OEsquema

Arquivo: propaganda

Pegadinha da Mattel

Vamos supôr que você tem uma carruagem. É um meio de transporte um pouco ultrapassado, mas use sua imaginação. Imagine que você está dando um rolê de carruagem com seu namorado, e ele se chama Ken. Se você for um homem, você está dando um rolê com sua namorada, chamada Barbie.

Se você for gay, adapte as descrições. Você entendeu.

É uma linda tarde de verão e vocês dois estão passeando alegremente pelo bosque. Vamos imaginar que você está em algo como o século XIV, mais ou menos. De repente, num ato que seria considerado bruxaria naquela época, sua carruagem se transforma em balão. E sai voando.

Tente realmente se colocar no lugar de uma pessoa que está numa carruagem que é subitamente ejetada. Pânico. Desespero. Você não sai simplesmente voando num balão – que costumava ser uma carruagem – e tá tudo bem. No século XIV nem existiam balões, puxa vida.

Mas depois dá tudo com você. O balão pousa e você volta pro seu castelo. Dai vai subir a escada e FAIL. Os degraus, como numa armadilha medieval, se achatam. E a escada vira uma perigosa e escorregadia rampa. Sem aviso, você desliza. Sabe-se lá quantos ossos terá quebrado quando chegar lá embaixo, todo esfolado e fudido.

A essa altura, você já estaria desconfiando de algumas possibilidades. A saber:

- alguém está armando contra você e te quer morto;

- alguém quer tirar uma com a sua cara;

- você comeu um cogumelo.

Contei a historinha acima pra ilustrar a divertida e pacata vida da BARBIE 3 MUSKETEERS, que está passeando com o Ken e – SURPRESA – a carruagem vira um balão! Favor ver vídeo abaixo.

Enquanto criarmos crianças que não se importam que escadas virem escorregadores de repente, amigos, não poderemos dormir tranquilos.

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O feitiço do Cheddar McMelt maligno

Falemos de McDonalds.

McDonalds é daquelas coisas que não são exatamente gostosas, mas a gente come porque tá alí. Ok, a batata frita é gostosa. O Cheddar é um bom lanche. O resto, sério, carece de gosto. Eu sempre achei isso, e por esse motivo mesmo, nunca fiz questão de comer no Mc. Se fosse pra comer comida desse gênero, Burger King dá um pau.

É por isso que estranhei como, nos últimos dois meses, minha vontade de comer McDonalds aumentou exponencialmente. Comecei a me alimentar semanalmente com números 4, o que nunca tinha acontecido antes. Ninguém consegue comer no McDonalds toda semana e achar ok. O Cheddar é um grande lanche, mas está diminuindo em velocidade diretamente proporcional à redução das calotas polares. Não mata a fome, o hambúrguer é insosso e é caro. Ou seja: no fim, não vale a pena. Eu sempre soube disso. Por que é então que eu estava querendo devorar um daquele sempre que possível?

Foi aí então que minha fiel escudeira @gabrielahesz me alertou para a recente inserção de painéis publicitários do McDonalds nas estações de trem e de metrô. Massivamente. Como você sabe, passo boa parte do tempo dentro dessas conduções. Assim que ela mencionou, a propaganda em questão me veio à cabeça, vívida: um Cheddar delicioso, com queijo transbordando, pelo mísero valor de R$5, praticamente sendo esfregado na minha cara todos os dias quando eu ia e voltava do trabalho.

Cheddar delicioso

Não acho que ninguém aqui tenha dúvidas quanto à eficácia da publicidade. Mas se fosse o caso, essa peça acabaria com qualquer indecisão. A primeira coisa que vem a cabeça do cidadão ao olhar esse cartaz é algo como “Preciso de um lanche desses para ser feliz. Ele é tão suculento, o queijo é tão brilhante e abundante, tem tanta cebola. É disso que eu preciso. E custa só cinco reais”. Ou algo assim.

Eu fui completamente seduzida pelo lanche. E queria ter acesso aos números (tipo, estatísticas, não aos lanches, esses eu tenho. Todos temos) do McDonalds, porque tenho certeza que as vendas do Cheddar aumentaram de maneira escandalosa depois dessa campanha. E o pior, não dá pra sacar o que há de especial nela, porque veja bem – o lanche está em cima de um carpete vermelho. Um sanduíche. Em. Um. Carpete. Não faz sentido, não deveria ser tão hipnotizante, mas é.

Resultado automático: o excesso de ingestão de Cheddars casou curiosamente com o surgimento de várias espinhas no meu rosto e de um mau-humor crônico, além de uma TPM mais descontrolada. Pra suprir essa voracidade sem me ferrar com hormônios de hambúrgueres industrializados, resolvi aprender a fazê-los. Segui uma mistura das dicas para hambúrgueres do Fred (esse hambúrguer com recheio de provolone é genial), do Gravata e do Roberto, do Fora de Órbita.

Fiz meu próprio hambúrguer, que ficou até que gostosinho. Mas nem ele, nem a visão dos fabulosos sandubas da Cheese & Burger Society me fizeram esquecer o sonho do Cheddar próprio. O que será que esse carpete vermelho fez comigo?

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Doritos, a homofobia e a armadilha do preconceito

Assiste o vídeo. Te dou os 30 segundos.

Beleza. O que você achou? Pensa um pouco. Te dou mais 30.

A resposta mais preconceituosa que alguém pode dar para a pergunta “Você é homofóbico?” é “Claro que não, até tenho muitos amigos gays.” Porque caracteriza que a orientação sexual de alguém é uma informação importante para sua escolha de amigos e não-amigos. Denota que você acha que o homossexualismo a homossexualidade poderia de alguma forma influenciar a personalidade dele a ponto de vocês não poderem ser amigos só porque ele é gay – mas não, você é bom e misericordioso e não tem preconceito. Logo, “até tem alguns amigos gays”.

Por outro lado, a resposta a essa pergunta que denota menos preconceito poderia ser algo do tipo “claro que não. O cara mais burro e desagradável que eu conheço é gay”.

Todo mundo te olharia com uma cara esquisita, achando que você não entendeu a pergunta, daí você confirmaria e eles te achariam muito homofóbico. Você poderia continuar: o “segundo mais burro e desagradável, por sua vez, é heterossexual. Curiosamente, desconheço a orientação sexual da terceira pessoa mais burra e desagradável que conheço.” Daí alguns deles sairiam andando, outros te julgariam com olhares horríveis e você sairia caminhando com a consciência de que não tem, absolutamente, nenhum tipo de preconceito contra homossexuais.

Eu acredito no seguinte: essa propaganda tem sim um quê homofóbico. E reconhecer isso é caracterizar-se, infeliz e involuntariamente, como alguém ligeiramente preconceituoso (no mínimo). Não preconceituoso daquele jeito pejorativo e horrível – não significa que você deixa de se aproximar de gays por eles serem gays (ou então se aproxima de gays por eles serem gays, o que também denota alguma espécie de preconceito, a não ser que você também seja gay, porque aí é interesse mesmo).

Se preconceito é pré-conceito, é rotular e conceituar indivíduos que são únicos por definição a partir de uma característica qualquer que não diz 1/100 do que a pessoa é na verdade, então considerar essa propaganda homofóbica denota pelo menos dois pré-conceitos:

1. Você acha que todo gay gosta de YMCA.

2. Você acha que dançar YMCA é coisa de gay.

Eu por exemplo, acho que YMCA antes de tudo é uma música brega. Daí, logo de cara, poderia achar que ele está sendo zuado pelos amigos por dançar uma música brega. Plenamente plausível, embora dê margem pra discussão da Doritos criticando que o “ser diferente”, ou “gostar de brega”, é ruim, mas não entremos nessa hoje.

Vou dar um outro exemplo, que me foi sugerido pelo Gustavo Miranda.

Você é casado? Tem filhos?

Fui preconceituosa ao perguntar isso pra você? Claro que não, não é?

Então porque a Marta foi quando perguntou isso para o Kassab?

A questão aqui é que numa sociedade em que o preconceito é velado cria-se uma redoma em volta das minorias. As pessoas têm medo que manifestações contra essas minorias, manifestações que nem têm relação com a orientação ou a cor de pele, possam ser confundidas com preconceito só por estarem sendo direcionadas para um membro da minoria.

Amigo, aqui você é vítima da sua própria vontade de tratar todo mundo igual: se você se controla pra não dizer coisas pras pessoas por medo de ser considerado preconceituoso, então você está automaticamente tratando essas pessoas de maneira diferente só por causa da cor da pele delas, do quanto elas pesam ou do parceiro sexual delas.

Qualquer tipo de estereótipo pré-formado a respeito de qualquer pessoa é preconceito. Infelizmente. Ou seja, somos preconceituosos o tempo todo. Essa matéria, por exemplo:

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FOTO: Jairo treina de vestido rosa como castigo adotado por Roberto Fernandes

Você acha que existe preconceito na atitude do técnico? Porque ele considera que vestir um jogador com uma camisola feminina é algo que pode ser considerado vergonhoso? Porque caracterizá-lo assim é um “mico”?

Não tô dizendo nada, até porque são perguntas pras quais não sei a resposta. A própria ingenuidade do técnico em fazer algo assim sem esperar retaliações já pode denotar total ausência de preconceito – lembre-se, quem não deve, não teme. Mas viver num país em que assumir intolerância é intolerável, mas em cujo a discriminação se faz presente em vários níveis da sociedade, demanda que você dê toda atenção pra questões delicadas assim e realmente analise as reações que tem diante desse tipo de coisa. O preconceito é uma armadilha na qual é muito fácil de cair, especialmente porque alguns indivíduos de determinadas minorias, acostumados a sofrer preconceito, se aproveitam disso para criar situações que eu chamo de “só porque eu sou _________” (insira aqui qualquer classe que sofra preconceito, tipo “negro”, “gay”, “mulher”, “deficiente físico” etc).

Assim: existe preconceito na sociedade, fato. Quem sofre preconceito frequentemente encontra mais dificuldades e menos oportunidades, fato. Mas sempre tem o cara que culpa todas as desgraças da vida dele no preconceito que têm contra ele. Atribui tudo ao fato dele pertencer a determinado grupo que é excluído. Se você não gosta dele, é porque você é homofóbico. Se ele não conseguiu emprego, é porque a empresa não contrata negros. Se ele não tem namorada, é porque as mulheres só gostam de caras magros.

Esses indivíduos existem e só servem para fomentar a existência da tal redoma de imunidade das minorias. Se há uma  pessoa acha que tudo o que acontece com ela tem raiz no preconceito, então é melhor você fingir que gosta dela, mesmo que não goste e que isso não tenha nada a ver com a cor dela. Vai que ela o acusa de preconceito?

É um assunto delicado e muito específico – cada situação envolve milhares de variáveis. Mas o que quero concluir aqui é que na maioria dos casos a nossa cabeça é que está cheia de estereótipos e por isso enxerga o politicamente incorreto em tudo. Os preconceitos que a gente enxerga em um monte de relações são um espelho dos nossos próprios preconceitos. O medo de ser preconceituoso é tanto – por causa do tabu – que as pessoas acabam agindo diferente com as minorias mesmo sem perceber. E esse talvez seja o tipo de discriminação mais perigosa que existe – aquela que é tratada justamente como a ausência de discriminação.

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Briga com o De Leve na Campus Party: tudo acontece por um motivo…

Quem me apresentou o som do De Leve (na época, ainda no Quinto Andar) foi um amigo meio-grafiteiro-utilizador de boinas de Che Guevara do colégio. Aos 16, roqueira, eu não conhecia nada de rimas e poesia na época, e achava que rap era só essa parada que cantavam os Racionais e que eu não gostava, não por achar ruim, mas por falar de coisas que não tinham nada a ver com a minha vida de burguesa.

Daí eu descobri que rap era muito mais que isso. Existia um movimento, gente fazendo coisa muito boa e dizendo coisas normais, rimando com talento daqueles que são congênitos. O De Leve, com o Quinto Andar, era um deles. Comecei com Largado, mas minha preferida hoje é Rolé de Camelim:

Mas nem foi por ser fã do De Leve que eu achei babaquice o que fizeram com ele na Campus Party (sério que você ainda não viu o vídeo? Segue:)

Fiquei revoltada porque o cara que se achou no direito de peitar e desrespeitar o trabalho de um artista de que ele não gostou (So what? Teatro Mágico tocou lá, um monte de gente não gosta e nem por isso nego quis tirar Anitelli do palco) com um chapéu de SIRI na cabeça e um adesivo do Firefox colado na testa.

Virbickas durante a briga com o De Leve

Ainda que houvesse a possibilidade remota desse cidadão (chamado Virbickas) ter algum motivo para achar que sua atitude está correta e em acordo com os preceitos de uma sociedade civilizada, no momento da briga ele perderia toda a razão justamente por estar com esse carangueijo na cabeça.

A ironia reside no fato de que um evento como esse, que comporta o público com mais acesso a informação do país, não deveria ser palco pra exemplos tão primitivos de intolerância – qualquer que seja, ainda que musical.

A revolta surgiu, ainda segundo Virbickas, pelo teor da letra das músicas do De Leve (México e O que nego quer). Ficam as dúvidas:

- Se fosse uma música do 50cent, que usasse termos equivalentes ou piores, Virbickas pediria ao DJ que parasse de tocar?

- Se houvesse alguma ou algumas gostosas parcamente vestidas rebolando em cima do palco, o número de gostosas  seria inversamente proporcional à vontade de Virbickas e dos outros de acabar com o show?

- Se fosse um show do Bonde do Rolê, Virbickas e campuseiros mal-educados também achariam as letras um desrespeito?

- Se fosse um show do Mano Brown, Virbickas demonstraria igual macheza?

E por fim, mas não menos importante: o cara reagiu desproporcionalmente a algo que não estava lhe agradando. Chamou a atenção de centenas, milhares de pessoas, pessoalmente e depois quando a coisa se espalhou pelas mídias sociais, não só por demonstrar intolerância e desrespeito, mas por fazer isso com um siri e um adesivo de browser na cabeça. A gente devia ter desconfiado que ninguém tão ridículo por acaso, sem objetivar nada maior. Dá uma lida nesse link aqui e entenda porque ele queria tanto, tanto chamar a atenção.

Se ele apagar, eu (e mais centenas de pessoas, certamente) temos o print.

*Alterado às 11h22 do dia 27/01* e ele editou, como previsto. Clique aqui e veja o print. Na pressa, printei sem um trecho do texto, ms 95% está aí e já dá pra pegar a essência da coida.

*Alterado às 19h26 do dia 27/01* O Savazoni, meu ex-chefe, publicou um vídeo do Carlos Carlos, do FizTV, muito esclarecedor sobre o episódio. Nele, rolam entrevistas com o Virbickas (‘Chupa’) e com o De Leve logo depois da briga:

*Mais eum ediçãozinha* Aproveitando que falamos dos melhores rimadores desse país, confira o fantástico trabalho de Chico Barney ao apresentar-nos o MC Papo, talentosíssimo rapper que rima com as mãos amarradas e em francês.

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