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Arquivo: status social

Uma rede social que serve pra bisbilhotar

Caderno de receitas Betty Boop
Image by ? Xanda ? via Flickr

Prepare-se para um post que vai descortinar uma tendência super descolada da internets, para não deixar você, usuário obtuso, de fora de nada que tá rolando na web. Obviamente que o LINK, o caderno em que eu orgulhosamente publico meus excertos tecnológicos toda semana, faz isso melhor que eu. Mas aqui vêm as análises, lá eu só noticio mesmo.

Pois bem. Se você tem até 40 anos, até onde eu sei, está familiarizado com o conceito de CADERNO DE ENQUETE. Essa maravilha dos anos colegiais funcionava da seguinte maneira: alguém ia lá e preparava um caderno com uma pergunta diferente em cada folha, depois passava pra todo mundo responder. Os cadernos da galera mais popular ficavam mais cheios, óbvio. Tipo, os das meninas e meninos bonitos. Porque ai todo mundo poderia dar indireta pra eles sobre o quanto eles eram bonitos e tal.

Enfim. Nesse domingo mesmo, falei com a minha mãe e meu irmão sobre como as redes sociais mataram o caderno de enquete. Quando eu tinha 15 anos, achei um em uma sala do segundo ano. Mas era um exemplar raro dessa espécie já em extinção, aparentemente. Meu irmão, que cursou o ensino médio mais recentemente, disse que nem viu sinal desses FAQs pessoais nos 3 anos.

Mas a web trouxe a ideia de volta – um pouco modificada, é verdade, e com outros atrativos. A parada que tá BOMBANDO no Twitter essa semana se chama formspring.me, e é uma rede social que consiste em poder perguntar aos membros qualquer coisa, quase sempre anonimamente (embora seja possível se identificar, a maioria não faz isso).

Eu fiz um ontem, tá aqui (e aqui na lateral do blog, também). Já recebi uma porção de perguntas – obviamente, muitas delas de cunho sexual (como nos cadernos de enquete, claro), porque no fundo todos temos 14 anos e estamos na puberdade.

Já tinha um negócio parecido no Orkut, chamado Caixa da Verdade, mas não pegou. E porque será que essa parada faz tanto sucesso? Vou dar uma de psicanalista e enumerar algumas razões, mas queria ouvir a sua opinião também.

Em primeiro lugar, as pessoas são voyeurs. Elas têm interesse na vida dos outros. Mas as aparências as impedem de demonstrar isso, por convenção social, pra não parecer bisbilhoteiro. Acontece que, no fundo, todo mundo é. Com as redes sociais, todo mundo virou um stalker em potencial, sem querer. O Formspring é mais um lugar onde uma pessoa se expõe e os outros aproveitam isso.

Em segundo, não menos importante, eles institucionaliza aquilo que é na internet a maior vantagem dos tímidos, dos covardes ou dos normais meio sem-graça, mesmo: o anonimato. No Formspring você até pode se identificar, mas o padrão é que a pergunta seja anônima. Se a pessoa cria um perfil, ela está esperando responder perguntas anônimas, ou seja, o anonimato passa de algo indesejado, que só é usado por quem quer se esconder, como uma característica padrão daquela rede, e portanto, naturalmente aceita.

E tem a nostalgia do lance caderno de enquete, também.

Pra quem cria um, quais são as vantagens? É mais um passatempo do que uma coisa que traz alguma vantagem, por assim dizer. Eu achei divertido responder as perguntas. Não menti em nenhuma, essa foi minha regra. As mais idiotas ou obscenas-babacas, apaguei. E dei umas respostas engraçadas. Criei um FAQ/caderno de enquete sobre mim, virtual, e de quebra abri espaço pra quem quer perguntar algo e por algum motivo não tem coragem fazê-lo. E, ah, também é interessante observar que tipo de curiosidade as pessoas têm sobre você.

Por exemplo: provavelmente porque sou solteira, várias pessoas perguntaram se sou gay.

Mas se eu fosse gay, acho que não estaria solteira. Tem mais mulher do que homem por aí.

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Sem opção: como o sistema te obriga a fazer o mal

As próximas linhas, de certa forma, serão um desabafo. É que todas as coisas que tenho visto e pensado, nos últimos meses – e não foi coincidência, mas sincronicidade – me levam cada vez mais à certeza que viver nesse mundo é muito prejudicial pra você, se você for alguém preocupado com o bem estar alheio.

Pode parecer óbvio para as pessoas iluminadas – a gente aprende já na escola que o capitalismo é um sistema baseado na exploração de mão-de-obra – mas essa coisa só me atingiu, na totalidade, nas últimas semanas.

O negócio é que, se você vive nesse sistema, não basta ser alguém bom, que não faz o mal diretamente. Nada basta, porque viver em sociedade hoje é, direta e indiretamente, causar sofrimento a um monte de bichos e gente ao redor do mundo. E o que fazer a respeito disso?

Compre um carro e remonte, na sua cabeça, o caminho que todas aquelas toneladas de ferro e borracha percorreram para estar ali, e você vai perceber que houve países de terceiro mundo explorados, gente recebendo centavos pela extração de determinado commoditie e você, indiretamente, causando o mal (fora a poluição que vai gerar depois, mas nem entremos nesse mérito).

Compre um tênis e leia onde ele foi produzido. Dos R$300 que você pagou, a mão-obra-explorada tirou menos de R$2. E você só quer vestir um tênis legal e sair com os seus amigos.

Coma um belo bifinho, frito pela sua mãe com tanto amor, com arroz e fritas, e pergunte-se o quanto aquele boi sofreu pra carne estar ali. OK, e se não liga pros bichos, pense nos salários baixos e condições desumanas dos funcionários de matadouros.

E quando eu digo ‘pense’, cara, me desculpe. Não quero te deixar com a consciência pesada, porque apesar de ter culpa, você não tem. É só uma constatação de que estamos imersos em algo que nos obriga a provocar o mal, massivamente. E não há escolha. Porque você é um cara legal, que é educado com todo mundo, ajuda sua mãe em casa, dá um beijo na avó quando tá com vontade, tem vários amigos e só quer ter um tênis que achou bonito, comer a comida que acha gostosa, ter um carro legal. Não há nada de errado nisso na essência, e justamente por isso é assustador: a gente causa o mal sem sequer desejá-lo.

Comecei a pensar em alternativas, OK? Eu juro. Algo pro futuro, porque não é assim também – não vou virar hippie, e a história de Christopher McCandless é admirável, mas eu não tenho, nem de longe, essa iluminação espiritual, essa coragem e esse desprendimento. Só que eu não encontrei nenhuma saída viável. Pensei em ficar rica (muito rica) e comprar uma fazenda auto-sustentável, mas o mundo é tão babaca que a própria fazenda auto-sustentável demanda muito dinheiro, adquirido – veja só – fazendo mal para as pessoas indiretamente. O caminho até ficar rica é cruel, sem mencionar que não é algo que eu possa simplesmente fazer acontecer. Nada garante que eu vá ficar rica.

Olha, nem penso nas obviedades. Viver sem iPod, sem internet – isso seria o de menos, sério. Estive pensando que, com a cabeça ocupada em tirar leite da vaca, regar horta e essas coisas de gente sustentável, que precisa produzir seu próprio alimento, nem teria tempo para internet. Mas se fosse para abdicar completamente da civilização, isso significaria excluir remédios.

E eu não tô disposta a voltar ao século XIII e morrer com uma infecção idiota provocada, sei lá, por uma picada de pernilongo que coçou demais, só porque não havia antibiótico. Sem mencionar a facilidade proporcionada pela invenção do absorvente, e isso seria impossível de abdicar.

Eu não posso escolher viver totalmente fora disso. Não sendo radical, é possível viver uma vida menos dependente dos bens de consumo, sim. Mas acho que se você pode ter um papel higiênico, vai poder ter também lenços de papel. Daí vai comprar papel toalha, uma privada, vai precisar ter água encanada, luz… e aí, meu amigo, ferrou.

Fico pensando que poderia tentar viver numa comunidade indígena, abdicar dos meus hábitos de civilizada e começar uma nova vida. Mas esses índios de hoje estão muito integrados na sociedade, né? Acho que não seria, ainda, o ideal.

Como eu disse no começo, é um desabafo diante da minha impotência e do duplipensar. Porquê se de um lado eu estou extremamente insatisfeita com o que o estilo de vida que eu levo causa no mundo, de outro eu não vejo compensação prática em abandonar todo o conforto que ele me proporciona – exceto, é claro, o meu karma, que vai ficar muuuito mais leve (pra quem acredita nessas coisas).

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O texto pode soar demagogo, e até ingênuo, mas juro que é sincero. Foi escrito numa tacada só há cerca de um mês, mas não tive coragem de publicar na ocasião. Achei legal soltar hoje, porque reli e achei que é provavelmente uma das coisas mais automáticas que eu já escrevi, quase uma psicografia (só que não de terceiros).

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A vida não é como no The Sims

Eu nunca me senti à vontade para tirar foto com pessoas famosas encontradas aleatoriamente nos lugares. Primeiro, achei que tinha vergonha de ser inconveniente e invadir um momento pessoal do fulano para pedir uma foto. Depois, também me dei conta que eu não dava muito valor para uma foto com um cara famoso, simplesmente porque essa foto não tem valor nenhum e não quer dizer nada – exceto que por uma coincidência eu estava no mesmo lugar que essa pessoa. Em terceiro, se for o caso de registrar a presença da pessoa, prefiro tirar uma foto dela – e não com ela. Só tirei foto com pessoas ‘famosas’ uma vez, ocasião perdoável pela situação, que um dia eu conto.

A minha dúvida é a seguinte: tirar fotos com pessoas famosas realmente dá algum status quo social? Existem pessoas que perseguem celebridades das mais bizarras, das quais elas nem são fãs, por uma foto. No show do Muse, um fulano pediu parar tirar uma foto com o Rafael Losso.

Para quem não sabe, Rafael Losso é esse cara aqui:

Quem é Rafael Losso na noite? Ele já foi VJ na MTV, ok. Um monte de gente não gosta do jeito meio retardado dele, ok também. E ele é um cara legal. Mas que tipo de nível de popularidade o carinha do show do Muse vai elevar se mostrar aos amigos e família uma foto dele com o Rafael Losso? Digo, realmente existem pessoas que escolhem os amigos pelo número de fotos com famosos que eles têm no álbum do Orkut? Porque isso me parece improvável, e torna o conceito de foto com celebridade totalmente sem sentido. Vamos supôr que existam dois motivos para posar ao lado de um rosto conhecido:

1) Mostrar aos amigos, que ficarão encantados e gostarão muito mais de você, e colocar no Orkut, o que atrairá muitos amigos até você e você se tornará incrivelmente popular;

Já provamos que essa hipótese é furada, já que não consigo conceber a existência de alguém que dê valor social para uma foto de tietagem. A possibilidade do Orkut é algo a se considerar. Como muita gente considera importante a situação social no Orkut (o que explica inclusive exibição insistente de fotos no exterior, caso tiver, no mesmo álbum), e sua imagem no Orkut é constituída pelo quão descoladas são suas fotos…

2) Saber que você é muito, muito legal por ter encontrado alguém famoso por acaso;

Essa possibilidade é inválida por vários motivos. Mais óbvio, se você se acha legal porque encontrou alguém POR ACASO em um lugar e tirou uma foto com essa pessoa, claramente não adianta você se achar legal, pois vai continuar sendo um babaca. Em segundo, qual o mérito de encontrar com uma pessoa aleatoriamente em algum lugar? E depois, se fosse para levantar o próprio ego, não precisava tirar a foto, bastava lembrar do momento.

Discutível também é o conceito de famoso nesse caso. Aparentemente, não existe um padrão, até por causa das celebridades de nicho na internet. Mas no geral, basta aparecer na TV mais de três vezes e algumas pessoas já podem desejar tirar fotos com você. E as escolhas às vezes são terrivelmente inexplicáveis (como o exemplo do Rafael Losso).

Posso entender que demonstrar proximidade com alguma celebridade é algo que traz sim status quo social (entre pessoas estúpidas, mas a maioria delas é, então ok). Mas ninguém que tira essas fotos está FINGINDO ser amigo do cara. Pra começar, todo mundo sabe que foi uma coincidência você encontrar com o fulano. E são retratos claramente tietístiscos, normalmente tirados ao lado da pessoa famosa em questão, ambas com um largo sorriso no rosto, como se aquele encontro fosse tudo o que tivessem sonhado por todas suas vidas. E amigos de celebridades não tiram fotos com elas porque e exibem para os outros.

No fim, minha conclusão é a seguinte: a vida real não é como o The Sims. Retratos como esses não te dão +++ em todos seus relacionamentos. Exceto talvez no Orkut, fotos com o Latino ou com a Proibida do Funk (tem essa mulher, né) só fazem você se sentir legal, mas ninguém vai gostar mais de você por isso, e você também não vai atrair pessoas bonitas e legais porque tirou fotos ao lado de gente famosa. Eu sou fã de algumas pessoas, mas isso me dá vontade de ser amiga delas, sabe? Aquele cara que parece tão legal que você tem vontade de trocar uma idéia. Mas tirar fotos… tirar fotos não faz sentido.

Minha ressalva fica com as fotos ao lado de pessoas que você realmente admira – um cantor, ator etc de quem você é super fã. Acho que serve como lembrança de um momento no qual você se emocionou pois esteve perto daquela pessoa. Mas não entendo gente que tira foto com toda e qualquer coisa que se mova atrás de uma tela. É patético.

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