OEsquema

Arquivo: rio de janeiro

As maçãs podres

Mais uma sobre a ação no Rio: enquanto tá todo mundo aí com esses espírito muito assustador de ‘vencemos’ (semelhanças com o orgulho americano das tropas na invasão do Iraque são mera coincidência), todo mundo que vê isso como um grande Tropa de Elite 3 esquece que, se isso é o Tropa de Elite 3, alguns policiais ainda representam o capitão Fábio Rosa – é, aquele cara que é um sacana corrupto.

O duro é ver a população honesta do morro – certamente uns 99% dela, aliás -, mesmo diante de toda a humilhação e preconceito, apoiando a ação. Em vez de comemorar nossa vitória, a gente devia cobrar das autoridades que esses bandidos de farda, que mancham toda a corporação e destroem o sentido de ações consideradas vitoriosas, como essa, sejam afastados imediatamente. Eu tenho certeza que esses tipos são minoria, bem como são minoria os criminosos dentro de favelas. Mas enquanto eles existirem, eu não vou apoiar 100% ações como no Alemão.

Basta inverter a situação: e se um grupo de policiais simplesmente invadisse sua casa e revirasse tudo? Não estou falando nem de sumir com bens de valor ou plantar drogas, como é o caso deste rapaz do vídeo. Estou falando só de invasão de domícilio, já que esses policiais não tem mandado e o estado de sítio não foi declarado no Rio (ao menos oficialmente). Nesse caso, qualquer morador do Alemão teria direito de negar a revista da polícia. E aí você acha que o policial ia dar meia volta e ir atrás de um mandado? Não, daí a gente teria provavelmente um caso de violência policial e de abuso de poder, calcada numa tão justificada legitimidade que se assume num momento ‘de vitória tão importante como essa’.

20 Comentários

O que está acontecendo no Rio for dummies


O Meia Hora com serviço de interesse público pra trafica

Tem algo muito interessante acontecendo no RJ nesse momento, às 22h desse sábado, 27 de novembro de 2010. É uma situação única, que provavelmente será lembrada por anos e que está redefinindo alguns paradigmas que acabaram estabelecendo-se sobre a cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos.

Eu vou fazer um briefing pra quem não faz ideia do cenário: no Rio, não existe crime organizado, como é o PCC em São Paulo. As facções e as milícias dominam os complexos de uma maneira ligeiramente diferente do que acontece aqui, onde as coisas são menos ostensivas. Lá, os grupos criminosos se beneficiam muito do controle territorial dos morros. Eles podem, com isso, estabelecer as próprias regras, vender gás, GatoNET, fazer os moradores reféns de uma situação que provavelmente não lhes agrada e impedir que aquele território tenha qualquer presença do estado, de escolas a hospitais, além de garantir que nenhuma outra facção tome aquele morro. Eles brigam entre si, e sempre brigaram, o que torna mais fácil para que o estado os combata. E não têm ideologia política que os una, o que dificulta as tentativas de se organizar e formar um grupo só.

Beleza, aí chegaram as UPPs. Basicamente, a polícia AVISA que vai tomar uma favela (isso é para evitar o conflito e facilitar a entrada, e tem funcionado, segundo a secretaria de segurança pública do RJ), o BOPE entra, instala um contâiner e começa a ocupação do território. Os policiais que comandam UPPs são todos recém-contratados e, portanto, supostamente sem os vícios e os traumas que ser PM no Rio pode causar. E aí a vida na favela começa, pela primeira vez, a se aproximar da vida urbana e cidadã: o estado pode fornecer (se faz isso, é outro papo) água, luz, telefone, coleta de lixo, escolas, hospitais. Muitos lugares têm instalações já, mas a prefeitura não conseguia contratar profissionais pra trabalhar nesses lugares por conta do risco.


E você pagando pau pro BOPE. Mano, olha esse babaca

Com a retomada do território pelo estado, a secretária de segurança (segundo eles) cobra as outras secretarias para implantação de políticas sociais e de lazer, para realocar a força de trabalho que perdeu o emprego quando a presença de tráfico ostensivo termina. Porque a UPP não tem o objetivo de acabar com o tráfico – ela quer, sim, acabar com o domínio territorial das facções sobre a comunidade.

Mas há alguns líderes que, é claro, não veem vantagem em permanecer no morro e deixar o crime, seja porque ganham mais no tráfico ou por curtirem essa vida mesmo (nada contra). Estes fogem para outras comunidades ou complexos dominados pela mesma facção. Uma hora, essa panela de pressão explodiria – essa hora chegou.

Acontece que essa panela de pressão é formada, em maioria, por garotos entre 16 e 20 e poucos anos, muito bem armados mas pouco treinados e sem ideologia. Gostam de ostentar o armamento e o ‘luxo’, representado por correntes de ouro e tênis importados. Estão assustados com a perda daquilo que era a fonte de grana deles: fazer os moradores reféns. Esse susto, a princípio, parece tê-los unido – mais um ‘já que estamos na merda, estamos na merda juntos’, mas ainda assim, sem um objetivo comum específico além do ‘vamo pegar nas armas e revidar’.

E nesse momento específico existem interesses muito maiores do que eles por trás. Interesses de bandidos mais perigosos que Elias Maluco e Marcinho VP, gente de gravata, que precisa garantir que o Rio seja (ou pareça) seguro porque Copa e Olimpíadas vêm aí. Não vai sobrar pedra sobre pedra desses garotos que estão impedindo isso – eles vão todos pra vala. Quando a gente vir as imagens, vão parecer todos iguais. Pretos, pobres, armados. E todo mundo vai dizer – ‘bem feito, é bandido’. Só as mães deles vão saber diferenciar um dos outros, no fim disso.


Observe este policial excêntrico. Judeu ortodoxo? Discípulo de Raul? Gaúcho garimpeiro loco? Talvez nunca saibamos

O lance é que, apesar de ser contra a morte (é isso aí: por mim, ninguém mais morria. No mundo. Isso tudo faz parte da minha nova fase zen, e ainda resolveria a falta de cemitérios, por exemplo – daqui um tempo, não teremos espaço pra enterrar tanta gente) eu me vejo bastante escrota quando penso que, a partir do momento que você é um criminoso no Rio de Janeiro e está em combate aberto com uma polícia notoriamente melhor armada, melhor treinada e mais numerosa do que seu grupo, em que lhe foi dada a chance de se render (isso está rolando – muitos já se entregaram) e em que a sociedade inteira parece aprovar sua execução sumária, se você CONTINUA trocando tiros com a polícia, eu penso que você está assumindo um risco bem claro. E que se algo te acontecer, bem, você sabia que isso poderia acontecer.


Esse é um dos que já se entregaram – chama Mister M, é braço direito do chefe do tráfico no Morro do Alemão segundo a polícia, segurava uma bandeira com a palavra PAZ quando foi preso e, como você pode ver, parece muito mais simpático do que muito vizinho meu

A polícia vai invadir o Alemão a qualquer momento. Além do sangue dos criminosos, pode ter certeza que muita gente inocente já morreu e vai morrer no confronto. E eu peço que você pense nisso quando se sinta inclinado a pensar, assim como eu, que a polícia deve mesmo invadir a parada e atirar, porque é o que resta fazer, porque é o preço a se pagar.

É um sacrifício que a gente, a classe média, aceita, porque não envolve matar com bala perdida ou executar sumariamente ninguém que a gente conhece. Um confronto direto desse poderia ter sido evitado com trabalho de inteligência da polícia durante a implantação das UPPs e a evasão dos criminosos pra outros complexos, e o nosso papel seria cobrar isso, e não apoiar que o BOPE saia distribuindo bala. Por mais emocionante que isso pareça para algumas pessoas, gostaria de lembrá-las que quando você liga a TV lá na Globo News, aquilo – apesar de parecer – não é Tropa de Elite: é gente de verdade morrendo.


Trem bala? O RIO JÁ TÁ CHEIO DELES RISOS

Esses enfrentamentos VÃO ACONTECER DE NOVO E DE NOVO, já que o estado vai continuar pacificando as favelas com as UPPs (e olha, eu não sou nada contra as UPPs, pelo contrário). Imagina quanta gente inocente vai morrer com tiro até lá? Quanta gente vai sofrer a humilhação de ter que esvaziar a bolsa pra ir pra casa, gente que vai ter que abaixar quando ouvir barulho de tiro?

Eu penso que, no fim disso – lá na frente, com esses meninos todos no caixão, as comunidades pacificadas, as guerras travadas e ‘vencidas’ pelo estado, o crime no Rio vai se tornar muito, muito parecido com o crime em São Paulo: controlado por uma única e grande facção criminosa que acaba se tornando uma grande empresa do crime, que age por debaixo dos panos mas que é praticamente onipresente. Me diga você: isso é bom?

No meio do caos, umas coisas legais de se ver: o @CasodePolicia, do jornal Extra, do RJ, tem feito um trabalho legal esclarecendo o que é boato e o que é verdade sobre arrastões e incêndios e realiza twittcams periódicas com informações de repórteres direto DO FRONT. Há também garotos que moram no Complexo do Alemão usando o Twitter pra informar a galera em tempo real do que está realmente acontecendo lá dentro. Tem o @igorcomunidade e o @Rene_Silva_RJ, que desde os 11 anos publica um jornal lá, o chamado www.vozdacomunidade.com.br, @vozdacomunidade. Eles ajudam a dissipar boatos e manter moradores e gente de fora atualizados. E tem gente que diz que precisa de diploma pra fazer jornalismo…


Já pedindo perdão pelo clichê, espero que ele continue lindo <3

39 Comentários

Relatos de um terremoto

Eu, pra ser sincera, não senti nada. Quando trabalhava na Barra Funda, dava pra sentir bem o metrô passando. Era quase como um terremoto diário, com hora marcada.

Mas o amigo da reportagem do G1 tem um depoimento de extrema relevância sobre o momento do tremor

‘Não foi só sensação’
“Moro na Zona Leste de São Paulo. Às 21h24 estava deitado em minha cama fazendo compressas de gelo no joelho, quando percebi que a cama começou a balançar. Tenho certeza de que não foi uma sensação, mas sim um tremor de terra”
- William C.

Quer dizer, que tipo de pessoa dá uma informação de tamanha precisão em um depoimento para um site? “Oi, estava coçando as costas da minha mão quando percebi que tudo estava tremendo”. Não faz sentido, ninguém quer saber sobre as compressas de gelo. As pessoas realmente perderam a noção do que é privacidade, já dizia o moço no fim do Zeitgeist. A possibilidade é que ele esteja tentando criar um álibi com essa informação.

Além disso, o cara disse o horário exato em que estava colocando compressas de gelo no joelho. Veja bem, uma pessoa que marca horário para colocar compressa de gelo no joelho (tipo, “21h24! Hora das compressas!”) não é uma pessoa cujo depoimentos sobre terremotos tenham qualquer credibilidade. Você pode considerar que ele olhou no relógio assim que o terremoto acabou, mas eu duvido dessa possibilidade. Afinal, ele provavelmente teria complementado o relato, com algo como “Logo após o tremor, virei ligeiramente a cabeça para a esquerda e também mudei meu braço de posição. Desviei os olhos que observavam meu joelho anestesiado para o relógio em meu pulso e, vendo o ponteiro menor entre os números nove e dez e o maior quase na metade do círculo, pude constatar que eram 21h24″. Ah, os descritivistas. Tolkien que me perdoe, mas eu não os suporto.

7 Comentários