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Myriam Taubkin sobre Amado Maita

De família muito ligada à música, cantora e ouvinte curiosa desde cedo, Myriam Taubkin cresceu entre figuras-chave de muita música em São Paulo, ela própria grande produtora e curadora de diversos projetos legais há muitos anos. Inteligente e elegante, foi generosa e amorosa e ótima ajuda na pesquisa para realização do show em homenagem a Amado Maita, que acontece este próximo fim de semana no Sesc Pinheiros, companheira próxima que foi de Amado. Amigos de adolescência, foram casados por dez anos, entre os anos 70 e 80, juntos na fase mais produtiva de Amado. A meu pedido, Myriam escreveu belo texto com algumas lembranças pessoais, emocionais e musicais, breve retrato de um momento, dela, de Amado, da vida, da música e da cidade.

Conheci Amado Maita aos 16 anos, quando o vi na platéia do então festival de música do clube Alto de Pinheiros, onde me apresentava com um grupo defendendo a canção “Reflexão”, de sua autoria, que faria parte do único álbum de Amado, lançado no ano seguinte. Daniel, meu irmão, nos apresentou. Mesmo sendo classificada, ele considerou nossa interpretação ruim e quis ele mesmo defendê-la na final. Ganhou o troféu de melhor intérprete.

Ficamos muito amigos. Eu vinha de uma educação judaica, cheia de regras de boa educação em casa. Estava no primeiro científico do Colégio Rio Branco. Quando entrei pela primeira vez na casa do Amado, na rua Santo Antonio no Bixiga – era um almoço familiar normal, em algum dia da semana – fiquei atônita com a algazarra, o bom humor e a troca de afetos e insultos na mesa, enquanto comiam macarrão ao sugo, frango assado com batatas e outros quitutes da cozinha italiana, misturada com a árabe, preparados pela mãe dele, Dona Bernadete.

Acho que foi ali que descobri o Brasil, um outro Brasil.

Foi quando convivi de fato com a mestiçagem brasileira, com todo tipo de gente das mais diversas profissões, formais e informais, dentro e fora da legalidade daquela época, amigos do Amado e de seu pai, Hassam – Tito para os íntimos. Tito tinha um estacionamento na Rua Santo Antonio, na famosa ’5 esquinas’, era querido no bairro e fora dele, recebendo gente pra uma conversa na calçada o dia todo. Amado era seu principal ajudante. Super simpático, inteligente, apaixonado por música, um talento para compor, tocar violão e cantar (e dançar! Como o Amado dançava, não tinha pra ninguém), atraía para ele a nata dos músicos da noite de São Paulo.

Foi com Amado que ouvi Tom Jobim, João Gilberto, Milton Nascimento, João Donato, Miles Davis, John Coltrane, Charles Mingus, Moacir Santos e tantos outros.

Anos depois nos casamos. Tivemos duas filhas.

Lembro quando em 1992, época em que eu produzia a série Arranjadores, no Cultura Artística, trouxemos – meu irmão Benjamim e eu – Moacir Santos da California, onde ele vivia, como um dos artistas convidados. Por conta do Amado, já conhecíamos toda a obra de Moacir e cantávamos, inclusive as meninas, grande parte de suas músicas no nosso cotidiano em casa. Quando o conheci naquela ocasião, e já separada do Amado havia anos, a primeira idéia que me veio à cabeça foi levar Moacir de surpresa ao estacionamento. Parei o carro, buzinei pro Amado e enquanto ele se aproximava, abri a porta do lado da calçada. Ao ver a figura de Moacir assim de sopetão, um ídolo pra ele, Amado abriu um sorriso, ficou numa alegria que contagiou tudo em volta. Fiquei feliz e eles se tornaram bons amigos.

Moramos em várias casas, em bairros diferentes da cidade. Pra qualquer nova morada que seguíamos, muitos amigos do Amado nos acompanhavam e também mudavam de endereço pra permanecerem perto dele.

Além da Teresa e da Luísa, devo muito ao Amado. Foi meu principal amigo e companheiro entre os meus 16 e 30 anos, período de formação de qualquer pessoa. Tínhamos muito assunto, sempre. Vivemos juntos durante 10 anos e continuamos amigos até o dia em que ele se foi.

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AMADO

Há algo de misterioso e profundo no único LP lançado por Amado Maita (1948-2005), pela gravadora Copacabana, em 1972. Algo no cruzamento de jazz elevado e samba espiritual, nas composições existenciais (muitas com letra do parceiro Zé Wilson Lopes), na gravidade e beleza da voz de Amado, no coração que coloca em cada interpretação. Gravado em quatro canais, em 16 horas, no Estúdio B da Gazeta, na avenida Paulista, quando Amado tinha 23 anos, o álbum é um clássico sui generis de samba-jazz em plena era fusion, com suas canções intensas e belas, políticas e sensíveis, e a participação de bambas do improviso brasileiro como o baterista Edison Machado, o pianista Mozar Terra, o flautista Ion Muniz e o percussionista baiano Anunciação.

Lançado com poucas cópias e pouco distribuído, sem críticas em jornal ou execuções em rádio, jamais apresentado ao vivo, o álbum logo espalhou-se como lenda entre apaixonados por discos com alma. Quarenta anos depois, como um segredo que se revela aos poucos, continua inspirando músicos, cantores, compositores, pesquisadores, DJs, colecionadores de vinil e baixadores de música, em conversas, audições, cópias passadas de mão em mão e por incontáveis blogs e sites, eterna boa nova, à frente de sua época e fora de seu tempo cronológico, som atemporal.

Nos dias 16 e 17 de fevereiro de 2013, pela primeira vez, o álbum é apresentado ao vivo, trazendo sua música e ideias para novos contextos, com direção artística de Ronaldo Evangelista e reinterpretação das canções de Amado por Luisa Maita e os convidados de voz grave e suingue sério Ed Motta, Tiganá Santana, Bruno Morais, Curumin e BNegão, em um ambiente jazzístico com acompanhamento do sexteto MP6, formado por Marcos Paiva (contrabaixo e direção musical), Edinho Santana (piano), Daniel de Paula (bateria), Daniel D’Alcântara (trompete), Jorginho Neto (trombone), Cássio Ferreira (sax alto) e participação de Chrystian Galante (percussão), do maestro Laércio de Freitas (piano) e o irmão de Amado, Marcelo Maita (fender rhodes).

Nascido no Bixiga, Amado cresceu vendo a Vai-Vai passar na porta de sua casa. Com ouvido abençoado, noção harmônica sofisticada e voz mágica, desde adolescente tocava violão, cantava, compunha sambas especiais e temas evoluídos, fã de John Coltrane e Miles Davis, Tom Jobim e Moacir Santos. Mestre do ritmo, depois de uma temporada em Paris em 1975, Amado começou a tocar percussão e em pouco tempo virou um dos principais bateristas da cena jazz de SP. Entre o Olimpo e a rua, o solo improvisado e o cordão passando pelo Bixiga, Amado deixou para nós um LP obra-prima, um punhado de incríveis canções inéditas, participações em alguns discos como baterista e mil histórias de amizade, sons, inspiração, carinho, amor. Pequena obra gloriosa, grande ser humano.

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Rum & Coca-Cola – Brazilian Mambo Merengue Cha Cha Cha 1955-1966

Mix nova, especialmente para o coletivo inglês Sofrito, representando a crew Veneno Soundsystem, compilando pianos quentes, solos de flauta e trombone, percussões pesadas, congas, bongôs, timbales, maracas, tumbao grooves, merengues e cha cha chas, composições nacionais inspiradas na onda latina, versões de clássicos cubanos por orquestras cariocas e paulistas, retrato brasileiro do efeito do mambo no mundo de meados dos anos 50 ao começo dos 60. A bailar, play abaixo, MP3 por aqui.

Rum & Coca Cola – Brazliian Mambo & Cha Cha (Ronaldo Evangelista, Veneno Soundsystem) by Sofrito on Mixcloud

Mambo is not a Brazilian rhythm. Brazilian people don’t speak spanish. Afrocuban percussion is different from the traditional macumba and samba ones in Brazil, but in common they have the same roots. Through this roots, the language comes naturally to the bamba percussionists in Brazil’s hills. If the whole world was going with the mambo craze in the 50s and learning its rhythm lessons for its own lexicons, surely in Brazil it couldn’t be different. Perez Prado was a star, Mongo Santamaria was recording brazilian tunes in New York, every fancy orchestra in Rio de Janeiro and São Paulo had a few cha cha chas in its repertoire, not rarely the dancers’ favorites. Through early ten inches and rare 45s, occasional vocal star, orchestras and small combos LPs, versions and originals, we get a glimpse of the smoky, velvet-y, red-lighted, mirror-adorned brazilian clubs with heated live music and elegant-dressed dancing audience. Eighteen unfairly forgotten jewels, tropical Brazil.

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Retrospectiva 2012

A pedido dos chapas d’OEsquema, fiz uma lista – altamente afetiva e certamente incompleta – de algumas coisas favoritas do meu 2012. Tópicos, abaixo.


*Conhecer Belém, assistir lá o Terruá Pará e encontrar os discos que renderam a mixtape Ver-O-Peso.


*O DVD “João Donato – MPB Especial (1975)“.


*Os álbuns “Tudo Tanto” de Tulipa Ruiz, “Metal Metal” do Metá Metá e “Meu Samba no Prato” do sexteto MP6, além do 10″ “Pra Viagem“, da Kika.


*O show de Stanley Clarke, Chick Corea e Lenny White no Via Funchal em maio.


*O box “O Brasil de Inezita Barroso“, na verdade de 2011 mas que só peguei este ano.


*Encontrar Mateus Aleluia dos Tincoãs na sua cidade natal de Cachoeira e passar uma semana no interior da Bahia.


*Os textos de Bráulio Tavares no blog “Mundo Fantasmo“.


*A série “Sherlock“, da BBC, que teve sua segunda temporada este ano (e em 2012 vi as duas).


*O programa “Temporal“, dirigido por Kiko Goifman e Olívia Brenga e exibido pela Sesc TV.


*O filme “Tropicália” de Marcelo Machado e suas maravilhosas imagens de arquivo.


*Tocar com meus parceiros do Veneno Soundsystem em algumas dezenas de festas ao longo do ano e completar o quinto aniversário do coletivo.


*O LP triplo “The Original Sound of Cumbia – The History of Colombian Cumbia & Porro As Told By The Phonograph 1948-79 Vol. 1“.


*Juçara Marçal cantando “Jardim Japão” no show de lançamento do LP “Bahia Fantástica” de Rodrigo Campos no Sesc Vila Mariana.


*Viajar a Buenos Aires para conhecer a ciudad, discotecar na Fiesta del Funk Naciente no Niceto Club e encontrar o compacto de “Todo es moda“, de Pedro Santos y Sebastião Tapajós.


*O livro “João Gilberto“, organizado por Walter Garcia e lançado pela Cosac Naify.

*A nova lei 12.485 da TV paga.

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pobre de quem não entendeu que a beleza de amar é se dar

Originalmente gravada pelo MPB4 em 1967, “É preciso perdoar” é uma joia de composição dos baianos Carlos Coqueijo e Alcyvando Luz que encontra seu auge na interpretação econômica, cíclica e cheia de nuances que a revelam por João Gilberto, em seu belo álbum branco homônimo de 1973. Um dos máximos pontos em que a secura do canto de João funciona como amplificador da emoção sugerida, desde lançada a música ganhou amplo status de favorita pessoal entre ouvintes – momento muito especial de um LP especial dentro uma discografia especial de um artista especial.

Três anos depois, João reencontrou-se em estúdio com Stan Getz (com quem havia gravado Getz/Gilberto em 1963), e basicamente refez o álbum de 73, exceto que onde antes havia apenas João voz e violão acompanhado das leves vassourinhas de Sonny Carr, aqui somamos contrabaixo, bateria com aro, piano, percussões variadas e, claro, solos de saxofone tenor. Não supera nem de perto a limpeza do solo, mas é muito bom de ouvir as diferenças criativas de João numa época incrível, com repertório excepcional e de certa maneira revendo a situação de seu disco mais famoso de mais de uma década antes.

É preciso perdoar” é uma das três faixas que tiveram takes alternativos lançados em uma reedição recente do álbum, The Best of Two Worlds, dentro de um box sob demanda de Getz (obrigado ao comentarista do post!). Levemente diferente, igualmente hipnotizante, atenção aos sons da percussão no começo, o raro baixo acompanhando João, as notas longas cantadas ao fim de cada verso, play acima.

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Panorama #06

Rádio pop, música brasileira, século XXI, tipo aquelas pra mostrar pro amigo indie e pro blogueiro fã de R&B contemporâneo. Melhores ou pelo menos muito boas de 2012, 2011, 2010, 2009, São Paulo, Rio, Bahia, Ceará, Brasília, Belo Horizonte, synths, guitarras, baixos, beats, refrão. Em movimento, de sapato azul e falso Ray-Ban, por clubes com paredes de tijolos e pistas de dança na guerra, contando estrelas no ar e desenhando nuvens no céu, cantando alto e na xêpa da feira, selvage e no chamego, com sorte e sem pontas, mix Panorama seis.

Panorama #06 by Ronaldo Evangelista on Mixcloud

DL: http://www.mediafire.com/?6fym3r21f9dco7n

Céu – Streets bloom
Karina Buhr – The war’s dancing floor
Trupe Chá de Boldo – Na garrafa
Tulipa – Like this
Pipo Pegoraro – Sofia
Sweet Flavour – Costelinha
Marcia Castro – Crazy pop rock
Tono – Aquele cara
Letuce – Fio solto
Kassin – Fora de área
Cidadão Instigado – Contando estrelas
Cibelle – Sapato azul
Max B.O. – Fábrica de rap
Flora Matos – Pretin
Ogi & Sala 70 – Minha sorte mudou
Coyote Beatz – Allfya
Curumin – Selvage

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bem possível

Esta semana Teca Lima, do Radar Cultura, convidou para o aniversário de cinco anos do programa as duplas de irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz e Ná e Dante Ozzetti, adorável encontro e delícia de programa de que tive a honra de participar. Sim e não, norte e sul, direito avesso, além dos papos Tulipa interpreta com Gustavo “É” (de Tulipa, aos 21:55 no link a seguir), Ná canta com Dante “A velha fiando” (de Dante com Luiz Tatit, aos 40:51) e, Tulipa e Ná, juntas, com Dante e Gustavo, fazem “Sutil” (de Itamar Assumpção, começando por 1:12:18), emocionantes as brincadeiras de voz a dois, digo, duas. Por aqui o programa inteiro para play imediato. Foto dos rapazes sérios e garotas sorridentes do Insta da Tulipa.

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Festival Nave Groove

Sábado pra marcar o fim do ano, este final de semana acontece edição especial da festa Nave Groove, na Eco House, em Pinheiros, em que marco presença com seleção vinil Brasil, ao lado dos grandes DJs Paulão, Ramiro, Tahira, Ciriaco, Chica Chica Bum, o alemão Analog Africa, mais grafite, lightpainting, dança, exposições e show da big band carioca de afrobeat Abayomy, somada do guitarrista nigeriano, do Africa 70 de Fela Kuti e mais recentemente da banda de Tony Allen, Oghene Kologbo. Big night.

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Krishnanda 2012

Antes mesmo de saber que o álbum estava sendo relançado em vinil pela Polysom, estava conversando com meu chapa Ricardo Alexandre, diretor de redação da revista Trip, sobre um perfil de Pedro Santos e seu iluminado disco Krishnanda, pérola de 1968. Foi um timing feliz, depois de alguns meses de pesquisas, entrevistas e redação, perceber que a publicação da revista seria no mesmo mês em que os LPs, com som remasterizado e prensagem zero quilômetro, chegariam às lojas. Não precisamos mais desse papo de disco esquecido: Pedro Santos, Sorongo, anda mais vivo do que nunca. Os sons, em qualquer lugar que se vendam vinis novos e bons. Parte da história, em humilde contribuição minha, este mês nas bancas, pelo site da Trip e a íntegra pré-edição logo abaixo.

MÚSICA E ESPIRITUALIDADE NA ESCALA DA VIDA

De onde viemos e o que ainda somos na escala da vida? A capa do LP Krishnanda, lançado em 1968 pelo percussionista e compositor Pedro Santos, tenta escalonar. Em uma colagem circular, espécie de mapa evolutivo, aparecem minérios, amebas, flores aquáticas, moluscos, peixes, anfíbios, larvas, insetos, aves e feras, ao redor de um grande gorila e um pequeno homo ancestral. Nas pontas, as mãos de Deus e do primeiro homem, detalhe recortado do afresco A Criação de Adão, de Michelangelo, da Capela Sistina, talvez simbolizando toda a vida que surge entre aquele quase toque de mãos.

Não é uma capa comum, como nada no disco em si e em seu autor era comum. Pedro Santos, também conhecido pelo nome do principal ritmo que inventou, Sorongo, era especial. Além de músico inventivo e grande ritmista que tocou com Hermeto Pascoal, Orquestra Tabajara, Maria Bethânia, Baden Powell, Clara Nunes, Jards Macalé e tantos outros, Sorongo era altamente espiritual. Presente neste mundo entre 1919 e 1993, expressava grandes pensamentos através de músicas, letras, escritos, desenhos, conversas. Comumente lembrado como “filósofo” por muitos que com ele conviveram, Pedro Santos criou obras muito além de qualquer escala evolutiva da música brasileira.

“SURGIR É SURGIR, MULTIPLICAR É FLORIR”
Hoje, quase 20 anos depois de sua partida e mais de 40 da gravação do álbum Krishnanda, seu pensamento musical e espiritual encontra ressonância renovada. O produtor Kassin, que lembra ter descoberto o disco em meados dos anos 90, comenta: “Pedro é um simbolo do experimentalismo brasileiro, um revolucionário. Acho quase inacreditável que ele tenha conseguido realizar esse disco.” A cantora Mariana Aydar, que costumava abrir seus shows interpretando solo “Um só”, de Pedro Santos, conta que fica sempre emocionada com a música de Sorongo. “É de uma profundidade ímpar, me leva a lugares muito nobres onde poucas músicas conseguem chegar”, explica. “Uma mistura de plenitude e medo.”

Pupillo, baterista da Nação Zumbi e do grupo Almaz, recorda ouvir Krishnanda pela primeira vez em um ensaio. “Foi um divisor de águas pra mim, pois Pedro Santos mostra nesse disco que um grande ritimista, além de pesquisar novos timbres e texturas, poderia criar melodias maravilhosas e mexer com palavras que complementam os temas com enorme maestria. A partir daí, me senti na obrigação de divulgar o trabalho desse grande artista para qualquer amigo músico que eu encontrasse, inclusive sugerindo acrescentar ‘Água viva’ ao repertório do show do projeto Seu Jorge e Almaz, que faria duas grandes turnês pelos Estados unidos e Europa.”

Em seu álbum de estreia, de 2011, a big band paulista de grooves afrobrasileiros Bixiga 70 regravou “Desengano da vista” de Sorongo. “O Pedro Santos tinha a capacidade de compor um tipo de canção que tem a ver com a poesia oriental, ideograma”, enxerga Mauricio Fleury, pianista do conjunto. “Ele escrevia músicas que parecem mandalas, que quando você olha de todos os lados é como se estivesse pra cima. Como fractais ou aquela famosa representação do yin-yang, uma geometria perfeita.” O cantor Ed Motta e o DJ Nuts, conhecidos garimpeiros de pérolas raras brasileiras, são outras figuras conhecidas por louvar o disco. Cereja do bolo, a fábrica de vinis e selo Polysom está relançando o disco em vinil de 180 gramas com remasterização a partir das fitas master originais. A gravadora SonyBMG deve também lançar o álbum em CD.

“VOCÊ É VOCÊ PRA ONDE FOR”
Quando Getúlio Vargas instaurou o decreto 10.358 em 31 de agosto de 1942, estava declarado o estado de guerra em todo o território nacional: nos tornávamos Aliados combatendo o Eixo. Entre julho de 1944 e fevereiro de 1945, foram enviados à Itália pela Força Expedicionária Brasileira mais de 25 mil soldados – e Pedro Santos estava entre os convocados. Pandeirista de adolescência, durante a Guerra continuava ligado à música, integrando a banda dos pracinhas tocando percussão.

Finda a guerra (que lhe deixou “emocionalmente abalado”, contou sua viúva), de volta ao Rio de Janeiro, não pôde fazer diferente: entendeu definitivamente que a música era o seu caminho. Trabalhando como porteiro de rádio, passou a conhecer importantes figuras e a elas mostrar seu toque e suas composições. Pela década de 50, viu gravados seus primeiros temas, os baiões “Marrocos”, “Recordando o Líbano” e “Dança da naja” (já mostrando influências de música africana e oriental) por acordeonistas como Mário Mascarenhas, Orlando Silveira e Manoel Macedo, além da voz de Michel Daud, então conhecido como “o cantor das 1001 noites”. Além disso, em pouco tempo estava tocando com músicos como Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho e a principal formação instrumental de seu tempo, a Orquestra Tabajara de Severino Araújo.

Em 1960, pela gravadora Continental, o compacto duplo Sorongo Is Sensational, de Severino Araújo e Sua Orquestra, explicava que no Dicionário do Folclore Brasileiro de Luiz da Câmara Cascudo, encontramos “Sorongo” como “dança africana que os escravos trouxeram para o Brasil” e contava: “Pedro Santos, ritmista da Orquestra Tabajara, há seis anos idealizou um novo ritmo. Passou tempo burilando o referido ritmo enquanto procurava uma designação para ele. Depois de muita pesquisa, encontrou a definição e utilizou o nome “Sorongo”, porque, na verdade, o seu ritmo é uma variação do samba, que por sua vez é oriundo do batuque.”

Elza Soares, Angela Maria, Baden Powell e o regional do lendário chorão Canhoto foram alguns intérpretes da nova levada. “O ritmo nasce como nasce uma flor, como nasce um verso. Pedro dos Santos é o poeta que sonha, um sonho colorido de flores, e traz no peito um ritmo que é seu”, dizia a contracapa do LP Batucada, de Paulinho e sua Bateria, de 1961. Ao mesmo tempo, Pedro tornava-se cada vez mais mestre reconhecido das diferentes possibilidades de expressão percussiva. No selo do 78 rotações “Tanganyka”, de Altamiro Carrilho, podia-se ler um crédito à parte, “Efeitos Especiais: Pedro Santos”.

“QUEM DISSER QUE NÃO TEM VAIDADE, VAIDADE VEM”
Não apenas ele era mestre sonoplasta, perfeito reprodutor de sons dos animais da selva, como também dedicava-se a criar seus próprios instrumentos, como o bambussom e o sorongaio – que juntava em uma estrutura tambores com diferentes timbres, ideal para a execução de seu ritmo inventado. Bambus, chocalhos de água, berimbaus-de-boca, colheres, tubos de desodorantes, côcos e apitos plásticos também faziam parte de sua sonoridade, assim como caixas de fósforo, ganzás, tamborins, cuícas, tumbadoras, tambores, agogôs, pandeiros, bongôs e maracas.

“Ele usava os instrumentos de um modo muito único”, recorda o violonista Sebastião Tapajós, que em 1972 gravou dois álbuns em dupla ao lado de Sorongo. “Ele era empírico, não tinha uma educação formal mas sabia tudo de contar as entradas que tinha que fazer, os compassos etc. Ele botava o tamborim entre as pernas, pegava o reco-reco e botava no dedão, tirava sons que você não imagina. O pessoal ficava alucinado.”

Com enorme senso melódico e criatividade sem fim, sua abordagem no acompanhamento rítmico trazia uma concepção totalmente diferente de tudo que havia. “O Sorongo tinha muitos recursos como percussionista”, diz o contrabaixista e flautista Bebeto Castilho, do Tamba Trio, sobre os encontros musicais com Pedro. “Se entrasse um instrumento, ele ia para outros cantos e deixava livre aquele espaço. Quando entrava naquele espaço, é porque o outro estava fazendo outra coisa, cabia ele entrar ali.”

Bebeto continua lembrando: “Pedro Sorongo, que ser humano. Ele parecia que brilhava, com um jeito calmo de falar. Ele sempre chegava e apaziguava. Quando as coisas começavam a esquentar, ele calava a boca e aí de repente dizia uma frase estratégica, pequena mas muito sábia. Se tivesse alguém nervoso, esse alguém iria ficar calmo.” Musicalidade sem limites, filosofias próprias, aura zen, homem de pensamento livre e qualidade únicas. “Quando eu conheci o Pedro ele apareceu já cheio de novidades. De percussão e de tudo: da vida mesmo”, conta Sebastião Tapajós. “O Pedro sempre colocou isso na frente de tudo, o lado espiritual dele. Diferente, sabe. Ele foi uma pessoa diferente. Ele era um cidadão totalmente diferente. Simples demais. Maravilhoso, o Pedro. Foi muito gratificante conhecê-lo.”

“EU SOU DE UMA PORÇÃO QUE NEM PÓ, DE UMA PORÇÃO DE UM SÓ”
Não existem questões maiores na filosofia. Há quanto tempo o homem se pergunta quem sou, de onde venho, para onde vou? Se em nossa vida na Terra começamos como células únicas há 4 bilhões de anos e há meros 200 mil anos andamos de coluna ereta com nosso polegar opositor, o que ainda nos tornaremos, que caminho a vida na terra ainda seguirá? A grande capacidade da vida é a evolução. Em 1968, em entrevista ao jornal Correio da Manhã, Pedro dizia: “O círculo da vida impõe ao homem renovação, começando sempre em cada geração que surge, para melhor ressurgir nas gerações que vêm, obrigando a humanidade a encetar o caminho que sempre foi, mostrando a todos que todos são apenas um.” Na mesma matéria, a existência de Deus era definida “como a gente mesmo, nós é que fazemos Deus de acordo com o que somos ou representamos na vida”.

Para Pedro Santos, a revolução pessoal foi movida pela descoberta da ioga, da macrobiótica, do aprofundamento da filosofia indiana. Largou o emprego de músico fixo na TV, passou a manufaturar ao lado da esposa baquetas e bolsas para instrumentos e, ao longo de duas semanas em 1968, no estúdio da gravadora CBS, Sorongo canalizou seu máximo de musicalidade e espiritualidade em três canais de gravação. A convite do produtor Hélcio Milito (fundador e baterista do Tamba Trio, conjunto batizado com o nome de instrumento de percussão criado por Milito e inspirado por Sorongo), Pedro criava sua obra-prima Krishnanda, cruzando mensagens espiritualmente elevadas com sonoridade totalmente sui generis, original de si própria, incategorizável, momento único na música produzida no Brasil.

Envolvendo as letras existencialistas, a paisagem é de climas amorosos e selvagens, sons misteriosos de um Brasil pré-sintetizadores, infindade de brinquedos percussivos, marimbas, a voz rouca de Pedro acompanhada de coros femininos e ocasionais cordas, pianos, violões, guitarras e arranjos de sopros transcritos de suas ideias pelo maestro Pachequinho, assinando com o pseudônimo Jopa Lins. O tutor de Sorongo na ioga, professor Hermógenes, em recente matéria de Pitzan para a revista Yoga Journal, buscou explicar o título do álbum: “Etimologicamente parece que é ananda, felicidade suprema, gerada por Krishna, que é um avatar, a encarnação divina na Terra do mais puro amor”.

“AZAR OU SORTE DE QUEM MULTIPLICA E SOMA”
“É muito interessante como ele trabalha em colaboração, sempre somando”, observa Mauricio Fleury, do Bixiga 70. “A obra dele não se resume aos discos que ele assina, tem composição dele em vários discos de outros artistas e, às vezes, ele aparece só como instrumentista mesmo. É brilhante isso, um artista que, mesmo com tantas idéias, não estava fechado numa bolha. Pelo contrário, atuava diretamente no cenário musical, por isso sua obra vai vir mais e mais à tona conforme os anos forem passando. Vai sempre aparecer coisa que ele gravou, idéia que ele deu, instrumento que ele criou.”

A redescoberta de um grande artista carrega sempre a simbologia de novos caminhos que se abrem, novas possibilidades como que descongeladas do tempo e oferecidas aos novos contextos. No caso de Pedro Santos, seu Krishnanda e toda sua obra, é mais que uma reavaliação cult. Sorongo pensava e dizia coisas tão pontuais, tão únicas e tão certeiras, que com ele vem o poder de suas ideias e os novos aprendizados por elas oferecidos. Você vai ouvindo, vai ouvindo, e de repente a ideia já está dentro de você e te transforma.

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devagar também é pressa de chegar onde interessa

Fui pra Buenos Aires com pouca bagagem, pouca grana e sem expectativas formadas. Além da evocação constante de Cortázar, só levei comigo a vontade de encontrar o LP de 72 do Pedro Santos com Sebastião Tapajós pela Trova e, especialmente, o compacto de mesmo selo e ano, com uma inédita. No fim, entre tantos rolês, destinos, tempos e contratempos, acabou que, além das descobertas casuais, só um dia mesmo teve tempo daquela circulada atrás de lojas e disqueiros. Mas é uma lei universal: se você deseja muito um disco e o mentaliza em todas as caçadas, ele vem para você. (Sorte e experiência em sebos, claro, também ajudam.)

Destino principal, e muito justamente, foi na sensacional Discos Eureka, na Defensa perto da San Juan, que pintou na seção “Brasileños”, plim, o Pedro Santos com Sebastião Tapajós da Trova 72. Se fosse um roteiro não seria melhor, o preço era basicamente o único que eu podia abraçar e o vinil em ótimo estado. Tudo muito bom, tudo muito bem, no caminho de volta, feliz e tranquilo, quebrando a Defensa pelas alturas da Carlos Calvo, evocando o outro céu de Cortázar, uma pasaje, galeria que, como tudo em San Telmo, transbordava antiguidades de toda espécie.

Foi pura bravata quando anunciei, no primeiro kiosco em que vi sete polegadas largados num canto, “vou achar agora o compacto”. Sério. Perguntando casualmente o preço de um outro interessante que apareceu ali, ouvi o velho truque do vendedor de discos sem preço marcado: avaliação baseada no interesse demonstrado pelo potencial comprador. Quando achei, uou, o simple da Trova com o nome “Pedro Santos”, foi manter o sangue frio, juntar com outros aleatórios e perguntar assim, não querendo nada, quanto seriam aqueles, resposta perfeita, pinçá-lo e glória.

Lá sem picape, imagine a expectativa de esperar voltar pra casa para ouvir e conhecer. Para de alguma maneira preservar o momento em que o compacto foi tocado com amor em pelo menos algum tempo desde que foi parar naquela pasaje en San Telmo, lavei minuciosamente, tentei passar bem pelo leve risco no começo da faixa e de prima já registrei o som pra mostrar o rip pros amigos como eu sempre com sede de Pedro Santos.

Tudo é moda. Pedro Santos y Sebastião Tapajós, na mesma leva em que gravaram seu primeiro grande disco em dupla, gravado em Buenos Aires, pelo selo argentino Trova, em 1972, simple, compacto com a faixa “Sorongaio” no lado B e no glorioso lado A a inédita “Todo es moda“, percussão, efeitos, melodia, voz, groove, letra, melhor música do mundo, escrita e cantada por Sorongo.

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