14 de fevereiro de 2013 às 10h57
Myriam Taubkin sobre Amado Maita
De família muito ligada à música, cantora e ouvinte curiosa desde cedo, Myriam Taubkin cresceu entre figuras-chave de muita música em São Paulo, ela própria grande produtora e curadora de diversos projetos legais há muitos anos. Inteligente e elegante, foi generosa e amorosa e ótima ajuda na pesquisa para realização do show em homenagem a Amado Maita, que acontece este próximo fim de semana no Sesc Pinheiros, companheira próxima que foi de Amado. Amigos de adolescência, foram casados por dez anos, entre os anos 70 e 80, juntos na fase mais produtiva de Amado. A meu pedido, Myriam escreveu belo texto com algumas lembranças pessoais, emocionais e musicais, breve retrato de um momento, dela, de Amado, da vida, da música e da cidade.
2 ComentáriosConheci Amado Maita aos 16 anos, quando o vi na platéia do então festival de música do clube Alto de Pinheiros, onde me apresentava com um grupo defendendo a canção “Reflexão”, de sua autoria, que faria parte do único álbum de Amado, lançado no ano seguinte. Daniel, meu irmão, nos apresentou. Mesmo sendo classificada, ele considerou nossa interpretação ruim e quis ele mesmo defendê-la na final. Ganhou o troféu de melhor intérprete.
Ficamos muito amigos. Eu vinha de uma educação judaica, cheia de regras de boa educação em casa. Estava no primeiro científico do Colégio Rio Branco. Quando entrei pela primeira vez na casa do Amado, na rua Santo Antonio no Bixiga – era um almoço familiar normal, em algum dia da semana – fiquei atônita com a algazarra, o bom humor e a troca de afetos e insultos na mesa, enquanto comiam macarrão ao sugo, frango assado com batatas e outros quitutes da cozinha italiana, misturada com a árabe, preparados pela mãe dele, Dona Bernadete.
Acho que foi ali que descobri o Brasil, um outro Brasil.
Foi quando convivi de fato com a mestiçagem brasileira, com todo tipo de gente das mais diversas profissões, formais e informais, dentro e fora da legalidade daquela época, amigos do Amado e de seu pai, Hassam – Tito para os íntimos. Tito tinha um estacionamento na Rua Santo Antonio, na famosa ’5 esquinas’, era querido no bairro e fora dele, recebendo gente pra uma conversa na calçada o dia todo. Amado era seu principal ajudante. Super simpático, inteligente, apaixonado por música, um talento para compor, tocar violão e cantar (e dançar! Como o Amado dançava, não tinha pra ninguém), atraía para ele a nata dos músicos da noite de São Paulo.
Foi com Amado que ouvi Tom Jobim, João Gilberto, Milton Nascimento, João Donato, Miles Davis, John Coltrane, Charles Mingus, Moacir Santos e tantos outros.
Anos depois nos casamos. Tivemos duas filhas.
Lembro quando em 1992, época em que eu produzia a série Arranjadores, no Cultura Artística, trouxemos – meu irmão Benjamim e eu – Moacir Santos da California, onde ele vivia, como um dos artistas convidados. Por conta do Amado, já conhecíamos toda a obra de Moacir e cantávamos, inclusive as meninas, grande parte de suas músicas no nosso cotidiano em casa. Quando o conheci naquela ocasião, e já separada do Amado havia anos, a primeira idéia que me veio à cabeça foi levar Moacir de surpresa ao estacionamento. Parei o carro, buzinei pro Amado e enquanto ele se aproximava, abri a porta do lado da calçada. Ao ver a figura de Moacir assim de sopetão, um ídolo pra ele, Amado abriu um sorriso, ficou numa alegria que contagiou tudo em volta. Fiquei feliz e eles se tornaram bons amigos.
Moramos em várias casas, em bairros diferentes da cidade. Pra qualquer nova morada que seguíamos, muitos amigos do Amado nos acompanhavam e também mudavam de endereço pra permanecerem perto dele.
Além da Teresa e da Luísa, devo muito ao Amado. Foi meu principal amigo e companheiro entre os meus 16 e 30 anos, período de formação de qualquer pessoa. Tínhamos muito assunto, sempre. Vivemos juntos durante 10 anos e continuamos amigos até o dia em que ele se foi.

















Ronaldo Evangelista escreve sobre música para veículos como Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil, toca discos de vinil em festas com a equipe de som Veneno e participa de projetos especiais como a série Goma-Laca, entre outras invenções.
