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Ah, Budapeste

Quem leu o livro do Chico Buarque já sabe, mas Budapeste tem esse nome porque é formada por duas cidades: Buda, do lado esquerdo do Danúbio (que os húngaros chamam de Duna) e Peste, do lado direito. Na verdade, há um terceiro distrito, Obuda, a parte velha de Buda, que se une aos outros dois pra formar o que é a moderna Budapeste.

Os húngaros, coitados, sofrem de crise de identidade. A primeira coisa que deveria chamar sua atenção quando você pisa na Hungria é que o nome do país, aquele pelo qual os húngaros mesmo o chamam, não é Hungria. É Magyarország. Por razões óbvias, vamos ficar com Hungria mesmo – a verdade é que os Magyar (a tribo que deu origem ao povo húngaro) foi confundida com os Hunos (do Átila), e aí fora do país deram o nome de Hungria. E assim ficou.

Ruas e prédios

Também foi de Chico Buarque a frase ‘O húngaro é a única língua que o diabo respeita’. E dá pra entender, também quando você pisa no país. Foi a única vez em todas as minhas viagens em que não era possível entender nada, nem inferir, por associação, nenhuma palavra que eu lia nas placas, nos banners em lojas, nas bancas de jornal. Mesmo na Grécia e em Praga deu pra se virar com leitura de placas; na primeira, porque se você se esforça pra aprender aquele alfabeto, não é tão difícil, e uma vez que consegue ler o que tá escrito algumas palavras são identificáveis. E a segunda porque o Tcheco, por algum motivo, tem algumas palavras com a mesma origem do inglês ou do latim, e muita coisa nos bares e nas ruas é escrito em inglês.

Estação de trem

Não em Budapeste.

A língua é uma barreira porque é impossível pronunciar o nome dos lugares onde você quer ir, por exemplo. E na capital a maioria dos húngaros não parece falar inglês. Só que eles não fazem disso um problema ou uma desculpa pra maltratar turista. Todos os húngaros pra quem eu pedi informação, falantes de inglês ou não, se desdobraram pra me ajudar – desenharam mapa, apontaram, o diabo a quatro.

Budapeste, como também disse o Chico, é amarela. O Danúbio, que de cara inspira bem mais respeito do que o Sena ou o Tâmisa, é amarelinho. É ele quem separa a cidade medieval, com suas ruelas emaranhadas de paralelepípedos, ladeiras, árvores e castelos, da cidade moderna, com avenidas paralelas, prédios de arquitetura neoclássica e comunista, transporte público bom e barato, o segundo metrô mais antigo do mundo, McDonalds e Burger King.

Vista de Budapeste

Centro

Budapest, pelos húngaros, é pronunciada assim com o “s” chiado, igual ao de um carioca, e o “t” mudo. E eles fazem questão de ressaltar essa pronúncia, mesmo se estiverem conversando em inglês com você, o que é raro. Quer dizer, quando você fala pra um gringo “I’m from Brazil”, você pronuncia “Brazil” do jeito deles, não do seu.

Os húngaros foram oprimidos pelos turcos, pelos otomanos (minha tribo primitiva preferida. Certamente era um monte de maluco da periferia e tal), pelos alemães, pelos russos. Eles perderam praticamente todas as guerras em que estiveram envolvidos. Hoje, são a parte pobre da cisão do que era o império Austro-Húngaro. A desigualdade social, especialmente fora da capital, é grande. E não deve ser legal passar por isso especialmente se a gente considerar a situação da Áustria, que tá numa boa com seus bons drink.

Mas nem tudo podia ser ruim pra eles, sabe. A cidade não foi só abençoada com o Danúbio, as colinas hipnotizantes, o castelo, a arquitetura incrível ou o povo gentil. TEM MAIS: Budapeste fica sobre uma das maiores fontes termais da Europa. E quando os Turcos chegaram lá, há mais de 500 anos, eles acharam que fazia sentido instalar em um lugar desses suas famosas cadas de banho. Hoje, os banhos são parte da cultura de Budapeste, e sinceramente, é o tipo de coisa que você precisa fazer se for pra lá. Eu NUNCA ACHEI que podia ficar seis horas dentro de uma piscina quente com cheiro de enxofre e ainda me sentir muito, muito bem depois disso. Sem contar a arquitetura do lugar, fantástica – as piscinas e o prédio foram construídos por turcos em 1500 e qualquer coisa.

Rudas Bath, o banho termal que eu visitei

E Budapeste, ao contrário de muitas capitais europeias, não dorme. A qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia e da noite, dá pra encontrar gente na rua, um mercadinho aberto, um bar tocando música. E acho que isso conclui, junto com a cerveja de um euro e o vinho de 80 centavos, os motivos pelos quais Budapeste foi minha cidade preferida. Entre todas.

Ficou com vontade de ir?

Eu apoio. E ainda dou umas dicas…

Budapest card
Um cartão que dá direito a transporte público de graça, descontos em atrações turísticas e restaurantes, em museus e nos banhos termais. Tem versões pra um, dois e três dias e realmente vale a pena se você for ficar lá pouco tempo e quiser fazer bastante coisa. Você pode comprar direto no site.

Hostel Casa de La Musica
Casa de la música

Foi aí que eu fiquei a maioria dos dias e foi o melhor custo-benefício da minha viagem. É uma escola de música, centro cultural e tem um bar e um bar-restaurante. É barato – algumas noites saíram por 6 euros! -, bonito e muito limpo, fica no centro, de fácil acesso ao metrô. Tem café da manhã quente e frio, por 4 e 3 euros, respectivamente, cozinha, chá e café a vontade e Wi-Fi na sala comum. E uma piscina inflável, que eu suponho, só deve ficar lá no verão.

Maria Hostel
Caído, sujo e aparentemente serve como residência estudantil, além de hostel. Parece bastante uma escola. Mas tem quartos exclusivos, single, por 17 euros.

Metrô
É o segundo mais antigo do mundo (só perde pro de Londres), e funciona bem, apesar dos trens antigos. O bilhete custa 1 euro. Os metrôs não tem catracas, mas o que eu mais vi foi fiscal multando turista, inclusive aqueles desavisados, que tinham bilhete mas não os validaram na máquina antes da escada rolante. Sério, acho que rola uma indústria da multa de pobres turistas que não podem ler húngaro, porque se a pessoa tem o bilhete e é turista, compreende-se se ela não soube validar, até porque não tem aviso nenhum em inglês.

Táxi
Baratos – uma corrida do centro de Peste a Buda não passou de 1200 forints – mas pelo que eu entendi, vão te sacanear. Se possível, peça direto do hotel/hostel, ou ligue para uma companhia. A maioria dos taxistas não fala nada de inglês.

Free tour
Como toda cidade europeia, Budapeste tem um free tour, isso é, um tour guiado que não funciona com valor fixo, só com gorjetas no final. Achei o de Budapeste historicamente meio raso, mas é ótimo pra quem quer ir mais fundo na cidade – as guias são húngaras e, se você perguntar pra elas no final, consegue dicas excelentes de lugares pra sair e pra comer. Pra saber os horários e de onde os tours saem, visite o site oficial. A mesma companhia também faz um tours (esse pago) do castelo, mas eu não fiz, então não saberia dizer se é bom ou ruim.

Banhos termais
A maioria dos banhos termais turísticos está ao longo do Danúbio, do lado de Buda. Eles custam, em média, 3 mil forints (ou uns 12 euros), mas saem mais barato com o Budapest Card. Uma coisa importante é checar a modalidade de banho que vai rolar no dia em que você pretende ir, pras coisas não ficarem esquisitas. Tem dia de banho misto, dia de banho só de homem ou só de mulher, dia de banho com ou sem roupa. Ah, leve uma toalha.

Outras coisas que você deve saber

  • Utca., que você vai ver bastante, é ‘rua’. E se pronuncia ‘útça’.
  • Um monte de húngaros se chama Gábor ou Lazlo, e na Hungria, meu nome seria Freitas Ana Paula – eles escrevem o sobrenome primeiro.
  • Palinka é a bebida oficial húngara. É feita de ameixas, principalmente, mas eu tomei uma de maçã. Possui modestos 40% a 70% de álcool na composição, por isso É BOM FICAR LIGADINHO nas consequências do consumo excessivo.
  • Os húngaros comem bastante sopa, batata e schnitzel, tipo um filé de carne de porco empanado.
  • Eles tem um calendário – não me pergunte como ele funciona – que diz que cada nome, dependendo da letra com a qual começa, tem uma semana de aniversário.
  • Cortar o cabelo é barato (pros padrões europeus) e tem um salão a cada esquina no centro.
  • O Mercado Municipal, apesar de ser listado como uma das atrações a se conferir, não é nada além de um… mercado municipal. O prédio é bonito, mas se você já viu o mercadão de SP, nada ali vai te surpreender. Vale se você quiser comprar linguiça tradicional húngara, ou mostarda, que são boas e baratas. Ah, também vende Foie Gras a preços atraentes.
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Cidade do Panamá for dummies

Como vocês notaram, o design mudou, mas por enquanto só funciona no Chrome. Peço paciência: meu programador prometeu que arruma até hoje (sexta, 28) e eu tô confiante.

O Panamá é um lugar legal e quente pra caramba, quente demais. É tipo uma sauna a céu aberto: todo lugar tem um ar condicionado muito, muito frio, e quando você sai parece que entrou em um carro que ficou 8 horas no sol, sabe? Aí, você tem choque térmico e fica doente. Eu fiquei quando cheguei, mas agora já tô boa. Parei de suar, também. Você chega e fica suando que nem um porco, o tempo todo. Depois de uns 3 dias passa, acho que o corpo se acostuma ao calor. O lado bom: tô bebendo litros de água todo dia.

Tô aqui na casa do meu pai, um apartamento de três quartos no 18º andar de um bairro que é tipo uma Vila Mariana, por assim dizer. Se chama El Cangrejo. É um bairro bom, e dá pra fazer bastante coisa a pé, que é o que eu tenho feito.

A vista da sacada do apartamento

Aqui na Cidade do Panamá nao tem misééééria, assim. Não tem gente que mora na rua. Rolam alguns poucos pedintes, que geralmente se focam nos turistas, e tem uns cortiços. Mas também não tem classe média: é tipo classe AAA, classe A e classe C, uma classe C que aliás tem acesso a bens de consumo porque aqui tudo é muito barato – roupas, comida, eletrônicos. Então não tem mendigos maltrapilhos, porque uma calça jeans em um oulet custa entre 5 e 10 dolares, e uma camiseta, 1,50 dolar. Ah, sim: a moeda oficial se chama Balboa, mas eu só vi Balboas de um centavo. A moeda que circula é o dólar. Mas digresso: dá pra comprar camisa da Lacoste com pequenos defeitos – sabe, uma costura rasgada, uma manchinha – por 8, 6 dolares. Entao fica todo mundo NA ESTICA. Não tem gente passando fome, não tem analfabetismo, a educação é barata e todo mundo que quiser fazer faculdade de graça faz, porque tem vaga pra todo mundo.

TODO A DOLLAR

O TODO A DOLLAR é uma loja que vende tudo por um dólar. E quando eu digo tudo, realmente quero dizer tudo

Geralmente, nos dias de semana, eu saio pra dar rolê em algum dos lugares interessantes na cidade – um parque, um ponto turístico, uma avenida com lojas baratas – ou vou ao shopping garimpar roupas em promoção. Já fiz compras suficientes pro meu dinheiro acabar, o que provavelmente significa que não vou conhecer as ilhas paradisíacas na costa do Panamá, mas isso não me incomoda muito a essa altura. Há muito para se ver na Cidade do Panamá e nos arredores, e por pouco dinheiro.

Ruínas

Uma parte das ruínas de Panamá La Vieja, vista de cima de uma catedral que tem uns 500 anos

Já fui a Panamá La Vieja, que é o local onde a primeira cidade do Panamá foi construída – quer dizer, uma vila medieval, em 1530, e a região ainda tem um monte de ruínas. E só são ruínas porque um pirata-bucaneiro sacana chamado Henry Morgan (que não é pouca merda, tem até verbete na Wikipedia) passou aqui em 1650 e qualquer coisa e botou fogo na porra toda. Só sobraram umas pedras, mas são pedras bonitas, de todo modo. Também fui a um lugar chamado Causeway, uma via tipo avenida-da-praia, mas com mar dos dois lados. Liga a costa a uma ilha próxima e foi construída com areia que tiraram do Canal. É um lugar lindo, com ciclovia e coqueiros margeando o espaço todo, um porto com barcos, lojas e coisas pra turista ver na ilha e uma paisagem estonteante.

Causeway

A Causeway

Conheci poucos panamenhos – só o sócio do meu pai, o Ernesto, um baixinho atarracado gente fina, a faxineira aqui de casa e umas amigas da mulher do meu pai. Da minha idade, ninguém. Para os padrões de beleza brasileiros, o panamenho ou panamenha média podem ser considerados feios, o que nos torna – a mim e ao meu irmão – muito lindos ou muito exóticos. E eu presumo isso porque todo mundo fica olhando pra gente quando passamos em um lugar muito panamenho.

Barcos

E aí, tamo gato?

Aqui tem uma cultura à estética forte, maior do que no Brasil. Tem um salão de beleza a cada esquina, e as mulheres agendam horários pela manhã pra fazer escova todo dia antes de ir pro trabalho. Na rua, os homens mexem com qualquer ser do sexo feminino que esteja de shorts, de taxistas a funcionários da prefeitura em carros oficiais. A altura média de um homem panamenho é a minha, meio que 1,65, o que tira um pouco do impacto das cantadas.

Na média, nos estabelecimentos comerciais, os panamenhos atendem mal, porque ganham mal e porque não têm simplesmente uma cultura de ‘gentileza’ com o próximo. Mas há exceções, especialmente nas regiões com muitos estrangeiros. E muita gente é bem simpática, atenciosa e receptiva com turistas. Reparam que você precisa de informação e se oferecem pra ajudar, dão toques sobre onde e como ir e onde e como não ir, perguntam de onde você é e se está sendo bem tratados e até arranham umas palavras em português. São um povo muito HOSPITALAR, como diria o Zanata.

Aqui come-se muito, muito bem e por muito pouco. Os fast foods, que têm de monte, e os supermercados têm todos padrão americano, das porções exageradas às marcas. Mas há restaurantes de todos os tipos a preços ridículos – o próprio preço do McDonalds, que vende um número de Big Tasty, que aliás é maior do que no Brasil, com batata grande e refrigerante grande pro 4 dólares, já é um bom termômetro. E todo lugar tem brownies – alguns melhores, outros piores, mas eles estão por todo lugar.

O trânsito daqui é maluco, só tem SUVs, aqueles carros americanos grandes, tipo TUCSON, porque eles são ultra baratos: custam tipo 7 ou 8 mil dólares. E todo mundo dirige que nem retardado, como naqueles vídeos de trânsito na Índia, onde não há regras. Nego fecha cruzamento, buzina pra tudo, costura no trânsito, passa a 15 centímetros de você quando você atravessa a rua e tudo isso é muito comum. Atravessar a rua aqui exige, inclusive, uma inteligência que não é nata pra nós, acostumados a outro tipo de lógica de trânsito. É kamikase: bote o pé na rua, mesmo que o carro esteja vindo, calcule se será possível correr e corra. Ele não vai diminuir a velocidade e é possível que acelere. Mas se você for esperar ‘dar tempo’, vai ficar 10 minutos parado na calçada. E é permitido passar no farol vermelho se, por exemplo, você estiver na pista da direita e for entrar a direita em uma via cujo fluxo corre nessa direção.

Trânsito panamenho

Desse ângulo dá pra ter noção que não é possível aceitar a maneira como os carros estão dispostos na via

Ah. Tem uma avenida chamada VIA PORRAS, e uma cidade próxima chamada BOQUETE.

Não tem poluição, nem violência, e a cidade é pequena – o país inteiro tem 3 milhões de habitantes, e a Cidade do Panamá tem 1,5 milhão. Vive-se com muito, muito mais qualidade de vida do que em SP. O pôr do sol é lindo, todos os dias. E apesar de ser uma grande metrópole e ter muitos prédios, não é o suficiente para impedir uma vista foda do pôr-do-sol todos os dias.

Pôr do sol

Pôr-do-sol em um dia mais feio, assim

Os panamenhos são como portugueses perdidos na América Latina – digamos que eles entendem as coisas um pouco ao pé da letra demais. Tem um bandejão servindo frango com batatas, e você quer só batatas: não pode, leve o frango junto e joga fora se quiser. No meu primeiro dia, eu precisava de um benjamim (gente, que nome estranho que isso tem em português. É um nome próprio. É tipo chegar na Rússia e descobrir que CABO USB chama, sei lá, Roberto. E aí?), e fui arranhar meu portuñol numa loja cheia de trecos elétricos.

- Yo queria algo así como un… adaptador. Si, un adaptador – diante da cara de confuso do tio, eu completei – para plugs…?
- Hum… no, no tenemos. Lo que tenemos és solo esto – disse o tiozinho de óculos, me mostrando um benjamim.
- Por supuesto, era isto que yo buscava. Todavía, como se llama esto?
- Adaptador.

TRUE STORY.

Eu batizei de Panamense o espanhol falado no Panamá, que é um pouco fanho, suprime consoantes e principalmente os S das palavras, além de misturar inglês com sotaque latino no meio: bonito é PRITI, com aquele T da Moóca, se o mar tá sem onda ele tá FLÁT, um gato feliz é um RÁPICAT. E eu sofro pra entender a YAMI (pronuncia-se JAMIL, mais ou menos), a diarista aqui de casa. Outro dia ela chegou e começou:

- Ana DIATUPAPA QUESEABOELSUAITEL – é, foi assim mesmo.
- AHN – essa fui eu, chocada. Ela repetiu, ficou igual. Pedi – Habla mas de espacio, por favor. No te entiendo.
- DIRRATU PAPA QUE SE AGABO EL SUABITEL.
- Humm… que és SUAVITEL?, perguntei. Pelo menos tinha entendido a lógica da frase.
- NOSABE QUE ÉS SUAITEL?, continuou YAMI, um pouco esnobe.
- No.
- EPA ENAUÁLAROPA.

Outro desafio. Respirei fundo.

- QUÊ? (por incrível que pareça, eles entendem um ‘QUÊ?’)
- ENAUÁ.
- AHHHNNN???
- E-NA-UÁ!

E num golpe de sagacidade extrema, consegui deduzir que ela estava dizendo ENJUAGAR, panamense para o nosso bom e velho ENXAGUAR. Ah, Suavitel é amaciante.

ENAUÁÁÁÁ

Esse texto, ou quase ele, é o que escrevi aos meus amigos mais próximos ontem a noite sobre o lugar onde estarei pelo próximo mês e onde passei as últimas duas semanas. Todo mundo gostou tanto que resolvi editar e publicar aqui – e pensando bem, é um bom guia da Cidade do Panamá pra quem não faz ideia de como é esse lugar, ou seja, todo mundo que não mora na Colômbia ou na Costa Rica ou no máximo no Peru.

Volto ao Brasil no dia 28 de fevereiro e no dia 15 de março embarco para a Holanda, onde fico por um ano, e onde terei (suponho) outras impressões como essas pra dividir. Não que eu não vá publicar mais nada sobre o Panamá, já tenho mais posts no gatilho. Um deles é sobre compras: aqui é tão legal pra fazer compras que eu comprei até uma lâmpada do gênio.

A lâmpada do gênio

Eu sei que é inútil DEPOIS DO ÚLTIMO DESEJO, mas foi só 7 dólares

Ah, se você gostou da amostra grátis no post, dá pra ver todas as fotos que eu tirei no meu Flickr.

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Os taxistas do Panamá

Amarelinhos, como os do Rio (com a diferença que são meio velhos, as vezes batidos, sem placa etc)

Não é fácil ser taxista no Panamá. É que, pra começar, aqui não existe taxímetro. Eles usam uma tabela de preço (cuja lógica eu não entendo e, como turista, somente acato) que determina o valor de acordo com a região em que você está e a região aonde você vai. Até aí, ok, só que o que eu ainda não mencionei e estarei mencionando no próximo período é que esse valor raramente passa dos 2,50 dólares.

É isso: a corrida mais cara que um taxista padrão no Panamá faz custa 3 dólares, e só. Se você for sair de destinos turísticos, como o Canal ou o aeroporto, o valor pode aumentar muito, mas no dia-a-dia você pode usar só táxi. Mas não vai dando sinal pro táxi e entrando assim, na moral, pra depois dizer pra onde você vai – precisa dizer o destino antes de entrar, porque pode ser que o taxista não esteja indo pra lá, sabe como é (é sério, e fica pior).

O lance é que, de taxi, além de gastar pouco pra se locomover bastante (se ficar esperto, porque a Lei de Gerson é bem pior aqui do que no Brasil), você pode fazer amigos. E não é pela simpatia dos taxistas – até porque, ainda que simpáticos, esse espanhol panamenho é bem difícil de pegar. É porque, no meio do caminho, o taxista pode parar pra pegar outros passageiros. Quantos ele quiser.

Tá vendo essas pessoas dentro do taxi? PODE TER CERTEZA QUE ELAS NÃO SE CONHECEM

E assim, a regra diz que o primeiro passageiro deve ser deixado primeiro, e que a rota do segundo ou do terceiro ou do quarto passageiro deve fazer sentido dentro da rota do primeiro… mas na prática, se você estiver dentro de um taxi e alguém der sinal, o taxi vai parar ONDE ESTIVER (MARGINAL TIETÊ? Esquece, ele para. Nem liga o pisca alerta), e se a outra corrida for mais vantajosa e a sua corrida for atrapalhar a rota da nova corrida, bom, ele vai pedir pra você descer.

Normal, a vida é feita de desencontros E de rejeições, e no Panamá você pode sim tomar um fora de um taxista. Por que eles podem ganhar pouquinho, mas têm direito de escolher COMO e SE vão fazer a corrida. Em tempo: eles também vão parar pra abastecer, vão te dar troco errado de propósito, vão parar no McDonalds pra tentar trocar a nota de 20 do camarada que está sentado no banco da frente porque estão sem troco, e também pode acontecer de você entrar num carro MUITO VELHO, com o vidro da frente quebrado, sem cinto de segurança, que faz uns barulhos estranhos. E aí você vai pensar ‘cara, só faltava essa taxi quebrar’, e obviamente o taxi vai quebrar no meio de uma via expressa, o motorista vai falar várias coisas que você não compreende enquanto empurra o carro, e você vai dar um dólar pra ele, desejar SUERTE e dar sinal pro próximo táxi, que não demora nem 30 segundos, porque a cidade é apinhada deles. TRUE STORY

Meu brother de corrida, todo pimpão depois de conseguir trocar a grana no Mc pra pagar a corrida



Pra não dizer que eu tava mentindo, tá aí o valor da corrida: 1,50 dolar

Uma das coisas que não dá pra entender é porque esses caras cobram tão barato (ok, depois dessa incrível história dá, mas siga meu raciocínio). Quer dizer, isso foi um recurso retórico: primeiro que o custo de vida aqui é baixo porque os salários são baixos, segundo que essa maneira de cobrar é determinação do governo. Mas quero dizer que eles poderiam tranquilamente cobrar mais porque não dá pra considerar pegar ônibus aqui. Nem sequer cogitar.

Os ônibus aqui, pasme, são de condutores privados. Isso acarreta coisas curiosas:

  • Os motoristas donos dos ônibus pintam eles de maneiras teoricamente atrativas, pra que você possa então optar pelo ônibus dele;

"MEU ÔNIBUS É UMA LINDA OBRA DE ARTE E VAI COM CERTEZA ATRAIR MAIS PASSAGEIROS"


Olha a variedade de cores e decorações e - REPAROU NA QUANTIDADE DE TAXIS?

  • Ele enfia quantas pessoas ele quiser dentro do ônibus dele;
  • Se em SP, onde o transporte é público, os motoristas de ônibus são conhecidos pelas várias atrocidades que cometem, imagina se o ônibus for SEU e você não dever NADA PRA NINGUÉM? Negócio é o seguinte, nego dirigindo que nem um maluco, gente expurgando pelas janelas, quatro pessoas sentadas em um banco pra duas em um calor de 30 graus com sensação térmica de 40 por causa da umidade. AGRADÁVEL.

Esse post faz parte de uma série que vai rolar no blog a partir de agora. Cheguei no Panamá há dois dias, e fico aqui até o fim de fevereiro, reportando as bizarrices de um país minúsculo esquecido logo na entrada da América Central. O Panamá, como você vai ver, não é o Paraná, nem, o Amapá, como algumas pessoas já insistiram para mim, e tem pouco de Brasil e muito de EUA, de México, de América Latina, somado a um calor bizarro, gente com cara índio, trânsito terrível e uma população multicultural.

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Turismo de realidade: a maior prova de que as pessoas estão entediadas

Puxa vida. Se tem um mercado que eu nunca vou entender, é esse de coisas para cachorros. Não as coisas básicas, tipo ossinhos, brinquedos, comidas recheadas ou coisa assim. Mas as coisas DESNECESSÁRIAS para cachorro, como camas, jóias, roupas. E eles sempre dão um jeito de fazer um trocadilho com a palavra CÃO nos nomes desses produtos, tipo… Cama para cachorros DORMINHOCÃO.

Eu acho que dificilmente algo pode ser tão estúpido quanto vestir um cachorro de papai noel no Natal.

Roupas para cachorros

Atentem para a coleção de FESTA na Bardout – Pret-a-Porter

Não, tem algo mais estúpido que isso. É pagar para visitar favelas.

Cara, legal. As pessoas se orgulham de morar nas favelas. É uma comunidade, tem todo um ecossistema, mas assim, eu tenho umas ressalvas. Primeiro, o estado das casas não é exatamente algo que eu consideraria ideal. Tipo, se me dissessem ‘qual a casa dos seus sonhos’, eu não imaginaria nada que fosse construído com compensados de madeira. E duvido que essas pessoas que se dizem felizes na favela imaginem uma belo barraco com cerquinha branca na frente.

Mas beleza, na favela não tem só barraco, tem umas casas de alvenaria sem reboco e sem pintura. Esteticamente não é uma visão exatamente ideal, como eu disse, ninguém imagina a casa dos sonhos sem pintura. Mas não é tão ruim assim.

Outra ressalva provavelmente é a ausência de poder público em todos os níveis. Tipo, rede de esgoto e de saneamento básico falha ou nula, rede elétrica falha ou nula. Essas coisas são um problema, é preciso admitir. Dá pra ir levando, ok, mas é um problema.

Outra coisa é que o tráfico normalmente vive na favela. E faz os negócios lá. E pô, acho mó legal que eles protejam a comunidade, mas esse negócio de ter as próprias leis eu acho esquisito. Me incomoda um pouco. Me incomoda também, ligeiramente, o fato de eles andarem armados. Armamento pesado, à luz do dia (como se à noite fizesse diferença, mas vocês entenderam), passeando entre as crianças. Repito, nada contra, mas acho que não é o que ninguém idealiza como vizinhança perfeita. Tem os tiroteios com a polícia também, algo que me deixa um pouco desconfortável.

Coisas como essas me afastam da favela e me fazem desejar que as pessoas (as insatisfeitas com a favela) tenham condições de morar mais dignamente.

Ok, daí os gringos acham essas coisas exóticas, né. Pra eles é tudo muito exótico, muito ‘olha como esse seres primitivos se organizam socialmente’. E eles PAGAM para visitar as favelas, no chamado Ghetto Tour ou Tour da Realidade. Puta merda, minha vida inteira eu tenho pagado (e muito) para ficar LONGE delas. E os caras vêm de fora e acham tudo muito interessante.

Beleza. Acho legal, que daí eles gastam dinheiro na favela (mas como bem observou esse post do Cracked, não podem colocar MUITO dinheiro na favela, senão os pobres ficam ricos e aí o propósito se perde), mas é assustador que alguém um dia tenha tido uma idéia dessas. E é por isso que eu não sou rica, me falta esse faro elementar para negócios.

Pelo que andei lendo, o guia turístico deve ser alguém da comunidade, pra conseguir entrar com os gringos lá sem tomar pipoco dos traficantchi. E os traficantchi, que de bobos nada têm, recebem parte da grana para manterem os gringos intocados na inocente excursão.

Isso deveria ser crime, né? Mas acho que não existe nada na constituição que diga que é proibido pagar um traficante para que ele não mate estrangeiros acompanhados de um guia turísticos. Advogados, me corrijam.

Crime ou não, têm um site (aliás, 1995 ligou e pediu o layout de volta): www.favelatour.com

E daí é isso, eles vêm pro BRAZIL, pagam uma FACADA pra poder entrar na favela e comer, sei lá, churrasco grego, jogar sinuca e tomar cachaça no buteco e ver os soldados do morro empunhado os AK-47 à luz do dia. Basicamente tudo que gostaríamos de manter longe (e erradicado, se possível).

E eu posso imaginá-los escolhendo o roteiro de viagem e dispensando as Ilhas Malvinas ou os Alpes. Posso vê-los, entediados com seu dia-a-dia de primeiro mundo, cheio de civilidade e cidadania e Estado atuante. E daí eles pensam: ‘Pô, eu vou agora assistir às pessoas fudidas do mundo. Sim, é isso que vou fazer. E vou pagar por isso. Vou ver de perto.’

E olha, é até menos esquisito do que uma nova modalidade de turismo de realidade que está pegando: vivenciar a tentativa de imigrantes de cruzar ilegalmente a fronteira entre México e os EUA. Lembra da Sol, escondida dentro do porta-luvas debaixo do sol do Atacama Arizona? Pois é, amigo. Tem gente pagando pra viver essa experiência enriquecedora e inesquecível. Duvida?

Perto disso, nem dá mais pra falar um ‘a’ de quem veste o Chow-Chow de papai-noel no fim do ano. Na verdade, isso se torna até muito sensato.

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On the road again: 6 sites que você precisa visitar antes de viajar

On The Road Again - blogueiro oficial!

Que alegria! O fim do ano chegou e trouxe com ele (se você não for eu) as tão aguardadas férias. E o que é que a gente (eu não ok) faz nas férias? Viaja.

Só que preparar a viagem, por si só, é uma dor de cabeça enorme. Escolher destino, pesquisar preços de passagens, lugar pra ficar, grana, onde ir, o que levar… se você fizer tudo direitinho, o stress pré-viagem será compensado pelos bons momentos da viagem em si. E alguns sites podem te ajudar inclusive a reduzir esse stress e a planejar as coisas com mais traqüilidade. Usando essa lista aqui e um pouco do Google, cheguei alguns endereços essenciais para facilitar a vida de quem quer sumir por uns tempos. Dá uma olhada:

6. Free travel guides

Você vai viajar pra um lugar legal (nos EUA ou no Canadá). Daí lê um monte de coisa na internet e resolve comprar um daqueles guias do National Geographic que vendem em qualquer banca de jornal. Mas quando chega lá o Guia Júnior tá saindo por tipo R$114,90. Oi?

O Free travel guides te salvou dessa. Porque ele disponibiliza, como o nome muito sabiamente explicita, Guias de Viagens Gratuitos para os EUA e Canadá. Entra lá, escolhe o destino, baixa o guia (ou pede pra enviar pro seu e-mail) e fique por dentro das fitas de mais alta periculosidade rolando pela América.

5. Planet Love – the foreign bride guide

Você, gringo, está louco para arrumar uma asiática/latino americana, ter uma relação feliz e duradoura, casar-se, ter filhos e morar numa linda praia em Santa Catarina/Dubai?

Sua busca se tornará muito mais fácil com o incrível Planet Love – the foreign bride guide, que ensina tudo sobre como conquistar e desenvolver relacionamentos sérios com mulheres que estão loucas atrás de um gringo rico porque moram em países subdesenvolvidos então seu trabalho nem deve ser tão difícil assim asiáticas e sul-africanas. O site reúne informações sobre costumes, dicas sobre como ‘cortejar’ a garota (sic) e se tudo der certo, até informações legais e burocráticas sobre como casar com um estrangeiro.

Tem, inclusive, um relato super romântico de um casal que visitou o Vulcão Totumo, na Colômbia, e tomou banho no lodo com propriedades afrodisíacas medicinais do Totumo, mais ou menos igual ao que o Patton (só que sozinho):

Só um alerta: se estiver com sua gata latino-americana ou asiática no lodo, por favor, não use o notebook dentro da piscina de lama. Acho que a nerdice pode asssustar.

4. World Taximeter

ISSO SIM é útil. Porque taxista é, segundo o IPI-Olhômetro/Census, a terceira profissão que mais engana pessoas por dia ao redor do mundo. O tem uma lista de cidades famosas turisticamente (mas não dá pra escolher qualquer cidade do mundo. Isso é o grande problema, aliás, não tem nenhuma cidade no Brasil) e basta escolher o lugar, onde você está e pra onde vai para calcular o preço da viagem e não ser enrolada por nenhum taxista sacana.

3. Don’t forget your toothbrush

Você cria um cadastro e ele cria pra você uma lista personalizada (baseada no que você escolher e nas características da sua viagem) do que NÃO esquecer de levar ou de fazer antes de viajar. Só esse já resolve 80% dos problemas que costumam acontecer quando a gente viaja. E é de graça.

2. The guide to sleeping in airports

Se você é, como eu, uma pessoa econômica, vai achar esse útil. Nesses mochilões, pode ser muito econômico passar uma (ou duas, ou três) noites no aeroporto. Sabe como é. E esse site é seu melhor amigo. Ele indica os aeroportos mais apropriados para uma soneca (e os menos), dicas para não ser incomodado e outros macetes, tudo endossado (ou não) por outros praticantes desse esporte ao redor do mundo. Em época de crise global, nada mais apropriado.

1. Couch Surfing

A essa altura do campeonato você já deve ter ouvido falar de Couch Surfing, mas como meu dever é informar os que ficam para trás nessa avalanche de informações que nos soterra diariamente, ouça atentamente: couch surfing é a prática de contatar pessoas comuns ao redor do mundo que abrem suas casas (e sofás) para viajantes sem grana. A idéia é hospedar alguém na sua casa e, além de fazer um viajante feliz, fazer um intercâmbio de culturas. O site serve para quem quer receber viajantes ou para quem precisa de um sofá em algum lugar do mundo, além de abrigar depoimentos de couch surfers sobre residências confiáveis (e também dos anfitritões sobre os viajantes).

Antes que alguém fale sobre o perigo de receber desconhecidos em casa num mundo perigoso desse… é sim, é um risco a se correr. Mas parece que as coisas estão dando certo, ou a prática não teria se difundido.

artigopatrocinado2

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