNão, #ForaLuísXIV ou #DiretasJá evitado guerras ou contribuído para o triunfo de movimentos sociais?

Ou mesmo se houvesse a possibilidade de coberturas colaborativas em outras épocas, veríamos coisas como “#Auschwitz eu e minha família fomos encontrados no sotão por esses fdps da SS. Por favor, RT!” ou “#RevoluçãoFrancesa acabamos de derrubar a Bastilha!”?

Ok, teria sido engraçado. De qualquer forma, nesses casos – em todos eles, aliás – o Twitter teria eficácia. Porque ele estaria apenas reportando algo que estaria de fato acontecendo nas ruas. Mas se fosse algo do tipo “#CaiBastilha vamos acabar com essa palhaçada pessoal, RETWITTEM!“, well, os livros de história como conhecemos TALVEZ estivessem um pouco diferente hoje.

A revolução não será criada na internet – a internet só tem o poder de espalhá-la mais.

Infelizmente, leva um pouco mais do que Trending Topics pra fazer as coisas mudarem.

Baseada na lógica da simplicidade de mudar o mundo dos amigos famosos aí, o Danilo Gentili, andreense e pertinente como sempre </rimas>, soltou:

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E eu aderi à causa, claro. Sou entusiasta da #PazMundial e não vejo jeito melhor de fazer essa benção ser instuída do que escrever essa tag no meu Twitter. Criei inclusive a #PazMundial DOS BROTHER. Obtive bastantes retweets com essa brincadeira – ou seja, usei o humor e fiz a minha parte para chegar mais perto da #PazMundial. AH! E também pedi para o Ashton Kutcher nos ajudar nessa, ou seja, segui todo o protocolo de revolução via Twitter. Quando alcançarmos a #PazMundial, poderei dizer – fiz a minha parte rumo à #PazMundial! Ainda não somos Trending Topic, mas eu sou brasileira e não desisto nunca da #PazMundial.

Editado: a pedidos, esclareço uma posição que temo que não tenha ficado clara no post pra algumas pessoas. Não sou contra o ‘movimento’ #ForaSarney no Twitter nem em lugar nenhum. Ser ‘contra’ não é a palavra correta aqui. Só acho que algumas celebridades engajadas nisso o estão fazendo de maneira oportunista e irresponsável, já que na minha opinião o objetivo real deles não é tirar o Sarney da presidência do Senado, e sim se promover. Acho legal quando a manifestação parte dos usuários do Twitter em si e endosso mais ainda o uso da tag como agregador de notícias sobre a causa em si, como fizeram Rafinha Bastos e Marcelo Tas

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Blá blá blá diploma blá blá blá jornalismo blá blá blá absurdo

Ai que saco. Odeio ter que falar sobre alguma coisa, sabe? Quando você precisa escrever sobre algo, mesmo que não considere aquilo algo com que se perder tempo com. Mas todo mundo fica me perguntando o que eu acho disso, então vou escrever aqui – daí, quando perguntarem só mando o link.

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Jornais estão morrendo, jornalistas também. Nada mais apropriado!

Na quarta-feira o STF votou, por 8 a 1 (uhú!), o fim da obrigatoriedade de diploma de jornalismo para exercer a profissão. Eu trabalho numa redação, uma das maiores do país, e sinceramente não vi ninguém chorando por lá. Mas no Twitter eu vi. Ah, como vi gente se lamentando. “Ai, porque é um absurdo”. “Ai, porque isso é desvalorização da educação no país”. “Ai, porque agora qualquer um pode ser jornalista…”

Aaaahh, a tradicional arrogância da classe. A maior prova dela é uma porção de gente ter se ofendido com a comparação do ministro de jornalista com cozinheiro. Gente escrota. Desde quando ser jornalista é melhor do que ser cozinheiro? Quem devia se ofender é o cozinheiro, po.

Amigo que não é jornalista, tem algumas coisas que você precisa saber. A primeira delas é que o mercado de jornalistas está repleto de gente que exerce a profissão de maneira formidável e não é formado, desde muito tempo. A segunda é que a faculdade de jornalismo no Brasil forma pequenos especialistas em grandes generalidades com vagas noções de técnicas de redação. A terceira é que… sei lá, não tem terceira. Sou jornalista, não sei contar.

Pra ser jornalista, e eu sempre achei isso, não adianta ter faculdade. Jornalismo é espírito. Envolve gostar de estar bem informado, ser curioso, em alguns casos gostar ou saber escrever, gostar de ler, ter visão global de fatos, saber editar, uma série de coisas. Faculdade pode ensinar algumas técnicas, mas se algumas características já não estiverem lá, incubadas, faculdade não faz milagre. E essas técnicas você só aprende de fato exercendo, no mercado – ou seja, não precisa exatamente cursar jornalismo pra aprendê-las, precisa é trabalhar com jornalismo. Idem pras questões éticas que envolvem a profissão: elas estão em pauta o tempo todo no dia-a-dia, e você não precisa de sala de aula pra discutí-las, porque pode fazer isso com seus amigos no bar, já que necessariamente precisará tomar decisões que envolvem ética no cotidiano, e se não fizer isso de maneira adequada não vai durar muito tempo no mercado.

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O Tintin, por exemplo – não precisa de diploma, é claramente
jornalista por vocação. Simples assim

Além disso, você acha que por causa da queda da obrigatoriedade do diploma alguma empresa vai mudar os critérios de contratação? De maneira alguma. Vão continuar exigindo os mesmos conhecimentos gerais (talvez até mais!), as mesmas habilidades em texto, as mesmas capacidades multimídia. A faculdade, talvez, se torne um diferencial desejável. O mercado vai ficar sim mais concorrido, e isso é ótimo pra sociedade!

A Folha de S. Paulo nunca exigiu formação jornalística pra contratar repórteres. É o maior jornal do país. E quem você considera mais qualificado para falar sobre economia – um economista que domine as técnicas jornalísticas ou um jornalista que entende um pouco de economia?

Pois é. A Folha prefere o primeiro cara. E eu acho justo.

Não reclamo da não obrigatoriedade do diploma porque acho que os profissionais qualificados continuarão tendo espaço no mercado, por motivos mais que óbvios. A qualidade da informação vai aumentar, porque a concorrência vai ser maior e aquele carinha que só tinha formação em jornalismo vai precisar de uma pós em história pra competir com o historiador que tem bom texto no mercado.

É hipócrita o jornalista que chegar aqui e me disser que a faculdade o ensinou a ser jornalista. Ensinou-o a beber bem, a fazer bons contatos profissionais, a ir no Juca. Se na minha faculdade (e nas de todos os meus amigos) os próprios professores fazem vista grossa pras nossas faltas já a partir da metade do curso, por compreenderem que nessa altura do campeonato a maioria das pessoas já está no mercado e a faculdade se torna supérflua, como alguém tem coragem de dizer que 4 anos de faculdade de jornalismo são realmente necessários?

zebob

Zé Bob, por outro lado, tenho certeza que tinha diploma,
mas nunca conheci um jornalista que trabalhasse tão pouco

Sou defensora de um curso técnico de dois anos de jornalismo, em formato de pós graduação. Os profissionais de outras áreas cursariam suas faculdades – direito, geografia, medicina – e com mais dois aninhos de técnicas jornalísticas e discussões sobre ética profissional e estariam habilitados plenamente a falar em veículos sobre o assunto. Felizmente, me parece que com essa mudança legislativa, essa possibilidade se torna mais atraente para as faculdades por aí. Espero ansiosamente uma posição por parte do MEC. Seria bem legal.

Conclusão: com a mudança se ferram os profissionais medíocres. Os bons, ganham, porque continuam no mercado seja como for; a sociedade, que consome notícias, também, porque a concorrência aumenta e logo qualificação dos profissionais também.

A única coisa que eu lamento nessa lei é que ela poderia ter saído há uns 5 anos, coisa assim. Eu poderia ter feito relações internacionais, e hoje estaria tinindo em Jornalismo Internacional. Mas é a vida.

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E o Clark, que tinha diploma, era jornalista,
mas que na verdade tinha por vocação o super-heroísmo?

A propósito: já que exerço a profissão há 4 anos, e não preciso mais do diploma pra me considerar profissional, já posso dizer que sou, sim, jornalista. Não é pelo título, glamour, nada disso. Não acredito nessas bobagens. É só porque isso diminui drasticamente as chances de ter o telefone desligado na cara ao ligar pras fontes dizendo “Oi, eu sou estudante de jornalismo….”

*Tenho prova até o fim dessa semana. Tava afim de faltar, ligar pro professor que orienta o TCC e rir da cara dele. Ele é legal, mas só pela graça que isso teria. Mas.. só faltam seis meses, né? Melhor eu terminar. E só faltam dois dias de provas.

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