27 de abril de 2011 às 12h24
Garota de Berlim por dois dias
Em dois dias em Berlim, eu vi mais de quatro pessoas com o nariz sangrando. Some isso à fama de belicosos dos alemães e você pensará que lá todo mundo se soca frequentemente. Mas não se tratava de porrada comendo solta, é claro, dado que os Berlinenses são muito tolerantes e civilizados: era só o sol forte no cucuruto (ou cocoruto? ou cucoruto?) mal acostumado às altas temperaturas o provável causador da hemorragia coletiva.
(Pronto, esqueceu o título infame, né? Vim aqui te lembrar)
Classificam Amsterdam como a capital do ‘aqui pode tudo’, mas Berlim sim devia ficar em primeiro no quesito tolerância. Porque lá, apesar de tudo, os imigrantes parecem bem mais misturados aos nativos do que seriam aqui ou na Bélgica, por exemplo. E as pessoas são diferentes como querem. Há uma desorganização natural de cidade muito grande em Berlim, que chega até a lembrar São Paulo, e que permita que todos os tipos de habitantes de centros urbanos saiam das tocas como queiram e a hora que queiram. Dez da noite, óculos escuro, cachecol e bermuda em um frio de 8 graus? Ok. O sol torrando às 14h e chega um grupo de sobretudo, cabelo roxo e mais piercings do que eu fui capaz de contar? Ok, também. Esses tipos são mais difíceis de encontrar em Amsterdam, que é mais uma praça da Sé da Europa. Berlim é como a Augusta daqui.

Em Berlim, souvenir é ushanka (o chapeuzinho russo), máscara de gás e bandeira com a foice e o martelo
Dizem que os alemães são travados, frios. Mas em poucos lugares do mundo um grupo de quase duas mil pessoas sóbrias, dentro de um parque em um domingo de sol, se disporia a participar de um karaoke a céu aberto. Na maioria dos lugares que eu conheço, o MC responsável pela ideia teria dificuldade em encontrar gente sóbria com coragem de se apresentar informalmente em frente a um bando de gente desconhecida. No Mauerpark, em Berlim, as mais de cinco horas que o dono do karaoke dedica à atividade são poucas diante da quantidade de gente que escolhe uma canção pra interpretar. Tem de tudo, de gente tímida à performances dignas de um Berliner Idol.
E se, dizem, Milão é espelho das passarelas, Berlim é o que dita o que estará nas passarelas ou não. O engraçado é que lá todo mundo se veste bem, homens e mulheres, dos 12 aos 72. E quando você olha pra todos eles fica muito claro que eles não fizeram esforço nenhum pra se vestir tão bem, e a maioria nem sequer gastou muita grana. Eles simplesmente sabem.
Berlim tem museus estonteantes. Digo, isso é o que tava escrito no folhetinho e o que dava pra dizer só de olhar os prédios de fora. Eu só fui mesmo em um deles, que aliás, deveria ser o único museu a visitar em Berlim se você for escolher só um museu para ir em Berlim.
Chama Pergammon e tem milhares de obras de arte e artefatos super ultra muito antigos. Tipo, o Pergammon levou o conceito de MUSEU realmente a sério aqui, porque as peças mais novas têm algo como uns 2200 anos. Tem um templo grego quase inteiro montado dentro do museu. Tapeçarias árabes de 3000 anos atrás, jóias, vasos, estátuas com textos em Aramaico ao longo do corpo são comuns nos corredores. É impressionante. E também faz você se sentir insignificante, mas acho que essa deve ser a definição de um bom museu: ele te faz sentir insignificante.
Contrariando meu post anterior, eu resolvi pagar um tour guiado por Berlim. Em espanhol, mesmo sabendo que teria problema em acompanhar o espanhol ibérico, já que – apesar de mais fácil, na minha opinião – ele é bem diferente do sotaque colombiano/panamenho ao qual me acostumei. E de repente, o cara abriu a boca e eu compreendia tudo. Me achei um prodígio dos idiomas, fiquei radiante.
Mas aí alguém mencionou e eu percebi: ele era gago. Isso explicava muito coisa.
O guia-gago espanhol, que aliás falava galego então entendia meu português, nos levou aos principais pontos históricos de Berlim, que são mais de uma dúzia só no centro da cidade e juntos contam basicamente a história do mundo moderno. Quer dizer, também contam um pouco de história mais antiga, até. Seis horas em Berlim substituem uns dois anos de aulas ruins de história no ensino fundamental. De prédios de 400 ou 500 anos que nunca precisaram ser restaurados, a prédios de 50 anos cheios de marcas de balas que precisaram ser restaurados tipo doze vezes, a cidade é um paraíso pra quem gosta de história.

Napoleão passou por aí, gostou, levou pra França. Os alemães foram lá, ganharam a guerra, pegaram de volta. Heh
Depois do tour, de ouvir mais e mais sobre a história daquele maluco de bigodinho, me dei conta. Hitler tinha tudo, tudo pra ter sido um desses malucos que moram no ponto de ônibus e começam a berrar incisivamente (ele sabia fazer isso, falar cuspindo) sobre alguma teoria maluca que não faz nenhum sentido. Dessas que você escuta atentamente justamente porque são muito mirabolantes. Entre uma observação e outra sobre como ele seria escolhido para liderar a raça ariana até a hegemonia étnica, e como transformaria Berlim na Germania, que seria a capital do mundo puro, ele daria um gole em uma garrafa de gin barato. Daí seu ônibus chegaria e você nem ia lembrar do cara – talvez comentasse do louco engraçado pra um ou dois amigos.
A Alemanha é um lugar tão peculiar que lá esse cara louco virou chefe de Estado. E quase botou sua fantasia nonsense em prática. Claro que existe um contexto: o orgulho nacional enfraquecido pós I guerra, a falta de emprego generalizada (e o fato de Hitler ter criado emprego)… AINDA ASSIM, ELE PODIA TER SIDO UM INDIGENTE.
Fala aí, se não tinha potencial pra mendigão/pregador? E BREAKING NEWS, a Wikipedia me conta que ele realmente JÁ FOI UM MENDIGO! E que os outros mendigos chamavam ele de Ohm Kruger (tio Kruger). Mais info na mãe dos burros.
Na Alemanha, senti falta de conhecer alemães. Eu até ensaiei dizer que eles não são amigáveis com turistas, mas não é exatamente isso. É que, além de não falarem inglês tanto e tão bem quando os holandeses, os alemães aplicam o ‘não tô nem aí pros outros’ que vivem no dia-a-dia também com os turistas. O motivo pelo qual nós brasileiros recebemos turistas com tanta atenção é porque eles são novidade. Aqui na Europa tem tanto estrangeiro que ninguém se preocuparia em tratá-los bem.

Hauptbanhof, a estação de trem que só não é um shopping porque shopping não tem trilho de trem dentro, cheia de alemães que não sabem falar inglês
Se eu falasse alemão, ainda, talvez tivesse mais chances. Mas fiquei encabulada de sair falando inglês assumindo que eles entederiam. Me parece um pouco insensível fazer isso com um bando de gente que durante trinta anos ficou refém de um jogo de estratégia onde eles, sua língua e sua cultura eram tratados como desimportantes frente ao russo, ao francês e, especialmente, ao inglês.

Um dos lugares mais famosos da cidade, o checkpoint Charlie, onde costumava ficar um dos acessos no muro. A placa dá uma ideia da importância que a língua alemã (e portanto, os alemães) não tinha durante a guerra fria, HEH
Senti falta, também, de mais referências à história de Hitler e dos soldados alemães. Há monumentos e museus e homenagens a todos os grupos envolvidos na 2ª GM: aos judeus, aos gays, aos testemunhas de jeová, aos soldados russos, americanos, franceses… todos eles têm memoriais em sua homenagem. Como se fosse possível esquecer o que Adolf (tô íntima) fez, eles querem fingir que nada aconteceu e assim acabam apagando a história do cara (Mein Kampf não pode ser editado na Alemanha, por exemplo) e daqueles que lutaram ao lado dele. Óbvio que eles não merecem homenagens ou memoriais, mas essa vibe tipo ‘gente, vamo falar de coisa boa, TEKPIX! Esquece isso de Holocausto’ eu acho que não cola. A história das pessoas responsáveis pelas coisas horríveis não está em lugar nenhum em Berlim. :/

Foto 'TÔ CURTINO BERLIN MUITAUM11!!11' no monumento em homenagem aos judeus mortos no holocausto, cuja disposição das pedras, aliás, lembra lápides e é meio opressora: você está fazendo isso errado










































23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

