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Arquivo: Trem

O tênue limite entre a simpatia e a loucura

Você certamente já encontrou com alguém cuja simpatia ultrapassava o limite do que é considerado socialmente aceito. Se trata daquelas pessoas sorridentes e solícitas, que diante da menor inclinação da sua boca demonstrando um sorriso desatam a falar sobre coisas que você certamente não perguntou e pelas quais, na maioria das vezes, não tem interesse nenhum.

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Eu posso ser uma dessas pessoas.

É triste admitir. Mas se você somar minha personalidade extrovertida e conciliadora com um dia de bom humor e uma deixa boa, eu posso ser uma daquelas pessoas que se intrometem sem querer na conversa de outras pessoas e, quando vê, já estão palpitando sobre coisas para as quais não foram convidadas.

Junte isso ao meu jeito estranho de falar – caso você não me conheça, eu falo exatamente como escrevo aqui, com as mesmas palavras e as mesmas pausas e todo o resto – e você me terá como uma desconhecida louca nos lugares  públicos, dessas que as pessoas evitam.

E assim, é mais forte que eu. Nesse fim de semana, por exemplo, eu estava na fila da Renner, pra pagar uma calça, e uma senhora perguntou (ok, eu achei que era pra mim, mas era pra filha dela que estava na minha frente) se a outra fila estava menor. Eu respondi com desenvoltura, como se ela fosse minha melhor amiga. Normalmente, nessas horas, se a pessoa está acompanhada, ela troca olhares de profunda estranheza com o companheiro, o que é absolutamente constrangedor pras pessoas simpáticas loucas como eu.

Felizmente, minha simpatia louca tem seu lado bom. Não foram poucas as vezes em que fiz amigos e influenciei pessoas desse jeito. E na prática, no fim acabam me considerando só simpática, e um pouco esquisita, mas não exatamente louca.

Isso é porque, na maioria das vezes, eu sei me manter do lado de cá do tênue limite entre a simpatia com estranhos e a intromissão considerada maluca. É, é uma tarefa delicada, e demanda anos de prática e leitura corporal, mas eu só sei que sei e ponto.

Como eu sei disso? Porque já lidei algumas vezes com pessoas simpáticas realmente loucas. E eu não faço, definitivamente, o que elas fazem. Por exemplo: um rapaz que se vestia esquisito me acordou no trem, dizendo que eu ia perder a estação – como se ele pudesse adivinhar a estação em que eu desceria. Me fez perguntas esquisitas sobre onde eu morava e com quem, conversou comigo como se fôssemos amigos de anos e depois de um tempo tomou seu rumo.

O outro, um tio com crachá da Apae, se sentou ao meu lado e resolveu trocar idéia. Perguntou se eu não queria tomar suco na casa dele, tomar guaraná, ser amiga dele, ser irmã dele, pediu meu telefone (eu passei errado) e toda a sorte de coisas esquisitas. O ônibus inteiro riu da situação até que ele desceu e eu fiquei aliviada, porque ele parecia esquisito além do que podia ser seguro.

Essas pessoas são suicidas sociais, por definição. O primeiro, porque é esquisito. O segundo realmente tinha algum nível de deficiência mental, ou seja, não conta como exemplo. Mas como ser simpático e louco sem ser esquisito e intrometido? Como não parecer um ridículo que quer chamar a atenção?


Não é assim

A regra principal é saber se seu comportamento é bem-vindo. Pode parecer uma ilusão, mas existe gente no mundo que é simpática aos malucos-simpáticos (normalmente, outros malucos simpáticos, ou velhinhos). Essas pessoas vão ficar felizes com a sua intromissão. E elas vão demonstrar isso, não sendo monossilábicas e puxando papo.

Acho que a diferença principal entre o simpático e o maluco-simpático é justamente essa – o maluco não se toca que está sendo inconveniente. Ou, se percebe, realmente não se incomoda com isso. Nós, simpáticos em excesso-quase-malucos, tentamos uma aproximação mas nos afastamos assim que notamos que não somos bem-vindos.

Ou escrevemos um blog.

Mas essa preocupação em se adequar só deve ocorrer porque o comportamento simpático-maluco não é socialmente aceito, e a gente precisa de amigos. Eu não vejo nada de errado com essa extroversão maluca – até porque não é sinal de saúde estar inserido numa sociedade que não me parece estar muito bem das pernas.

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Post it #04

Post it no Olhômetro - logo#Não vá perder esta incrível oportunidade

Promoção Olhômetro

E não se trata de tapetes persas, anéis de brilhantes ou lindos quadros. É a 1ª e badalada promoção cujos prêmios não fazem sentido, aqui mesmo, neste blog. Dá pra ganhar camisetas, vale-compras no Submarino de até 100 pilas e um chocolate. Corre e participa.

#Interação ferroviária
Tava no trem, com uma gripe do cacete. Nariz escorrendo à beça e tal, muitos lencinhos nos bolsos. Aí tava de pé de frente pra um moço que tava sentado; fui tirar um lencinho do bolso, já usado, mas saíram dois e um caiu na mão do moço.

Não sei o que me deu, mas como ele não reagiu – tipo balançou a mão pra jogar o negócio longe ou mexeu a cabeça em direção à mão pra ver que porra era aquela – supus que ou ele estivesse dormindo ou estivesse morto. Peguei o papel de cima da mão dele e eu, ele e todo mundo ao redor fingiu que nada tinha acontecido. Tudo isso numa fração de segundo, claro.

#Laiá-laiááá
Pagode sempre me atrapalhou, mas acho que ninguém nunca pensou que pagode poderia atrapalhar tanto tanta gente. O ônibus do Exaltasamba tombou nesta terça na Régis Bittencourt, bem na volta do feriado, e bloqueou o trânsito por duas horas e meia.

Mas fique tranquilo. Não houve nenhum ferimento grave. Aliás, sabia que o Exaltasamba, assim como Danilo Gentili, Dani Calabresa, Lucélia Santos e eu, é de Santo André? Só orgulho.

#Vida bandida
Chorei de rir, e fazia tempo que um vídeo não fazia isso.

Queria ter as manhas de fazer essas legendas. Meu ouvido não funciona assim, foneticamente. Nunca consegui, nem aqueles vídeos literais nem nada assim.

#Maconha na cultura escandinava
Thor era adepto do uso da droga. (Esqueci de dizer – CLICA na imagem pra ver o que há de engraçado nela, por favor)

2ch9cid

#Jornalismo moleque
Tudo a Ver, da Record, soltou essa pérola terça na hora do almoço (não sei o nome da âncora, mas vamos lá):
“Agora, essa dica é pra quem ainda acha que dá tempo de aprender a tocar tamborim neste carnaval”.

O comentário do meu irmão (que nem é da área, mas deve ter ficado crica de tanto conviver comigo) foi absolutamente pertinente – algo como “puta merda, isso que é matéria direcionada a público de nicho”.

#Como fazer um lago desaparecer em menos de uma hora
Nem Harry Potter conseguiria, na boa. Só em São Paulo, mesmo

#Acharam a Atlântida no Google Ocean

Atlântida no Google Earth
Sério, olha aqui. E o Google já desmentiu, dizendo que a foto é real mas que isso não é Atlântida, não. Mas pensa comigo – isso é óbvio, né? O Google não poderia confirmar e passar como doido. Pra mim, acharam Atlântida mesmo. Mas se mantiveram a coisa escondida por tanto tempo, não ia ser agora que iam revelar, não é? Você vai ver – daqui a algum tempo, o assunto vai morrer e essas coordenadas no Google Ocean vão surpreendentemente virar uma tela azul, sem textura nenhuma.

#Você vai conhecer agora a história de um menininho muito guerreiro

Charlinho só queria estudar – embora ele também quisesse um pouco de batata. Mas ele queria estudar, e queria batata.

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Pátria amada, Brasil: o nacionalismo não faz nenhum sentido

A primeira reação que a pessoa padrão teve quando ouviu pela primeira vez a história da brasileira mentirosa na Suíça que se auto-riscou com estilete provavelmente foi “esses neonazistas são uns animais sem coração”. E mesmo com a história toda sendo uma grande mentira depois, pelo menos provocou em mim uma reflexão sobre esse conceito tão pervertido e causador de tanta intolerância, o nacionalismo.

A primeira vez em que percebi que existia algo errado com esse negócio de sentir orgulho em pertencer a uma “nação” foi no colégio, quando um professor não cantou o hino nacional durante alguma dessas ocasiões especiais. A coisa toda acabou causando alguma polêmica, e quando fui conversar com ele a respeito, veio o tapa na cara – metafórico, claro: “Nação? Pátria? Para pra pensar e tenta descobrir o que essas coisas significam, qual o sentido e o conceito delas”, ele disse.

Daí eu fui subvertida. Porque nem precisou de muita reflexão pra perceber que o conceito de pátria e nação é todo calcado em cima da idéia de que todos os seres humanos nascidos na parte de dentro de uma linha geográfica imaginária (esta definida por outros seres humanos iguais a ele) se sentem parte de um mesmo grupo e, principalmente, sentem orgulho disso.

Esse orgulho, quando alimentado adequadamente, é o que faz um soldado matar outras pessoas por seu país em uma guerra, e num nível mais avançado, é o que gera o sentimento de superioridade em relação a outras pessoas, iguaisinhas, mas que por desígnios fora de nossa compreensão vieram a nascer do lado de lá da tal linha que nem existe de verdade. A intolerância surge daí.

Digamos que isso até faça sentido num país culturalmente bem homogêneo (embora não faça, mas é uma hipótese). O que você me diz sobre a homogeneidade cultural, social ou econômica do Brasil?

Você não me diz nada, porque no Brasil é no mínimo ingenuidade e no máximo ignorância falar de ‘homogeneidade’. São centenas de milhares de costumes, de níveis sociais, até de línguas – ou você me diz que o português falado em São Paulo é igual àquele lá do interior do Pernambuco?

Ok. Então digamos que o conceito de nação seja baseado em etnias. É absurdo, Hitlerístico, mas novamente apenas uma hipótese. No Brasil seria um fracasso ainda maior. A gente é tão misturado que boa parte de nós não é identificável exatamente como latino, ou como caucasiano, ou como negro, ou como oriental.

Mas era tudo hipótese – a gente sabe que eles baseiam a idéia de pátria nesse negócio de linha imaginária, mesmo. E eu nunca vou conseguir me sentir colocando a mão no coração e cantando uma música que fala um monte de mentiras junto com um monte de gente muito diferente, só porque nós todos nascemos do lado de dentro da mesma linha imaginária.

Eu não compartilho quase nada com aquelas pessoas, e não sinto que todos aqueles filhos não fugirão à luta se a clava forte da justiça for erguida. Eles – a gente – fogem todos os dias, quando não faz nada pra mudar nada do que vê.

Não se trata, entretanto, de anti-nacionalismo. Eu não me sinto orgulhosa de ser brasileira; mas também não tenho vergonha disso. Eu só não me sinto classificável como pertencente a um grupo que compartilha dos mesmos anseios, necessidades, cultura e espírito, porque esse grupo não existe e porque aqui no Brasil, ali do lado na Guiana Francesa, em Fiji ou no Timbuktu, é tudo igual. Se há um espírito para incorporar, ele engloba todas essas pessoas, e não só aquelas que quando vieram ao mundo estavam localizadas dentro de uma área demarcada em um papel.

Auto-flagelação é algo que choca, porque é claramente uma irracionalidade. Mas você nunca parou pra pensar que esse conceito, o de nação, de unidade, de PÁTRIA, é tão irracional quanto? Se sentir melhor que outras pessoas que não nasceram dentro de uma linha inventada é na realidade um grande absurdo se você colocar os termos de maneira 100% racional, especialmente num país como o nosso.

No Brasil, você sabe quando a gente se sente parte de uma coisa só, não sabe?

Regina Casé e Marcos Pontes
Que orgulho heim

Não é quando a Regina Casé faz matéria em Angola ou quando a gente manda um astronauta pra fora do planeta.

É quando tem Copa do Mundo. E isso não é uma crítica nem um elogio – é só uma constatação.

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Post it #03

Post it no Olhômetro - logo#Agora um tenho um Tumblr
Um Tumblr é parecido com um blog. Mas também lembra o Twitter. Digamos que fica entre os dois – não chega a ser um blog, mas também não chega a ser o Twitter. Lá, publicarei todas as coisas que passam na minha cabeça durante a semana (são centenas), além dos links, vídeos e fotos legais que vejo na internet. Algumas acabarão virando posts longos e reflexões por aqui. A seleção do que vai entrar no post it na segunda-feira também virá de lá, então você não vai perder nada se não quiser acessar, porque o que tiver de melhor por lá vai acabar vindo pra cá. Serve apenas pra mim, como organizador de pensamentos e ‘roteador’ de tudo aquilo pelo quê eu me interesso na semana. Mas eu tô viciada em Tumblar. Olha: http://anafreitas.tumblr.com

#Fringe
Acabou a 1ª temporada do seriado cujo piloto eu comentei aqui, há um tempão. Fringe é do mesmo produtor de Lost, J.J. Abrams, e retrata o dia-a-dia de um setor do FBI que cuida de casos envolvendo ciência de borda – que é quando a ciência e as ‘pseudo-ciências’ se encontram. É recheado de teorias da conspiração das mais incríveis, e prato cheio pra quem é fã de Lost. Essa fase terminou de um jeito muito legal, até pra uma série que tinha dado uma decaída entre os episódios 8 e 11, mais ou menos. Numa boa – se você não viu ainda, aproveita a pausa entre Season 1 e 2 (a série volta em abril) e começa a assistir.

#Repórter Bêbado
O mais genial e inovador programa de jornalismo bem humorado da internet brasileira, Repórter Bêbado, teve uma de suas edições gravadas na madrugada deste sábado e eu tive a honra de participar, ao lado dos mestres Nigel Goodman e Ronald Rios. Aguardem o áudio, espero que ainda essa semana, no próprio blog do Nigel. A única ressalva: me confundiram de novo com a Mallu Magalhães. E PELA VOZ. Isso me atormenta.

#Culinária ligeiramente heterodoxa

#Jogo dos 326 erros
Observe bem essa foto.

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Este menino do lado esquerdo é Alfie. Ele tem 13 anos.
Este bebê no meio é o filho de Alfie.
Do lado direito, temos a mãe, Chantelle, que tem 15 anos.

Não quero comentar. Mais informações no The Sun, mas em inglês.

#Comparação que não ajuda
Tomar ecstasy é tão perigoso quanto andar à cavalo, segundo um pesquisador. Isso significaria que frequentar raves e festas country apresenta exatamente o mesmo risco? De qualquer forma, essa é a comparação mais inútil que alguém já fez, já que uma coisa é tão distinta da outra que se torna incompreensível – é como dizer que nadar em mar aberto é tão perigoso quanto brincar com um bambolê.

#Falando em bambolê…
“É na pegada do bambo, do bambo bambo, do bambo, do bambolê – ô lalá, o lelê, vai!”

#Como viver sem a ciência?
Finalmente, um estudo que comprova uma relação que eu sempre suspeitei existir.

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A pesquisa que gerou esse gráfico foi conduzida pelo prof. Eric Franco, e mais detalhes podem ser encontrados neste artigo científico.


#Vamos mudar um pouquinho – para melhor, espero
Lembra que eu disse que ia pegar parte do dinheiro que ganhei esse tempo com posts patrocinados pra investir por aqui? Pois é. Você não cansou desse verde? Porque eu cansei. Vamos dar uma reformada, com a benção do homem-ato-ou-efeito, Théo. Dentro de algumas semanas, espero, estaremos mais moderninhos. Mas falta uma coisa:

#Finalmente, A PROMOÇÃO
Tudo certo com os prêmios. Essa semana, lanço a promoção mais irada da história da internet brasileira do Olhômetro. Quem viver, verá. Ok, não espere tanto, mas são prêmios legais, e eu pensei em algo que vai beneficiar quem é leitor, e não gente perdida e pára-quedista. Fiz pra você, porque você merece. É um agradecimento por tudo o que você me proporcionou nesses 14 meses de existência através desse blog.

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Crônica sobre chutar a bengala de um velhinho

Eu nunca atrapalho ninguém. Esse é meu mote na convivência social urbana. Apesar da cidade ter me transformado num monstro apressado, que sai pela estação desviando das pessoas com habilidade, dificilmente eu trombo nas pessoas, deixo de pedir licença ou as atrapalho. Sou educada, simpática e até converso com pessoas que puxam assunto na rua, sejam as loucas ou as normais. Mas hoje aconteceu. Digo, hoje atrapalhei uma pessoa. Não que nunca tivesse atrapalhado antes – provavelmente já aconteceu, mas sem querer. E não que dessa vez tenha sido proposital… ok, explico:


Eu vinha pegar o ônibus para o trabalho e comecei a descer as escadas que levavam à plataforma. De lá de cima, vi que o ônibus já estava estacionado, o que significava que poderia partir a qualquer momento. Comecei a técnica que consiste em tentar descer as escadas rapidamente desviando das pessoas. Tinha na minha frente um carinha descendo devagar, que não dava espaço pra que eu fosse pela esquerda. Logo paramos – um grupo de surdos-mudos conversava no meio da escada. Daí desviei deles e continuei. Outro cara veio, subindo, na minha frente. Desviei; mais outra pessoa descendo com calma e tranquilidade, já no pé da escada, e um cara que foi subir pelo lado errado (o direito meu, esquerdo dele) bruscamente e do qual eu consegui desviar. Ufa.


Mas no desvio desse último, acabei sendo jogada pra cima de um senhor que vinha caminhado pela plataforma, de bengala. Ele tinha uma loooonga barba branca, à lá papai-noel, e caminhava lentamente. Eu o vi – e, embora tenha feito isso muito rapidamente, não parei, porque provavelmente meu cérebro calculou que se eu levantasse um pouco a perna, conseguiria passar o pé por cima da bengala e continuar correndo em direção ao ônibus.


Não sei se calculei mal. Não sei se ele me viu e assumiu que, como era deficiente físico, eu pararia e o deixaria passar. Só sei que eu acabei, sem querer, esbarrando o pé na bengala do velhinho.


Não cheguei a chutar, nem nada. Ele também não chegou a se desequilibrar, bambear as pernas ou coisa assim. Foi um esbarrão – mas ele ganhou um contorno de crueldade terrível, porque era um senhor de bengala. E porque eu nunca vou me esquecer da maneira como ele me olhou.


Foi mais do que indignação. Foi algo como “cansei de ser humilhado por esses jovens”. Ele ficou boquiaberto, de verdade. Parou, abriu um pouco a boca e me olhou como o monstro horrível que eu fui ao esbarrar na bengalinha dele.


Envergonhada, e percebendo que ele só estava indignado mesmo (e que eu não o havia machucado ou algo do gênero), pedi desculpas de maneira audível e com as mãos levantadas e continuei correndo em direção ao ônibus, que consegui pegar (e demorou mais uns 5 minutos pra sair).


Nesses 5 minutos, o velhinho passou ao lado da janela. Não tive coragem de olhar. Percebi que ele voltou, pra direção contrária de onde tinha vindo – isso despertou na minha cabeça uma espécie de “também, o véio fica passeando de bengala na plataforma de ônibus”, pensamento que foi logo podado pela culpa que ainda toma conta do meu ser.


Tava um puta trânsito no caminho, o que me fez sentir mais culpada – afinal, atropelei o velhinho pra nada. Mas fiquei pensando, e pensando, e pensando. E pelo menos a situação toda me fez ver muita coisa de um jeito diferente.


Por natureza, sou uma pessoa meio ansiosa. Vocês precisam me ver falando – eu sou muito esquisita. Falo super rápido. Eu tenho uns níveis de rapidez da fala, e eu regulo de acordo com o interlocutor: por exemplo, com familiares próximos eu falo numa velocidade abismal, porque sei que eles vão compreender; com gente desconhecida, quase sempre me lembro de falar devagarinho. Mas às vezes, se deixo a emoção tomar conta, o filtro que mede a velocidade de compreensão do interlocutor acaba falhando e eu falo rápido demais e ninguém entende.


Isso acontece porque a minha cabeça funciona a mil. Se eu não falar logo, meu pensamento ultrapassa a velocidade da fala, e aí eu acabo me perdendo no raciocínio. Pra escrever, sou igualzinha. Todo mundo fica dizendo “OH MEU DEUS COMO VOCÊ DIGITA RÁPIDO”. Mas não é exatamente porque eu quero. É porque se eu não fizer assim, me perco no meio da coisa.


Da mesma maneira, minha paciência é ultra-limitada. Não sei se foi o ‘morar na cidade’, mas eu sou um pouco… impaciente ao andar na rua. Tenho um objetivo, chegar até o lugar X – logo, vou fazer isso da maneira mais rápida possível, especialmente se tenho um compromisso com hora marcada. Portanto, me irritam muito pessoas que param no meio de escada pra amarrar o sapato, gente que para no meio do corredor da estação pra olhar pra qual dos lados ir… parar é permitido, ok, mas pare num lugar apropriado. Ou sinalize que vai parar, sei lá. Sempre que eu vou parar no meio de uma calçada, eu dou uma olhadinha pra ver se tem gente andando atrás. Se tiver, em vez de parar bruscamente, eu faço uma curva rápida na direção daquilo que eu vou observar. Assim, paro e saio do caminho do fulano atrás de mim. Não atrapalho ninguém.


Quando eu ando pela rua e vejo (o tempo todo) gente mal-educada, que esbarra nas pessoas e não pede desculpas, empurra velhinhos, não dá lugar pra aleijados… eu julgo essas pessoas. Eu as acho animais incivilizados e sem educação, que não pensam no próximo, que atrapalham as outras pessoas.


Mas naquele momento em que sem querer chutei a bengala do velhinho eu percebi que existem animais incivilizados sem educação e existem pessoas que estão num dia ruim, com pressa, ou que às vezes fazem uma merda tão grande que têm vergonha de pedir desculpas, mas que não são gente ruim e mal-educada. São pessoas normais num momento ruim, com um movimento mal-calculado.


O problema é que tem tanta, mas tanta gente no mundo, que mesmo se considerarmos que todo mundo é educado por definição, e tiver um dia ruim, digamos, por mês, será muito fácil que encontremos várias pessoas sendo mal-educadas por dia.


É estatística, é injusto, e se o velhinho entendesse isso ele provavelmente não me fulminaria com aquele olhar que eu jamais esquecerei.


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Guarda-chuva é uma invenção superestimada

Você já parou pra pensar que boa parte das invenções que prometem facilitar nossas vidas trazem com elas uma porção de problemas que nós não tínhamos antes?

Dá pra mencionar dezenas, centenas de coisas. Mas a mais emblemática, na minha opinião, é o guarda-chuva. E isso é um desabafo.

guarda_chuva

Você mora na cidade? Então tenho certeza que você odeia chuva. Chuva é uma coisa muito desgraçada na cidade. O chão de concreto não foi feito pra lidar com água caindo do céu. Isso é fato, e alguém deveria fazer algo a respeito.

Os que andam de carro podem até reclamar que passam horas parados no engarrafamento quando chove e dá enchente em São Paulo. Mas amigo -  pelo menos, você está dentro de um carro. Você poderia estar fora dele, ou pior, dentro de um ônibus/trem lotado, sem ar condicionado e com as janelas fechadas, porque se abrir, chove dentro. Esses lugares têm cheiro de Cheetos – é sério. O trem é um lugar tão nojento que tem cheiro de Cheetos. O de queijo. E eu odeio Cheetos. Imagina como fica a coisa quando chove.

De qualquer forma, posso garantir que a chuva prejudica muito, muito mais quem anda a pé do que quem tem carro. Primeiro, porque chuva não significa frio – daí chove, mas tá calor, aí você põe uma calça e não um vestido, pra não molhar a perna com a chuva, mas a calça é quente demais, e ainda tá quente e úmido. Não pode usar sandália, sapato baixo, nada – tem que ser tênis, e de preferência impermeável. Precisa ficar cuidando pra que a barra da calça não molhe no chão. Precisa manter a mochila/bolsa e todo seu corpo dentro do diâmetro do guarda-chuva. E tudo isso segurando em cima da sua cabeça um pedaço de pano impermeável sustentado por uns arames que devia ser capaz de manter a chuva longe de você, mas não é.

Existe a ilusão de que a chuva é uma aguinha cujas gotas fazem ângulo de 90º com o chão, mas isso é mentira. Existe o vento. E o vento faz com que a água te pegue, mesmo com o guarda-chuva sobre a cabeça. Normalmente, é um grande paradoxo: chove o suficiente pra que você precise abrir o guarda-chuva se não vai se molhar mais do que o suportável, mas o guarda-chuva não protege o suficiente pra compensar o trabalho que ele dá depois da chuva – balançar pra sair a água sem atingir ninguém em volta, fechar, amarrar, pôr dentro da capinha, arrumar uma sacola plástica e finalmente jogar esta merda dentro da mochila, pra ter que tirar 5 minutos depois de novo porque ela molhou todos seus livros, e ficar carregando na mão enquanto anda, tentando evitar que ele encoste na sua calça e te molhe, o que inevitavelmente irá acontecer… já consegui te convencer que é muito mais fácil tomar chuva?

O filho da puta que inventou isso era muito sádico. Queria sacanear um monte de gente. ‘Vou inventar uma coisa que sacaneie muitos as pessoas sem que elas percebam. Vou fazer de um jeito que elas achem que valha a pena ser sacaneado. E depois vou ficar rindo pela eternidade.’

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On the road again: bizarrices na rodoviária e ETs em Gran Sabana

On The Road Again - blogueiro oficial!

Rodoviárias podem ser apenas um detalhe numa viagem, mas elas guardam mais segredos do que parecem. Eu passo todos os dias por uma grande rodoviária para ir trabalhar e por isso posso dizer que um terminal rodoviário tem a maior concentração de pessoas bizarras por metro quadrado. Fora isso, a rodoviária também é palco de situações curiosas e imprevisíveis todos os dias. É um lugar, por definição, de encontros e despedidas, e a vida – no geral – é feita disso, como disse o poetinha.

Mas depois de muitos anos sem tal experiência, viajei de ônibus no último fim de semana. O destino era inicialmente a cidade de Socorro, no interior de SP. Quando desci para a plataforma, percebi uma movimentação anormal e logo vi que algo muito errado tava acontecendo. Levou uns segundos até me dar conta do panorama total, mas era o seguinte: tinha um tio pançudo caído no corredor e uma equipe de paramédicos estava tentando reanimar o véio, fazendo massagem cardíaca e respiração boca-a-boca, usando também um desfibrilador. Sério, eu só tinha visto em filme, mas a cena é angustiante.

A família tava toda ao lado – mulher, possíveis filhos e netos, genros e genras. Tenso. O problema era olhar praquele senhor no chão, já morto, e ver três médicos tentando trazer o cara de volta (ou mantê-lo vivo mecanicamente, whatever) e pensar no que tudo aquilo implicava, até espiritualmente – ‘puta merda, o cara acabou de morrer. Por quê? Será que ele vai voltar? Será que eu também não posso cair morta aqui agora?’. Foi pelo menos uns 15 minutos de CPR e nada do tio voltar. A família estava aos prantos, e o médico no comando ordenou que os paramédicos continuassem tentando. 10, 20, 30 minutos e nada… a ambulância chegou, tirou o cara de lá e eu fiquei olhando, agora mais de longe, que as tentativas de reanimá-lo continuaram dentro do veículo.

Queria muito saber se aquele cara ia sobreviver. Meu vô ficou um tempão tecnicamente ‘morto’, há 6 anos, e está vivo e serelepe hoje. O tio ainda tinha chances. Mas não dava mais para ver nada dentro da ambulância, e eu resolvi continuar caminhando, ainda que a trilha sonora no iPod desse uma dramaticidade muito maior à cena: era Let There Be Love, do Oasis.

Sob a benção da mesma música, caminhei mais uns passos e a cena seguinte tocou, novamente, meu coração: um casal incomum se despedia tristemente. Era um travesti beeem, digamos, inverossímil, quase com barba e várias tattoos de cadeia (mas tinha silicone, o que trazia um aspecto meio confuso pra cena) e um cara gigante, tipo segurança-de-boate-de-quinta. E sério, a cena era bonita. Eles tavam muito tristes, e se amavam muito. Não sei qual dos dois ia embora. Mas eu já tava abalada pelo episódio do velhinho, e somou-se isso à música que tocava de fundo, a situação toda virou quase um clipe da MTV.

Acabou que eu fui olhar qual era minha plataforma pra ir direitinho e tal: 23. Po! 23 é meu número da zorte/azar. Eu nunca vi aquele filme, mas nasci às 8h23 e passei uns 5 meses com o 23 me perseguindo em todo lugar que eu olhasse. Isso somado ao fato de que minha mãe tinha sonhado que eu morria, mais tudo que tinha acontecido com o tiozinho e minha epifania de ‘o amor existe’… fiquei em pânico. Eu precisava conversar com o motorista para descer duas cidades depois de Socorro, em Águas de Lindóia, mas nem ferrando eu tive coragem. Achei que tudo aquilo era um sinal pra que eu ficasse o menor tempo possível dentro daquele ônibus.

Mas deu tudo certo e eu cheguei bem e tal. No fim do festival de bizarrices, só não vi o que queria ter visto desde o começo – ETS! O lugar pra onde eu fui, próximo de MG, é conhecido por causa dos avistamentos de extraterrestres. Não tanto, contudo, quanto a Gran Sabana, na Venezuela. O último blogueiro do On The Road Again, Inti, foi para lá e conversou com o tio que falou não só dos extraterrestres, mas dos INTRATERRESTRES e dos ULTRATERRESTRES. Dá uma olhada (são dois vídeos):

artigopatrocinado2

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Fique longe da SPTrans enquanto puder

Na segunda passada, 2, passou a valer a nova lei do telemarketing. Para quem tá por fora, basicamente o novo estatuto proíbe que babacas cometam com a gente boa parte dos abusos aos quais já estamos acostumados – inclua aí espera infinita na linha, milhões de transferências antes de conseguir falar com a pessoa certa, dificuldade ilimitada para cancelar e outras coisas – leia todos os detalhes aqui.

Devo confessar que eu acreditei. Sim, acreditei que era tudo verdade e que as empresas cumpririam a lei no primeiro dia. Sou partidária da segunda chance. Devemos dar a todas as pessoas (ou instituições) a oportunidade de mostrar que são capazes de se redimir de erros cometidos anteriormente.

Como sempre acontece comigo quando concedo o direito à segunda chance, fui decepcionada. As empresas de telemarketing não cumpriram as regras. E não estamos falando só das clássicas Telefônica e Tim, amigos: nem a Anatel se adequou.

É por isso que não deveria ter me surpreendido com a saga que enfrentei para conseguir tirar a segunda via do meu Bilhete em SP, na semana passada. O cartão paulistano, maneira usada pela empresa para me pagar o vale-transporte e que permite pegar até 3 ônibus em até 3 horas por apenas uma passagem (e mais um metrô ou trem por 1,20 cada), parou de funcionar na terça passada e a partir de então eu comecei a gastar 10 mangos por dia para ir e voltar do trabalho.

Na quinta retrasada, levei meu cartão ao guichê da SPTrans na Santa Cecília e uma mulher que claramente não havia sido treinada para a função me atendeu muito rapidamente, quase sem fila. Pena que ela não seguia procedimento nenhum e foi muito difícil estabelece rum diálogo com ela e tirar algumas dúvidas básicas. No meio da conversa, ela achou uma rachadura de meio centímetro na parte de baixo do meu cartão (que de tão mínina eu não tinha reparado), alegou que era esse o motivo do problema e que se o cartão quebra o usuário deve pagar uma taxa humilde de – por favor, segure-se na cadeira – DEZESSEIS REAIS E DEZ CENTAVOS, que para o meu alívio e praticidade, já eram descontados diretamente do saldo do cartão.

Nessa, ela já tinha me acusado de ter mentido que o cartão estava quebrado para não pagar a taxa. De cara feia e insinuando minha desonestidade, rabiscou um número num papel e disse que eu podia retirar meu Bilhete em qualquer ‘terminal’, ainda que não soubesse dizer onde estavam os terminais, só onde não estavam.

Na segunda, 2, sai de Santo André e antes de ir trabalhar fui até o Terminal Lapa tentar retirar meu cartão. FAIL. Um papel sulfite pendurado porcamente no vidrinho, por trás do qual não havia nenhuma atendente, informava SEM SISTEMA. Tinha gastado condução a mais para ir até lá (é MUITO longe da minha casa) e voltei de mãos abanando.

No dia seguinte, liguei para a SPTrans antes de sair de casa e confirmei que o sistema havia voltado e eu poderia ir sem medo. Cheguei na Lapa às 12h30, atrás de uma fila de umas 8 pessoas.

Meia hora de fila e a coisa não andou. Um passo sequer. E cara, se esperar sem pagar por isso já é horrível, imagine esperar pagando DEZESSEIS E DEZ $$$$.

Acabou que a atendente era muito lerda e não dava a mínima se a fila estava dobrando a esquina. E eu, que entro (entraria) no trabalho às 14h e estava sem celular para avisar do atraso (estava decidida a resolver aquilo, já que cada dia adiado eram menos 10 pilas no bolso), tive que pedir para que um tiozinho guardasse meu lugar e fui comprar cartão telefônico para ligar pro trabalho e dizer que atrasaria.

Só consegui ser atendida às 14h30. DUAS HORAS DEPOIS, NUMA FILA DE APENAS OITO PESSOAS. É o cúmulo, deveria ser proibido que um serviço público fosse tão moroso e imprestável.

E é por isso que eu não me surpreendo que a Anatel, uma instituição do Estado, não cumpra as regras estabelecidas pelo próprio Estado. É porque aqui nesse país as coisas de fato não funcionam na ordem que deveriam. Não há qualquer sinal de respeito com quem é cidadão (ou consumidor, como bem observa o Doni nesse post). E eu nem tenho esperanças de que seja diferente…

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CFV(eS), ou Curso de Formação para a Vida (em Sociedade)

A sociedade se organizou de maneira a regular as atividades do indivíduo para restringir a possibilidade de que ele avance sobre a individualidade do outro. Isso, dito assim, soa fabuloso. Parece que a gente deu um jeito de fazer com que ninguém encha o saco de ninguém. Na prática, não funciona, e o Estado acaba se intrometendo na sua vida de maneira mais profunda do que seria justificável – algumas proibições, como a do casamento gay e a da eutanásia, acabam na verdade invadindo a individualidade de certas pessoas.

Por outro lado, o Estado se abstém de algumas relações e atividades humanas nas quais ele deveria sem dúvida intervir. Da mesma maneira que você é obrigado a fazer um curso de muitas horas para tirar carta de motorista, existem outras atividades do dia-a-dia que deveriam exigir uma habilitação.

Sé às 18h: mais eficaz para revolucionar leis da física do que o LHC

Andar de transporte público é provavelmente uma delas. A sociedade superestimou o homem quando achou que ele, por si só, seria capaz de se portar adequadamente dentro de uma máquina transportadora de alumínio junto com um monte de gente. As pessoas deveriam ser treinadas para isso. O curso para andar de ônibus, trem e metrô incluiria diversos módulos, a saber:

1. 8 técnicas para deixar o lado esquerdo da escada rolante livre para circulação sem ônus;

2. A importância de sair da porta se você não vai descer na próxima estação;

3. Higiene pessoal: as vantagens de banhar-se antes de pegar a condução, uso de desodorante e escova de dentes – o que é, como usar;

4. Idoso, grávida ou deficiente por um dia: sinta na pele o que é ter seu assento preferencial ocupado;

5. Como regular a altura de seu tom de voz de maneira inversamente proporcional à intimidade daquilo que você está relatando à sua colega de firma (e não o contrário);

6. Fone de ouvido versus alto-falante do celular: quais as vantagens de ouvir a sua música de maneira individual, maneiras de usar fones de ouvido;

7. Entrando: se a porta não fecha, é hora de esperar o próximo trem;

No final, o camarada que passasse no teste prático receberia um kit com desodorante, escova e pasta de dente, além de um fone de ouvidos.

Diante da popularização do computador entre as classes mais populares, faz-se necessário também sugerir a obrigatoriedade de um cursinho básico de informática, que seria requisito essencial para financiar um computador nas Casas Bahia em 36 vezes. Como um carro, o dono do PC seria obrigado a apresentar a habilitação para comprá-lo. No curso, além de informática, o cidadão aprenderia a ler e intepretar textos, a identificar fotos manipuladas, a não usar o drive de CD como porta-copos, a não escrever de maneira que ninguém consiga entender o que ele está dizendo. Além disso, seria fundamental aprender a diferença entre Software e Hardware, para compreender que não dá para ‘baixar o speedy‘ ou ir fisicamente até o Mercado Livre.

Outras orientações estabeleceriam regras quanto a publicação de fotos na rede. Velórios e cadáveres seriam terminantemente proibidos. Ensaios sensuais com tijolos sem reboque de fundo, em esgotos ou em palafitas também (não clique no último se estiver no trabalho).

Por último, o usuário de PC aprenderia português básico.

Clientes de banco, especialmente os mais idosos, deveriam poder passar por um cursinho intensivo de formação antes de receberem seu cartão. Em primeiro lugar, seriam instruídos a jamais compartilharem sua senha e númerio com aquele atendente de cara esquisita. Depois, seriam ensinados que podem sacar dinheiro direto no caixa eletrônico, de maneira prática e quase instantânea, e que não precisam tomar fila para fazê-lo na boca do caixa, criando uma imensa fila preferencial cheia de gente querendo sacar.

A verdade é que eu posso pensar em centenas de coisas que as pessoas não são capazes de fazer sozinhas de forma educada e satisfatória, e é por isso que talvez a solução fosse um curso para a vida no século XXI, ministrado quando as pessoas ainda fossem crianças – um lugar que ensinasse as pessoas a se portarem nas mais diversas situações respeitando os espaços dos outros e demonstrando cidadania.

Ouvi dizer que havia um lugar chamado ‘escola’ que fazia algo parecido, mas acho que é boato. Outro rumor dá conta que entidades chamadas ‘pais’ e ‘família’ também tinham papel nisso, mas eu nunca vi acontecer.

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Uma crônica sobre situações chatas de passar

Poucas coisas são mais constrangedoras nesse mundo do que as várias situações que envolvem encontrar na rua pessoas conhecidas ou quase conhecidas.

As possibilidades de constrangimento são inúmeras. Falo, hoje, de uma situação em especial: quando alguém te cutuca e você não se lembra da pessoa.

Ontem, porque a vida é uma caixinha de surpresas e isso nunca acontece, rolou um stress na estação de trem Tamanduateí. Enquanto eu corria de uma plataforma para a outra tentando pegar o trem certo, senti um toque (uh!) no meu ombro.

Me virei lentamente, e me deparei com a expressão sorridente e estranhamente familiar de uma menina que tinha mais ou menos a minha idade. Acontece que a familiaridade dela, na hora, me pareceu daquele tipo de ‘expressão que todo mundo acha familiar’. Sabe aquele fulano que, todo mundo que vê, diz que conhece de algum lugar? Então. Existem umas pessoas assim, de fisionomia familiar. Essa moça era uma delas. E eu sou boa de fisionomias… da dela, não me lembrava. Nada. Um tiquinho.

Na hora, desesperada com o sorriso de puro reconhecimento e contentamento da moça, minha mente entrou em parafuso. Tudo isso, gostaria de salientar, aconteceu em fração de segundos. O que você faria se alguém absolutamente desconhecido sorrisse para você de maneira simpática, claramente dizendo – ainda que sem pronunciar uma palavra – “olá minha grande amiga, é maravilhoso te reencontrar por acaso!”

Como ela não disse nada, só sorriu, eu tinha algumas opções. A primeira era dizer… “Oi?”, com um tom claro de dúvida, o que a faria dizer quem ela era. A segunda era corresponder alegremente e sorrir tanto quanto ela, mas essa nunca dá certo, a não ser nos filmes. A terceira… a terceira não existe, oficialmente, mas eu inventei-a na hora.

Eu disse, com toda segurança e auto-confiança adquirida em anos de terapia jungiana:

“Eu não te conheço.”

Não foi de maneira dura, ou ofensiva, contudo. Meus lábios até se curvavam num meio sorriso. Eu apenas afirmei, com toda a certeza, que nunca tinha visto aquela louca na minha frente.

Notei uma breve, mas quase imperceptível, mudança de expressão. Ela se virou para a amiga que a acompanhava e gargalhou. Voltou-se para mim, de novo, e disse: “você não é amiga do giu?”

E bem, aí fudeu tudo, porquê eu realmente sou, lembrei vagamente de onde a conhecia e a cena, que antes tinha TUDO ao meu favor, deu um rodopio. Pra caralho. Ela sorria, triunfante.

Gaguejando, eu disse que era, sim, amiga do Giu. A estranha começou a balbuciar coisas sobre outra amiga em comum nossa, eu fiquei sem graça e arrematei, claro, porque eu não consigo deixar de falar merda um segundo sequer da minha adorável vida: “ah, então eu te conheço. Quer dizer, eu não te conheço, porque não lembro de você, mas você me conhece…”

Antes que ela me estapeasse, perguntei seu nome – que, cazzo, não lembro, ou seja, foi só pra ganhar tempo -, e aquele silêncio palpável de tão denso se estabeleceu. Aí, antes que eu pudesse dizer tchau, ela foi mais rápida e rumou em direção ao lado oposto da plataforma. Sabiamente.

Moral da estória: da próxima vez, vou tentar ir só pelo “Oi?”, mesmo.

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