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Arquivo: Sexo

Um cartão virtual que você não quer receber nunca. Mesmo

Você tem uma Doença Sexualmente Transmíssivel? Você fez sexo com alguém sem preservativo e omitiu essa informação do seu parceiro? Você agora está arrependido, mas não quer passar pelo constrangimento de revelar sua gonorreia para uma pessoa conhecida?

Se você respondeu sim para as três perguntas, você é muito escroto o governo federal tem a solução para você!

Através do site www.aids.gov.br/muitoprazer, você, portador de DSTs diversas e transmisssor dessas doenças pra todo mundo, poderá enviar postais virtuais ANÔNIMOS para as pessoas a quem você contaminou.

Olha só, que alegria receber um cartão virtual desse (clique na imagem para ampliar):

SURPRESA!

“Não sei se essa é a melhor forma de dizer…” é uma bela frase para começar um cartão assim. Há uma melhor forma de dizer que você transmitiu uma doença pra alguém? Se há, com certeza é esse cartão. Porque o governo federal não está disponibilizando, sei lá, agentes de telemarketing ativos para avisar às pessoas. Nem animadores de festa, nem pintores de faixas de rua. Então acho que essa é sim a melhor maneira, por enquanto.

E o cartão diz “Agora eu digo NÃO às Doenças Sexualmente Transmíssiveis”. Eu acho bem apropriado o uso do “agora” aqui, já que se a pessoa tá mandando o cartão ela realmente só diz não agora, porque antes não dizia. Na hora que precisava dizer “não”, não disse. Fora que não adianta nada dizer não agora, que já pegou. E se você recebe um cartão desse, quer saber se o fulaninho disse não? Pô, você quer saber de nada, você sabe que já tá todo fudido. Pode repetir “não” 30 vezes, a doença não vai se curar sozinha.

Gosto também que o postal não específica a DST. Vai na surpresa né? É bom, um pouco de suspense é sempre legal. Vai lá fazer o exame e descobre né. O que vai ser dessa vez? Herpes? HPV? AIDS? Roooooda a roleta!

E se tiver várias DSTs? O cartão diz “…, mas tenho uma DST”. Daí manda vários cartões? Tô confusa.

Benza Deus, que ideia mirabolante. Parece RickRoll. Será que eles não pensaram que vai virar tipo história do Pedro (aquele do ‘Olha o Looooooooooobo’), porque nego vai usar isso adoiado pra sacanear os amigos, e quando alguém receber e for de verdade não vai levar a sério?

Ah, como eu adoro o Brasil.

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Doritos, a homofobia e a armadilha do preconceito

Assiste o vídeo. Te dou os 30 segundos.

Beleza. O que você achou? Pensa um pouco. Te dou mais 30.

A resposta mais preconceituosa que alguém pode dar para a pergunta “Você é homofóbico?” é “Claro que não, até tenho muitos amigos gays.” Porque caracteriza que a orientação sexual de alguém é uma informação importante para sua escolha de amigos e não-amigos. Denota que você acha que o homossexualismo a homossexualidade poderia de alguma forma influenciar a personalidade dele a ponto de vocês não poderem ser amigos só porque ele é gay – mas não, você é bom e misericordioso e não tem preconceito. Logo, “até tem alguns amigos gays”.

Por outro lado, a resposta a essa pergunta que denota menos preconceito poderia ser algo do tipo “claro que não. O cara mais burro e desagradável que eu conheço é gay”.

Todo mundo te olharia com uma cara esquisita, achando que você não entendeu a pergunta, daí você confirmaria e eles te achariam muito homofóbico. Você poderia continuar: o “segundo mais burro e desagradável, por sua vez, é heterossexual. Curiosamente, desconheço a orientação sexual da terceira pessoa mais burra e desagradável que conheço.” Daí alguns deles sairiam andando, outros te julgariam com olhares horríveis e você sairia caminhando com a consciência de que não tem, absolutamente, nenhum tipo de preconceito contra homossexuais.

Eu acredito no seguinte: essa propaganda tem sim um quê homofóbico. E reconhecer isso é caracterizar-se, infeliz e involuntariamente, como alguém ligeiramente preconceituoso (no mínimo). Não preconceituoso daquele jeito pejorativo e horrível – não significa que você deixa de se aproximar de gays por eles serem gays (ou então se aproxima de gays por eles serem gays, o que também denota alguma espécie de preconceito, a não ser que você também seja gay, porque aí é interesse mesmo).

Se preconceito é pré-conceito, é rotular e conceituar indivíduos que são únicos por definição a partir de uma característica qualquer que não diz 1/100 do que a pessoa é na verdade, então considerar essa propaganda homofóbica denota pelo menos dois pré-conceitos:

1. Você acha que todo gay gosta de YMCA.

2. Você acha que dançar YMCA é coisa de gay.

Eu por exemplo, acho que YMCA antes de tudo é uma música brega. Daí, logo de cara, poderia achar que ele está sendo zuado pelos amigos por dançar uma música brega. Plenamente plausível, embora dê margem pra discussão da Doritos criticando que o “ser diferente”, ou “gostar de brega”, é ruim, mas não entremos nessa hoje.

Vou dar um outro exemplo, que me foi sugerido pelo Gustavo Miranda.

Você é casado? Tem filhos?

Fui preconceituosa ao perguntar isso pra você? Claro que não, não é?

Então porque a Marta foi quando perguntou isso para o Kassab?

A questão aqui é que numa sociedade em que o preconceito é velado cria-se uma redoma em volta das minorias. As pessoas têm medo que manifestações contra essas minorias, manifestações que nem têm relação com a orientação ou a cor de pele, possam ser confundidas com preconceito só por estarem sendo direcionadas para um membro da minoria.

Amigo, aqui você é vítima da sua própria vontade de tratar todo mundo igual: se você se controla pra não dizer coisas pras pessoas por medo de ser considerado preconceituoso, então você está automaticamente tratando essas pessoas de maneira diferente só por causa da cor da pele delas, do quanto elas pesam ou do parceiro sexual delas.

Qualquer tipo de estereótipo pré-formado a respeito de qualquer pessoa é preconceito. Infelizmente. Ou seja, somos preconceituosos o tempo todo. Essa matéria, por exemplo:

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FOTO: Jairo treina de vestido rosa como castigo adotado por Roberto Fernandes

Você acha que existe preconceito na atitude do técnico? Porque ele considera que vestir um jogador com uma camisola feminina é algo que pode ser considerado vergonhoso? Porque caracterizá-lo assim é um “mico”?

Não tô dizendo nada, até porque são perguntas pras quais não sei a resposta. A própria ingenuidade do técnico em fazer algo assim sem esperar retaliações já pode denotar total ausência de preconceito – lembre-se, quem não deve, não teme. Mas viver num país em que assumir intolerância é intolerável, mas em cujo a discriminação se faz presente em vários níveis da sociedade, demanda que você dê toda atenção pra questões delicadas assim e realmente analise as reações que tem diante desse tipo de coisa. O preconceito é uma armadilha na qual é muito fácil de cair, especialmente porque alguns indivíduos de determinadas minorias, acostumados a sofrer preconceito, se aproveitam disso para criar situações que eu chamo de “só porque eu sou _________” (insira aqui qualquer classe que sofra preconceito, tipo “negro”, “gay”, “mulher”, “deficiente físico” etc).

Assim: existe preconceito na sociedade, fato. Quem sofre preconceito frequentemente encontra mais dificuldades e menos oportunidades, fato. Mas sempre tem o cara que culpa todas as desgraças da vida dele no preconceito que têm contra ele. Atribui tudo ao fato dele pertencer a determinado grupo que é excluído. Se você não gosta dele, é porque você é homofóbico. Se ele não conseguiu emprego, é porque a empresa não contrata negros. Se ele não tem namorada, é porque as mulheres só gostam de caras magros.

Esses indivíduos existem e só servem para fomentar a existência da tal redoma de imunidade das minorias. Se há uma  pessoa acha que tudo o que acontece com ela tem raiz no preconceito, então é melhor você fingir que gosta dela, mesmo que não goste e que isso não tenha nada a ver com a cor dela. Vai que ela o acusa de preconceito?

É um assunto delicado e muito específico – cada situação envolve milhares de variáveis. Mas o que quero concluir aqui é que na maioria dos casos a nossa cabeça é que está cheia de estereótipos e por isso enxerga o politicamente incorreto em tudo. Os preconceitos que a gente enxerga em um monte de relações são um espelho dos nossos próprios preconceitos. O medo de ser preconceituoso é tanto – por causa do tabu – que as pessoas acabam agindo diferente com as minorias mesmo sem perceber. E esse talvez seja o tipo de discriminação mais perigosa que existe – aquela que é tratada justamente como a ausência de discriminação.

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A revolucionária ferramenta que permite que você se coloque no lugar do outro

Hoje eu recebi o spam mais criativo do qual já tive notícia. Nenhum outro era tão apelativo. Nenhum outro despertaria tanto a curiosidade das pessoas. Não dá pra descrever. Veja você mesmo(a):

Sim, é isso mesmo. Esse spam/phishing promete nada mais nada menos do que vivenciar a experiência sexual do sexo oposto – através de um computador. É revolucionário.

Eu me pergunto que tipo de pessoa desajustada de fato clicaria nisso, acreditando que o computador seria de verdade capaz de proporcionar esse tipo de experiência.

Legal notar o trecho de baixo, que explica que a ferramenta foi traduzida para o português… Tipo, como é que é? Orgasmo agora é traduzível? Tipo, pra eu entender tem que ser na minha língua? E em que tipo de trocadilhos essa última frase implica? Argh.

A primeira vista, uma máquina desse tipo pode parecer útil só pra sacanagem. Mas não! Imagine só, se existisse de fato um software que simulasse experiências do sexo oposto – as coisas iam ser muito mais fáceis.

Ficou puto com a mulher por que ela quer fazer compras loucamente? Aperte ‘simular consumismo’ e sinta o prazer em adquirir um sapato novo. Não entende porque a gente come tanto chocolate? Basta acionar o botão ‘simular chocolate para mulheres’ e você vai entender porque o Milka é tão fabuloso. Antes de simular essas sensações, sugiro que você selecione a opção ‘bônus de TPM’.

E as vantagens não parariam por aí, sabe. Esse software poderia, inclusive, colaborar para o crescimento da tolerância religiosa, étnica e cultural. Acabar com guerras. Trazer uma era de paz e prosperidade para o mundo. Bastaria instalar os plugins de determinados costumes e simular. E o software seria de código aberto, sabe. Todo mundo poderia criar seu próprio plugin personalizado. Então teríamos uma humanidade que, através da informática, seria capaz de se colocar absolutamente no lugar das outras pessoas.

Olha só, chegamos num ponto interessante: se colocar no lugar de outra pessoa. Na minha utopia, isso resolve os problemas do mundo. A notícia boa é que pra se colocar no lugar dos outros não precisa de software (orgasmos do sexo oposto não contam aqui). Temos uma esperança.

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