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Um pequeno lapso de solidariedade

Embora eu me considere na essência uma realista, alguns me chamariam de pessimista. Eu não acredito na bondade do ser humano. Não acredito que o mundo tem jeito. E não pude conter minha surpresa diante da notícia que a solidariedade de desconhecidos havia salvado um estranho na tarde desta segunda.

Assisti à matéria na terça, no SPTV, e apesar de reconhecer que quase todo bom herói do cotidiano busca a auto-promoção (ou senão não teria dado entrevistas à TV com aquele brilho no olhar de ‘eu salvei um cara’), há de se reconhecer que as pessoas agiram com solidariedade e bravura pouco vistas numa cidade tão maluca quanto São Paulo.

Fiquei emocionada (eu sempre choro com essas coisas, sou uma besta) e comecei a questionar o julgamento que eu costumo fazer das pessoas comuns. Poxa – tanta gente diferente junto, gente que normalmente a gente veria se xingando no trânsito, motoboys e motoristas de taxi, passageiros, pedestres – se unindo para impedir que uma pessoa numa situação extrema morresse. Se arriscando até, de certa forma, já que estava todo mundo no meio da enchente, com água na canela, para tirar alguém de dentro da água (e aparecer um pouquinho na TV, mas ok, isso eu posso perdoar).

Então o mundo tinha jeito. Não era nada daquilo que eu estava pensando. As coisas não estavam tão perdidas.

Mas aí, no fim da matéria, o Chico Pinheiro chamou o link no qual a repórter disse que, apesar de todas as manifestações fantásticas de solidariedade, a enfermeira que fez os primeiros-socorros em um dos rapazes que caiu na água voltou para o carro e não encontrou sua bolsa lá.

Respirei aliviada. Parece que o mundo estava voltando ao normal.

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A revolucionária ferramenta que permite que você se coloque no lugar do outro

Hoje eu recebi o spam mais criativo do qual já tive notícia. Nenhum outro era tão apelativo. Nenhum outro despertaria tanto a curiosidade das pessoas. Não dá pra descrever. Veja você mesmo(a):

Sim, é isso mesmo. Esse spam/phishing promete nada mais nada menos do que vivenciar a experiência sexual do sexo oposto – através de um computador. É revolucionário.

Eu me pergunto que tipo de pessoa desajustada de fato clicaria nisso, acreditando que o computador seria de verdade capaz de proporcionar esse tipo de experiência.

Legal notar o trecho de baixo, que explica que a ferramenta foi traduzida para o português… Tipo, como é que é? Orgasmo agora é traduzível? Tipo, pra eu entender tem que ser na minha língua? E em que tipo de trocadilhos essa última frase implica? Argh.

A primeira vista, uma máquina desse tipo pode parecer útil só pra sacanagem. Mas não! Imagine só, se existisse de fato um software que simulasse experiências do sexo oposto – as coisas iam ser muito mais fáceis.

Ficou puto com a mulher por que ela quer fazer compras loucamente? Aperte ‘simular consumismo’ e sinta o prazer em adquirir um sapato novo. Não entende porque a gente come tanto chocolate? Basta acionar o botão ‘simular chocolate para mulheres’ e você vai entender porque o Milka é tão fabuloso. Antes de simular essas sensações, sugiro que você selecione a opção ‘bônus de TPM’.

E as vantagens não parariam por aí, sabe. Esse software poderia, inclusive, colaborar para o crescimento da tolerância religiosa, étnica e cultural. Acabar com guerras. Trazer uma era de paz e prosperidade para o mundo. Bastaria instalar os plugins de determinados costumes e simular. E o software seria de código aberto, sabe. Todo mundo poderia criar seu próprio plugin personalizado. Então teríamos uma humanidade que, através da informática, seria capaz de se colocar absolutamente no lugar das outras pessoas.

Olha só, chegamos num ponto interessante: se colocar no lugar de outra pessoa. Na minha utopia, isso resolve os problemas do mundo. A notícia boa é que pra se colocar no lugar dos outros não precisa de software (orgasmos do sexo oposto não contam aqui). Temos uma esperança.

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