3 de maio de 2013 às 21h59
Art in Rio pt.2: ‘ Travessias 2 – Arte contemporânea na Maré ‘
Como prometido em um post passado, mais um dos acontecimentos artísticos durante minha rápida passagem pelo Rio
Dia 13 de Abril de 2013, pela primeira vez desde que nasci, entrei no Complexo da Maré. Se não fosse por esse evento, talvez passasse mais uns bons anos sem conhecer o lugar. Mas a cidade está mudando, e felizes são os cariocas que podem conferir arte de primeira além da bolha da Zona Sul. Idealizado pelo Observatório de Favelas e realizado em parceria com a Automática, o projeto ‘Travessias 2 — Arte contemporânea da Maré‘ utiliza a arte para romper com as “delimitações socio-culturais” da cidade.
As promised in a previous post, a description of another art event I attended during my quick trip to Rio.
On April 13th 2013, for the first time since I was born, I went into the Maré slum. If it wasn’t for this event, I might have spent another lifetime without visiting the place. But the city is changing and lucky are the ‘cariocas’ who can burst the South Zone ‘bubble’ and head somewhere different for some first rate art. Developed by the Observatório de Favelas (Slum Observatory) and Automatica, ‘Travessias 2 – Contemporary art in Maré’ uses art to brake the social and cultural limits of the city.

Foto: Eduardo Magalhães

Foto: Eduardo Magalhães
A exposição curada por Raul Mourão e Felipe Scovino reúne obras de 10 artistas contemporâneos brasileiros. Entre elas, as maquetes de salas de museus escondidas por Daniel Senise, telas abstratas e impactantes de Cadu, a realidade cheia de cores e contrastes pelas lentes de Ratão Diniz (fotógrafo morador da Maré), fragmentos de paisagens imaginárias nas colagens de Marcelo Silveira e o convite ao toque e ao som de Ernesto Neto. Dialogando com o tema de transformação e integração da cidade e de seus habitantes, a arte é apresentada como um ponto de partida para reflexão sobre o(s) espaço(s) que habitamos (nossos corpos, o galpão, a Maré, o Rio de Janeiro…e por aí em diante).
Curated by Raul Mourão and Felipe Scovino, the exhibition brings together works by 10 brazilian contemporary artists. Among them, the miniature museum rooms hidden by Daniel Senise, the abstract and impacting canvases of Cadu, the colour-rich reality of photographer Ratão Diniz (who lives in Maré), fragments of imaginary landscapes in the collages of Marcelo Silveira and Ernesto Neto’s invitation to sound and touch. Dialoguing with the themes of transformation and integration of the city and its dwellers, the art pieces serve as a starting point for reflections upon the space(s) we inhabit – our bodies, the warehouse, Maré, Rio de Janeiro, and so on…

Ernesto Neto
Mais videos no canal do projeto no Youtube

Justamente por isso, o programa vai muito além da exposição e apresenta forte viés educativo – as obras são referências para a a abordagem de temas que ultrapassam os limites da arte. Como disse Raul Mourão em entrevista ao Globo, “Para crescer forte e de forma bonita, o Rio precisa de menos academia e mais universidades, menos cultura do corpo e mais conhecimento“. Diferente de muitos eventos que recentemente pipocaram pelas comunidades do Rio, o Travessias não se limita a utilizar a favela apenas como um cenário – a via é de mão dupla e a intenção é manter o fluxo, tanto de visitantes quanto de informação, diverso e constante. Para isso contam com uma biblioteca aberta ao público com livros e revistas de arte para consulta no local (doações são bem vindas) e uma equipe educativa que estimula os visitantes a analisar, questionar e extrapolar as temáticas abordadas por cada obra, por vezes associando o conteúdo apresentado a outras áreas do saber.
This is precisely why the programme has such a strong educational side, with the works being regarded as an opportunity to address issues that go beyond the art boundary. As curator Raul Mourão put it: “To grow strong and beautifully, Rio needs less gyms and more universities, less body culture and more knowledge”. Unlike many events that recently popped all over Rio’s favelas, ‘Travessias’ does not limit the place to a mere scenery – its intention is to maintain the flow of visitors and information as diverse and constant as possible. To do that, they rely on an open library of art books and magazines (for reference only – donations welcome) and an education team which stimulates visitors to analyze, question and expand the subjects referenced by each piece, at times making associations with other areas of knowledge.

À direita, a biblioteca montada por Pedro Évora (RUA Arquitetos) / To the right, the library built by Pedro Évora (RUA Architects)
Foto: Eduardo Magalhães

Espaço educativo / / Education centre
Há também uma série de oficinas e o programa ‘Encontros‘, trazendo ao local convidados de diversas áreas para conversas sobre cultura, cidadania, e, claro, arte. O primeiro da série acontece amanhã, 4 de Maio, e traz relato do artista Ernesto Neto, Marcus Vinícius Faustini, apresentando o projeto Agência Redes para Juventude e entrevistas com Marcelo D2 e o jornalista Caco Barcellos (programação dos outros eventos da série aqui).
“Travessias é um projeto inserido em algo maior, bem maior: o Território Criativo da Maré. Esta iniciativa abrange um conjunto de ações geradoras de arranjos produtivos, com emprego de referências conceituais e de metodologias inovadoras de desenvolvimento econômico e social, tendo como centro a realização das potencialidades artísticas e culturais das comunidades populares. Território Criativo da Maré é um projeto que segue a direção de uma nova ambiência econômica e social para formação, produção e difusão da arte e da cultura, aliando a geração de trabalho e de renda com a criação de sociabilidades generosas e transformadoras do ser/estar no mundo. Assim, o Travessias 2 nos oferece um campo de imantação, trazendo diferentes artistas, obras, pessoas, ideias, saberes, sonhos e cumplicidades. Sujeitos e práticas plurais necessários para fazer de um projeto de arte um projeto outro de cidade e cidadania.”
- Observatório de Favelas
There is also a series of workshops and the ‘Gatherings’ programme, bringing together guests from different areas to talk about culture, citizenship and, of course, art. The first gathering takes place tomorrow, May 4th, and features artist Ernest Neto, director Marcus Vinicius Faustini, singer Marcelo D2 and journalist Caco Barcellos.
“Travessias is a project inserted into something much bigger: Maré’s Creative Territory. This initiative combines a group of actions which generate productive outcomes featuring conceptual references and innovative methodologies of economic and social development, with the objective of exposing the artistic and cultural potential of popular communities. Maré’s Creative Territory is a project which follows the direction of a new economic and social ambience to the formation, production and diffusion of art and culture, combining jobs and income generation with the creation of generous sociabilities transforming our ways of being in the world. And so, Travessias 2 offers us the opportunity to bring together different artists, works, people, ideas, knowledge, dreams and complicities. Plural subjects and practices which are necessary to turn an art project into one about the city and citizenship”
- Observatório de Favelas

Cadu

Marcelo Silveira

Ratão Diniz
Foto por Eduardo Magalhães, tirada do Facebook do evento
A sede do evento, o Centro Cultural Bela Maré, foi criado em 2011 com o objetivo de tornar-se um pilar de criação, integração e difusão de cultura dentro da comunidade e além do Travessias, que vira um evento anual a partir de 2013, o local pretende sediar mais duas exposições menores ao longo do ano, workshops, oficinas, palestras, cursos técnicos, residências, etc. A idéia por trás da iniciativa é a de que o ”campo artístico é um instrumento de desenvolvimento econômico, social e territorial, integrante do que vem sendo identificado como Economia Criativa. A arte hoje cumpre um papel central na ampliação das possibilidades existenciais de múltiplos grupos sociais” (mais detalhes no site).
O evento rola até o dia 23 de Junho – não deixem de visitar, vale muito a pena! Pra quem acha difícil chegar, o site explica tudo direitinho e lista todas as opções de transporte que levam ao local. Para que a cidade mude para melhor, é preciso interesse de todas as camadas da população em quebrar preconceitos e barreiras – um evento como esse é uma bela oportunidade.
The event’s headquarters, Centro Cultural Bela Maré (Beautiful Maré Cultural Centre), was created in 2011 with the goal of becoming a place of cultural creation, integration and diffusion inside that community. Besides Travessias, which just became an annual event, the warehouse intends to host two minor exhibitions per year, as well as workshops, lectures, specialised courses, artistic residencies, etc. The idea behind the initiative is that “the arts are an instrument for economic, social and territorial development, part of what is being identified as Creative Economy. Art today plays a central role in the broadening of the existential possibilities of various social groups”.
The event is on until June 23rd – don’t miss the chance to visit, it’s definitely worth it! For those who find it tricky to get there, the website offers detailed explanation and lists all transport options available. For the city to change for the best, all sectors of society must show interest in breaking with prejudices and barriers – an event like this is a good way to start.































Alma carioca, CEP Londrino. Artista por teimosia, jornalista por formação, curiosa por natureza.










