OEsquema

Art in Rio pt.2: ‘ Travessias 2 – Arte contemporânea na Maré ‘

Como prometido em um post passado, mais um dos acontecimentos artísticos durante minha rápida passagem pelo Rio

Dia 13 de Abril de 2013, pela primeira vez desde que nasci, entrei no Complexo da Maré. Se não fosse por esse evento, talvez passasse mais uns bons anos sem conhecer o lugar. Mas a cidade está mudando, e felizes são os cariocas que podem conferir arte de primeira além da bolha da Zona Sul. Idealizado pelo Observatório de Favelas e realizado em parceria com a Automática, o projeto ‘Travessias 2 — Arte contemporânea da Maré utiliza a arte para romper com as “delimitações socio-culturais” da cidade.

As promised in a previous post, a description of another art event I attended during my quick trip to Rio.

On April 13th 2013, for the first time since I was born, I went into the Maré slum. If it wasn’t for this event, I might have spent another lifetime without visiting the place. But the city is changing and lucky are the ‘cariocas’ who can burst  the South Zone ‘bubble’ and head somewhere different for some first rate art. Developed by the Observatório de Favelas (Slum Observatory) and Automatica, ‘Travessias 2 – Contemporary art in Maré’ uses art to brake the social and cultural limits of the city.

Foto: Eduardo Magalhães

Foto: Eduardo Magalhães

A exposição curada por Raul Mourão e Felipe Scovino reúne obras de 10 artistas contemporâneos brasileiros. Entre elas, as maquetes de salas de museus escondidas por Daniel Senise, telas abstratas e impactantes de Cadu, a realidade cheia de cores e contrastes pelas lentes de Ratão Diniz (fotógrafo morador da Maré), fragmentos de paisagens imaginárias nas colagens de Marcelo Silveira e o convite ao toque e ao som de Ernesto Neto. Dialogando com o tema de transformação e integração da cidade e de seus habitantes, a arte é apresentada como um ponto de partida para reflexão sobre o(s) espaço(s) que habitamos (nossos corpos, o galpão, a Maré, o Rio de Janeiro…e por aí em diante).

Curated by Raul Mourão and Felipe Scovino, the exhibition brings together works by 10 brazilian contemporary artists. Among them, the miniature museum rooms hidden by Daniel Senise, the abstract and impacting canvases of Cadu, the colour-rich reality of photographer Ratão Diniz (who lives in Maré), fragments of imaginary landscapes in the collages of Marcelo Silveira and Ernesto Neto’s invitation to sound and touch. Dialoguing with the themes of transformation and integration of the city and its dwellers, the art pieces serve as a starting point for reflections upon the space(s) we inhabit – our bodies, the warehouse, Maré, Rio de Janeiro, and so on…

Ernesto Neto


Mais videos no canal do projeto no Youtube

Justamente por isso, o programa vai muito além da exposição e apresenta forte viés educativo – as obras são referências para a a abordagem de temas que ultrapassam os limites da arte. Como disse Raul Mourão em entrevista ao Globo, “Para crescer forte e de forma bonita, o Rio precisa de menos academia e mais universidades, menos cultura do corpo e mais conhecimento“. Diferente de muitos eventos que recentemente pipocaram pelas comunidades do Rio, o Travessias não se limita a utilizar a favela apenas como um cenário –  a via é de mão dupla e a intenção é manter o fluxo, tanto de visitantes quanto de informação, diverso e constante. Para isso contam com uma biblioteca aberta ao público com livros e revistas de arte para consulta no local (doações são bem vindas) e uma equipe educativa que estimula os visitantes a analisar, questionar e extrapolar as temáticas abordadas por cada obra, por vezes associando o conteúdo apresentado a outras áreas do saber.

This is precisely why the programme has such a strong educational side, with the works being regarded as an opportunity to address issues that go beyond the art boundary. As curator Raul Mourão put it: “To grow strong and beautifully, Rio needs less gyms and more universities, less body culture and more knowledge”. Unlike many events that recently popped all over Rio’s favelas, ‘Travessias’ does not limit the place to a mere scenery – its intention is to maintain the flow of visitors and information as diverse and constant as possible. To do that, they rely on an open library of art books and magazines (for reference only – donations welcome) and an education team which stimulates visitors to analyze, question and expand the subjects referenced by each piece, at times making associations with other areas of knowledge.

À direita, a biblioteca montada por Pedro Évora (RUA Arquitetos) / To the right, the library built by Pedro Évora (RUA Architects)
Foto: Eduardo Magalhães

Espaço educativo / / Education centre

Há também uma série de oficinas e o programa ‘Encontros‘, trazendo ao local convidados de diversas áreas para conversas sobre cultura, cidadania, e, claro, arte. O primeiro da série acontece amanhã, 4 de Maio, e traz relato do artista Ernesto Neto, Marcus Vinícius Faustini, apresentando o projeto Agência Redes para Juventude e entrevistas com Marcelo D2 e o jornalista Caco Barcellos (programação dos outros eventos da série aqui).

“Travessias é um projeto inserido em algo maior, bem maior: o Território Criativo da Maré. Esta iniciativa abrange um conjunto de ações geradoras de arranjos produtivos, com emprego de referências conceituais e de metodologias inovadoras de desenvolvimento econômico e social, tendo como centro a realização das potencialidades artísticas e culturais das comunidades populares. Território Criativo da Maré é um projeto que segue a direção de uma nova ambiência econômica e social para formação, produção e difusão da arte e da cultura, aliando a geração de trabalho e de renda com a criação de sociabilidades generosas e transformadoras do ser/estar no mundo. Assim, o Travessias 2 nos oferece um campo de imantação, trazendo diferentes artistas, obras, pessoas, ideias, saberes, sonhos e cumplicidades. Sujeitos e práticas plurais necessários para fazer de um projeto de arte um projeto outro de cidade e cidadania.
- Observatório de Favelas

There is also a series of workshops and the ‘Gatherings’ programme, bringing together guests from different areas to talk about culture, citizenship and, of course, art. The first gathering takes place tomorrow, May 4th, and features artist Ernest Neto, director Marcus Vinicius Faustini, singer Marcelo D2 and journalist Caco Barcellos.  

“Travessias is a project inserted into something much bigger: Maré’s Creative Territory. This initiative combines a group of actions which generate productive outcomes featuring conceptual references and innovative methodologies of economic and social development, with the objective of exposing the artistic and cultural potential of popular communities. Maré’s Creative Territory is a project which follows the direction of a new economic and social ambience  to the formation, production and diffusion of art and culture, combining jobs and income generation with the creation of generous sociabilities transforming our ways of being in the world. And so, Travessias 2 offers us the opportunity to bring together different artists, works, people, ideas, knowledge, dreams and complicities. Plural subjects and practices which are necessary to turn an art project into one about the city and citizenship” 
- Observatório de Favelas 

Cadu

Marcelo Silveira

Ratão Diniz
Foto por Eduardo Magalhães, tirada do Facebook do evento

A sede do evento, o Centro Cultural Bela Maré, foi criado em 2011 com o objetivo de tornar-se um pilar de  criação, integração e difusão de cultura dentro da comunidade e além do Travessias, que vira um evento anual a partir de 2013, o local pretende sediar mais duas exposições menores ao longo do ano, workshops, oficinas, palestras, cursos técnicos, residências, etc. A idéia por trás da iniciativa é a de que o ”campo artístico é um instrumento de desenvolvimento econômico, social e territorial, integrante do que vem sendo identificado como Economia Criativa. A arte hoje cumpre um papel central na ampliação das possibilidades existenciais de múltiplos grupos sociais” (mais detalhes no site).

O evento rola até o dia 23 de Junho – não deixem de visitar, vale muito a pena! Pra quem acha difícil chegar, o site explica tudo direitinho e lista todas as opções de transporte que levam ao local. Para que a cidade mude para melhor, é preciso interesse de todas as camadas da população em quebrar preconceitos e barreiras – um evento como esse é uma bela oportunidade.

The event’s headquarters, Centro Cultural Bela Maré  (Beautiful Maré Cultural Centre), was created in 2011 with the goal of becoming a place of cultural creation, integration and diffusion inside that community. Besides Travessias, which just became an annual event, the warehouse intends to host two minor exhibitions per year, as well as workshops, lectures, specialised courses, artistic residencies, etc. The idea behind the initiative is that “the arts are an instrument for economic, social and territorial development, part of what is being identified as Creative Economy. Art today plays a central role in the broadening of the existential possibilities of various social groups”.

The event is on until June 23rd – don’t miss the chance to visit, it’s definitely worth it! For those who find it tricky to get there, the website offers detailed explanation and lists all transport options available. For the city to change for the best, all sectors of society must show interest in breaking with prejudices and barriers – an event like this is a good way to start.

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R.I.P Cable

A comunidade raver de Londres está de luto – na última Quarta Feira, 1o de Maio, a boate Cable recebeu ordem de efeito imediato para encerrar as atividades. Eleita diversas vezes como um dos melhores clubs da cidade, o Cable, aberto em 2009, ficava embaixo dos arcos da estação de London Bridge. A programação diversificada comandada pelo selo We Fear Silence e as festas com duração de 12 horas tornaram o local o queridinho dos ravers londrinos, principalmente fãs de drum and bass.

London’s raver community is mourning – last Wednesday, May 1st, nightclub Cable was closed with immediate effect. Since its opening under one of the London Bridge arches in 2009 the club has featured in several’best clubs in the city’ lists. The eclectic programme put together by promoters We Fear Silence along with the late opening hours made the place a favourite among ravers, especially Drum and Bass fans.

Em comunicado oficial no site a equipe explica que após dois anos de batalhas jurídicas com a Network Rail, dona e operadora das ferrovias inglesas, a empresa decidiu tomar posse do imóvel à força essa semana, deixando desempregados 70 funcionários e afetando os planos futuros da marca. Eles comentam que quando se instalaram no local receberam garantia da própria Network Rail de que a reformulação da estação não afetaria a boate, mas a empresa diz que um aviso foi dado em 2011 de que a situação havia mudado e o arco onde a boate estava instalada era vital para a expansão da estação, uma das maiores e mais importantes de Londres.

Em um desabafo online, o dono do selo Butterz comentou o impacto do fechamento do Cable na cena londrina, onde “opções estão cada vez mais escassas e os line-ups das boates cada vez mais previsíveis”. Ele fala da importância de festas em um local preparado para esse tipo de atividade, já que “festas em armazéns não oferecem qualquer garantia de segurança e as vezes são canceladas em cima da hora”, e critica também o fato de que mais e mais espaços culturais vêm sendo fechados para dar lugar a cadeias de alimentação, lojas de roupa e moradias de luxo (texto completo aqui).

In an official statement the Cable team explains how they have been caught in judicial battles with Network Rail for the past two years and how they decided to take over the venue this week, leaving 70 people suddenly unemployed and affecting the brand’s future plans. They say they were given guarantees that expansion plans for London Bridge station would not affect the venue, but Network Rail claims that in 2011 Cable was given notice of new developments which included the area into the refurbishment plans of one of London’s busiest and most important stations.

In an online rant, the owner of Butterz label commented on the impact of the event in London’s club scene, where “options are shrinking, club line ups are taking less risks, and when there nights in ‘Warehouse Spaces’ there is no guarantee of your safety, a good time or the night even happening”. He also pointed a finger at the city’s development in general, saying “they strip away our meeting points and cultural hubs and replace them with Costas, Subways and more retail units and housing nobody that works in those shops can afford”. (See full text here)

Abaixo, video feito pela equipe da Cable TV, que promete lançar em breve um documentário sobre o assunto.
Below, a video made by Cable TV, who promise to release a documentary on the subject soon.

Quem sabe o pessoal do Rio, onde espaços culturais vêm sendo interditados e fechados a torto e a direito, não se inspira e também produz conteúdo sobre o assunto. Olha que rende…

Maybe folks in Rio, where cultural venues are being closed in an alarming rate, can be inspired by the event and also produce some content on the subject…

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Art in Rio pt.1 – Casa Daros

A passagem pelo Rio foi corrida, uma semaninha só, mas ainda assim consegui conhecer os dois espaços de arte recém abertos na cidade – Casa Daros e o MAR (Museu de Arte do Rio) – e ir na estréia do Travessias 2. Abaixo, um pouquinho sobre a primeira – em breve post sobre os outros dois.

My trip to Rio was rushed, only one week, but still I managed to see two recently opened art spaces – Casa Daros and MAR (Rio Museum of Art) and attend the launch of  Travessias 2 project. Below, a few words about the first one – soon a post about the other two.

Casa Daros
Nada mais justo do que uma das maiores coleções de arte contemporânea latino-americana abrir um espaço na América Latina (a sede é na Suíça), e que privilégio para o Rio de Janeiro ser a cidade escolhida para tal. O prédio, um antigo orfanato e educandário, foi totalmente restaurado e o resultado é um misto de museu e galeria de altíssimo nível. A escolha de manter a estrutura original, com quase todas as salas dando vista para o pátio central, poucos andares, muitas janelas, piso de peróba original (grande parte) e outros detalhes, dão ao local um clima bem aconchegante. Senti falta apenas de mais verde, tanto na entrada quanto no pátio central.

Aliás, o pátio foi uma grande questão durante a visita: uma área de encontro e descanso tão gostosa merece mais sombra e, como uma parte tão marcante do prédio, merece também mais vida. Fiquei imaginando aquele espaço árido no auge do verão – não vai ter quem aguente ficar ali fora. Pra tornar a coisa mais interessante, a própria proposta de sombra poderia virar um projeto para o espaço – de tempos em tempos convidar artistas ou arquitetos para uma intervenção no local, dando ao público novas oportunidades de interação e exploração do mesmo (algo como o que acontece no pavilhão da Serpentine Gallery).

Nothing fairer than one of the world’s largest collections of contemporary latin american art (based in Switzerland) opening a branch in…Latin America. And what a privilege for Rio to be the chosen city. The building, formerly an orphanage and school, was completely refurbished and the result is a top notch mix of museum and art gallery. The choice of maintaining the original structure, with most rooms facing the central courtyard, few floors, lots of windows, original wooden flooring (most of it) and other details give the place a really cozy feel. I just wished there was a bit more green, both at the entrance and in the courtyard.

Actually, the courtyard was thoroughly debated during the visit: such a nice meeting / resting space deserves more shade and, being such an important area of the building, more life. I kept imagining that barren patio in the summer – no one will stand to be outside. To make it more interesting, the shading proposal could become a project on itself, with artists or architects being invited from time to time to create an intervention in the space, giving the audience new opportunities of exploring and interacting with it (something like the Serpentine Gallery pavilion).

Em termos de conteúdo, curti muito a decisão de fugir do óbvio que seria inaugurar a casa com uma mostra de arte brasileira. Apesar da diversidade de artistas e meios, as obras da expo Cantos Cuentos Colombianos são quase todas sobre o mesmo tema: a violência – da guerra civil que assolou os campos nos anos 50 às guerras entre paramilitares e guerrilheiros ao narcotráfico a partir dos anos 80. Eu não conhecia muitos artistas colombianos e fiquei impressionada não só com a qualidade dos trabalhos, mas também com a realidade duríssima que penetra essa sociedade e serve de combustível para artistas altamente engajados. As obras ali expostas não são nada passivas e suas camadas de significados exigem o mesmo dos espectadores: várias passam por metamorfoses ou possuem detalhes e referências escondidos que requerem atenção, observação e paciência.

Now moving on to the content, I really liked the decision to avoid the cliché that would be launching the place with an exhibition of brazilian art. Despite the diversity of artists and media,the works in Cantos Cuentos Colombianos revolve mostly around one theme: violence – be it from the civil war that devastated the fields in the 50′s, the paramilitary groups versus guerrilla fighters or the drug wars that spread from the 80′s on. I didn’t know many Colombian artists and was impressed not only by the quality of the works but also by the extremely harsh reality that penetrates this society serving as fuel to highly engaged artists. The artworks in this show aren’t passive at all, and their multi layered meanings demand the same from the viewer: lots of the pieces go through metamorphoses or have hidden details and references that require attention, observation and patience.

Oscar Muñoz – Aliento: respiração revela rosto de desaparecido tirado do jornal // a breath reveals the face of a missing person sourced from a newspaper

Musa Paradisíaca, de José Alejandro Restrepo, é definitivamente a obra mais impactante.  A imponente presença e o cheiro forte das bananas (cujo nome científico é o mesmo da obra) toma conta do ambiente. A banana é um dos mais importantes produtos de exportação da Colômbia e a exploração do mercado por grandes multinacionais há décadas gera massacres a camponeses nos bananais do país. Chegando bem perto dos cachos, é possível ver vídeos que retratam a dualidade simbólica dessa fruta: enquanto alguns mostram Adão e Eva em um paraíso tropical, outros são imagens de combate tiradas de telejornais dos anos 80 e 90 – nossa impotência e distância diante das imagens contrasta com a proximidade física e o impacto sensorial das bananas.

Musa Paradisíaca (Paradise Muse), by José Alejandro Restrepo is definitely the most impactful piece. The imposing presence and strong smell of the bananas – whose scientific name is the same as the work’s title – take over the room. Bananas are one of their main export goods and the exploitation of the crop by large multinationals has been causing massacres among plantation workers in the country for decades. By getting very close to the hanging bunches the viewer can see videos that illustrate the symbolic duality of the fruit: while some feature Adam and Eve in a tropical paradise, others show combat footage from news reports of the 80′s and 90′s  - our impotence and distance from the images contrast with the physical closeness and the sensorial impact of the bananas.

Na mesma sala, Boca de Ceniza (Boca de Cinza) de Juan Manuel Echavarría acaba servindo de trilha sonora para a obra de Restrepo, tornando o clima ainda mais pesado. Ao nos aproximarmos daqueles rostos enormes e seus olhos cheios d’àgua e prestarmos atenção nas suas palavras, entendemos o porque: o projeto apresenta os relatos cantados de vítimas e sobreviventes de massacres das forças paramilitares. As descrições da violência, quando cantadas, ganham uma força que não teriam se fossem apenas faladas – tudo parece ficar mais sincero e emotivo.

In the same room  Boca de Ceniza (Ash Mouth) by Juan Manuel Echavarría acts as a soundtrack to Restrepo’s piece, making it even heavier. As we approach those giant faces with their teary eyes and pay attention to the words they sing we understand why: the project presents reports of massacres by paramilitary groups, composed and sung by victims and survivors. The portrayal of violence finds strength  in song that maybe it would lack if told through spoken word – everything seems to become more sincere and emotional.

É dele outro trabalho do qual gostei muito: Corte de Florero. A série de montagens fotográficas faz referência a vários aspectos históricos do país: o nome do corte que grupos rivais de camponeses executavam nos cadáveres inimigos (cortando-lhes a cabeça e os membros e enfiando tudo dentro do torso, como um vaso de flores), as expedições espanholas de estudo da flora local após a independência e a importância do comércio de flores no país (a Colômbia é o segundo exportador do mundo, perdendo apenas para a Holanda). Segundo o próprio Echavarría, a intenção é atrair o espectador com algo aparentemente belo e fazê-lo pensar ao perceber que as flores na verdade são arranjos de ossos humanos.

He’s also the author of another work I loved: Corte de Florero (Flower vase cut). This photographic series references several different historical aspects of Colombia: the name of the cut that rival peasant groups performed on their enemies’ dead bodies (cutting the head and limbs and stuffing it all down the torso, like a flower pot), the post independence Spanish expeditions to study local flora and the importance of the flower business in the country (it’s the second biggest exporter in the world, only behind Holland). According to Echavarría, the intent is to attract viewers with something apparently beautiful make them think when they realise the flowers are in fact human bones.

Passiflora Sanguinea

Orquis Lugubris

Cattleya Afflicta

Não vou ficar aqui falando de todos pois são muitos artistas e muitas obras boas, mas já da pra ter uma idéia né? Ao final da exposição o visitante pode ainda ir a uma sala contendo um monte de informações e depoimentos em video de todos os artistas. E é justamente essa a cereja do bolo: ao contrário de muitos museus e centros culturais da cidade, a Casa Daros não oferece apenas exposições – a agenda conta com bate-papos com artistas, exibições de filmes e programas educativos com escolas públicas e particulares. Definindo-se como um espaço de arte, educação e comunicação, o local é equipado com um ótimo auditório, uma biblioteca especializada em arte contemporânea latino-americana, Espaço de Leitura com catálogos de exposições da coleção e Espaço de Documentação. Pra finalizar, o restaurante é comandado pela Roberta Ciasca, mesma dos excelentes Miam Miam e Oui Oui (não comi no local então não posso analisar muito – só espero que os preços sejam mais amigáveis do que o dos outros dois) e a lojinha tem um conteúdo bem interessante, mas que eu acho que ainda poderiam explorar bem mais – fui tentar comprar uma caneta, por exemplo, e não encontrei.

I’m not gonna go on and on about the whole exhibition because it’s too many artists and too many good pieces, but you get the idea, right? After reaching the end of the show visitors can go to a room containing all sorts of info about the works and video statements of all the artists. And this is in my opinion the highlight of Casa DAros: unlike many museums and cultural centres in Brazil, it goes beyond the exhibition content to feature year-round artists talks, film screenings and educational programmes with public and private schools. Defining itself as a place for art, education and communication, it is equipped with a great auditorium, a library specialising in contemporary latin american art, reading room with exhibition catalogues and documentation space. To finish it off, Roberta Ciasca, of the excellent Miam Miam and Oui Oui restaurants, is in charge of the food (I haven’t eaten there so can’t say too much – just hope it’s not as pricey as the other two) and the shop has interesting content (although I still think they could explore it a bit further – I tried to buy a pen and they don’t sell them….).


Rosemberg Sandoval – Mugre (aliás, no dia 25/04 o artista participará de um bate-papo no local //btw, there will be an artist’s talk on site – 25/04)

Claro que nada é perfeito e durante o passeio anotei algumas pequenas críticas, como a falta de bicicletários na entrada (essa, mais uma sugestão, já que espaço não falta), o volume dos rádios dos seguranças (em uma sala ficava difícil se concentrar no audio da obra) e a falta de cortinas para quebrar a luz direta (os retratos de soldados mutilados de Miguel Angel Rojas ficam difíceis de se ver devido ao reflexo, em uma sala com mais janelas do que quadros), mas o local é novo e há tempo de sobra para ajustes. O importante é que o Rio, e o Brasil, ganham um espaço fundamental para diminuir a distância entre nós e nossos vizinhos latinos.

Of course, nothing’s perfect and I wrote down some points of criticism, like the lack of bike parking spots by the front yard (this is more of a suggestion, as there is clearly enough space), the volume of the security guards’ radios (in one of the rooms it made it hard to focus on the audio from the video) and the lack of curtains to break the strong light coming from outside (the reflection made it hard to see Miguel Angel Rojas‘ mutilated soldier portraits, shown in a room with more windows than images). But, then again, the place has just opened and there’s enough time for adjustments. The important thing is that Rio, and Brazil, now have a cultural centre that might help shorten the gap between us and our latin neighbours.

 

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Neon love

Ok, arte escrita com neon já foi feita por muitos artistas nas últimas décadas,  mas sempre cabe mais um. As fotografias da coreana Jung Lee falam de amor  e solidão com uma doçura e melancolia que os rabiscos de Tracy Emin (que eu gosto) não carregam. O contraste entre o brilho intenso da luz colorida e a paisagem opaca dá vida aos sentimentos ali descritos, como um grito quebrando o silêncio e a paz daqueles lugares desertos. Achei bonito e, às vezes, em um mundo tomado por arte cheia de significados e contextos “sérios”, isso é suficiente.

Ok, neon written art has been made by lots of artists in the last decades, but there’s always room for more. Korean artist Jung Lee’s photographs talk about love and loneliness with the tenderness and melancholy that Tracy Emin’s scribbles (which I like, btw) lack. The contrast between the intense  coloured light and the opaque landscape brings the words to life, like a shout breaking the silence and peace of those places. I found it beautiful and sometimes, in a world filled with art carrying “serious” meanings and contexts, that’s enough.

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The Ring

Hoje tive minha primeira experiência “real” com gravação binaural: a peça imersiva The Ring, no Battersea Arts Centre. Como não havia lido nada sobre o programa, fui totalmente pega de surpresa, o que deixou a experiência ainda mais intensa. Ao entrar no salão, cada membro da platéia recebe um headphone e um ator (já no seu personagem) vai falando um pouco sobre os procedimentos e dando algumas instruções. De repente, ele pede que todos levantem e mudem de lugar, para que ninguém fique sentado perto de alguém conhecido – mais tarde, quando a peça começa, o seu pedido passa a fazer sentido.

As luzes então se apagam por alguns minutos, em uma prévia do que vem pela frente. Assim que se acendem e o ator diz que vamos ficar naquele breu pelos próximos 50 minutos, uma menina pede pra sair. Mais tarde, em uma parte bem estranha da peça, outra menina também não aguentou o tranco e, seguindo as instruções do início, gritou ‘help’ para ser retirada.

As luzes então se apagam lentamente de novo, até que não vemos mais nada. NA-DA. Confesso que a prévia me deixou meio inquieta, então da segunda vez fiz questão de fechar os olhos looogo antes da escuridão total. Isso fez toda a diferença pois, na minha cabeça, eu estava controlando a situação e na verdade, do lado de fora, tudo ainda estava claro. Depois fui relaxando e até abri os olhos de vez em quando.

A peça começa. Não vou entrar em detalhes pq é muito bla bla bla, mas toda a narrativa é construída em torno de um grupo de anônimos que, com nomes falsos, encontra-se semanalmente para sessões de análise / tortura psicológica na escuridão. E aí que nós, isolados, imediatamente passamos a fazer parte daquele grupo e não só somos sugados pra dentro da história, como viramos o foco principal.

Daí pra frente é uma sucessão de susurros no ouvido, passos pra lá e pra cá, barulhos de cadeiras, música e descrições de lugares e situações que, na escuridão, tornam-se visíveis.

Foi a minha primeira experiência com essa tecnologia usada dentro de uma narrativa longa, em um ambiente com outras pessoas presentes (a outra, em casa, foi essa). Pelo que eu vi, ou melhor, ouvi hoje, sinto que coisas muito interessantes e possivelmente perturbadoras estão por vir. Oba!

Esse artigo da Wired explica um pouco mais

Today I had my first experience real binaural recording experience with immersive play The Ring, at Battersea Arts Centre. As I read nothing about it before going, I was totally caught off guard, which made the whole experience even more intense. As you walk into the theatre, you get a headphone and an actor (already in character) talks a bit about the procedures and gives some instructions. Suddenly, he asks everyone to stand up and sit somewhere else, so that you are not near any one you came with – later, when the play kicks off, this request starts making sense.

The lights then go out for a few minutes, a little preview of what’s to come. As soon as they go back on and the actor says that’s how it’ll be for the next 50 minutes, a girl asks to leave. Eventually, in the middle of a weird part of the play, another girl had to be let out after crying for help.

The lights slowly go out again, until it’s all black. Pitch black. I have to say the preview made me a bit restless so this second time around I closed my eyes right before it got dark, and that made a hell of a difference – see, in my mind, I was in control of the darkness and everything outside was still lit. After some time I relaxed and eventually opened my eyes now and then.

The play begins. I won;t get into too much detail, but the whole narrative is based around a group of people who gather weekly, under fake names, for a sort of therapy / psychological torture session. And it’s then that each one of us, isolated, are not only dragged into that group, but become their main focus.

From then on it’s a sucession of whispers, steps back and forth, chairs being dragged, music and descriptions of places and situations which, in the darkness, become very visible. 

This was my first time experiencing this technology inside a long narrative, in a place where other people were present and sharing the same thing (the other one, at home, was this). From what I saw, or better yet, heard, I can feel very interesting and possibly disturbing things are yet to come. Yay!

This Wired article explains a bit more

2 Comentários

The Moon

Excuse me Susan Miller, but I’ll take this full moon instead

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Alison Scarpulla

Encantada com o trabalho da fotógrafa americana Alison Scarpulla! Abusando da múltipla exposição e do jogo de luz e sombra, suas imagens parecem registros de rituais pagãos. Adorei a maneira como ela combina temas delicados e sinistros, criando um mundo de fantasia ao mesmo tempo belo e assustador.

I’m mesmerised by the work of  american photographer Alison Scarpulla! Through the use of multiple exposure and light/shadow play she creates images that seem right out of a pagan ritual. I love the way she combines delicate and eerie themes, creating a fantasy world both beautiful and scary.

 

Não é a toa que a única informação no seu perfil do Flickr é uma citação da obra-prima do surrealismo místico, Holy Mountain:

“O túmulo o recebe com amor. Renda-se à terra. Devolva o que lhe foi emprestado. Abandone o prazer, a sua dor, seus amigos, seus amantes, sua vida, seu passado, o que você deseja. Você conhecerá o nada, é a única realidade. Não tenha medo, é tão fácil entregar. Você não está sozinho, você tem um túmulo. Este foi a sua primeira mãe. O túmulo é a porta para o seu renascimento. Agora você entregará o animal fiel que uma vez chamou de corpo. Não tente mantê-lo, lembre-se, foi um empréstimo. Entregue as suas pernas, seu sexo, seu cabelo, seu cérebro, tudo. Você não quer mais possuir, a posse é dor maior. A terra cobre seu corpo, ela veio lhe cobrir de amor, pois ela é a sua verdadeira carne. Agora você é um coração aberto, aberto para receber sua verdadeira essência, sua perfeição. Seu novo corpo, o universo, a criação divina. Você renascerá, você será real. Você será seu próprio pai, sua própria mãe, seu próprio filho, sua própria perfeição. Abra seus olhos, você é a terra, você é o verde, o azul, você é o Aleph, você é a essência. Olhe para a flor, olhe para a flor, pela primeira vez olhe para as flores”

No wonder the only info on her Flickr profile is a quote from mystical surrealist masterpiece, Holy Mountain:

“The grave receives you with love. Surrender yourself to the Earth. Return what was loaned to you. Give up your pleasure, your pain, your friends, your lovers, your life, your past, what you desire. You will know nothingness, it is the only reality. Don’t be afraid, it’s so easy to give. You’re not alone, you have a grave. It was your first mother. The grave is the door to your rebirth. Now you will surrender the faithful animal you once called your body. Don’t try to keep it, remember, it was a loan. Surrender your legs, your sex, your hair, your brain, your all. You no longer want to possess, possession is the ultimate pain. The earth covers your body, she came to cover you with love, because she is your true flesh. Now you are an open heart, open to receive your true essence your ultimate perfection. Your new body, which is the universe, the work of god. You will be born again, you will be real. you will be your own father, your own mother, your own child, your own perfection. Open your eyes, you are the earth, you are the green, you are the blue, you are the Aleph, you are the essence. Look at the flower, look at the flower, for the first time look at the flowers.”

Suas fotos estão à venda no Etsy.com
Her prints are on sale at Etsy.com

pesquei no FB do Anorak
got it from Anorak‘s FB page 

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ZAP!

Que coincidência – segundo dia seguido que esbarro com um trabalho que utiliza corrente elétrica como matéria prima. Os resultados são parecidos e impressionantes. Como sou louca por dendritos e qualquer coisa que diz respeito a repetição de padrões na natureza, amei os dois!

What a coincidence – second day in a row I come across art work that uses an electric current as a mark maker. The results are similar and impressive. Since I’m crazy about dendrites and pretty much anything that has to do with repeating patterns in nature, I obviously loved both.

15,000 volts – Melanie Hoff

Light Drawings – Troika


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The Ghost of Piramida

Obrigada ao selo londrino Day Job Records pela delicioso cineminha de domingo. Novo projeto da banda dinamarquêsa Efterklang, o filme The Ghosts of Piramida acompanha a viagem dos músicas para Piramida, uma ‘comunidade mineradora’ (?) Russa em Svalbard, Noruega. Durante 9 dias eles vasculharam o local coletando mais de 1.000 sons – de pilhas de documentos a uma casa de garrafas, de um deck de madeira a enormes canos de metal – todo remanescente da cidade esquecida tornou-se um instrumentos em potencial. O filme retrata Piramida como um perfeito playground sonoro, onde cada o som de superfície “tocada” torna-se uma presença na outrora “silenciosa” paisagem. É como se todo o local fosse música esperando para acontecer…

Thanks to Day Job Records for a delightful Sunday evening. The London based label hosted  a screening of Danish band Efterklang‘s latest project: The Ghosts of Piramida. The film accompanies the musicians’ trip to Piramida, a former Russian coal-mining community in Svalbard, Norway. For 9 days they roamed the deserted place recording over 1,000 sounds – from bound stacks of documents to a bottle house, from a wooden deck to great metal pipes – every remain of the former settlement became a potential instrument. The film shows Piramida as a perfect sound playground, with every surface struck giving off sound that becomes an overwhelming presence on the otherwise “silent” landscape. It’s as if the whole place is just music waiting to happen…

Alternando entre imagens da banda e imagens de arquivo da época em que o local era uma próspera comunidade, o filme é narrado em tom melancólico por um ex morador do local. Belo e um tanto triste, ele nos transporta entre passado e presente com os “temas sônicos da banda explorando  memória, o poder da nostalgia e a transiência de relações humanas significativas.” (aspas de um artigo sobre o projeto no Nowness.com). O resultado final das gravações de campo pode ser ouvido no filme e no novo disco da banda: Piramida.

The film alternates between footage of the band members and archive footage of the once thriving community, narrated by a former inhabitant in a melancholic tone. Beautiful and quite sad , it takes us back and forth between past and present, “with the band’s sonic themes exploring memory, the power of nostalgia and the transience of meaningful human connection” (quote from an article on Nowness.com).The end result of the field recordings can be heard throughout the film and also in the band’s latest album: Piramida.

Esse não é o primeiro filme da banda. Em 201o, junto com o cineasta francês Vincent Moon, eles filmaram an ‘An Island’, uma “um filme não-convencional de música e performance e um documentário abstrato sobre uma banda e uma ilha”.

This is not Efterklang’s first film project: in 2010 they paired-up with french filmmaker Vincent Moon for ‘An Island’, an “unconventional music performance film and an abstract documentary about a band and an island”.



Embracing the current way people experience audio-visual material, the band has made both films available for download on their official webistes, where official screenings like the one I attended can also be arranged.

Cientes da maneira como as pessoas consomem conteúdo audio-visual atualmente, a banda viabilizou para download ambos os filmes em seus respectivos sites. onde qualquer um pode também requisitar o material para uma sessão oficial como a que eu assisti.

 

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Humanos

É bem por aí…
That seems about right…

animação de Steve Cutts
animation by Steve Cutts

 

via Eduardo

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